Corá
Quem foi Corá e qual foi a rebelião contra Moisés?
Ficha do personagem
c. séc. XV-XIII a.C., deserto do Sinai
Resposta curta
Corá era um levita da família de Coate, primo de Moisés e de Arão, que liderou no deserto uma revolta contra os dois. Com Datã, Abirão e Om, da tribo de Rúben, e com duzentos e cinquenta chefes da congregação, ele afirmou que "toda a congregação é santa" e perguntou por que Moisés e Arão se colocavam acima do povo ().
Moisés propôs uma prova: no dia seguinte, o Senhor mostraria quem lhe pertencia, e os rebeldes deveriam trazer incensários. A terra se abriu e engoliu Datã, Abirão e os seus; fogo do Senhor consumiu os duzentos e cinquenta que ofereciam incenso. Mas faz uma observação decisiva: "os filhos de Corá não morreram". Descendentes dele, os coreítas, aparecem depois como cantores e porteiros do templo, e vários salmos trazem o título "dos filhos de Corá".
Onde ele aparece
Como isso aponta para Jesus
ContrasteCorá tentou tomar para si uma função sacerdotal que não lhe fora dada. A carta aos Hebreus faz o contraste: "Ninguém toma para si esta honra, senão o que é chamado por Deus, como Arão", e Cristo "não se glorificou a si mesmo para se fazer sumo sacerdote", mas foi chamado por aquele que lhe disse: "Tu és meu Filho" (). Onde Corá se afirmou por conta própria, o Novo Testamento apresenta Cristo como sacerdote que recebe o ofício do Pai. O texto de Números não fala de Cristo, mas o contraste é feito pelo próprio Novo Testamento.
Respaldo no Novo Testamento:
Em palavras simples
Corá era um levita, primo de Moisés e de Arão, que se revoltou contra os dois no deserto. Junto com Datã, Abirão e duzentos e cinquenta chefes do povo, disse que todos em Israel eram santos e que Moisés e Arão não tinham o direito de se colocar acima dos demais. Moisés propôs uma prova diante de Deus. A terra se abriu e engoliu os líderes da revolta, e fogo consumiu os que ofereciam incenso. Os filhos de Corá, porém, não morreram, e vários salmos levam o nome deles.
O mundo dele
A rebelião de Corá ocorre no deserto, depois de Israel ter recusado entrar na terra prometida e ter sido condenado a vagar quarenta anos (). O povo está desgastado, e a autoridade de Moisés e Arão passa por uma crise. A cronologia tradicional situa o êxodo e a travessia do deserto entre os séculos XV e XIII a.C., conforme a data adotada para o êxodo, assunto debatido.
Corá pertencia aos coatitas, o clã levita encarregado de transportar os objetos mais sagrados do tabernáculo, como a arca, a mesa, o candelabro e os altares (). Isso é importante: ele não era um qualquer, mas alguém que já tinha um serviço próximo do santuário. Sua genealogia aparece em : era filho de Isar, filho de Coate. Arão e Moisés eram filhos de Anrão, também filho de Coate, o que faz de Corá primo-irmão de ambos. A disputa tem, portanto, um traço de rivalidade familiar, na qual um ramo do mesmo clã reivindica a posição de outro.
O texto de mistura dois grupos. Corá e os levitas contestam o sacerdócio de Arão; Datã e Abirão, filhos de Eliabe, da tribo de Rúben, contestam a liderança civil de Moisés. Rúben era o primogênito de Jacó, e alguns comentaristas notam que isso pode ter dado a Datã e Abirão uma sensação de direito perdido, embora o texto não o diga. Os coatitas acampavam ao sul do tabernáculo (), o mesmo lado ocupado pela tribo de Rúben (). O texto não explora essa vizinhança, mas ela costuma ser lembrada para explicar como os dois grupos se aproximaram. Ao lado deles, Om, filho de Pelete, também rubenita, é citado no início (16:1) e não reaparece. Os duzentos e cinquenta homens que se uniram a eles são chamados de "príncipes da congregação", varões de renome (16:2).
A história
O argumento de Corá é curto e direto: "Basta! Toda a congregação, todos eles são santos, e o Senhor está no meio deles; por que, pois, vos elevais sobre a assembleia do Senhor?" (). A frase tem base real, já que em Deus chamara Israel de "reino de sacerdotes e nação santa". Moisés, no entanto, desloca a questão: a discussão não é com ele, mas com o Senhor, e quem pertence a Deus será mostrado por uma prova. Ele também lembra aos levitas que já foram separados para servir ao tabernáculo e pergunta: "Procurais também o sacerdócio?" (16:9-10). O conflito central é, portanto, sobre quem pode se aproximar de Deus com incenso.
Datã e Abirão se recusam a comparecer e acusam Moisés de os ter tirado de "uma terra que mana leite e mel", expressão que aplicam ao Egito, para os matar no deserto (16:12-14). Moisés, irado, pede que Deus não aceite a oferta deles. No dia seguinte, a glória do Senhor aparece, e Moisés e Arão intercedem: "Um só homem pecará, e te enfurecerás contra toda a congregação?" (16:22). O povo é mandado afastar-se das tendas de Corá, Datã e Abirão. A terra "abriu a sua boca" e engoliu esses homens, suas casas e seus bens, e eles desceram vivos ao Sheol (16:31-33). Fogo do Senhor consumiu os duzentos e cinquenta (16:35). Os incensários foram batidos em placas para cobrir o altar, como lembrança de que ninguém que não fosse da descendência de Arão devia queimar incenso diante do Senhor (16:36-40).
Há uma ambiguidade narrativa sobre a morte do próprio Corá. O texto não diz com clareza se ele foi engolido com Datã e Abirão ou consumido pelo fogo com os duzentos e cinquenta. afirma que a terra os engoliu "com Corá", e menciona apenas Datã e Abirão. acrescenta o dado central: "Mas os filhos de Corá não morreram". Em e 9, os coreítas aparecem em funções de culto, e os , 44-49, 84, 85, 87 e 88 trazem o título "dos filhos de Corá". cita a "contradição de Corá" como exemplo de rebelião contra a autoridade. Já as filhas de Zelofeade, em , lembram que o pai não participou da revolta de Corá, mas morreu "no seu próprio pecado".
A crise não termina com o juízo. No dia seguinte, a congregação murmura contra Moisés e Arão, acusando-os de terem matado o povo do Senhor, e uma praga mata milhares até que Arão, com o incensário, faz expiação entre os vivos e os mortos (16:41-48). Em seguida, a vara de Arão floresce, como sinal da escolha da família sacerdotal ().
O que costumam dizer errado3
Dizem que:Toda a família de Corá morreu na rebelião.
diz expressamente que os filhos de Corá não morreram. Seus descendentes, os coreítas, aparecem depois em funções de culto (; 9:19), e salmos levam o seu nome.
Dizem que:Corá, Datã e Abirão lideravam o mesmo tipo de revolta.
Em , Corá e os levitas disputam o sacerdócio, enquanto Datã e Abirão, da tribo de Rúben, contestam a liderança de Moisés sobre o povo. O texto reúne as duas queixas, e e lembram apenas Datã e Abirão.
Dizem que:A Bíblia diz com clareza que Corá foi engolido pela terra.
diz que a terra engoliu "todos os homens de Corá" e 16:35 diz que o fogo consumiu os duzentos e cinquenta incensários, mas o texto não define com precisão o fim do próprio Corá, e leitores antigos e modernos divergem.
Como diferentes tradições cristãs leem4
Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.
Judaica rabínica
Em Pirkei Avot 5:17, a disputa de Corá é dada como exemplo de controvérsia que não é "em nome do céu", ao contrário das que buscam a verdade e, por isso, duram. Comentários rabínicos costumam ver que Corá utilizava o argumento da santidade comum para encobrir ambição pessoal.
Patrística e católica
Cipriano de Cartago, em A Unidade da Igreja, cita Corá, Datã e Abirão como advertência contra o cisma e a revolta contra os que Deus colocou à frente do povo. A tradição católica usa o episódio para tratar da ordem do ministério e da unidade.
Reformada
Enfatiza que o ministério e a autoridade são chamados por Deus e não conquistados por pretensão própria, e que a revolta contra os líderes escolhidos é revolta contra o próprio Senhor. Ao mesmo tempo, reconhece que a doutrina do povo santo, apelada por Corá, é verdadeira em outro contexto.
Crítica histórica
Muitos estudiosos veem em uma narrativa composta, que combina uma revolta política de rubenitas e uma disputa sacerdotal de levitas, possivelmente de origens diferentes. O texto final as une como uma só crise de autoridade.
O que fazer com isso
A história de Corá não condena o desejo de proximidade com Deus; condena o modo como ele foi exigido, em confronto com os que Deus havia chamado. O texto também mostra que uma crítica pode ter parte de verdade (a santidade de todo o povo) e, ainda assim, servir a um projeto de poder. O relato fecha com uma nota de graça discreta: os filhos de Corá sobrevivem e passam a cantar. Ele não termina em ruína completa.
Passagens relacionadas8
Fontes consultadas4
- Jacob Milgrom. Numbers (JPS Torah Commentary), 1990.
- Gordon J. Wenham. Numbers (Tyndale Old Testament Commentaries), 1981.
- Cipriano de Cartago. Sobre a Unidade da Igreja Católica.
- Tradição rabínica. Pirkei Avot (Ética dos Pais).
Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.
Perguntas frequentes
Corá era parente de Moisés?
Sim. Pela genealogia de , Coate teve dois filhos que importam aqui: Anrão, pai de Moisés e de Arão, e Isar, pai de Corá. Portanto, Corá era primo-irmão dos dois.
O que aconteceu com os filhos de Corá?
Não morreram na rebelião (). Seus descendentes, os coreítas, aparecem como cantores e porteiros do culto (; 9:19), e os , 44-49, 84, 85, 87 e 88 levam o título "dos filhos de Corá".
Por que Datã e Abirão se recusaram a ir a Moisés?
Eles acusaram Moisés de os ter tirado de uma terra "que mana leite e mel", expressão que usaram para o Egito, para os matar no deserto, e disseram que ele queria dominá-los (). Recusaram-se a subir, e a prova acabou sendo feita sem eles.
O que Judas quer dizer com a "contradição de Corá"?
Em , a carta lista Caim, Balaão e Corá como exemplos de desvio. A "contradição de Corá" remete à rebelião contra Moisés e Arão, usada ali como advertência contra os que se opõem à autoridade legítima na comunidade.