Sabedoria de Salomão
O que é o livro Sabedoria de Salomão e Salomão realmente o escreveu?
Ficha do documento
- Data provável
- final do século II a início do século I a.C.
- Língua
- grego (língua de composição original)
- Autoria atribuída
- rei Salomão
- Onde se preserva
- Códices Sinaítico, Alexandrino e Vaticano da Septuaginta; traduções latinas antigas incorporadas à Vulgata
A erudição, no entanto, sustenta: autor judeu anônimo de Alexandria, helenizado, identidade desconhecida
Status por tradição
Resposta curta
Sabedoria de Salomão é um tratado sapiencial judaico escrito em grego, atribuído pseudonimamente ao rei Salomão, mas composto na verdade séculos depois de sua morte, provavelmente em Alexandria, no Egito, entre os séculos II e I a.C. A obra se divide em três partes: uma reflexão sobre a justiça divina e o destino dos justos e dos ímpios diante da morte; um elogio da Sabedoria personificada como emanação de Deus presente na criação e na história; e uma releitura teológica do Êxodo, contrastando o castigo dos egípcios com a proteção de Israel. O livro incorpora vocabulário e categorias da filosofia grega, sobretudo estoica e platônica, para expressar convicções judaicas, entre elas uma das formulações mais claras do Antigo Testamento sobre a imortalidade da alma dos justos.
Passagens bíblicas relacionadas
Em palavras simples
Sabedoria de Salomão é um livro que fala como se fosse o rei Salomão pedindo e explicando a sabedoria de Deus, mas foi escrito muito depois dele, já em grego, por um judeu que vivia entre gregos, provavelmente no Egito. O livro ensina que os justos que morrem não são esquecidos por Deus, descreve a Sabedoria como algo que vem diretamente de Deus e reconta a história da saída do Egito mostrando como Deus protegeu seu povo. É uma ponte entre a fé judaica e o pensamento grego da época.
O que o documento conta
Sabedoria de Salomão é hoje reconhecida pela quase totalidade dos estudiosos como obra pseudepígrafa: embora o texto se apresente na primeira pessoa como discurso de um rei (Sabedoria 7-9 evoca claramente a figura de Salomão pedindo sabedoria, em paralelo a ), o vocabulário grego sofisticado, os conceitos filosóficos helenísticos e as referências históricas internas tornam impossível que Salomão, que teria vivido no século X a.C. e escrito em hebraico, seja o autor real. A datação da obra é debatida, mas a maioria dos comentaristas a situa entre o final do século II e o início do século I a.C., num contexto de forte presença judaica na cidade de Alexandria, centro cultural do judaismo helenístico e sede da grande comunidade que produziu a tradução da Septuaginta. Diferentemente de Tobias e Judite, que tiveram originais semíticos perdidos, Sabedoria de Salomão foi composta diretamente em grego, num estilo retórico elaborado que emprega recursos da prosa artística helenística, o que a diferencia estilisticamente de quase todo o restante da literatura sapiencial judaica. Não há fragmentos do livro entre os manuscritos do Mar Morto, e sua transmissão ocorreu por meio dos códices da Septuaginta (Sinaítico, Alexandrino e Vaticano) e de traduções latinas antigas que alimentaram diretamente a Vulgata de Jerônimo, que a incluiu entre os livros sapienciais mesmo reconhecendo sua origem tardia e discutível. O livro nunca fez parte do cânon judaico rabínico, que se fixou em torno de textos hebraicos, mas circulou amplamente entre judeus helenizados da diáspora e, depois, entre cristãos primitivos, que o citaram com frequência como texto de grande autoridade moral e teológica, ainda que sua canonicidade formal só tenha sido definida de modos distintos pelas diferentes tradições cristãs posteriores. A hipótese de composição em Alexandria, embora dominante, não é unânime: alguns estudiosos apontam também para outras comunidades judaicas helenizadas do Mediterrâneo oriental, já que o grego do livro, embora sofisticado, não contém marcadores linguísticos que fixem com absoluta certeza sua origem geográfica. O contexto histórico mais provável é o de tensão entre a comunidade judaica e as autoridades ou a cultura dominante — seja sob os últimos Ptolomeus, seja já sob domínio romano no Egito —, período em que episódios de hostilidade contra os judeus alexandrinos tornaram urgente reafirmar, em termos intelectualmente competitivos com a cultura grega, a superioridade da sabedoria e da fé herdadas de Israel.
Aprofundamento
O conteúdo de Sabedoria de Salomão se organiza tradicionalmente em três seções. A primeira (capítulos 1-5) é um discurso sobre a justiça de Deus e o destino dos justos, afirmando que 'as almas dos justos estão na mão de Deus' (3:1) e que a morte não tem a última palavra sobre eles, uma formulação teológica que representa um dos desenvolvimentos mais explícitos do Antigo Testamento sobre a imortalidade da alma, em contraste com a incerteza mais cética de textos como Eclesiastes. A segunda seção (capítulos 6-9) celebra a Sabedoria personificada, descrita com termos filosóficos gregos como 'sopro do poder de Deus' e 'espelho sem mácula da atividade de Deus' (7:25-26), numa linguagem que estudiosos como David Winston, autor do comentário de referência na coleção Anchor Bible, associam diretamente ao vocabulário estoico e médio-platônico da filosofia helenística contemporânea, sobretudo aos conceitos de emanação (aporroia) e efluxo divino. A terceira e mais longa seção (capítulos 10-19) revisita a história do Êxodo numa releitura teológica que contrapõe sistematicamente as pragas sofridas pelos egípcios às bênçãos correspondentes recebidas por Israel, incluindo uma extensa polêmica contra a idolatria egípcia (capítulos 13-15) que argumenta que 'o início da fornicação é a invenção dos ídolos' (14:12), texto que muitos estudos apontam como pano de fundo direto do argumento de Paulo em sobre idolatria e depravação moral. O debate acadêmico sobre o livro concentra-se em vários pontos: a extensão exata da influência filosófica grega, com autores discordando sobre se o livro deve ser lido primariamente como obra judaica que emprega vocabulário grego instrumentalmente, ou como síntese mais profunda entre judaísmo e filosofia helenística; a unidade literária da obra, já que algumas análises antigas propuseram múltiplos autores para as diferentes seções, hipótese hoje minoritária diante de fortes evidências de unidade estilística e temática; e o público-alvo original, provavelmente judeus helenizados tentados a abandonar a fé ancestral pela cultura dominante, para os quais o autor constrói um argumento apologético sofisticado que reivindica a superioridade da sabedoria judaica sobre a filosofia e a religião pagãs, sem rejeitar por completo as ferramentas intelectuais do mundo helenístico. Outro ponto frequentemente discutido é a relação do livro com a tradição filosófica judaico-alexandrina posterior, sobretudo com Fílon de Alexandria, que também combinaria conceitos platônicos e estoicos à exegese judaica décadas depois; embora não haja dependência literária direta comprovada entre as duas obras, ambas testemunham um mesmo ambiente intelectual em que a comunidade judaica alexandrina buscava articular sua identidade religiosa em diálogo consciente e crítico com a filosofia grega dominante, sem perder de vista a fidelidade à revelação recebida através da Lei e dos profetas de Israel.
O que costumam dizer errado2 afirmações
Dizem que:O rei Salomão realmente escreveu o livro Sabedoria de Salomão.
O vocabulário grego sofisticado, os conceitos filosóficos helenísticos e o contexto histórico interno do texto tornam consenso acadêmico que a obra foi escrita séculos após Salomão, por um autor judeu anônimo que utilizou seu nome como convenção literária de autoridade.
Dizem que:Sabedoria de Salomão é aceita como Escritura canônica por todas as igrejas cristãs.
O livro é deuterocanônico na Igreja Católica e canônico na tradição ortodoxa, mas está fora do cânon nas Bíblias protestantes, que seguem o cânon hebraico, no qual a obra nunca esteve incluída.
Como diferentes tradições leem4 leituras
Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.
Católica
Recebe o livro como Escritura deuterocanônica inspirada, valorizando especialmente sua doutrina da imortalidade da alma e sua cristologia sapiencial antecipada.
Ortodoxa oriental
Trata a obra como canônica e a lê amplamente na liturgia, sobretudo os capítulos sobre a sorte dos justos, associados à esperança da vida eterna.
Protestante
Classifica o livro como apócrifo, reconhecendo seu valor histórico e literário, mas não sua autoridade doutrinária normativa, por não pertencer ao cânon hebraico.
Crítica histórico-filosófica
Lê a obra como síntese judaico-helenística que emprega categorias filosóficas gregas, como emanação e imortalidade, para reafirmar convicções teológicas judaicas diante da cultura dominante.
O que fazer com isso
O livro é uma janela privilegiada sobre como comunidades judaicas helenizadas dialogavam com a filosofia grega sem abandonar sua fé, produzindo categorias teológicas, como a imortalidade da alma e a personificação cósmica da Sabedoria, que ajudam a entender o pano de fundo intelectual de textos do Novo Testamento, sobretudo da cristologia sapiencial e da argumentação de Paulo sobre idolatria em .
Fontes consultadas3 obras
- David Winston. The Wisdom of Solomon: A New Translation with Introduction and Commentary (Anchor Bible), 1979.
- James M. Reese. Hellenistic Influence on the Book of Wisdom and Its Consequences, 1970.
- Maurice Gilbert. La critique des dieux dans le Livre de la Sagesse, 1973.
Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.
Perguntas frequentes
Salomão realmente escreveu Sabedoria de Salomão?
Não; a crítica acadêmica é unânime em datar o livro entre os séculos II e I a.C., muito depois da morte histórica de Salomão, tratando a atribuição a ele como convenção literária de autoridade sapiencial, não como autoria real.
Por que Sabedoria de Salomão não está na Bíblia protestante?
Porque o cânon protestante segue o cânon hebraico rabínico, que nunca incluiu esse livro, composto originalmente em grego e sem qualquer tradição de texto semítico subjacente.
Sabedoria de Salomão fala sobre a vida depois da morte?
Sim, de forma bastante explícita: o livro afirma que as almas dos justos estão na mão de Deus e não são tocadas pela morte, representando um dos ensinos mais claros do período sobre a imortalidade da alma.
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