Tértulo
Quem foi Tértulo, o advogado que acusou Paulo diante de Félix?
Ficha do personagem
Cesareia Marítima, c. 57-58 d.C.
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Resposta curta
Tértulo foi o orador (em grego, rhetor) contratado pelo sumo sacerdote Ananias e por alguns anciãos para acusar Paulo diante do governador Félix, em Cesareia Marítima, cerca de cinco dias depois da chegada do apóstolo. resume a sua fala, que começa com um elogio ao governador por trazer "muita paz" e "reformas" à nação, e só depois passa às acusações.
Ele afirma que Paulo é uma "peste", um agitador entre os judeus do mundo inteiro e líder da "seita dos nazarenos", além de ter tentado profanar o templo. Os judeus presentes confirmam tudo. Tértulo não se confunde com Tertuliano, o autor cristão de Cartago, que viveria mais de um século depois. O texto não diz se Tértulo era judeu, nem o que aconteceu com ele depois do julgamento.
Onde ele aparece
Como isso aponta para Jesus
Ligação indiretaJesus havia avisado os discípulos de que seriam levados diante de reis e governadores por causa do seu nome, e que isso lhes daria ocasião de testemunhar (). Em , essa previsão se cumpre na pessoa de Paulo, que comparece diante de Félix, acusado por um orador profissional. A acusação de ser chefe da "seita dos nazarenos" liga o réu ao próprio Jesus de Nazaré, pois o rótulo nasce do nome do Mestre. Não há aqui tipologia nem figura do Messias em Tértulo, que é adversário e não prefigura Cristo. O que o texto mostra, de forma indireta, é que a oposição que atinge o discípulo repete a que atingiu o Mestre: o mesmo tipo de acusação, feita diante de autoridades civis.
Respaldo no Novo Testamento:
Em palavras simples
Tértulo era um advogado e orador profissional que o sumo sacerdote Ananias contratou para acusar Paulo diante do governador romano Félix. Começou elogiando Félix de modo exagerado, para ganhar sua simpatia. Depois acusou Paulo de ser uma praga, de provocar confusões entre os judeus e de liderar a seita dos nazarenos, além de ter tentado profanar o templo. Paulo se defendeu com calma e negou tudo. Tértulo não deve ser confundido com Tertuliano, escritor cristão que viveu muito depois.
O mundo dele
Quando Paulo chegou a Cesareia, escoltado por soldados desde Jerusalém, a cidade era a sede do governo romano da Judeia. O governador era Antônio Félix, liberto de origem imperial, que governou aproximadamente entre 52 e 60 d.C. O historiador romano Tácito o descreve de modo severo, como alguém que exerceu o poder com crueldade e luxúria, e Josefo relata revoltas e repressões durante o seu mandato. É diante desse homem que o discurso de Tértulo, cheio de elogios, precisa ser lido.
diz que Ananias, o sumo sacerdote, desceu com alguns anciãos e um orador chamado Tértulo, cinco dias depois. O nome é a forma diminutiva do nome latino Tércio (Tertius, "o terceiro"), comum em Roma. Era costume que um réu ou acusador sem treino jurídico contratasse um profissional que dominasse o latim, o direito romano e as regras do discurso. Os tribunais provinciais funcionavam em boa parte em grego, mas o procedimento era romano. Esse especialista, o rhetor ou causidicus, era pago para apresentar o caso de forma persuasiva.
A estrutura clássica do discurso forense, descrita por Cícero e depois por Quintiliano, previa um exórdio que buscasse a boa vontade do juiz (captatio benevolentiae), uma exposição dos fatos, a prova e a conclusão. A fala de Tértulo segue essa ordem de modo condensado, o que sugere que o autor de Atos tinha em mãos um resumo, e não a íntegra do discurso. O texto grego de 24:6-8 apresenta ainda uma dificuldade: os manuscritos mais antigos omitem parte desses versículos, em que os acusadores dizem que quiseram julgá-lo segundo a sua lei, mas que o tribuno Lísias o tirou à força. Outros manuscritos, de tradição bizantina, trazem a passagem completa. Muitas traduções modernas a colocam em nota ou entre colchetes. O pano de fundo político da cena é, portanto, o de um julgamento em que ambas as partes sabem que a acusação mais eficaz diante de um governador romano era a de ameaça à ordem pública, e não a de heterodoxia religiosa.
A história
A fala de Tértulo () começa com um elogio longo ao governador: "gozamos de paz por teu intermédio e reformas têm sido feitas em prol desta nação, por tua providência, excelentíssimo Félix, sempre e em toda parte as recebemos com toda a gratidão". Em seguida pede-lhe que ouça "brevemente" e "com tua clemência". O recurso era padrão na oratória antiga, a captatio benevolentiae. O problema é que a realidade da Judeia sob Félix era a de repressão e de rebeliões, e o elogio funciona, para o leitor de Atos, como um exagero retórico. Atos não comenta isso, mas deixa o contraste à vista.
As acusações vêm em três blocos. Primeiro, Tértulo chama Paulo de "peste" (em grego, loimos), uma palavra forte, usada para epidemias e, em sentido figurado, para pessoas nocivas à comunidade. Em segundo lugar, acusa-o de ser promotor de "sedições entre todos os judeus do mundo", acusação política que interessava a Roma, porque tumultos eram o que um governador mais temia. Em terceiro lugar, chama-o de "chefe da seita dos nazarenos", usando o termo grego hairesis, que então ainda não significava "heresia" no sentido posterior, mas apenas "escola" ou "partido". O nome "nazarenos" liga os seguidores a Jesus de Nazaré. Por fim, diz que Paulo tentou profanar o templo, o que apontava para uma questão da lei judaica, não romana. Os judeus presentes "concordaram, afirmando que assim era" (24:9).
Paulo responde com ironia discreta e com precisão. Diz que em doze dias não discutiu com ninguém nem tumultuou, que as acusações não podem ser provadas, e que serve ao Deus dos pais "segundo o Caminho, a que chamam seita" (24:11-14). Afirma crer em tudo o que está na Lei e nos Profetas e ter esperança na ressurreição. O texto não registra uma réplica de Tértulo. Félix, que "estava bem informado a respeito do Caminho", adia a decisão até que o tribuno Lísias desça, e mantém Paulo preso com certa liberdade (24:22-23).
Um ponto de cuidado é a confusão com Tertuliano. Os dois nomes soam parecidos e partilham a mesma raiz latina, mas Tertuliano (c. 155-220 d.C.) foi um escritor cristão de Cartago, no norte da África, e viveu mais de um século depois. Não há relação entre os dois. Também não se sabe se Tértulo era judeu. Ele fala de "esta nação" (24:2) em nome dos acusadores, o que pode indicar que era judeu, mas pode ser apenas a linguagem de quem representa o grupo. Aqui o texto é silencioso, e é preciso admitir a incerteza.
O que costumam dizer errado2
Dizem que:Tértulo é o mesmo Tertuliano, o famoso escritor cristão.
Tertuliano de Cartago viveu aproximadamente entre 155 e 220 d.C., mais de cem anos depois dos fatos de , e foi um autor cristão. Tértulo (Tertullus) era um orador a serviço dos acusadores de Paulo. Os nomes têm a mesma raiz latina, mas são pessoas diferentes.
Dizem que:Tértulo era um sacerdote ou um membro do Sinédrio.
Atos o apresenta como "orador" (rhetor), um profissional contratado, e o distingue do sumo sacerdote e dos anciãos que desceram a Cesareia (24:1). O texto não diz que ele pertencesse à classe sacerdotal.
Como diferentes tradições cristãs leem3
Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.
Historiadores da retórica antiga
Veem no discurso de Tértulo um exemplo do esquema forense greco-romano, com exórdio, exposição e prova, e notam que Atos reproduz apenas um resumo. A bajulação inicial era esperada nos tribunais e não implica que Tértulo falasse com sinceridade.
Protestante evangélica
Enfatiza o contraste entre a eloquência de Tértulo e a franqueza de Paulo. Para essa leitura, o texto mostra que a verdade do evangelho não depende de retórica, e que os discípulos são chamados a responder com sinceridade quando acusados.
Católica
Lê o episódio como parte do caminho de Paulo até Roma, no qual cada julgamento (Sinédrio, Félix, Festo, Agripa) amplia a ocasião de testemunho, na linha da promessa de .
O que fazer com isso
A fala de Tértulo mostra como o elogio calculado e a acusação carregada de rótulos podem andar juntos: ele bajula o poderoso e diminui o réu com palavras fortes, sem apresentar provas. Paulo, em contraste, responde com fatos verificáveis. O episódio convida a desconfiar de discursos que dependem mais de bajulação e de etiquetas do que de evidências, e a perceber que a eloquência, por si só, nunca prova que o que se diz seja verdade.
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Fontes consultadas5
- F. F. Bruce. The Book of the Acts (New International Commentary on the New Testament), 1954.
- Joseph A. Fitzmyer. The Acts of the Apostles (Anchor Bible), 1998.
- Bruce W. Winter. Paul and Philo among the Sophists, 1997.
- Cornélio Tácito. Histórias e Anais.
- Marco Fábio Quintiliano. Institutio Oratoria.
Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.
Perguntas frequentes
O que significa Tértulo ser chamado de orador?
Atos usa a palavra grega rhetor, que designa o advogado ou orador profissional. Ele conhecia as regras do discurso e do procedimento romano e era contratado para falar por quem não dominava esse meio. Não era acusador por conta própria, mas porta-voz de Ananias e dos anciãos.
Quais foram as acusações de Tértulo contra Paulo?
Segundo , Tértulo chamou Paulo de peste, de promotor de sedições entre os judeus do mundo inteiro, de chefe da seita dos nazarenos e de alguém que tentou profanar o templo. As duas primeiras acusações interessavam a Roma. As outras diziam respeito à religião judaica.
Por que alguns versículos de Atos 24 aparecem entre colchetes em algumas Bíblias?
Os manuscritos mais antigos não trazem parte de , em que os acusadores dizem que quiseram julgar Paulo pela sua lei e que o tribuno o tirou à força. Manuscritos da tradição bizantina os contêm. As traduções variam: algumas incluem o trecho no texto, outras o colocam em nota.