Neco II, faraó do Egito
Quem foi o faraó Neco que matou o rei Josias?
Ficha do personagem
Cerca de 609 a.C.; Megido e Carquêmis
Aparece em
Relações
- adversário de Josias
- depôs Jeoacaz
- colocou no trono Jeoaquim
- derrotado por Nabucodonosor
- filho de Psamético I
Resposta curta
Neco II foi faraó do Egito de cerca de 610 a 595 a.C., na 26.ª dinastia. A Bíblia o apresenta em 609 a.C., quando marchou com seu exército rumo ao rio Eufrates para apoiar o que restava do império assírio contra a Babilônia. Josias, rei de Judá, saiu ao seu encontro em Megido e morreu ali. De volta, Neco depôs Jeoacaz, filho de Josias, levou-o preso ao Egito, impôs tributo a Judá e colocou no trono Eliaquim, cujo nome mudou para Jeoaquim. Em 605 a.C. seu exército foi derrotado pelos babilônios em Carquêmis, como lembra . O relato bíblico encontra eco em crônicas babilônicas e em Heródoto, embora não exista confirmação extrabíblica do confronto com Josias.
Onde ele aparece
Como isso aponta para Jesus
Ligação indiretaO texto não aponta para Cristo por tipologia nem por cumprimento direto. A história de Neco II mostra como o domínio das grandes potências sobre Judá preparou o cenário do exílio, tema que a genealogia de lembra ao mencionar Josias e Jeconias 'no tempo da deportação para a Babilônia'. Isso é contexto histórico, não leitura messiânica do faraó.
Respaldo no Novo Testamento:
Em palavras simples
Neco II foi um faraó do Egito que viveu por volta de 609 a.C. Ele levou seu exército para o norte, para ajudar a Assíria contra a Babilônia. O rei Josias, de Judá, saiu para enfrentá-lo em Megido e morreu. Depois disso, Neco prendeu o novo rei de Judá, Jeoacaz, cobrou tributo do país e colocou Jeoaquim no trono. Em 605 a.C., os babilônios o derrotaram em Carquêmis, e o Egito perdeu sua influência na região.
O mundo dele
No final do século VII a.C., o mundo do Oriente Próximo se reorganizava. A Assíria, que dominara a região por mais de um século, entrou em colapso: Nínive caiu em 612 a.C. diante de uma coalizão de babilônios e medos, e os últimos assírios resistiram em Harã sob Assur-Uballit II. O Egito, governado desde Psamético I por uma dinastia que antes fora vassala da Assíria, preferiu apoiar o enfraquecido império contra a Babilônia, que se tornara a potência emergente. Neco II herdou o trono do pai, Psamético I, em 610 a.C., e levou seu exército para o norte.
Judá estava sob o reinado de Josias, que fizera uma reforma religiosa profunda (–23) e aproveitara o vácuo de poder assírio para expandir sua influência. A sua posição diante do Egito é discutida: alguns estudiosos acham que Josias era aliado da Babilônia, outros veem um gesto de independência. O texto bíblico não explica o motivo de sua saída para enfrentar o faraó; apenas registra o desfecho.
A região de Megido era passagem obrigatória: ali, na borda da planície de Jezreel, desembocava um dos desfiladeiros da estrada que ligava o vale do Nilo à Síria e à Mesopotâmia, e por isso o lugar foi palco de muitas batalhas ao longo da história. Quem quisesse levar um exército ao norte, como Neco, precisava controlar ou atravessar essa rota, o que ajuda a entender por que um rei de Judá se colocaria no caminho. Neco II é conhecido também por fontes egípcias e gregas. Heródoto (Histórias 2.158-159) atribui a ele o início de um canal ligando o Nilo ao Mar Vermelho, a organização de frotas no Mediterrâneo e no Mar Vermelho e uma vitória em um lugar que chama Magdolos, que alguns identificam com Megido, mas outros com uma cidade fronteiriça do Egito. A Crônica Babilônica registra a presença de tropas egípcias na Síria e no Eufrates nos anos de 609 a 605 a.C. Os textos bíblicos o chamam apenas de 'Faraó Neco' (hebraico Nekô).
A história
O relato mais curto está em : 'Nos seus dias subiu Faraó Neco, rei do Egito, ao rei da Assíria, ao rio Eufrates; e o rei Josias saiu-lhe ao encontro, e Neco o matou em Megido, quando o viu'. A frase é ambígua e pode ter diferentes sentidos: pode indicar que Josias foi morto numa batalha, ou numa execução logo ao primeiro contato. Seus servos levaram o corpo, morto, em um carro, de Megido a Jerusalém, onde foi sepultado em seu túmulo.
Crônicas dá mais detalhes. Em , Neco envia mensageiros dizendo que não vem contra Josias, que sua guerra é contra outra casa, e que 'Deus me disse que me apresse'. Pede que Josias não se oponha a Deus, 'que está comigo', para que Deus não o destrua. Josias não deu ouvidos 'às palavras de Neco, da boca de Deus', disfarçou-se e foi à batalha no vale de Megido. Arqueiros o feriram e ele pediu que o tirassem do combate; foi colocado em outro carro e levado a Jerusalém, onde morreu. Os dois relatos podem ser harmonizados, mas diferem em ênfase: Reis é sóbrio, Crônicas apresenta o episódio como advertência.
A sequência mostra a nova posição de Judá. Depois da morte de Josias, o povo ungiu Jeoacaz, seu filho, que reinou apenas três meses. Neco o prendeu em Ribla, na terra de Hamate, e impôs a Judá uma multa de cem talentos de prata e um de ouro. Colocou no trono Eliaquim, outro filho de Josias, e mudou seu nome para Jeoaquim. Jeoacaz foi levado ao Egito, onde morreu (). Para pagar o tributo, Jeoaquim taxou o povo da terra. O gesto de trocar o nome de um vassalo é conhecido na política da época e mostra a soberania do faraó. Jeremias também comenta o destino de Jeoacaz, chamado Salum, que sairia dali para não voltar mais ().
A presença egípcia durou pouco. Em 605 a.C., o príncipe Nabucodonosor derrotou o exército egípcio em Carquêmis, às margens do Eufrates, e fala dessa derrota no quarto ano de Jeoaquim. A Crônica Babilônica registra a perseguição aos egípcios até Hamate. Depois disso, afirma que o rei do Egito não saiu mais da sua terra, porque o rei da Babilônia tomara tudo o que era dele, do ribeiro do Egito ao Eufrates. Neco II aparece, assim, como o faraó que quase restabeleceu a presença egípcia na Síria-Palestina e que perdeu em poucos anos o que conquistou.
O que costumam dizer errado3
Dizem que:Neco II era um faraó inimigo de Deus que quis destruir Judá.
Segundo , Neco enviou mensageiros dizendo que não vinha contra Josias e que seu alvo era outro. Na Bíblia, Neco atua como figura política: depois impõe tributo a Judá, mas o texto não o mostra como perseguidor religioso.
Dizem que:Neco II é o faraó do Êxodo.
Neco II reinou no final do século VII a.C., séculos depois do período em que se costuma situar o Êxodo. Os textos do Êxodo não dão nome ao faraó, e qualquer identificação com Neco II não tem apoio nos textos.
Dizem que:A morte de Josias em Megido é registrada em fontes egípcias.
Não há inscrição egípcia ou mesopotâmica que mencione Josias ou o confronto de Megido. As fontes extrabíblicas confirmam o contexto (a campanha de Neco II na Síria), mas não esse episódio específico.
Como diferentes tradições cristãs leem4
Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.
Judaica
A tradição rabínica discute a morte de Josias com seriedade. O Talmude (tratado Taanit) interpreta o episódio como uma falha que o rei teria cometido ao não consultar o profeta Jeremias, e o texto de foi lido por alguns como lamento por Josias. Outras leituras veem sua morte como desfecho de um erro de cálculo político.
Católica
A leitura tradicional trata o episódio como lembrança de que mesmo reis fiéis podem errar e sofrer as consequências. O relato de Crônicas, em que Neco fala 'da boca de Deus', é lido como sinal de que a Providência pode agir por meio de figuras inesperadas.
Protestante
Muitos comentaristas veem em um caso em que um rei piedoso ignora um aviso inesperado e paga um preço. Outros, seguindo Reis, preferem não atribuir a morte de Josias a um pecado específico, já que fala de uma morte 'em paz', a ser lida em sentido restrito.
Crítica histórica
Estudiosos discutem se Josias agia como aliado da Babilônia, se tentava bloquear a passagem egípcia ou se foi surpreendido. A fonte babilônica não menciona Judá, e a palavra de Neco em Crônicas é tida por alguns como elaboração teológica do cronista, e por outros como tradição antiga.
O que fazer com isso
A história de Neco II lembra que os grandes projetos de poder duram pouco e que um líder pode ser protagonista de um momento sem controlar o que vem depois. Também mostra como um desfecho trágico, como o de Josias, pode vir de um conflito em que o texto bíblico guarda silêncio sobre as razões. A leitura sóbria dessa passagem evita respostas fáceis e reconhece o que o texto não explica.
Passagens relacionadas8
Fontes consultadas5
- Kenneth A. Kitchen. The Third Intermediate Period in Egypt (1100-650 BC), 1973.
- D. J. Wiseman. Chronicles of Chaldaean Kings (626-556 B.C.) in the British Museum, 1956.
- Albert Kirk Grayson. Assyrian and Babylonian Chronicles, 1975.
- Heródoto. Histórias (livro 2).
- Mordechai Cogan e Hayim Tadmor. II Kings (Anchor Bible), 1988.
Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.
Perguntas frequentes
Neco II matou Josias em batalha ou em execução?
Os textos divergem na ênfase. diz que Neco o matou em Megido ao vê-lo. diz que arqueiros feriram Josias e que ele morreu em Jerusalém. A harmonização é possível, mas o texto não esclarece todos os detalhes.
Por que Neco ia ao Eufrates?
Para apoiar a Assíria, que desmoronava diante da Babilônia. A Crônica Babilônica registra a presença de tropas egípcias ao lado dos assírios nesses anos, o que concorda com o contexto de .
Por que Neco mudou o nome de Eliaquim para Jeoaquim?
A troca de nome mostrava que o faraó exercia autoridade sobre o novo rei (). O nome Jeoaquim contém o nome divino e significa algo como 'o Senhor levanta', embora o texto não explique a escolha.
O que aconteceu com Neco II depois?
Foi derrotado em Carquêmis em 605 a.C. () e perdeu o controle da Síria-Palestina. Reinou até cerca de 595 a.C., e o texto bíblico não fala de seu fim.