Lucas, o médico amado
Quem foi Lucas na Bíblia?
Ficha do personagem
Séc. I d.C.; Antioquia (tradição), Filipos, Roma
Aparece em
Resposta curta
Lucas aparece três vezes no Novo Testamento, sempre ao lado de Paulo: é "o médico amado" em , um dos cooperadores citados em e o único que ainda está com o apóstolo em . A tradição cristã antiga o identifica como autor do Evangelho de Lucas e de Atos, mas nenhum dos dois livros traz o nome do autor. Em Atos, a narrativa passa de "eles" para "nós" em alguns trechos, a partir de Trôade, o que muitos leem como sinal de que o escritor viajava com Paulo, enquanto outros veem um recurso literário. Sua profissão de médico é o único dado biográfico que as cartas declaram com clareza.
Onde ele aparece
Como isso aponta para Jesus
Ligação indiretaLucas não é uma figura que antecipe Cristo; ele aparece como servidor e escritor, e o texto nunca o apresenta como tipo de ninguém. O que a tradição vê nele é a intenção de seu prólogo: oferecer a Teófilo certeza sobre os fatos "que entre nós se realizaram" (). A relação com Cristo, portanto, é indireta e se dá pelo conteúdo do que escreveu, não pela pessoa do autor.
Respaldo no Novo Testamento:
Em palavras simples
Lucas foi um companheiro de Paulo. Paulo o chama de "médico amado" e, numa de suas últimas cartas, diz que só Lucas estava com ele. A tradição da igreja diz que Lucas escreveu o Evangelho de Lucas e o livro de Atos, mas o nome dele não aparece nesses livros. Em Atos, em alguns trechos, o narrador diz "nós", como se estivesse na viagem com Paulo. Alguns estudiosos entendem que isso mostra que Lucas esteve lá, e outros acham que é um modo de narrar viagens. Os dois livros são dirigidos a um homem chamado Teófilo.
O mundo dele
O nome Lucas surge nas cartas de Paulo escritas da prisão. Em , ele manda saudações junto com Demas e é chamado de "médico amado". Em , é um dos "cooperadores" de Paulo, ao lado de Marcos, Aristarco e Demas. Em , Paulo, em momento de solidão, escreve: "Somente Lucas está comigo". O texto não diz onde Lucas nasceu, quando se converteu nem se tinha conhecido Jesus. Onde Paulo estava preso quando escreveu Colossenses e Filemom também é discutido: a tradição aponta Roma, e há quem proponha Éfeso ou Cesareia. A escolha muda o lugar em que Lucas, citado nessas cartas, teria estado com ele.
Um detalhe de costuma ser notado: Paulo menciona primeiro Aristarco, Marcos e Jesus Justo como "da circuncisão" e só depois Epafras, Lucas e Demas. Por isso, muitos concluem que Lucas era gentio, embora o texto não o diga de forma explícita. O nome Lucas é grego e pode ser forma abreviada de Lucano ou Lucius, o que não decide a origem.
Os dois livros atribuídos a ele pela tradição, o Evangelho e Atos, são anônimos. O prólogo () dirige-se a "excelentíssimo Teófilo", diz que muitos já tinham escrito sobre os fatos e que o autor investigou tudo desde o princípio a partir de testemunhas oculares e ministros da palavra, o que o coloca como autor de segunda geração, não testemunha direta. retoma o "primeiro livro" ao mesmo Teófilo.
Sobre quem seria o autor, os testemunhos mais antigos vêm de fora do Novo Testamento. Irineu, no século II, afirma que Lucas, companheiro de Paulo, escreveu o Evangelho. Eusébio, no século IV, diz que Lucas era de Antioquia e médico de profissão. O chamado Prólogo Antimarcionita, de data discutida, fala em um sírio de Antioquia. Esses autores apoiam a atribuição tradicional, mas sua informação sobre origem e morte é tardia e menos segura que a do texto.
A história
Os trechos de Atos conhecidos como "seções-nós" são a base da ideia de que o autor viajou com Paulo. Em , depois da visão do macedônio em Trôade, a narrativa muda de "eles" para "nós": "procuramos partir para a Macedônia". O "nós" continua até 16:17, em Filipos. Reaparece em 20:5-15, quando Paulo vai de Filipos a Trôade e depois a Mileto, segue em 21:1-18 até Jerusalém e volta em 27:1–28:16, na viagem de prisioneiro de Cesareia a Roma. Em 27:1-2 Lucas, se é ele, estaria a bordo com Aristarco, de Tessalônica.
Uma observação comum é que o "nós" some quando Paulo deixa Filipos (16:40) e volta quando ele regressa a essa cidade (20:5), o que levou alguns a supor que o autor ficou ali por anos. É uma inferência, não um dado do texto.
Há três explicações principais. A primeira, mais comum entre tradicionalistas, vê no "nós" a marca de uma testemunha ocular que escreve em primeira pessoa quando estava presente. A segunda propõe que o autor usou um diário ou itinerário de viagem alheio, e Martin Dibelius defendeu algo próximo disso. A terceira, associada a Vernon Robbins, compara o "nós" aos relatos marítimos da literatura antiga e o trata como convenção literária, sem implicar presença do autor. Cada hipótese tem defensores qualificados, e o texto não escolhe.
A profissão de médico gerou outro debate. No fim do século XIX, William Hobart reuniu termos médicos do Evangelho como prova de que o autor era médico. Henry Cadbury, em 1920, respondeu que muitos desses termos aparecem em autores não médicos da época,. A questão ficou aberta. O texto de afirma a profissão e não depende do vocabulário.
Ainda sobre o Evangelho, o prólogo de declara um método: investigação e organização ordenada. O autor, seja quem for, apresenta seu livro como fruto de pesquisa e de uso de tradições. Os dois volumes se ligam por prólogos paralelos (; ), e é só nesses prólogos que o autor fala de si em primeira pessoa do singular. O final de Atos deixa Paulo em prisão domiciliar em Roma, ensinando sem impedimento (28:30-31), sem narrar o desfecho de seu processo, o que deixa em aberto até onde o autor acompanhou o apóstolo. Quanto ao destino de Lucas, o Prólogo Antimarcionita fala de morte na Beócia, em idade avançada, mas é fonte tardia e de data discutida; o Novo Testamento é silencioso.
O que costumam dizer errado3
Dizem que:Lucas foi um dos doze apóstolos ou um discípulo que conviveu com Jesus.
O próprio prólogo do Evangelho o distingue dos que "desde o princípio foram testemunhas oculares" (). Nenhum texto do Novo Testamento o coloca entre os Doze nem entre os seguidores de Jesus durante o ministério. Algumas tradições posteriores o incluem entre os setenta, mas isso vem de fontes tardias.
Dizem que:O Novo Testamento diz que Lucas era pintor e fez o retrato de Maria.
Essa ideia vem de tradições medievais e bizantinas, séculos depois, e nenhum texto do Novo Testamento a registra. O que o texto afirma sobre ele é que era médico e companheiro de Paulo.
Dizem que:O vocabulário médico do Evangelho prova que o autor era médico.
Henry Cadbury mostrou em 1920 que muitos termos tidos por médicos eram comuns em escritores gregos de outras áreas. O argumento, popular desde o século XIX, perdeu força, embora a profissão de Lucas seja afirmada em .
Como diferentes tradições cristãs leem3
Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.
Católica
A tradição católica venera Lucas como evangelista e santo, com festa em 18 de outubro, e historicamente sustentou que ele escreveu o Evangelho e Atos como companheiro de Paulo. Exegetas católicos atuais discutem detalhes de data, fontes e leitura do "nós", mas muitos mantêm a atribuição como a mais provável.
Ortodoxa
Na tradição ortodoxa, Lucas é celebrado como apóstolo e evangelista e ligado à antiga lista dos Setenta. Tradições mais tardias o associam a Antioquia e a ícones de Maria. Essas informações vêm de fontes posteriores ao Novo Testamento e são lidas como memória da igreja, não como relato apostólico.
Protestante
Protestantes de linha conservadora costumam aceitar a autoria lucana com base nos testemunhos antigos e nas passagens em "nós", lendo Lucas como historiador cuidadoso. Outros, em linha histórico-crítica, tratam o autor como anônimo de segunda geração e consideram o "nós" um recurso literário.
O que fazer com isso
Lucas é um nome que quase não aparece no texto, mas cujo trabalho moldou boa parte do que se lê sobre Jesus e sobre a igreja nascente. Sua presença nas cartas é discreta: está ao lado de Paulo quando outros se afastam. A história convida a valorizar quem serve e registra sem buscar destaque, e a reconhecer que a confiabilidade de um relato vem do cuidado com que foi reunido.
Passagens relacionadas8
Fontes consultadas7
- Joseph A. Fitzmyer. The Gospel According to Luke I–IX (Anchor Bible), 1981.
- Joseph A. Fitzmyer. The Acts of the Apostles (Anchor Bible), 1998.
- Craig S. Keener. Acts: An Exegetical Commentary, 2012.
- Henry J. Cadbury. The Style and Literary Method of Luke, 1920.
- Vernon K. Robbins. By Land and by Sea: The We-Passages and Ancient Sea Voyages, 1978.
- Irineu de Lião. Contra as Heresias.
- Eusébio de Cesareia. História Eclesiástica.
Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.
Perguntas frequentes
Lucas escreveu o Evangelho de Lucas e Atos?
A tradição cristã antiga, desde Irineu, atribui os dois livros a Lucas, companheiro de Paulo. Os livros, porém, são anônimos, e a autoria é tradicional, não declarada no texto.
Lucas era judeu ou gentio?
O Novo Testamento não responde com clareza. o distingue do grupo "da circuncisão", o que leva muitos a pensar que era gentio, mas é uma inferência.
O que significam os trechos em "nós" em Atos?
São passagens, como e 27:1–28:16, em que o narrador passa a falar em primeira pessoa do plural. Podem indicar presença do autor, uso de uma fonte ou convenção literária. Os estudiosos não chegaram a consenso.
Lucas conheceu Jesus?
O prólogo de sugere que ele recebeu as informações de testemunhas oculares, o que o coloca fora desse grupo. Tradições posteriores o ligam aos setenta, mas o Novo Testamento não diz isso.