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Significado Bíblico
Fora da BíbliaEscrito tardiointermediária

Evangelho de Pedro

O que é o Evangelho de Pedro e por que ele não está na Bíblia?

Ficha do documento

Data provável
provavelmente meados a fim do séc. II d.C. (a cópia física achada é um manuscrito posterior, do séc. VI ao IX)
Língua
grego
Autoria atribuída
Atribuído ao apóstolo Pedro (pseudonímia)
Onde se preserva
Um fragmento em grego (o Codex de Akhmim, também chamado P.Cair. 10759), achado no Egito em 1886-1887 e hoje no Museu Egípcio do Cairo; fragmentos gregos menores e mais antigos (P.Oxy. 2949, dos séc. II-III) também sobreviveram entre os papiros de Oxirrinco

A erudição, no entanto, sustenta: Autor anônimo do século II, de identidade desconhecida; não há consenso sobre o local de composição, com Síria e Egito entre as propostas

Status por tradição

Tradição judaicaFora do cânonNão se aplica ao cânon judaico, que trata do Tanakh; o texto é uma composição cristã do século II sobre a morte e ressurreição de Jesus.
Igreja CatólicaFora do cânonNunca foi proposto para o cânon; já no fim do século II foi rejeitado pelo bispo Serapião de Antioquia por conter ensino próximo ao docetismo.
Igreja OrtodoxaFora do cânonTratado desde a Antiguidade como escrito não apostólico e problemático do ponto de vista cristológico, sem uso litúrgico ou canônico.
Ortodoxa EtíopeFora do cânonMesmo o cânon etíope, mais amplo e que inclui outros escritos como 1 Enoque e Jubileus, não inclui o Evangelho de Pedro.
Tradições protestantesFora do cânonRejeitado como não apostólico desde a Antiguidade; não consta em nenhuma lista canônica histórica conhecida.

Resposta curta

O Evangelho de Pedro é um texto cristão do século II que narra a paixão, a morte e a ressurreição de Jesus sob o nome do apóstolo Pedro, embora ele não seja o autor real. Foi redescoberto só em 1886-1887, num túmulo em Akhmim, no Egito. Antes disso, já era conhecido indiretamente: no fim do século II, o bispo Serapião de Antioquia proibiu sua leitura pública ao encontrar nele ensinos que pareciam negar o sofrimento físico real de Jesus.

O fragmento cobre o julgamento, a crucificação e uma ressurreição bem mais espetacular que nos evangelhos do Novo Testamento: soldados veem os céus se abrirem, dois anjos descem, a pedra rola sozinha, e um Jesus gigantesco sai do sepulcro acompanhado de uma cruz que fala. É um retrato valioso de como histórias sobre Jesus continuaram sendo reelaboradas depois do primeiro século.

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Em palavras simples

O Evangelho de Pedro é um texto antigo sobre a morte e a ressurreição de Jesus que usa o nome do apóstolo Pedro, mas foi escrito bem depois dele, provavelmente no século II. Ficou esquecido por muito tempo até ser encontrado dentro de um túmulo no Egito, em 1886. A parte mais chamativa é o final: ao contar a ressurreição, ele descreve um Jesus enorme saindo do túmulo junto com uma cruz que fala e responde a uma voz vinda do céu — um detalhe que não aparece em nenhum dos quatro evangelhos que fazem parte da Bíblia.

O que o documento conta

No inverno de 1886-1887, uma missão arqueológica francesa escavava um cemitério cristão em Akhmim, no Alto Egito, quando encontrou o túmulo de um monge enterrado com um pequeno livro de pergaminho. Dentro dele havia um fragmento de texto que os estudiosos logo identificaram como parte do Evangelho de Pedro, um escrito conhecido até então apenas por menções de autores antigos, nunca lido diretamente pelo mundo moderno. O mesmo códice trazia, encadernados juntos, trechos do Apocalipse de Pedro e de 1 Enoque, outros dois textos fora do cânon bíblico que circulavam entre cristãos egípcios.

A referência mais importante sobre esse evangelho vem do historiador Eusébio de Cesareia, do início do século IV, que registrou um episódio ocorrido cerca de duzentos anos antes. Serapião, bispo de Antioquia por volta de 190-203 d.C., soube que a igreja de Rhossos, na Síria, lia um "Evangelho de Pedro" em seus cultos. A princípio autorizou o uso, supondo que fosse um texto confiável. Depois de examiná-lo com mais cuidado, porém, percebeu que ele continha passagens próximas do docetismo, a ideia de que Jesus só parecia ter um corpo físico e por isso não teria sofrido de fato na cruz. Serapião então proibiu sua leitura pública e deixou por escrito uma lista de objeções, que Eusébio preservou em sua História Eclesiástica.

O fragmento de Akhmim narra parte do julgamento diante de Herodes e Pilatos, a crucificação e uma cena de ressurreição fora do comum, com um Jesus de estatura gigantesca e uma cruz que fala. O texto original era provavelmente mais longo, cobrindo também outros episódios da vida de Jesus, mas o que sobreviveu começa e termina no meio de frases, sinal de que já era uma cópia incompleta. Fragmentos gregos bem menores, achados entre os papiros de Oxirrinco e datados dos séculos II-III, sugerem que cópias do texto circulavam bem antes do exemplar egípcio, o que reforça a hipótese de uma composição ainda no século II.

Aprofundamento

Os estudiosos hoje concordam, de modo quase unânime, que o Evangelho de Pedro não foi escrito pelo apóstolo Pedro. A atribuição a ele é um caso claro do que a crítica bíblica chama de pseudonímia: um recurso comum na Antiguidade, em que um autor posterior assina uma obra com o nome de uma figura de autoridade para lhe dar peso. O texto usa a primeira pessoa ("eu, Simão Pedro") só na parte final que sobreviveu, quando Pedro e outros discípulos saem para pescar depois da festa dos pães ázimos — um detalhe que parece antecipar o relato de , sugerindo que o autor conhecia tradições também usadas pelos evangelhos canônicos, direta ou indiretamente.

Um traço muito discutido é a forma como o texto trata a responsabilidade pela morte de Jesus. Enquanto os evangelhos do Novo Testamento já atribuem parte da culpa às autoridades judaicas, o Evangelho de Pedro vai além: chega a dizer que "dos judeus, ninguém lavou as mãos", nem mesmo Herodes ou seus juízes, isentando Pilatos quase por completo. Historiadores como Raymond E. Brown, em seu estudo clássico sobre os relatos da paixão, apontam esse deslocamento crescente de culpa para os judeus como uma tendência que se intensifica em textos cristãos mais tardios — um padrão relevante para entender o contexto em que certos preconceitos históricos foram se formando, sem que isso implique juízo sobre o judaísmo do período em si.

A cena da ressurreição é o trecho mais lembrado do documento. Nela, soldados que vigiam o túmulo veem os céus se abrirem, dois homens (anjos) descerem, a pedra rolar sozinha e um terceiro homem — de altura descomunal, com a cabeça ultrapassando os céus — sair apoiado pelos outros dois. Uma cruz também sai do túmulo e, a uma voz vinda do céu que pergunta se ele pregou "aos que dormem", responde que sim. É esse tipo de detalhe visual e triunfante, ausente dos quatro evangelhos bíblicos, que faz de textos como este uma fonte importante para observar como a imaginação cristã popular seguiu elaborando a história da ressurreição nas gerações seguintes. O erudito John Dominic Crossan chegou a propor que um núcleo desse relato fosse muito antigo e teria influenciado os evangelhos canônicos, mas essa tese ("Cross Gospel") não convenceu a maioria dos especialistas, que preferem ver o Evangelho de Pedro como dependente das tradições já registradas nos quatro evangelhos, e não o contrário. Essa disputa acadêmica segue em aberto, mas não muda o consenso sobre o texto em si: um fragmento tardio, teologicamente marcado, e não uma fonte independente confiável sobre os eventos históricos da Páscoa.

O que costumam dizer errado2 afirmações
  • Dizem que:O Evangelho de Pedro foi escondido de propósito pela Igreja porque revela o que realmente aconteceu na ressurreição.

    Não há evidência de ocultação deliberada: o texto já era conhecido por menção desde o século II (o bispo Serapião discute-o abertamente por volta de 190-203 d.C.) e simplesmente caiu em desuso, como aconteceu com muitos escritos cristãos antigos que não circularam amplamente. Ele só ficou fisicamente inacessível porque nenhuma cópia completa havia sobrevivido até a descoberta arqueológica de 1886-1887 — falta de sorte na preservação de manuscritos, não conspiração.

  • Dizem que:É o evangelho perdido escrito pelo próprio apóstolo Pedro, com detalhes que os outros evangelhos omitiram.

    O vocabulário, o estilo e a teologia do texto, além de sua provável dependência dos quatro evangelhos já existentes, levam a esmagadora maioria dos estudiosos a datá-lo do século II, décadas depois da morte de Pedro. Atribuir escritos a apóstolos falecidos era uma prática literária comum na Antiguidade, reconhecida pelos próprios cristãos antigos, que por isso mesmo rejeitaram o texto como não apostólico.

Como diferentes tradições leem2 leituras

Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.

  • Igreja antiga (decisão de Serapião de Antioquia, fim do séc. II)

    Rejeitou formalmente o uso litúrgico do texto ao identificar nele ensino docético — a ideia de que Jesus só parecia sofrer fisicamente —, embora o tivesse permitido antes de examiná-lo com cuidado.

  • Tradições cristãs posteriores (católica, ortodoxa, protestante)

    Seguem a mesma avaliação: reconhecem o valor do fragmento para entender a diversidade da literatura cristã primitiva, sem nenhuma pretensão de autoridade canônica.

O que fazer com isso

Conhecer o Evangelho de Pedro ajuda a perceber, por contraste, a sobriedade dos quatro evangelhos canônicos: eles não descrevem a ressurreição em si, nem exploram efeitos espetaculares como um Jesus gigante ou uma cruz falante. Isso é útil ao conversar com alguém que citar "evangelhos escondidos" como se fossem provas alternativas — o caso mostra que a Igreja antiga já discutia abertamente esses textos, e os rejeitou por critérios teológicos e históricos, não por medo do que continham.

Fontes consultadas5 obras
  • Paul Foster. The Gospel of Peter: Introduction, Critical Edition and Commentary, 2010.
  • Bart D. Ehrman. Lost Scriptures: Books that Did Not Make It into the New Testament, 2003.
  • Raymond E. Brown. The Death of the Messiah: From Gethsemane to the Grave, 1994.
  • John Dominic Crossan. The Cross That Spoke: The Origins of the Passion Narrative, 1988.
  • J. K. Elliott. The Apocryphal New Testament, 1993.

Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.

Perguntas frequentes

O apóstolo Pedro realmente escreveu esse evangelho?

Quase nenhum estudioso hoje aceita isso. O texto usa o nome de Pedro para dar autoridade a um escrito composto provavelmente no século II, décadas depois da morte do apóstolo — uma prática comum na literatura antiga chamada pseudonímia.

Por que o Evangelho de Pedro nunca entrou na Bíblia?

Ele já foi examinado e rejeitado ainda na Antiguidade: por volta do ano 200, o bispo Serapião de Antioquia proibiu sua leitura pública ao encontrar nele ensinos próximos do docetismo, que negava o sofrimento físico real de Jesus na cruz.

Onde o texto foi encontrado?

Um fragmento em grego foi descoberto em 1886-1887 num túmulo em Akhmim, no Egito, dentro de um livro que também trazia trechos de outros dois escritos antigos. Ele está hoje no Museu Egípcio do Cairo.

O que há de tão diferente na cena da ressurreição desse texto?

Ao contrário dos quatro evangelhos bíblicos, que não descrevem o instante da ressurreição, o Evangelho de Pedro narra soldados vendo os céus se abrirem e um Jesus de tamanho gigantesco saindo do túmulo acompanhado por uma cruz que fala.

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Publicado em 23/08/2026

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O que foi conferido

  • Citação conferida contra o texto de Bíblia Livre (Textus Receptus)
  • 5 obras citadas, com autor e ano
  • 2 afirmações populares checadas e refutadas
  • 2 tradições cristãs apresentadas lado a lado
  • Editor responsável: Julio Andolfo
  • Revisão teológica: __REVISOR__

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