Ceva
Quem foi Ceva na Bíblia?
Ficha do personagem
Cerca de 55 d.C.; Éfeso
Aparece em
Relações
- pai de Os sete filhos exorcistas
- contemporâneo de Paulo
- episódio ligado ao mesmo ambiente de Demétrio, o ourives de Éfeso
- caso comparável ao de Simão, o mago
Resposta curta
Ceva é apresentado em como um "sumo sacerdote judeu" cujos sete filhos faziam parte de um grupo de exorcistas itinerantes em Éfeso, por volta de 55 d.C. Vendo que Paulo expulsava espíritos maus em nome de Jesus, tentaram usar a mesma fórmula: "Esconjuro-vos por Jesus, a quem Paulo prega". O espírito respondeu que conhecia Jesus e Paulo, mas não eles, e o homem possesso os dominou, de modo que fugiram nus e feridos. O próprio Ceva não faz nada na cena; é só o pai que dá nome à família. O episódio fez muita gente em Éfeso temer, engrandecer o nome do Senhor Jesus e queimar livros de magia. O título de sumo sacerdote é difícil de explicar, porque nenhuma lista conhecida de sumos sacerdotes de Jerusalém traz esse nome.
Onde ele aparece
Como isso aponta para Jesus
ContrasteA cena contrasta o nome de Jesus usado como fórmula com o nome de Jesus usado por quem lhe pertence. Os filhos de Ceva falam de "Jesus, a quem Paulo prega", como de um nome emprestado, e o espírito reconhece Jesus e Paulo, mas não eles. No restante de Atos, o nome de Jesus é invocado por quem é seu servo e dele recebe a autoridade (; 16:18). O resultado em Éfeso, porém, não é a glória dos exorcistas, mas a do próprio Senhor: "o nome do Senhor Jesus era engrandecido".
Respaldo no Novo Testamento:
Em palavras simples
Ceva é citado em como um sumo sacerdote judeu que morava em Éfeso, ou pelo menos assim é chamado. Seus sete filhos viajavam expulsando espíritos maus e quiseram usar o nome de Jesus, o mesmo que Paulo pregava. O espírito respondeu que conhecia Jesus e Paulo, mas não eles, e o homem possuído os atacou, e os filhos fugiram feridos e sem roupa. Muitas pessoas em Éfeso ficaram com medo e passaram a respeitar o nome de Jesus.
O mundo dele
se passa em Éfeso, capital da província romana da Ásia e um dos grandes centros do Mediterrâneo oriental. A cidade abrigava o templo de Ártemis () e tinha fama de lugar onde a magia florescia: autores antigos falam das chamadas "letras efésias", fórmulas escritas usadas como amuletos. Paulo permaneceu ali por cerca de dois a três anos (; 20:31), por volta de 52 a 55 d.C., ensinando na sinagoga e depois na escola de Tirano. Lucas informa que Deus fazia por meio dele "milagres extraordinários", e que até lenços e aventais que haviam tocado seu corpo eram levados aos doentes ().
Nesse ambiente circulavam exorcistas judeus ambulantes (). Exorcismo e uso de nomes divinos eram práticas conhecidas no mundo judaico e greco-romano. O historiador Flávio Josefo, por exemplo, descreve um exorcismo atribuído à sabedoria de Salomão (Antiguidades 8.45-49), e papiros mágicos gregos posteriores combinam nomes hebraicos de Deus com outras fórmulas. A tentativa dos filhos de Ceva se encaixa nesse quadro: eles já tinham ofício de exorcistas e viram na expressão "Jesus, a quem Paulo prega" mais um nome poderoso a acrescentar à lista.
Quanto a Ceva, o nome é latino (Scaeva), e Lucas o chama de archiereus, termo grego que costuma ser traduzido por "sumo sacerdote". O problema é que as listas de sumos sacerdotes de Jerusalém conhecidas por Josefo não mencionam nenhum Ceva, e o cargo ficava em Jerusalém, não em Éfeso. As explicações propostas são hipóteses: que ele pertencesse a uma família sacerdotal importante (o Novo Testamento usa o plural "principais sacerdotes" para esse círculo), que o título fosse uma exibição de prestígio dos próprios filhos ou que Lucas reproduza uma informação imprecisa. O texto não permite escolher entre elas. Importa, para a leitura da cena, que Lucas apresenta a família como gente de prestígio religioso: é justamente esse prestígio que torna a derrota mais notada na cidade.
A história
A cena é narrada em poucas linhas. Os filhos de Ceva tentam invocar "o nome do Senhor Jesus" sobre pessoas possessas, dizendo: "Esconjuro-vos por Jesus, a quem Paulo prega" (). A fórmula é reveladora: Jesus é para eles "aquele de quem Paulo fala", um nome emprestado, e não alguém a quem eles mesmos se vinculam. Compare com e 16:18, em que Pedro e Paulo falam em nome de Jesus como quem pertence a ele.
O espírito maligno responde: "Conheço Jesus e sei quem é Paulo; mas vós, quem sois?" (). O possesso salta sobre eles, os domina e os faz fugir da casa "nus e feridos" (). Há um detalhe textual curioso: o grego diz que o homem dominou "ambos", e por isso comentaristas observam que talvez apenas dois dos filhos estivessem presentes na cena, ou que o número "sete" do versículo 14 seja uma tradição variante. O texto não resolve a tensão, e ela não altera o sentido do episódio.
O que se segue é parte essencial da narrativa. A notícia se espalha entre judeus e gregos de Éfeso, e "veio temor sobre todos eles, e o nome do Senhor Jesus era engrandecido" (). Muitos que já criam vêm confessar suas práticas, e vários que haviam praticado artes mágicas trazem seus livros e os queimam em público, num valor calculado em cinquenta mil moedas de prata (). Lucas fecha a seção dizendo que a palavra do Senhor crescia e prevalecia (). A derrota dos exorcistas funciona, na narrativa, como contraste com a autoridade de Paulo e prepara essa conversão em massa.
A lição que o texto transmite é a de que o nome de Jesus não opera como fórmula mágica utilizável por qualquer pessoa. Isso se aproxima do aviso de Jesus em , sobre os que invocam seu nome sem que ele os conheça. Por outro lado, em Jesus não proíbe um exorcista que age em seu nome sem andar com os discípulos, o que mostra que a questão em Éfeso não é falta de filiação formal, e sim o uso do nome como técnica.
As tradições leem o episódio de modos próximos. Os protestantes costumam enfatizar que a eficácia vem da relação de fé com Cristo, e não de palavras. A tradição católica, ao regular o exorcismo, afirma que ele é feito em nome de Jesus com a autoridade confiada pela Igreja (Catecismo, n. 1673). A tradição ortodoxa também insere os exorcismos em orações da comunidade, como nos ritos do batismo. Em todas, o ponto comum é que o nome de Jesus não é um instrumento neutro.
O que costumam dizer errado3
Dizem que:Ceva foi sumo sacerdote em Jerusalém.
Lucas o chama de "sumo sacerdote judeu", mas as listas dos sumos sacerdotes de Jerusalém conhecidas, inclusive por Josefo, não trazem esse nome, e a cena se passa em Éfeso. Não se sabe em que sentido Lucas usa o título.
Dizem que:Ceva foi derrotado pelo demônio na cena de Atos 19.
O texto diz que quem tenta expulsar o espírito são os filhos de Ceva, não ele. Ceva é mencionado apenas como o pai, e nada se diz sobre o que lhe aconteceu.
Dizem que:Os exorcistas falharam porque não eram cristãos batizados, e por isso o exorcismo cristão só funciona se for feito por membro da Igreja.
O texto não discute batismo nem filiação eclesial. Em , Jesus não proíbe um exorcista que agia em seu nome sem andar com os discípulos. O contraste de está no uso do nome de Jesus como fórmula emprestada.
Como diferentes tradições cristãs leem3
Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.
Protestante
Costuma ler o episódio como aviso de que a autoridade espiritual vem da relação pessoal com Cristo e não do domínio de fórmulas. O nome de Jesus não funciona como encantamento, e o uso dele sem fé genuína é ineficaz e perigoso.
Católica
Lê o texto em harmonia com a prática do exorcismo, que o Catecismo (n. 1673) descreve como feito em nome de Jesus Cristo com a autoridade que a Igreja confia ao ministro. O episódio mostra que o exorcismo não é técnica, mas ato ligado a Cristo e à comunidade de fé.
Ortodoxa
Situa o episódio dentro da oração da Igreja, que invoca o nome de Cristo em exorcismos ligados ao batismo e a outros ritos. O contraste entre os filhos de Ceva e Paulo está no vínculo com Cristo e com a comunidade que o confessa, e não na fórmula pronunciada.
O que fazer com isso
O episódio de Éfeso mostra que usar palavras religiosas conhecidas não equivale a ter vínculo com aquilo que elas designam. Os filhos de Ceva sabiam o nome certo, mas falavam dele como de algo de terceiros. O texto não pede julgar ninguém, e sim perceber a diferença entre repetir uma fórmula e pertencer a quem ela nomeia, algo que o próprio relato apresenta sem comentário.
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Fontes consultadas4
- F. F. Bruce. The Book of Acts (New International Commentary on the New Testament), 1988.
- Joseph A. Fitzmyer. The Acts of the Apostles (Anchor Bible), 1998.
- Clinton E. Arnold. Ephesians: Power and Magic, 1989.
- Flávio Josefo. Antiguidades Judaicas.
Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.
Perguntas frequentes
Quantos filhos de Ceva havia na cena?
fala de sete filhos, mas o versículo 16 diz que o possesso dominou "ambos". Por isso comentaristas notam que a cena parece envolver só dois deles. O texto não explica a diferença.
Ceva era mesmo sumo sacerdote?
Lucas o chama assim, mas não há outro registro de um sumo sacerdote com esse nome, e o cargo era exercido em Jerusalém. As explicações possíveis, como parentesco com famílias sacerdotais ou título de prestígio, são hipóteses.
O que aconteceu depois do episódio?
Muitas pessoas em Éfeso ficaram com medo, o nome do Senhor Jesus foi engrandecido, e vários que praticavam magia queimaram seus livros, num valor de cinquenta mil moedas de prata ().