Baaná
Quem foi Baaná na Bíblia e o que ele fez?
Ficha do personagem
Reinado de Isbosete (c. século X a.C.)
Aparece em
Relações
- filho de Rimom, o berotita
- irmão de Recabe
- capitão de bando de Isbosete
- assassino de Isbosete
Resposta curta
Baaná era filho de Rimom, benjamita de Beerote, e comandava, ao lado do irmão Recabe, um dos bandos armados a serviço de Isbosete, filho de Saul, que reinava sobre parte de Israel a partir de Maanaim enquanto Davi governava em Hebrom. A posição de Isbosete já estava enfraquecida pela morte recente de seu general Abner.
Foi nesse cenário que Baaná e Recabe entraram na casa de Isbosete ao meio-dia, aproveitando o horário de descanso do rei, e o mataram enquanto dormia. Decapitaram o corpo e levaram a cabeça a Davi, em Hebrom, apresentando o feito como serviço à causa davídica. Davi, porém, tratou o gesto como assassinato covarde de um homem indefeso e mandou executar os dois irmãos, expondo seus corpos mutilados junto ao tanque de Hebrom.
Onde ele aparece
Como isso aponta para Jesus
ContrasteBaaná ilustra um padrão que a Escritura repete e que o Novo Testamento aplica de modo explícito a outro caso: alguém próximo busca vantagem pessoal provocando a morte de um líder, esperando recompensa por isso (). Assim como Davi rejeitou o serviço sangrento e puniu os assassinos em vez de recompensá-los, os evangelhos mostram que a traição por interesse próprio não é justificada pelo resultado que produz. O contraste mais direto, porém, está na resposta da própria vítima: Isbosete foi surpreendido e morto sem chance de reagir, enquanto Jesus, traído e morto de forma igualmente injusta, não retribuiu violência com violência, mas entregava-se 'àquele que julga justamente' () — uma resposta que rompe o ciclo de vingança que estrutura toda a narrativa de Baaná, Recabe e Davi.
Respaldo no Novo Testamento: ;
Em palavras simples
Baaná foi um oficial do exército de Isbosete, filho do rei Saul, numa época em que Israel estava dividido entre duas lideranças rivais: Isbosete no norte e Davi em Hebrom. Junto com seu irmão Recabe, Baaná invadiu a casa de Isbosete durante o descanso do meio-dia, o matou e cortou sua cabeça, levando-a a Davi na esperança de ganhar uma recompensa. Davi não recompensou o crime: mandou matar os dois irmãos e expôs seus corpos em público, deixando claro que não aceitava esse tipo de violência, mesmo quando parecia beneficiá-lo.
O mundo dele
Baaná aparece na fase final da guerra civil que dividiu Israel depois da morte de Saul e de seus filhos no monte Gilboa (). Enquanto Davi era ungido rei sobre Judá em Hebrom, o general Abner ergueu Isbosete, o único filho sobrevivente de Saul, como rei sobre as demais tribos, governando a partir de Maanaim, na Transjordânia (). Por cerca de dois anos, o país viveu dividido sob duas coroas rivais, com escaramuças constantes entre os dois lados ().
O poder de Isbosete, no entanto, nunca foi sólido: ele dependia inteiramente do apoio militar de Abner, e quando este rompeu com o rei e depois foi assassinado por Joabe (), a casa de Saul ficou praticamente sem sustentação política ou militar. É nesse vácuo de autoridade que Baaná e seu irmão Recabe agem. Os dois são identificados como filhos de Rimom, um benjamita da cidade de Beerote (), e ocupavam o posto de capitães de bandos armados, pequenas unidades usadas em incursões, saques e na proteção do território, algo comum nesse período de fragmentação política em Israel.
O texto acrescenta um detalhe intrigante: os habitantes de Beerote haviam fugido para Gitaim, embora a cidade fosse tradicionalmente contada como parte do território de Benjamim (). Comentaristas como Keil e Delitzsch associam esse deslocamento a conflitos anteriores envolvendo o próprio Saul, sugerindo que a lealdade de famílias como a de Rimom à casa real já era, de algum modo, instável havia tempo. A narrativa também intercala, logo antes do relato do assassinato, a menção a Mefibosete, neto de Saul, aleijado desde criança (), um lembrete de que, com a morte de Isbosete, restava pouquíssima resistência viável à ascensão de Davi ao trono de todo o Israel, consumada no capítulo seguinte ().
A história
O relato do assassinato de Isbosete () é econômico, mas carregado de detalhes que expõem a covardia do ato. Baaná e Recabe entram na casa do rei no calor do dia, horário em que era costume descansar, e encontram Isbosete dormindo sozinho em seu próprio quarto, sem guarda alguma por perto. Não há confronto, não há chance de defesa: eles o golpeiam no abdômen, o matam e, em seguida, decapitam o corpo, um procedimento que na época servia como prova inequívoca de que o alvo estava realmente morto (compare-se com o destino do corpo de Saul em ). Fogem então a noite toda pela Arabá, a depressão do vale do Jordão, até chegar a Hebrom, território de Davi.
Ali, diante de Davi, apresentam a cabeça como prova de um serviço prestado: segundo eles, o Senhor teria dado a Davi vingança contra Saul e sua descendência por meio das próprias mãos dos dois irmãos (). A cena repete quase ponto por ponto o episódio do amalequita que, no capítulo anterior, alegara ter matado Saul e trouxera sua coroa e bracelete a Davi esperando recompensa, e fora executado por isso (). Davi usa exatamente essa memória recente como argumento: se mandou matar aquele que apenas afirmava ter matado Saul, quanto mais deveria punir homens que de fato mataram um homem justo em sua própria casa, deitado em sua cama ().
A punição é deliberadamente correspondente ao crime: Davi manda cortar as mãos e os pés dos dois irmãos, as mãos que empunharam a espada e os pés que os levaram a fugir, e pendura os corpos junto ao tanque de Hebrom, expondo-os publicamente como assassinos, não como heróis premiados. A cabeça de Isbosete, por sua vez, recebe tratamento digno: é sepultada no túmulo de Abner, também em Hebrom (), o mesmo general que Davi já havia lamentado publicamente pouco antes ().
O episódio serve, dentro da estrutura narrativa de 2 Samuel, para reforçar que a ascensão de Davi ao trono de todo o Israel não nasce de conspiração ou violência patrocinada por ele. Comentaristas como Matthew Henry destacam esse padrão repetido, Davi recusando-se, por duas vezes seguidas, a lucrar com a morte violenta de um rival da casa de Saul, como evidência de que o texto bíblico quer separar claramente a legitimidade do reinado davídico de qualquer mancha de sangue derramado por ambição pessoal.
O que costumam dizer errado2
Dizem que:Davi orquestrou ou aprovou secretamente o assassinato de Isbosete para tomar o trono mais rápido.
O texto bíblico não apresenta nenhuma evidência de cumplicidade de Davi; ao contrário, ele executa os assassinos, lamenta a morte de Isbosete e repete o mesmo padrão de recusa que já tinha diante da morte de Saul (), evitando qualquer benefício obtido por meio de violência contra a casa rival.
Dizem que:Trazer a cabeça de um rei derrotado era uma prática aceita e recompensável em Israel.
O amalequita que alegou ter matado Saul também esperava recompensa e foi executado (); a repetição do padrão mostra que a narrativa trata esse tipo de ato como assassinato a ser punido, não como serviço militar legítimo, mesmo quando parecia favorecer Davi.
Como diferentes tradições cristãs leem4
Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.
Reformada/Calvinista
Enfatiza a soberania divina operando por trás dos acontecimentos: Deus usa até mesmo atos moralmente perversos de homens para cumprir seu propósito de estabelecer Davi sobre todo o Israel, sem que isso torne Deus autor ou aprovador do pecado cometido por Baaná e Recabe.
Católica
Sublinha a responsabilidade moral objetiva dos autores do crime, independentemente do resultado político favorável a Davi. O assassinato de um homem indefeso em sua própria casa é intrinsecamente mau, e a punição de Davi reflete a exigência de justiça natural, não apenas conveniência política.
Ortodoxa
Lê o episódio dentro do tema da realeza justa: o rei que Deus está formando deve refletir o próprio caráter divino, punindo a traição mesmo quando ela o beneficiaria. A recusa de Davi em lucrar com o crime prefigura o ideal de um governante que julga com integridade.
Wesleyana/Arminiana
Destaca o livre-arbítrio e a responsabilidade pessoal de Baaná e Recabe, que escolheram deliberadamente o mal esperando recompensa. A resposta de Davi mostra que justiça e misericórdia não se opõem: ele não recompensa o crime, mas também não usa o episódio para se vingar da casa de Saul.
O que fazer com isso
A história de Baaná mostra que buscar vantagem por meio de traição e violência, mesmo quando parece servir a uma causa maior, não garante reconhecimento e pode provocar o oposto do que se esperava. Davi trata o crime como crime, independentemente de quem se beneficiaria dele. O episódio convida a refletir sobre a diferença entre alcançar um objetivo legítimo e usar meios ilegítimos para chegar lá, um princípio que atravessa boa parte da narrativa bíblica sobre poder e justiça.
Passagens relacionadas6
Fontes consultadas4
- Carl Friedrich Keil e Franz Delitzsch. Commentary on the Old Testament: Samuel, 1866.
- Matthew Henry. Commentary on the Whole Bible, 1710.
- P. Kyle McCarter Jr.. II Samuel (Anchor Bible), 1984.
- Robert Alter. The David Story: A Translation with Commentary of 1 and 2 Samuel, 1999.
Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.
Perguntas frequentes
Quem era Baaná na Bíblia?
Baaná era filho de Rimom, um benjamita de Beerote, e capitão de um bando armado a serviço de Isbosete, filho de Saul. Junto com seu irmão Recabe, ele assassinou Isbosete e levou sua cabeça a Davi ().
Davi mandou matar Isbosete através de Baaná?
Não há nenhuma indicação no texto de que Davi tenha ordenado ou sequer soubesse do plano. Pelo contrário, ele trata o crime como assassinato covarde e manda executar os dois irmãos por isso.
Por que Baaná e Recabe mataram Isbosete?
O texto sugere que esperavam recompensa de Davi, apresentando o assassinato como um serviço à causa davídica e como suposta vingança do Senhor contra a casa de Saul. Davi rejeitou essa justificativa.
O que aconteceu com Baaná depois do crime?
Davi mandou matá-lo junto com Recabe, cortar suas mãos e pés e pendurar os corpos junto ao tanque de Hebrom, como punição pública pelo assassinato de um homem indefeso.