Doegue
Quem foi Doegue, o edomita que matou os sacerdotes de Nobe?
Ficha do personagem
c. séc. XI a.C., Nobe e Gibeá
Resposta curta
Doegue era um edomita, chefe dos pastores de Saul, que aparece pela primeira vez em Nobe, quando Davi, fugindo de Saul, é ajudado pelo sacerdote Aimeleque (). Ele estava no local e depois denunciou o fato ao rei (). Quando os próprios guardas de Saul se recusaram a atacar os sacerdotes, o rei ordenou que Doegue o fizesse, e ele matou 85 homens que vestiam o éfode de linho e destruiu a cidade de Nobe (22:17-19). Apenas Abiatar escapou. O título do Salmo 52 liga o poema a esse episódio. O texto não explica por que Doegue estava em Nobe naquele dia, e é silencioso sobre seu destino.
Onde ele aparece
Como isso aponta para Jesus
Ligação indiretaDoegue não prefigura Cristo. A ligação com o Novo Testamento é indireta: em , Jesus recorda o episódio em que Davi comeu o pão da presença em Nobe, que é o mesmo encontro com Aimeleque que Doegue presenciou e denunciou. Jesus usa o caso como precedente para o sábado e menciona Abiatar como sumo sacerdote, ponto que os comentaristas discutem, já que nomeia Aimeleque. O massacre de Nobe é o desfecho trágico do mesmo evento a que Jesus recorre como argumento.
Respaldo no Novo Testamento:
Em palavras simples
Doegue era um edomita, chefe dos pastores do rei Saul. Quando Davi fugiu de Saul e foi até Nobe, onde o sacerdote Aimeleque o ajudou, Doegue viu tudo e contou ao rei. Saul mandou matar os sacerdotes, e quando seus guardas se recusaram, Doegue os matou: 85 homens, e ainda destruiu a cidade de Nobe. Só o sacerdote Abiatar escapou e foi se juntar a Davi. O Salmo 52 fala desse episódio. A Bíblia não conta o que aconteceu com Doegue depois.
O mundo dele
O episódio se passa no fim do reinado de Saul, aproximadamente no século XI a.C., quando Davi, ungido por Samuel, já era perseguido pelo rei. Em , Davi foge de Gibeá, onde ficava a corte de Saul, e chega a Nobe, uma cidade sacerdotal onde se achava o santuário com o pão da presença. Pelo contexto, a cidade ficava perto de Jerusalém, ao norte, embora a localização exata seja incerta. O sacerdote local, Aimeleque, filho de Aitube, descendia de Eli (; 22:9), a casa sacerdotal que, desde , tinha recebido uma palavra de juízo.
Doegue é apresentado em como edomita, ou seja, descendente de Esaú e membro do povo vizinho ao sul de Israel (), e como "chefe dos pastores de Saul". A expressão hebraica admite leituras como chefe ou o mais forte dos pastores, e indica um cargo de confiança do rei, não o de um simples pastor. O mesmo versículo diz que ele estava ali "detido perante o Senhor". O sentido é obscuro: pode indicar um voto, uma purificação ou um impedimento ritual, mas o texto não esclarece, e é por isso que o dado é debatido. A presença de um estrangeiro a serviço de Saul, em um lugar sagrado israelita, também é um detalhe que o texto deixa sem comentário.
A chegada de Davi a Nobe é mais compreensível no quadro da perseguição. Ele chega sozinho, diz a Aimeleque que está em missão secreta do rei e recebe pão consagrado e a espada de Golias, que estava guardada ali (21:1-9). Aimeleque, segundo seu próprio depoimento, não sabia que Davi estava em fuga (22:15). Doegue testemunhou tudo isso, e a fala dele a Saul, em 22:9-10, é fiel em linhas gerais ao que o capítulo 21 narrou, com a omissão de que o sacerdote desconhecia a situação. O capítulo seguinte mostra o desfecho, que o Salmo 52 comenta de outra perspectiva.
A história
Em , Saul está em Gibeá, sob uma tamargueira, cercado de seus servos, e acusa-os de conspiração: ninguém lhe havia dito que seu filho Jônatas fizera aliança com Davi. Doegue, que "estava em pé entre os servos de Saul", fala então: viu Davi chegar a Nobe, Aimeleque consultou o Senhor por ele, deu-lhe provisões e a espada de Golias (22:9-10). A menção de que Aimeleque "consultou o Senhor" por Davi não aparece em , e é por isso que se discute se Doegue acrescentou um detalhe ou se o capítulo anterior não o registrou.
Saul chama Aimeleque e toda a família de seu pai e os acusa de traição. Aimeleque se defende: Davi era genro do rei e capitão fiel, e ele não sabia de nenhuma conspiração (22:14-15). Saul não aceita a defesa e ordena a execução. Os guardas, "os corredores que estavam com ele", recusam-se a "estender a mão contra os sacerdotes do Senhor" (22:17). Doegue cumpre a ordem e mata 85 homens que "vestiam o éfode de linho" (22:18). Depois, ataca a cidade de Nobe: homens, mulheres, crianças, recém-nascidos, bois, jumentos e ovelhas, tudo ao fio da espada (22:19). A Septuaginta traz, em 22:18, um número maior de sacerdotes mortos que o texto hebraico, e Josefo também dá outro número, o que mostra que a tradição textual já variava nesse ponto.
Abiatar, filho de Aimeleque, escapa e foge para Davi (22:20-21). Davi responde com uma frase que o texto não suaviza: "Eu bem sabia, naquele dia, que Doegue, o edomita, estava lá e certamente o contaria a Saul; eu fui a causa da morte de toda a casa de teu pai" (22:22). Ele promete protegê-lo. Assim, o capítulo registra tanto a violência de Saul e de Doegue quanto a responsabilidade parcial de Davi. Mais tarde, Salomão expulsa Abiatar do sacerdócio, e o texto de lê isso como cumprimento da palavra dita contra a casa de Eli, ligando o massacre de Nobe à linha de juízo aberta em .
O título do Salmo 52 diz: "Quando Doegue, o edomita, veio e informou a Saul: Davi entrou em casa de Aimeleque." O poema trata o delator como o "poderoso" que se gaba do mal e cuja língua é navalha afiada (52:1-4), anuncia que Deus o arrancará (52:5) e contrasta com o salmista, "como oliveira verde na casa de Deus" (52:8). Os títulos dos salmos são antigos, mas debatidos quanto à origem e ao valor histórico.
O que costumam dizer errado3
Dizem que:Doegue era um israelita que trabalhava para Saul.
O texto o chama expressamente de "edomita" (; 22:9, 18, 22). Os edomitas eram vizinhos e descendentes de Esaú, não de Jacó. O texto não explica como ele chegou a chefe dos pastores do rei.
Dizem que:Doegue matou sozinho todos os habitantes de Nobe por iniciativa própria.
A ordem partiu de Saul, que primeiro mandou seus guardas executarem os sacerdotes, e Doegue agiu somente depois de eles se recusarem (). O texto o descreve como executor, e a responsabilidade principal é atribuída ao rei que deu a ordem.
Dizem que:Davi não teve nenhuma participação nem responsabilidade na morte dos sacerdotes.
O próprio Davi admite, em , que sabia que Doegue estava em Nobe e que contaria a Saul, e que foi a causa da morte da casa do sacerdote. O texto, assim, não trata o episódio como simples culpa de Saul e Doegue.
Como diferentes tradições cristãs leem3
Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.
Judaica rabínica
A Mishná (Sanedrin 10:2) inclui Doegue entre os que não têm parte no mundo vindouro, e o Talmude (Sanedrin 106b) o descreve como estudioso de grande saber que usou o conhecimento da Torá para caluniar. A leitura transforma o delator em exemplo de saber sem retidão.
Reformada
Lê o Salmo 52 como oração contra a injustiça de quem usa a língua para destruir, com ênfase na confiança de Davi em Deus, comparado a uma oliveira na casa do Senhor. João Calvino, em seu comentário aos Salmos, destaca a segurança dos justos diante da aparente impunidade dos maus.
Católica
A tradição cristã antiga e católica costuma ler o Salmo 52 (51 na numeração da Vulgata) como lamento contra a calúnia e contra o poder da língua, usado na liturgia das horas. Agostinho, em suas exposições sobre os Salmos, comenta o salmo a partir da figura de Doegue.
O que fazer com isso
Doegue mostra como um fato verdadeiro, dito a quem tem poder e vontade de agir, pode servir à violência. O que ele disse a Saul era em grande parte exato, e o texto, ao mesmo tempo, o descreve sem atenuantes. A passagem também não poupa Davi de reconhecer a parte dele. O relato convida a considerar o que se faz com uma informação, e não só se ela é correta.
Passagens relacionadas8
Fontes consultadas4
- Robert Alter. The David Story: A Translation with Commentary of 1 and 2 Samuel, 1999.
- Ralph W. Klein. 1 Samuel (Word Biblical Commentary), 1983.
- P. Kyle McCarter Jr.. I Samuel (Anchor Bible), 1980.
- João Calvino. Comentário aos Salmos, 1557.
Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.
Perguntas frequentes
Por que Doegue estava em Nobe quando Davi chegou?
O texto diz apenas que ele estava "detido perante o Senhor" (). O sentido exato é incerto: pode indicar um voto, um período de purificação ou um impedimento ritual. A Bíblia não explica a razão da presença dele.
Quantos sacerdotes Doegue matou?
O texto hebraico de diz 85 homens que vestiam o éfode de linho. Outras tradições textuais antigas, como a Septuaginta, trazem número diferente. Além deles, Nobe, a cidade dos sacerdotes, foi destruída com seus habitantes.
O que o Salmo 52 tem a ver com Doegue?
O título do salmo o associa ao episódio: "Quando Doegue, o edomita, veio e informou a Saul". O poema, porém, não cita o nome dele no corpo do texto. A ligação vem do título, cuja antiguidade e valor histórico são discutidos.
O que aconteceu com Doegue depois do massacre?
A Bíblia é silenciosa sobre o destino dele. Sua última aparição é em . O Salmo 52:5 anuncia o juízo sobre o delator, mas sem narrar como isso se cumpriu.