Simão, o mago
Quem foi Simão, o mago, na Bíblia, e por que ele tentou comprar o Espírito Santo?
Ficha do personagem
Samaria, meados do séc. I d.C.
Aparece em
Relações
- convertido sob a pregação de Filipe, o evangelista
- repreendido por Pedro
Resposta curta
Simão era um praticante de magia com grande fama em Samaria: dizia-se que nele se manifestava "o Grande Poder de Deus" (). Quando o evangelista Filipe chegou pregando a Cristo e realizando curas, Simão se impressionou com os sinais, creu, foi batizado e passou a acompanhar Filipe de perto, maravilhado com o que via.
Pouco depois, os apóstolos Pedro e João desceram de Jerusalém e, ao imporem as mãos sobre os novos crentes, estes recebiam o Espírito Santo de modo visível. Vendo isso, Simão ofereceu dinheiro para comprar esse mesmo poder. Pedro reagiu com dureza: sua prata deveria perecer com ele, pois tentara adquirir com dinheiro o que é dom gratuito de Deus. Simão pediu então que Pedro orasse por ele — e o relato termina ali, sem dizer se ele realmente se arrependeu.
Onde ele aparece
O nome
Simão — Aquele que ouve / Deus ouviu — do hebraico shama, "ouvir"
Significado, origem e variantes →Como isso aponta para Jesus
ContrasteO episódio de Simão contrasta duas lógicas incompatíveis: a do mercado, em que poder se compra e se vende, e a da graça, em que o dom mais decisivo de Deus — o próprio Espírito, e por trás dele a salvação em Cristo — é oferecido gratuitamente a quem não tem como pagar por ele. A dureza da resposta de Pedro ecoa o princípio mais amplo do evangelho: a obra de Cristo não pode ser adquirida por mérito, técnica ou dinheiro, apenas recebida pela fé. Nesse sentido, a falha de Simão — tratar o sagrado como mercadoria — é precisamente o tipo de lógica que a cruz de Cristo desmonta, ao apresentar a salvação como dom imerecido e não como troco por serviço prestado.
Respaldo no Novo Testamento:
Em palavras simples
Simão fazia mágica e era muito respeitado em Samaria, a ponto de o povo achar que ele tinha um poder divino. Quando ouviu o pregador Filipe falar de Jesus e viu os milagres que aconteciam, ele acreditou e foi batizado. Mas, tempos depois, tentou pagar aos apóstolos Pedro e João para conseguir o poder de dar o Espírito Santo às pessoas. Pedro o repreendeu duramente, e Simão pediu que orassem por ele. A Bíblia não conta se ele mudou de verdade depois disso.
O mundo dele
Samaria, no primeiro século, era uma região de população mista, historicamente vista com desconfiança pelos judeus da Judeia (), e um ambiente onde práticas de magia e astrologia circulavam livremente entre gregos, sírios e samaritanos. É nesse cenário que Lucas situa Simão: um mago que já gozava de prestígio antes da chegada do evangelho, "tendo assombrado o povo da Samaria" a ponto de ser chamado "o Grande Poder de Deus" (). O termo grego usado para descrever sua prática, mageia, cobria desde ilusionismo até invocações associadas a poderes sobrenaturais — um campo que a Lei mosaica já condenava ().
O episódio ocorre logo depois da perseguição que se seguiu à morte de Estêvão, quando os cristãos de Jerusalém se dispersaram e Filipe, um dos sete escolhidos para servir às mesas (), passou a pregar em Samaria com resultado amplo: multidões creram e foram batizadas, inclusive Simão. A vinda de Pedro e João de Jerusalém para impor as mãos sobre os novos crentes samaritanos tem significado histórico: marca o momento em que a igreja reconhece e confirma a extensão do evangelho a um povo tradicionalmente marginalizado pelos judeus, unindo Jerusalém e Samaria numa só comunidade de fé (compare com ).
É nesse contexto de encontro entre dois mundos — a autoridade apostólica vinda de Jerusalém e a cultura samaritana de poderes espirituais à venda — que a oferta de dinheiro de Simão faz sentido: para ele, o dom do Espírito parecia mais uma técnica poderosa, comparável às que já dominava, do que um presente imerecido de Deus. Lucas não identifica esse Simão com nenhuma outra figura do Novo Testamento; escritores cristãos dos séculos seguintes, como Justino Mártir e Ireneu de Lyon, viriam a atribuir-lhe um papel de destaque como suposto precursor de correntes gnósticas, mas essa tradição é posterior ao texto bíblico e não deve ser confundida com ele.
A história
O relato de é econômico, mas revelador. Antes da chegada de Filipe, Simão já era figura conhecida em Samaria: "todos, desde o menor até o maior, davam-lhe atenção", dizendo que nele estava "o Grande Poder de Deus" (). Era, portanto, alguém acostumado a ser o centro das atenções por meio de prodígios. Quando Filipe chega pregando a Cristo, expulsando espíritos imundos e curando paralíticos e coxos, a cidade se alegra grandemente — e Simão, segundo o texto, "creu também" e foi batizado, passando a acompanhar Filipe, "admirado ao ver os sinais e as grandes maravilhas que se faziam" ().
O ponto de virada vem com a chegada de Pedro e João. Os samaritanos haviam sido batizados em nome do Senhor Jesus, mas ainda não tinham recebido o Espírito Santo de forma visível; os apóstolos oram e impõem as mãos, e o Espírito vem sobre eles. Simão, testemunhando a cena, oferece dinheiro pedindo: "Dai-me também a mim esse poder, para que aquele sobre quem eu impuser as mãos receba o Espírito Santo" (). É esse gesto — tratar o dom de Deus como mercadoria negociável — que dá origem à palavra "simonia", usada desde a Idade Média para designar a compra e venda de cargos ou favores eclesiásticos.
A resposta de Pedro é uma das mais duras de todo o livro de Atos: "Vá tua prata contigo à perdição, pois pensaste que o dom de Deus se obtém com dinheiro. Não tens parte nem sorte neste ministério, porque teu coração não é reto diante de Deus. Arrepende-te, pois, dessa tua maldade, e roga ao Senhor para que, se possível for, o pensamento do teu coração te seja perdoado; pois vejo que estás em fel de amargura e em laços de iniquidade" (). São palavras que colocam em dúvida a sinceridade da fé de Simão, não apenas seu comportamento pontual.
A reação de Simão fecha o episódio de forma ambígua: "Rogai vós por mim ao Senhor, para que nada do que dissestes venha sobre mim" (). Ele não protesta, não nega a acusação, e pede oração — mas o texto bíblico não registra nem arrependimento explícito, nem punição, nem reincidência. Lucas simplesmente segue adiante com a narrativa de Filipe e o eunuco etíope, deixando o desfecho de Simão em aberto. Tradições cristãs posteriores, fora do cânon, elaboraram muito sobre esse personagem, transformando-o num arqui-herege ligado ao gnosticismo — mas isso pertence à história da recepção do texto, não ao relato bíblico em si.
O que costumam dizer errado2
Dizem que:Simão Mago foi o fundador histórico de todas as seitas gnósticas e escreveu tratados contra o cristianismo.
Essa é uma tradição construída séculos depois por escritores como Justino Mártir e Ireneu de Lyon, que usaram a figura de Simão como origem simbólica de heresias posteriores. O texto de Atos não atribui a ele nenhuma doutrina, escrito ou movimento — apenas o episódio da tentativa de comprar o dom do Espírito.
Dizem que:Simão nunca acreditou de verdade; ele fingiu a conversão desde o início para se infiltrar entre os cristãos.
O texto grego de afirma explicitamente que Simão creu (episteusen) e foi batizado, na mesma expressão usada para os demais samaritanos convertidos. A narrativa não descreve fingimento deliberado, mas uma fé que, diante do teste concreto do dinheiro, revelou-se rasa ou mal compreendida — o que é diferente de simulação premeditada.
Como diferentes tradições cristãs leem4
Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.
Católica
Tradicionalmente lê o episódio como evidência de que Simão jamais possuiu fé salvífica genuína, apenas uma adesão exterior aos ritos; a Igreja usou o termo 'simonia' para nomear e condenar formalmente a compra de sacramentos, ordens ou cargos eclesiásticos ao longo de sua história.
Ortodoxa
A tradição oriental preserva memória litúrgica de Simão como figura de advertência contra a cobiça espiritual e, seguindo os padres da Igreja (como Ireneu), tende a vê-lo como ponto de partida simbólico de distorções heréticas posteriores do evangelho.
Protestante Reformada
Enfatiza as palavras de Pedro — 'teu coração não é reto diante de Deus' — como indicação de que a fé de Simão foi apenas intelectual ou circunstancial, não regeneradora; o episódio ilustra a diferença entre crer com assentimento e crer com transformação de coração.
Evangélica Wesleyana/Arminiana
Lê o texto com mais abertura à possibilidade de uma fé real, porém imatura e ainda contaminada por hábitos antigos, que precisava de correção; o convite de Pedro ao arrependimento é lido como oferta genuína de restauração, coerente com uma visão de graça que continua disponível após a queda.
O que fazer com isso
A história de Simão separa dois tipos de reação diante do poder de Deus: encantar-se com os sinais e desejar possuí-los como técnica, ou reconhecer neles um dom gratuito que não se compra nem se controla. O episódio também lembra que impressionar-se com o sobrenatural e ser transformado por ele nem sempre são a mesma coisa — uma distinção que atravessa toda a história da fé cristã, não apenas o caso samaritano.
Passagens relacionadas5
Fontes consultadas5
- F. F. Bruce. The Book of Acts (New International Commentary on the New Testament), 1988.
- I. Howard Marshall. Acts: An Introduction and Commentary (Tyndale New Testament Commentaries), 1980.
- Craig S. Keener. Acts: An Exegetical Commentary, vol. 2, 2013.
- Justino Mártir. Primeira Apologia, 155.
- Ireneu de Lyon. Contra as Heresias, Livro I, 180.
Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.
Perguntas frequentes
Simão Mago realmente se converteu?
O texto de diz que ele creu e foi batizado, como os demais samaritanos. Mas a reação dura de Pedro, ao dizer que seu coração 'não é reto diante de Deus', levanta dúvida sobre a profundidade dessa fé. A Bíblia não resolve a questão de forma definitiva, e por isso tradições cristãs a leem de formas diferentes.
O que é 'simonia'?
É o termo, derivado deste episódio, usado para designar a compra ou venda de cargos, sacramentos ou favores religiosos. A Igreja medieval o consagrou como categoria de pecado grave, justamente em referência à tentativa de Simão de comprar dos apóstolos o poder de conceder o Espírito Santo.
O que aconteceu com Simão depois do episódio em Atos?
O livro de Atos não conta mais nada sobre ele; a narrativa segue para a história de Filipe e o eunuco etíope. Tradições cristãs posteriores, fora da Bíblia, associaram-no a lendas de rivalidade com o apóstolo Pedro em Roma, mas isso não faz parte do relato bíblico.
Simão Mago é o mesmo que Simão Pedro?
Não. São duas pessoas diferentes que aparecem em Atos: Simão Pedro é o apóstolo de Jesus, e Simão, o mago, é o praticante de magia samaritano repreendido por Pedro em . Simão era um nome comum na época.