Nabucodonosor
Quem foi Nabucodonosor, rei da Babilônia, na Bíblia?
Ficha do personagem
c. 605-562 a.C., Babilônia e Jerusalém
Aparece em
Relações
- interlocutor de Daniel
- capturou Joaquim (Jeconias)
- depôs e cegou Zedequias
- mencionado por Jeremias
- pai de Evil-Merodaque
Resposta curta
Nabucodonosor II governou a Babilônia de cerca de 605 a 562 a.C. e foi o rei que submeteu Judá, deportou parte de sua população e, em 586 a.C., destruiu Jerusalém e o templo de Salomão. Os livros de Reis e Jeremias o apresentam como instrumento do juízo de Deus sobre o reino de Judá, enquanto Daniel o coloca no centro de três narrativas: o sonho da grande estátua, a estátua de ouro com a fornalha ardente e o sonho da árvore cortada, que termina com sua humilhação e restauração. O reinado é bem documentado por fontes babilônicas, como crônicas e inscrições de construção, que confirmam, por exemplo, a tomada de Jerusalém em 597 a.C. Já a loucura descrita em não tem confirmação direta fora da Bíblia.
Onde ele aparece
Como isso aponta para Jesus
ContrasteEm , Nabucodonosor é rebaixado à condição de animal por causa do orgulho e só então reconhece que o domínio de Deus é eterno. O contraste com Cristo aparece no hino de : aquele que estava na forma de Deus não se apegou a essa condição, mas esvaziou-se e assumiu a forma de servo. O rei é humilhado à força e depois restaurado; Jesus se humilha por escolha e é então exaltado. O Novo Testamento não apresenta Nabucodonosor como tipo de Cristo; o paralelo é de contraste, não de prefiguração.
Respaldo no Novo Testamento:
Em palavras simples
Nabucodonosor foi o rei da Babilônia que conquistou Jerusalém, levou muita gente de Judá para o exílio e, em 586 a.C., destruiu a cidade e o templo. No livro de Daniel, ele sonha com uma grande estátua, manda jogar três jovens numa fornalha por não adorarem uma imagem e, por fim, perde a razão por um tempo por causa do orgulho, até reconhecer o poder de Deus. A história política dele é confirmada por documentos babilônicos. A parte da loucura só aparece na Bíblia.
O mundo dele
Nabucodonosor (em acadiano, Nabû-kudurri-uṣur) foi o segundo rei com esse nome e o mais importante do Império Neobabilônico. Era filho de Nabopolassar, que havia libertado a Babilônia do domínio assírio. Ainda como príncipe herdeiro, comandou o exército que derrotou os egípcios em Carquemis, em 605 a.C., batalha lembrada em , e assumiu o trono logo depois, com a morte do pai. A vitória deu à Babilônia o controle da região antes disputada entre Egito e Assíria, e o reino de Judá, então governado por Jeoaquim, tornou-se vassalo babilônico. Jeoaquim pagou tributo por alguns anos e depois se rebelou (), o que provocou a resposta militar.
A primeira tomada de Jerusalém aparece em uma crônica babilônica em escrita cuneiforme, que registra a captura da cidade em 597 a.C. e a escolha de um novo rei por Nabucodonosor. A Bíblia narra o mesmo episódio: o jovem rei Joaquim se rendeu, foi levado com a corte e os artesãos, e seu tio Matanias recebeu o nome de Zedequias (). Uma nova rebelião levou ao cerco final, concluído em 586 a.C. (alguns historiadores preferem 587 a.C.), com a destruição da cidade e do templo.
O reinado deixou muitos vestígios materiais. Tijolos estampados com seu nome foram achados na Babilônia, cuja reconstrução, com o portão de Ishtar e os grandes palácios, é atribuída a ele. Tábuas de distribuição de rações, encontradas na cidade, citam Joaquim, rei de Judá, entre os dependentes da corte. Ainda assim, as inscrições do próprio rei falam sobretudo de obras e de devoção aos deuses Marduque e Nabu, e pouco de campanhas militares. Também não mencionam doença ou afastamento do rei, ponto que pesa na discussão de . Esse silêncio é comum em inscrições reais, que raramente registram fracassos ou humilhações do soberano. Nabucodonosor morreu em 562 a.C., e seu filho Evil-Merodaque libertou Joaquim da prisão ().
A história
O livro de Daniel apresenta Nabucodonosor em três cenas. Em , no segundo ano de seu reinado, o rei sonha com uma estátua de cabeça de ouro, peito de prata, ventre de bronze, pernas de ferro e pés de ferro misturado com barro, destruída por uma pedra cortada sem mãos humanas. Os sábios da corte não conseguem nem contar o sonho; Daniel o recebe de Deus e declara que a cabeça de ouro é o próprio Nabucodonosor (2:37-38). A identidade dos reinos seguintes é discutida (veja as interpretações). Há também uma tensão de datas: Daniel foi levado em 605 a.C. e treinado por três anos (1:5), mas o sonho ocorre no "segundo ano", e os comentaristas costumam explicar isso por diferenças na contagem dos anos de reinado.
Em , o rei ergue uma estátua de ouro na planície de Dura e exige que todos se prostrem diante dela. Sadraque, Mesaque e Abede-Nego recusam, são lançados na fornalha, e o rei vê quatro homens soltos entre as chamas, "o aspecto do quarto é semelhante a um filho dos deuses" (3:25). Nabucodonosor bendiz o Deus deles e proíbe que o ofendam (3:28-29), mas o texto não diz que ele abandonou o próprio panteão. A localização exata de Dura é incerta.
tem forma incomum: é uma carta pública escrita em nome do rei. Ele conta o sonho da grande árvore cortada, a interpretação de Daniel (sete tempos vividos entre os animais do campo) e o cumprimento, doze meses depois, quando se vangloria da "grande Babilônia" que ele edificou (4:30). A restauração termina em louvor ao Deus cujo domínio é eterno (4:34-37). Nenhum documento babilônico conhecido menciona esse episódio, e as lacunas nas crônicas sobre os últimos anos do reinado não permitem afirmar nem negar que ele ocorreu. Um texto de Qumran, a Oração de Nabonido, conta que o último rei babilônico adoeceu sete anos em Teima e foi perdoado por um adivinho judeu. Alguns estudiosos veem aí uma tradição aparentada com ; outros, relatos independentes.
Fora de Daniel, Jeremias chama Nabucodonosor de "meu servo" () e orienta os exilados a buscar a paz da cidade onde vivem (). Em , porém, o rei aparece sem adjetivos, executando o cerco, matando os filhos de Zedequias diante dele e cegando-o antes de levá-lo preso. acrescenta que o longo cerco de Tiro rendeu pouco ao exército babilônico e que o Egito seria dado a ele como compensação.
O que costumam dizer errado3
Dizem que:Nabucodonosor destruiu Jerusalém na primeira vez em que a atacou.
Houve etapas. Em 597 a.C. ele tomou a cidade, levou o rei Joaquim e parte da elite para a Babilônia e deixou Zedequias no trono (). A destruição da cidade e do templo veio só depois da segunda rebelião, em 586 a.C. ().
Dizem que:Daniel 4 diz que Nabucodonosor virou literalmente um animal.
O texto diz que ele foi expulso dos homens, comeu erva como os bois e que seus cabelos e unhas cresceram como penas de águia e garras de ave (). A linguagem descreve uma condição de vida selvagem e perda da razão. O texto não afirma uma mudança de espécie, e os intérpretes divergem sobre o quanto a descrição é literal.
Dizem que:Depois de Daniel 3 e 4, Nabucodonosor se tornou adorador exclusivo do Deus de Israel.
O rei reconhece o poder de Deus e o louva (; 4:34-37), mas o livro não diz que ele deixou de reverenciar Marduque e os demais deuses babilônicos. As inscrições do próprio rei seguem exaltando esses deuses.
Como diferentes tradições cristãs leem3
Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.
Cristã tradicional
Lê os quatro metais da estátua de como Babilônia, Medo-Pérsia, Grécia e Roma, e a pedra como o reino que Deus estabelece. Essa leitura é antiga e aparece, por exemplo, no comentário de Jerônimo a Daniel. é tomado como relato histórico de um juízo temporário sobre o rei.
Crítica histórica acadêmica
Muitos estudiosos entendem o livro de Daniel como obra composta em sua forma final no século II a.C., sob a perseguição de Antíoco IV. Nesse esquema, os quatro reinos seriam Babilônia, Média, Pérsia e Grécia, e seria uma narrativa moldada em tradições sobre Nabonido, e não um registro direto do reinado de Nabucodonosor.
Judaica rabínica
Os midraxes antigos também falam de quatro reinos sucessivos, e a tradição rabínica costuma identificar o último com Roma. Nabucodonosor aparece como arquétipo do império opressor que destrói o templo, mas cujo poder é concedido e limitado por Deus.
O que fazer com isso
Os textos sobre Nabucodonosor mostram um poder enorme que, na leitura bíblica, continua sob um limite que ele não escolheu. A narrativa evita tanto a demonização simples quanto a admiração pelo conquistador: ele destrói, reconhece, erra e é restaurado, tudo sem deixar de ser um rei estrangeiro. Quem lê hoje pode notar como a Bíblia trata governantes poderosos com franqueza, sem lhes atribuir a última palavra.
Passagens relacionadas8
Fontes consultadas4
- Donald J. Wiseman. Nebuchadrezzar and Babylon (Schweich Lectures), 1985.
- Albert Kirk Grayson. Assyrian and Babylonian Chronicles, 1975.
- John J. Collins. Daniel (Hermeneia), 1993.
- Joyce G. Baldwin. Daniel (Tyndale Old Testament Commentaries), 1978.
Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.
Perguntas frequentes
Quando Nabucodonosor destruiu o templo de Jerusalém?
Em 586 a.C., segundo a cronologia mais usada; parte dos historiadores prefere 587 a.C. Segundo , o templo foi queimado pelo chefe da guarda, Nebuzaradã, no quinto mês do décimo nono ano do reinado de Nabucodonosor.
Nabucodonosor aparece em fontes fora da Bíblia?
Sim, e em abundância. Há crônicas babilônicas, tijolos e inscrições de construção com seu nome e tábuas de rações que citam o rei Joaquim de Judá. Esses documentos confirmam o reinado e a captura de Jerusalém em 597 a.C.
Daniel 4 é confirmado por algum documento babilônico?
Não diretamente. Nenhum texto babilônico conhecido descreve a doença do rei. A Oração de Nabonido, de Qumran, relata uma enfermidade de outro rei, Nabonido, e é discutida como possível tradição relacionada.
Nabucodonosor é o mesmo que Belsazar?
Não. Belsazar aparece em e é chamado de filho de Nabucodonosor, mas em aramaico "filho" pode indicar também descendente ou sucessor. Os registros babilônicos mostram Belsazar como filho de Nabonido, que reinou depois de Nabucodonosor.