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Significado Bíblico
Discípulointermediária

Simão, o curtidor

Quem foi Simão, o curtidor, e por que Pedro ficou na casa dele?

Ficha do personagem

Jope, igreja primitiva, meados do séc. I d.C.

Aparece em

Relações

  • hospedou em sua casa Pedro
  • casa buscada pelos mensageiros de Cornélio

Resposta curta

Simão, o curtidor, era um morador de Jope, cidade portuária na costa da Judeia, que hospedou o apóstolo Pedro por vários dias durante os primeiros anos da igreja cristã (). A narrativa de Atos não diz mais nada sobre sua vida, sua conversão ou seu destino — ele aparece apenas como anfitrião, identificado por seu ofício e por sua casa ficar "junto ao mar" ().

Curtir couros era um trabalho associado a mau cheiro e ao contato constante com carcaças de animais, o que fazia dele um ofício socialmente desprezado entre os judeus do século I. É justamente na casa desse artesão que Pedro recebe, no telhado, a visão dos animais que declara puro o que antes era considerado impuro — véspera do chamado para pregar a Cornélio, o primeiro gentio batizado no relato de Atos ().

Onde ele aparece

O nome

SimãoAquele que ouve / Deus ouviu — do hebraico shama, "ouvir"

Significado, origem e variantes →

Como isso aponta para Jesus

Trajetória do texto

O episódio na casa de Simão antecede diretamente a queda da barreira entre judeus e gentios dentro da igreja primitiva — um desenvolvimento que o Novo Testamento atribui à obra de Cristo. descreve Jesus como aquele que derrubou "a parede de separação" que dividia judeus e gentios, reconciliando os dois grupos "num só corpo" pela cruz. A visão que Pedro recebe sob o teto de um curtidor — ofício marcado pelo estigma da impureza — e o batismo subsequente da casa de Cornélio não são, em si, o cumprimento dessa passagem, mas ilustram na prática a trajetória que a pregação apostólica atribui à obra consumada de Cristo: a inclusão de todos, sem distinção de origem étnica ou status ritual, no mesmo povo de Deus.

Respaldo no Novo Testamento:

Em palavras simples

Simão era um curtidor de couros que morava em Jope, uma cidade litorânea. Ele recebeu o apóstolo Pedro em sua casa por alguns dias. Foi ali, no telhado dessa casa, que Pedro teve um sonho importante, sobre um lençol cheio de animais, que mudou a forma como os primeiros cristãos entendiam quem podia fazer parte da igreja. Curtir couro era um trabalho que exigia lidar com peles de animais mortos, por isso muita gente da época evitava esse ofício. Mesmo assim, foi na casa desse homem simples que aconteceu algo decisivo para a história do cristianismo.

O mundo dele

Jope (atual Jaffa, parte de Tel Aviv) era um porto importante na costa mediterrânea da Judeia, ponto de entrada marítima para Jerusalém e cidade com população mista de judeus e gentios. É lá que a narrativa de Atos situa Simão, identificado apenas pelo ofício de curtidor — profissional que transformava peles de animais em couro, processo que envolvia remover pelos, gordura e restos de carne, geralmente usando substâncias como cal, urina e taninos vegetais.

Fontes rabínicas posteriores, como a Mishná (Ketubot 7:10), listam a curtição entre os ofícios mais desagradáveis, ao lado de coveiro e coletor de esterco, citando o mau cheiro como motivo legítimo para uma esposa pedir divórcio. Estudiosos do Novo Testamento, como Joachim Jeremias, observam que curtidores eram frequentemente forçados a instalar suas oficinas fora dos limites das cidades ou junto a fontes de água — o que explica por que a casa de Simão em Jope ficava "junto ao mar" (), provavelmente para facilitar o descarte de resíduos e o acesso à água do mar usada no processo.

O contato constante com carcaças também gerava impureza ritual temporária segundo a lei levítica (), o que reforçava o estigma social do ofício, ainda que não o tornasse uma profissão proibida.

Na cronologia de Atos, o episódio se passa logo depois de Pedro ressuscitar Tabita (Dorcas) na mesma cidade de Jope (), o que já havia atraído atenção para sua presença ali. A hospedagem na casa de Simão, então, é apresentada como algo natural — Pedro permanece "muitos dias" com um artesão local — mas se revela central quando mensageiros do centurião romano Cornélio chegam a essa mesma casa (), buscando o apóstolo por ordem de um anjo. É nesse cenário, à beira-mar, em casa de um homem cujo trabalho era visto como marginal, que Pedro recebe a visão que remove as barreiras alimentares e sociais entre judeus e gentios.

A história

O nome de Simão o curtidor aparece só duas vezes em Atos, sempre como coadjuvante geográfico de uma história maior. A primeira menção fecha o relato da ressurreição de Tabita: depois de trazer de volta à vida essa discípula conhecida por suas boas obras em Jope, Pedro "ficou muitos dias em Jope, em casa de um certo Simão, curtidor" (). Não há explicação sobre como os dois se conheceram, nem se Simão já era cristão — o texto trata a hospedagem como um detalhe cotidiano, sem alarde.

O segundo momento é mais carregado de sentido. Em Cesareia, o centurião romano Cornélio recebe a visita de um anjo que lhe ordena mandar buscar Pedro "em casa de um certo Simão, curtidor, que tem a casa junto ao mar" (). Os mensageiros de Cornélio chegam a Jope no dia seguinte e encontram justamente essa casa (), no momento em que Pedro, no telhado, tem a visão do grande lençol descendo do céu, cheio de animais puros e impuros, com a ordem "mata e come" (). Pedro resiste três vezes, repetindo que nunca comeu nada "comum ou imundo" — reação que soa irônica vinda de um hóspede que dorme sob o teto de um homem cujo ofício era, aos olhos de muitos judeus da época, associado justamente ao que era considerado impuro ou indesejável.

A narrativa não explora essa ironia de forma explícita, mas o cenário reforça o que a visão anuncia: a fronteira entre puro e impuro, entre aceitável e desprezado, está sendo redesenhada. Pedro sai da casa de Simão para ir à casa de Cornélio, cruzando ali uma segunda fronteira — a que separava judeus de gentios —, batizando a família do centurião e, com isso, abrindo oficialmente o caminho para a inclusão dos não-judeus na igreja ().

Sobre o próprio Simão, o texto bíblico não diz mais nada. Não sabemos se ele participou da conversa entre Pedro e os mensageiros, se acompanhou Pedro até Cesareia, ou o que aconteceu com ele depois. Comentaristas como F.F. Bruce notam que a menção repetida do seu nome e ofício, em vez de ser um detalhe descartável, ancora o relato num lugar e numa pessoa concretos — um recurso comum na narrativa de Lucas para situar acontecimentos extraordinários em cenários reconhecíveis e humildes. Simão permanece, assim, um personagem sem fala e sem desfecho narrado, mas cuja casa se tornou, por acaso da hospitalidade, palco de uma virada decisiva na história do cristianismo primitivo.

O que costumam dizer errado3
  • Dizem que:Simão, o curtidor, é a mesma pessoa que Simão Pedro ou Simão, o Zelote.

    São três homens diferentes chamados Simão — nome comum entre judeus do século I. O curtidor de Jope aparece só em e 10:6, identificado exclusivamente pelo ofício, sem qualquer ligação textual com o apóstolo Pedro (que também se chamava Simão antes de receber esse apelido) ou com Simão, o Zelote, um dos doze apóstolos.

  • Dizem que:Por ser curtidor, Simão era considerado permanentemente impuro e excluído da vida religiosa judaica.

    A impureza ritual causada pelo contato com carcaças de animais () era temporária e removível por banho e pela passagem do tempo, não uma condição permanente. O que existia era estigma social pelo mau cheiro do ofício, atestado por fontes rabínicas como a Mishná, e não uma exclusão religiosa formal.

  • Dizem que:O texto bíblico afirma que Simão o curtidor se converteu ao cristianismo por hospedar Pedro.

    Atos não registra a conversão de Simão nem confirma que ele já era cristão antes da visita de Pedro; o relato trata apenas da hospedagem, sem detalhar a fé ou o destino posterior do anfitrião.

Como diferentes tradições cristãs leem4

Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.

  • Católica

    Lê o episódio como expressão da hospitalidade cristã e da universalidade da Igreja fundada sobre Pedro — o apóstolo é acolhido num lar humilde e marginal antes de se tornar instrumento da abertura da fé aos gentios, mostrando que a autoridade apostólica se exerce em meio a gente comum.

  • Ortodoxa

    Enfatiza a providência divina operando através de circunstâncias aparentemente triviais — a hospedagem casual numa casa de curtidor — como parte da economia de Deus que conduz Pedro, passo a passo, à obediência à visão e à missão entre os gentios.

  • Protestante/Reformada

    Destaca o valor doutrinário do episódio como base para o ensino de que as leis alimentares levíticas foram superadas em Cristo e que a salvação pela fé se estende a judeus e gentios igualmente, sem mediação de status ritual.

  • Pentecostal/Carismática

    Ressalta o padrão de orientação sobrenatural direta — anjo, visão, voz — como modelo ainda válido de como o Espírito guia a igreja em decisões decisivas, inclusive por meio de detalhes aparentemente incidentais como o endereço de uma casa.

O que fazer com isso

A história de Simão o curtidor lembra que decisões importantes na fé muitas vezes acontecem em lugares e por meio de pessoas comuns, sem destaque. Ninguém escolheria a casa de um curtidor — profissão evitada por seu mau cheiro — como cenário para um momento decisivo da igreja. Mas foi ali que Pedro recebeu instruções que mudaram sua compreensão sobre quem podia ser incluído. O relato convida a notar como categorias de "aceitável" e "inaceitável" são frequentemente questionadas dentro da própria narrativa bíblica.

Passagens relacionadas6
Fontes consultadas3
  • F. F. Bruce. The Book of the Acts (New International Commentary on the New Testament), 1988.
  • Craig S. Keener. Acts: An Exegetical Commentary, 2012.
  • Joachim Jeremias. Jerusalem in the Time of Jesus, 1969.

Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.

Perguntas frequentes

Quem foi Simão, o curtidor?

Era um morador de Jope que trabalhava curtindo couros de animais e que hospedou o apóstolo Pedro em sua casa por vários dias, segundo . Foi nessa casa, à beira-mar, que Pedro teve a visão que antecede o encontro com o centurião Cornélio.

Por que ser curtidor era mal visto na época?

O trabalho envolvia contato constante com carcaças de animais e produzia mau cheiro, o que fazia dele um ofício socialmente desprezado entre os judeus do século I, segundo registros rabínicos posteriores como a Mishná. Isso não significava exclusão religiosa formal, mas baixo prestígio social.

Simão o curtidor é o mesmo que Simão Pedro?

Não, são pessoas diferentes. Simão era um nome comum na época, e o texto de Atos distingue claramente "Simão, chamado Pedro" do anfitrião de Jope, identificado apenas como "Simão, curtidor".

O que aconteceu na casa de Simão em Jope?

Foi lá que Pedro, hospedado por "muitos dias", subiu ao telhado e teve a visão de um lençol descendo do céu cheio de animais, com a ordem para comer o que antes era considerado impuro — visão que o preparou para pregar ao gentio Cornélio ().

A Bíblia diz o que aconteceu com Simão depois?

Não. Depois de mencionar sua casa como cenário dos acontecimentos de , o texto não volta a falar dele; não há registro de sua conversão, participação posterior na igreja ou morte.

Outros personagens

Publicado em 05/09/2026

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O que foi conferido

  • Citação conferida contra o texto de Bíblia Livre (Textus Receptus)
  • 3 obras citadas, com autor e ano
  • 3 afirmações populares checadas e refutadas
  • 4 tradições cristãs apresentadas lado a lado
  • Editor responsável: Julio Andolfo
  • Revisão teológica por pessoa nomeada — ainda não feita. Enquanto não for, dizemos isso aqui em vez de assinar um nome.

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A visão do lençol: por que Deus mostrou animais impuros a Pedro três vezes

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