Isbosete
Quem foi Isbosete, o filho de Saul que reinou depois dele?
Ficha do personagem
Cerca de 1010-1008 a.C.; Maanaim, Transjordânia
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Resposta curta
Isbosete foi o filho de Saul que reinou sobre Israel depois da morte do pai em Gilboa. Quem o levou ao trono foi Abner, chefe do exército de Saul, que o conduziu a Maanaim, na Transjordânia, e o proclamou rei sobre Gileade, Efraim, Benjamim e as demais tribos do norte. Enquanto isso, Judá aceitou Davi como rei em Hebrom, e os dois lados entraram em uma guerra longa. O reinado de Isbosete dependia por inteiro de Abner: quando os dois discutiram por causa de uma concubina de Saul, Abner passou a negociar com Davi, e o rei não teve como reagir. Pouco depois, dois chefes de bando, Recabe e Baaná, o mataram durante o descanso do meio-dia e levaram a cabeça a Davi, que os executou. O mesmo homem aparece como Esbaal em 1 Crônicas.
Onde ele aparece
Como isso aponta para Jesus
ContrasteO reino de Isbosete foi mantido pela força de um general e desapareceu quando esse apoio acabou, e seu fim foi marcado por violência traiçoeira. O Novo Testamento apresenta um contraste: diante de Pilatos, Jesus afirma que seu reino não é deste mundo e que, se fosse, seus servos lutariam (). Em outra ocasião, ele se retira quando percebe que querem fazê-lo rei à força (). A comparação é de contraste, e não de tipologia: o texto de Samuel não aponta para Cristo.
Respaldo no Novo Testamento:
Em palavras simples
Isbosete era filho do rei Saul. Depois que Saul morreu em batalha, o general Abner fez de Isbosete rei de Israel, enquanto Davi virou rei só da tribo de Judá. Isbosete era fraco e dependia de Abner. Quando os dois brigaram, Abner passou para o lado de Davi. Pouco depois, dois comandantes de bando mataram Isbosete enquanto ele descansava e levaram a cabeça a Davi, esperando um prêmio. Davi não aceitou o crime e mandou executá-los. Em outro livro da Bíblia, ele também é chamado de Esbaal.
O mundo dele
Depois que Saul e três de seus filhos morreram no monte Gilboa (), o território israelita ficou exposto aos filisteus, e a liderança do norte entrou em colapso. Isbosete sobreviveu; o texto não explica por que não estava na batalha, e apenas o apresenta como "filho de Saul" (). Abner, filho de Ner e parente de Saul (), assumiu o papel de fazedor de reis: levou Isbosete para Maanaim, cidade da Transjordânia ligada à história de Jacó () e distante da pressão filisteia, e o fez rei sobre Gileade, "Assuri", Jezreel, Efraim, Benjamim e "todo Israel" (). A identificação de Assuri é incerta: alguns tradutores a leem como Aser, outros como Gesur.
O texto informa que Isbosete tinha quarenta anos ao começar a reinar e que reinou dois anos, enquanto Davi reinou em Hebrom sobre Judá por sete anos e meio (). A diferença entre os números nunca foi explicada pelo próprio relato, e os comentaristas propõem hipóteses, nenhuma confirmada.
O quadro político ajuda a entender o reinado. Após Gilboa, os israelitas do outro lado do vale e do Jordão abandonaram suas cidades, e os filisteus se estabeleceram nelas (). Davi, por sua vez, que vivia em Ziclague, subiu a Hebrom por orientação de Deus e ali os homens de Judá o ungiram rei (). A monarquia, que mal começara, ficou assim dividida entre norte e sul, anunciando uma rachadura que reaparecerá depois de Salomão.
Há também a questão do nome. Em 2 Samuel ele é Isbosete (em hebraico, algo como "homem da vergonha"), mas em e 9:39 aparece como Esbaal, "homem de Baal" ou, talvez, "homem do Senhor", já que baal significa "senhor" e podia ser usado como título. Uma explicação comum é que escribas posteriores trocaram o elemento "baal" por "bosete", "vergonha", como se vê também em Jerubaal e Jerubesete (; ). A lista de filhos de Saul em traz um "Isvi", que alguns identificam com ele, mas isso é debatido.
A história
O relato de a 4 mostra um reino que existe pela força de um só homem. Depois de uma batalha em Gibeão, em que Abner e Joabe se enfrentaram por meio de seus soldados, o texto resume: a guerra foi longa, Davi "ia se fortalecendo" e a casa de Saul "ia enfraquecendo" (). Isbosete quase não fala nessas páginas.
O ponto de ruptura vem em . Isbosete acusa Abner de ter tomado Rizpá, concubina de Saul. Na cultura da época, apropriar-se do harém de um rei podia ser um gesto de pretensão ao trono (compare e ), mas o texto não afirma que Abner tivesse esse objetivo, e o general reage como quem foi insultado. Ele jura transferir o reino para Davi "desde Dã até Berseba" e Isbosete "não pôde responder palavra", porque o temia. A cena revela quem de fato mandava.
Abner negocia com Davi, que exige a devolução de Mical, filha de Saul; Isbosete a manda buscar (). Quando Abner é morto por Joabe em Hebrom, "as mãos" de Isbosete "se enfraqueceram" e todo Israel ficou perturbado ().
O fim é narrado com detalhes incomuns. Recabe e Baaná, benjamitas e chefes de bando, entram na casa ao meio-dia, sob o pretexto de buscar trigo, encontram o rei deitado no quarto, ferem-no e cortam-lhe a cabeça. Viajam a noite inteira até Hebrom e apresentam a cabeça a Davi como se fosse um favor: o Senhor teria vingado o rei de Saul. Davi responde lembrando o mensageiro que lhe anunciara a morte de Saul e fora executado (), e conclui que, se aquele merecera a morte, mais ainda mereciam "homens perversos" que mataram um inocente em sua própria casa, sobre a cama. Os dois são mortos, têm mãos e pés cortados e são expostos junto ao tanque de Hebrom; a cabeça de Isbosete é sepultada no túmulo de Abner ().
O narrador cuida de mostrar que Davi não ordenou nem aproveitou o crime. Os anciãos de Israel vão então a Hebrom e o ungem rei sobre todo o povo (). Sobre a duração do reinado de dois anos, há propostas: um intervalo anterior, em que os filisteus controlavam a região, ou uma contagem que considera apenas o período de governo efetivo. O texto, porém, é silencioso, e essas explicações permanecem hipóteses.
O que costumam dizer errado2
Dizem que:Isbosete e Esbaal são duas pessoas diferentes, dois filhos de Saul.
A maioria dos estudiosos entende que são dois nomes do mesmo homem: o filho de Saul que reinou depois dele. Isbosete (2 Samuel) usa "bosete", "vergonha", onde Esbaal (; 9:39) usa "baal". Uma explicação frequente é que escribas evitaram o termo baal; o texto bíblico, porém, não explica a troca.
Dizem que:Davi mandou matar Isbosete para ficar com o trono de Israel.
O relato diz o contrário: os assassinos são Recabe e Baaná, que agem por conta própria esperando recompensa, e Davi os manda executar (). Como o texto é escrito do ponto de vista davídico, leitores críticos observam que o episódio o favorecia politicamente, mas o relato não atribui a ele a ordem.
Como diferentes tradições cristãs leem4
Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.
Protestante (comentário clássico)
Comentaristas como Keil e Delitzsch leem a narrativa como demonstração da providência: Deus conduz o reino a Davi sem que ele precise recorrer à violência, e o fim de Isbosete confirma que a causa de Saul já estava perdida. Davi é apresentado como o rei que recusa o crime e espera o tempo de Deus.
Católica
Costuma ler a passagem dentro da história da legitimidade régia em Israel, em que a realeza de Saul não passa a seu filho por falta de uma promessa divina como a feita a Davi (). Aproveita o episódio para refletir sobre a justiça nos meios de se chegar ao poder, em contraste com a execução dos assassinos.
Crítica histórica
Muitos estudiosos, como P. Kyle McCarter Jr., veem em a 4 uma fonte antiga sobre a luta pela sucessão de Saul, na qual Abner é a figura política central. Observam a tensão entre os números do reinado e a possibilidade de que o relato final tenha interesse apologético em favor de Davi.
Judaica
A tradição judaica lê o episódio no contexto da sucessão de Saul e do caminho que leva à monarquia davídica. Discute com atenção o contraste entre a atitude de Davi diante dos assassinos e sua conduta posterior, e preserva o nome Isbosete na forma que consta no texto hebraico de Samuel.
O que fazer com isso
A história de Isbosete mostra o que acontece com uma autoridade que depende inteiramente de outra pessoa: quando o apoio retira-se, não resta nada. O texto não o trata como vilão, e sim como alguém que herdou um cargo sem ter força nem convicção para sustentá-lo. A reação de Davi ao crime também importa: chegar ao poder por um atalho que outros abriram não o torna aceitável, e o relato recusa chamar de serviço o que foi violência.
Passagens relacionadas8
Fontes consultadas4
- Carl Friedrich Keil e Franz Delitzsch. Commentary on the Old Testament (1 e 2 Samuel), 1878.
- P. Kyle McCarter Jr.. II Samuel: A New Translation with Introduction and Commentary (Anchor Bible), 1984.
- A. A. Anderson. 2 Samuel (Word Biblical Commentary), 1989.
- Robert Alter. The David Story: A Translation with Commentary of 1 and 2 Samuel, 1999.
Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.
Perguntas frequentes
Por que Isbosete também se chama Esbaal?
O hebraico de 2 Samuel usa um nome com "bosete", "vergonha", e 1 Crônicas usa um com "baal". Como baal significava "senhor", o nome original pode ter sido neutro ou até piedoso. Que escribas tenham trocado o elemento por "vergonha" é a explicação mais comum, mas é uma hipótese.
Quanto tempo durou o reinado de Isbosete?
O texto diz dois anos (), enquanto Davi reinou sete anos e meio em Hebrom (). Como Davi foi aclamado sobre todo o Israel logo após a morte de Isbosete, os números não batem de forma óbvia. O relato não explica, e as tentativas de harmonizar são hipóteses.
Quem foi o general que sustentou Isbosete?
Abner, filho de Ner e chefe do exército de Saul. Foi ele quem proclamou Isbosete rei em Maanaim e quem rompeu com ele depois da discussão sobre Rizpá, passando a negociar com Davi ().
Por que Davi puniu quem matou Isbosete?
Porque Recabe e Baaná mataram um homem em sua própria casa, deitado, fora de qualquer combate e sem julgamento. Davi lembra que punira o mensageiro que se dizia matador de Saul e declara que o sangue exigia justiça ().