Samuel
Quem foi Samuel na Bíblia?
Ficha do personagem
Século XI a.C.; Siló, Ramá e Gilgal, em Israel
Resposta curta
Samuel foi o último dos juízes de Israel e o primeiro grande profeta depois de Moisés. Filho de Ana, uma mulher estéril que fez um voto no santuário de Siló, foi entregue ainda criança ao serviço do sacerdote Eli e ouviu a voz de Deus durante a noite. Já adulto, julgou o povo, intercedeu por ele e o conduziu à vitória sobre os filisteus em Mispá.
Quando as tribos pediram um rei, Samuel resistiu, mas acabou obedecendo à ordem divina e ungiu Saul; mais tarde, após a rejeição de Saul, ungiu Davi em Belém. O texto o mostra ao mesmo tempo como juiz, profeta e alguém que oferece sacrifícios, e deixa ver certa ambiguidade em sua relação com a monarquia.
Onde ele aparece
Como isso aponta para Jesus
Ligação indiretaO Novo Testamento não faz de Samuel um tipo de Cristo, mas o situa numa linha profética. Em , Pedro diz que todos os profetas, "de Samuel em diante", anunciaram os dias do Messias, e o inclui entre os que viveram pela fé. A frase de sobre o menino que "ia crescendo e agradando ao Senhor e aos homens" tem eco em a respeito de Jesus, mas o evangelista não faz uma citação direta. Também é Samuel quem unge o rei Davi, de cuja linhagem o Novo Testamento faz descender Jesus ().
Respaldo no Novo Testamento:
Em palavras simples
Samuel foi um menino pedido a Deus por sua mãe, Ana, e criado no santuário de Siló. Ainda criança, ouviu Deus chamá-lo pelo nome e se tornou profeta. Depois foi juiz de Israel e orou pelo povo em tempos de guerra. Quando o povo exigiu um rei, ele ficou contrariado, mas ungiu Saul e, mais tarde, Davi. Com ele termina o tempo dos juízes e começa o tempo dos reis. O livro de 1 Samuel mostra suas qualidades e também os limites de sua história.
O mundo dele
Samuel viveu no século XI a.C., na passagem do período dos juízes, em que, segundo o refrão do livro de Juízes, não havia rei em Israel e cada um agia por conta própria (), para a monarquia. O livro de 1 Samuel o situa em Siló, onde ficava o santuário com a arca da aliança e onde servia o sacerdote Eli, cujos filhos Hofni e Fineias são descritos como corruptos (). Nesse cenário, "a palavra do Senhor era rara" (). Siló aparece, assim, como centro religioso das tribos, e é nesse ambiente fragilizado que a história de Samuel começa. A pressão dos filisteus, que derrotaram Israel em Afeque e capturaram a arca (), agravava a crise política e religiosa.
Samuel nasceu em Ramataim-Zofim, na região montanhosa de Efraim, filho de Elcana e de Ana (). O texto chama Elcana de efraimita, mas o coloca na linhagem levítica dos coatitas, e os estudiosos discutem como harmonizar as duas indicações. O nome do menino é explicado por Ana com o verbo hebraico "pedir" (); como a forma Shemuel não se ajusta facilmente a essa explicação, a etimologia exata é debatida.
Os textos lhe atribuem vários ofícios. Ele é chamado de "juiz" (), de "vidente", termo que o próprio narrador diz ter sido substituído por "profeta" (), e age em funções ligadas ao culto, como oferecer holocaustos () e vestir o efod de linho desde menino (). Seu circuito de julgamento passava por Betel, Gilgal e Mispá, com base em Ramá, onde morou e foi sepultado (; 25:1). Sobre ele, a fonte principal é o próprio livro de 1 Samuel; menções posteriores, como a de Eclesiástico 46 e a de Josefo, dependem dele.
A história
O chamado de Samuel, em , é narrado com delicadeza. O menino dorme no santuário, ouve seu nome três vezes e corre a Eli, pensando que fora ele quem chamou. Só então Eli percebe quem fala e o instrui a responder: "Fala, Senhor, porque o teu servo ouve". A primeira mensagem que recebe é dura, pois anuncia o julgamento da casa de seu mestre, e o texto observa que ele temia contá-la. Ao final, "todo o Israel, de Dã até Berseba" reconhece que Samuel era profeta confirmado ().
Como juiz, Samuel convoca o povo a Mispá, onde há jejum, arrependimento e a eliminação dos ídolos estrangeiros. Quando os filisteus atacam, ele oferece um holocausto e clama ao Senhor, e a vitória é lembrada com a pedra Ebenézer, "até aqui nos ajudou o Senhor" (). Seu governo é apresentado como itinerante e justo. Os filhos que ele nomeou em Berseba, porém, "não andaram pelos seus caminhos" (), e esse fracasso serve de pretexto para a exigência de um rei.
A parte mais debatida de sua trajetória é a monarquia. Em , Samuel se desagrada do pedido, adverte o povo sobre o custo de um rei, e Deus lhe diz: "não te rejeitaram a ti, mas a mim". Em outros trechos, porém, o próprio Deus manda ungir Saul para livrar o povo dos filisteus (), e Samuel o unge em particular (). No discurso de , o pedido é chamado de "maldade", mas a monarquia não é abolida: se rei e povo seguirem o Senhor, tudo irá bem. Parte dos estudiosos explica essa tensão por diferentes fontes ou tradições reunidas pelo redator, favoráveis e contrárias ao reinado; outros veem um único argumento narrativo, em que o problema não é ter rei, e sim querer um rei "como todas as nações" ().
Samuel também precisa confrontar o rei que ungiu. Em Gilgal, anuncia que o reino de Saul não permanecerá, depois que este ofereceu o sacrifício sem esperar por ele (), e em comunica a rejeição definitiva: "obedecer é melhor do que sacrificar". Em seguida, vai a Belém e, entre os filhos de Jessé, unge o mais novo, Davi, aprendendo que Deus olha o coração ().
A cena de , em que uma médium de En-Dor traz Samuel, já morto, diante de Saul, merece cautela. O texto diz que o aparecimento ocorre e que "Samuel" repete o anúncio da queda de Saul, mas não esclarece se é o próprio profeta, uma ilusão ou outro fenômeno. Por isso há leituras diferentes entre judeus e cristãos, como se vê adiante.
O que costumam dizer errado3
Dizem que:Samuel foi sacerdote da linhagem de Arão.
O texto nunca o chama de sacerdote nem o liga à família de Arão. Ele é filho de Elcana, serve sob o sacerdote Eli e age em funções ligadas ao culto, como oferecer sacrifícios, mas é descrito como juiz, vidente e profeta. o coloca na linhagem levítica, sem torná-lo sacerdote aaronita.
Dizem que:Samuel aparece em 1 Samuel 28 e a Bíblia ensina com isso que os mortos podem ser chamados por médiuns.
O relato registra o que ocorreu, sem aprovar a prática. O próprio Saul já havia expulsado os médiuns por causa da lei (), e a legislação os proíbe expressamente (). Quem aparece, e por qual poder, é questão que o texto deixa aberta.
Dizem que:Samuel foi o primeiro profeta de Israel.
A Bíblia já chama Abraão de profeta () e apresenta Moisés, Miriã e Débora com esse título, além de um "homem de Deus" que fala a Eli antes do nascimento de Samuel (). Ele é o primeiro de uma longa linha de profetas que atuam junto à monarquia, não o primeiro profeta.
Como diferentes tradições cristãs leem3
Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.
Judaica
A tradição rabínica o coloca ao lado de Moisés e Arão, a partir de e , como grande intercessor. O Talmude (Bava Batra 14b) lhe atribui a redação de Juízes, Rute e da primeira parte de Samuel. Sobre En-Dor, parte da tradição rabínica aceitou que Samuel de fato apareceu.
Católica e ortodoxa
O livro deuterocanônico do Eclesiástico (Sirácida) elogia Samuel como profeta que, "depois de morrer", ainda falou ao rei (Eclesiástico 46:13-20). A tradição cristã antiga se dividiu sobre En-Dor, entre os que viam uma aparição real, como Orígenes, e os que viam ilusão, como Tertuliano. Ambas as igrejas o veneram como santo e profeta.
Protestante
Muitos autores reformados leem e 12 como advertência contra a rejeição do governo direto de Deus, sem condenar a monarquia em si. Em En-Dor, tende-se a ver ilusão ou engano demoníaco, embora comentaristas evangélicos mais recentes aceitem também a aparição real, sob permissão divina.
O que fazer com isso
A trajetória de Samuel mostra uma autoridade que não se confunde com o poder: ele ouve antes de falar, diz verdades incômodas ao seu mestre, ao povo e ao rei, e continua a interceder por quem contradiz. O texto também não o poupa de limitações, como filhos que não seguiram seu exemplo e uma tensão não resolvida sobre a monarquia. Sua história convida a reconhecer que servir com fidelidade nem sempre garante resultados limpos.
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Fontes consultadas3
- P. Kyle McCarter Jr.. I Samuel: A New Translation with Introduction, Notes and Commentary (Anchor Bible), 1980.
- Walter Brueggemann. First and Second Samuel (Interpretation), 1990.
- Robert Alter. The David Story: A Translation with Commentary of 1 and 2 Samuel, 1999.
Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.
Perguntas frequentes
Samuel foi profeta, juiz ou sacerdote?
O texto o chama de juiz (), vidente e profeta (; 9:9) e o mostra oferecendo sacrifícios. Ele reúne funções que depois ficarão separadas entre rei, sacerdote e profeta, e por isso é visto como figura de transição.
Por que Samuel não gostou do pedido de um rei?
O texto dá dois motivos: o pedido o desagradou () e Deus o interpreta como rejeição de seu governo (). Samuel adverte sobre impostos, serviço militar e confisco de terras, mas o próprio Deus manda atender ao pedido.
Samuel realmente apareceu para Saul em En-Dor?
O texto diz que a mulher viu "um ser divino" subindo da terra e que Saul reconheceu Samuel (). Se foi o próprio profeta, uma ilusão ou outra coisa, é discutido há séculos, e o relato não resolve a questão.
Quem escreveu os livros de Samuel?
O texto é anônimo. A tradição judaica o atribui a Samuel, Natã e Gade, com apoio em , mas a pesquisa moderna considera que os livros foram reunidos por redatores posteriores, a partir de fontes mais antigas.