Pular para o conteúdo
Significado Bíblico
Fora da BíbliaAchado arqueológicointermediária

Cânon de Muratori

O que é o Cânon de Muratori e por que ele importa para o Novo Testamento?

Ficha do documento

Data provável
c. 170-200 d.C. (posição majoritária; hipótese minoritária propõe séc. IV)
Língua
Latim (tradução de um original provavelmente grego)
Onde se preserva
Biblioteca Ambrosiana, Milão, Itália (Codex Ambrosianus, cópia dos séculos VII-VIII)

A erudição, no entanto, sustenta: Autor anônimo, provavelmente um clérigo ou erudito ligado à igreja de Roma no fim do século II (segundo a hipótese alternativa de datação, um autor do século IV em contexto oriental)

Status por tradição

Tradição judaicaFora do cânonNão se aplica: o fragmento é um documento cristão sobre o cânon do Novo Testamento, não uma obra judaica nem parte do Tanakh.
Igreja CatólicaFora do cânonNão é Escritura; é um documento histórico usado como evidência sobre a formação do cânon, nunca proposto para inclusão na Bíblia.
Igreja OrtodoxaFora do cânonMesmo caso: valor histórico como testemunho do uso litúrgico, sem qualquer pretensão de status canônico.
Ortodoxa EtíopeFora do cânonNão incluído no cânon amplo etíope; é lido pela erudição como fonte histórica sobre o Ocidente latino, não como texto sagrado.
Tradições protestantesFora do cânonTratado nas igrejas protestantes exclusivamente como evidência histórica sobre o processo de reconhecimento do cânon do Novo Testamento.

Resposta curta

O Cânon de Muratori é o mais antigo catálogo conhecido dos livros que a igreja de Roma já reconhecia como Escritura cristã. Sobrevive num único fragmento de manuscrito latino, mutilado no início e no fim, copiado nos séculos VII ou VIII, mas cujo conteúdo remonta, segundo a maioria dos estudiosos, ao final do século II. Foi encontrado pelo erudito italiano Ludovico Antonio Muratori numa biblioteca de Milão e publicado em 1740, o que lhe deu o nome.

O texto lista os quatro Evangelhos, Atos, as cartas de Paulo, Judas, cartas de João e o Apocalipse, além de comentar obras então em debate, como o Pastor de Hermas e o Apocalipse de Pedro. Ele mostra que, muito antes de qualquer concílio se pronunciar sobre o assunto, boa parte do Novo Testamento já circulava e era lida com autoridade nas igrejas.

Passagens bíblicas relacionadas

Em palavras simples

O Cânon de Muratori é um pedaço muito antigo de manuscrito que lista quais livros os cristãos de Roma já consideravam parte da Bíblia, lá pelo fim do século II. Foi descoberto só no século XVIII, numa biblioteca de Milão, por um estudioso chamado Muratori. Ele mostra que quase todo o Novo Testamento que conhecemos hoje já era usado e respeitado nas igrejas muito antes de qualquer reunião oficial ter fechado a lista dos livros sagrados.

O que o documento conta

O fragmento leva o nome de Ludovico Antonio Muratori, historiador e bibliotecário italiano que o encontrou na Biblioteca Ambrosiana, em Milão, e o publicou em 1740 dentro de uma coletânea de antiguidades medievais. O manuscrito que sobreviveu é uma cópia latina dos séculos VII ou VIII, cheia de erros de cópia e escrita num latim tosco, o que levou a maioria dos estudiosos a concluir que se trata da tradução de um original grego mais antigo — o próprio texto está incompleto, faltando o início (que provavelmente tratava de Mateus e Marcos) e possivelmente também o fim.

A datação do conteúdo é debatida, mas a posição predominante situa sua composição no final do século II, em Roma. O argumento central é interno: o texto diz que o Pastor de Hermas foi escrito bem recentemente, em nossos dias, enquanto Pio ocupava a cadeira episcopal de Roma — um bispo que serviu por volta de 140 a 155 d.C. Isso colocaria a redação da lista poucas décadas depois, ainda no século II. Uma corrente minoritária de estudiosos, a partir de um argumento de A. C. Sundberg desenvolvido depois por Geoffrey Hahneman, propõe uma origem bem mais tardia, no século IV, e num contexto oriental em vez de romano — o que mudaria o peso histórico do documento.

O documento nasce num momento em que as igrejas cristãs enfrentavam disputas sobre quais escritos podiam ser lidos como autoritativos nos cultos — em parte por causa de movimentos como o de Marcionte, que rejeitava grande parte do que viria a ser o Novo Testamento, e de outros grupos que circulavam evangelhos e cartas próprios. A lista de Muratori não é uma decisão conciliar nem um decreto de autoridade central: é antes um retrato de que livros já gozavam, na prática, de reconhecimento e uso litúrgico numa igreja específica — o tipo de evidência que historiadores usam para reconstruir como o cânon do Novo Testamento foi tomando forma ao longo de gerações, e não numa única assembleia.

Aprofundamento

Apesar de mutilado, o que resta do Cânon de Muratori permite reconstruir boa parte do que a lista continha. O texto começa em pleno relato sobre o terceiro Evangelho — quase certamente Lucas — e o quarto, identificado como João; a menção aos dois primeiros, Mateus e Marcos, provavelmente se perdeu com o início do manuscrito. Segue-se Atos dos Apóstolos, descrito como obra de Lucas que registra os atos de todos os apóstolos num só volume.

Da coleção paulina, o fragmento lista treze cartas, nomeando as sete igrejas a que Paulo escreveu — Corinto, Éfeso, Filipos, Colossos, Gálatas, Tessalônica e Roma — como representando, por analogia com as sete cartas do Apocalipse, a igreja universal, além das cartas pessoais a Filemom, Tito e duas a Timóteo. Também aparecem Judas e duas cartas atribuídas a João (o texto é ambíguo quanto a incluir a terceira). Um detalhe que chama atenção de historiadores é a inclusão da Sabedoria de Salomão, obra que a lista descreve como escrita pelos amigos de Salomão em sua honra — lembrete de que as fronteiras entre categorias de literatura sagrada ainda eram discutidas de formas que não correspondem exatamente às divisões modernas entre Antigo e Novo Testamento, ou entre cânon e apócrifo.

O Apocalipse de João é aceito sem ressalvas. Já o Apocalipse de Pedro aparece com uma nota importante: o autor do fragmento registra que alguns não querem que seja lido na igreja — evidência de que sua aceitação não era unânime. O Pastor de Hermas recebe tratamento semelhante: recomendado para leitura particular e edificação, mas explicitamente excluído da leitura pública e da categoria de escrito profético, por ter sido composto recentemente por Hermas, identificado como irmão do bispo Pio de Roma.

Do lado da rejeição explícita, o texto denuncia como forjadas duas cartas atribuídas a Paulo — aos Laodicenses e aos Alexandrinos —, associando-as à heresia de Marcionte, e recusa escritos ligados a Arsínoo, Valentino e Milcíades, além de hinos produzidos para os seguidores de Marcionte e para os montanistas, chamados no texto de cataphrígios.

Chama atenção o que está ausente do texto sobrevivente: não há menção a Hebreus, Tiago, 1 e 2 Pedro. É possível que essas referências estivessem nas partes hoje perdidas do manuscrito, e não que tenham sido deliberadamente excluídas — lembrete de que argumentar a partir do silêncio de um fragmento danificado exige cautela. O quadro geral, ainda assim, é claro: décadas antes de qualquer concílio tratar formalmente do assunto, uma igreja local já operava com uma lista de livros amplamente sobreponível ao Novo Testamento que conhecemos, debatendo caso a caso os textos de fronteira.

O que costumam dizer errado3 afirmações
  • Dizem que:O Concílio de Niceia (325 d.C.) decidiu quais livros entrariam no Novo Testamento.

    Niceia tratou principalmente da natureza de Cristo e não discutiu o cânon bíblico; documentos como o Cânon de Muratori mostram que boa parte do Novo Testamento já era reconhecida décadas antes desse concílio, e concílios posteriores (Hipona, 393 d.C.; Cartago, 397 d.C.) apenas ratificaram formalmente listas já amplamente aceitas na prática.

  • Dizem que:O Cânon de Muratori é ele mesmo um livro sagrado ou parte da Bíblia.

    É um documento histórico — uma lista comentada de livros —, não um texto de Escritura; nenhuma tradição cristã jamais o tratou como inspirado ou canônico.

  • Dizem que:Antes do século IV a igreja não tinha nenhuma ideia de quais livros eram autoritativos.

    O próprio fragmento, segundo a maioria dos estudiosos escrito ainda no fim do século II, mostra o oposto: uma igreja local já distinguindo, com critérios explícitos, entre livros aceitos, disputados e rejeitados.

Como diferentes tradições leem4 leituras

Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.

  • Católica

    Vê o fragmento como testemunho de um processo de discernimento eclesial guiado pela tradição apostólica; a ratificação formal do cânon em concílios posteriores (Hipona, 393; Cartago, 397) é lida como culminação, não invenção, desse discernimento já em curso no século II.

  • Protestante

    Enfatiza que a lista mostra livros sendo reconhecidos, não conferidos, como autoritativos — evidência de que a autoridade das Escrituras precede e independe de qualquer pronunciamento hierárquico posterior.

  • Ortodoxa

    Observa que a lista de Muratori não coincide exatamente com o cânon final (dúvidas sobre o Apocalipse de Pedro, ausência de menção clara a Hebreus), o que se encaixa na ênfase ortodoxa no cânon como parte de uma tradição viva e gradual, mais que um documento fechado e definitivo já no século II.

  • Ortodoxa Etíope

    Nota que seu próprio cânon mais amplo, formado por um processo distinto no contexto etíope, mostra que a fixação de livros sagrados seguiu trajetórias regionais diferentes na igreja antiga — a lista de Roma foi um caminho entre vários, não o único modelo.

O que fazer com isso

Documentos como o Cânon de Muratori ajudam a entender canonicidade não como um evento único, mas como um processo: livros ganhando reconhecimento pelo uso continuado nas igrejas, muito antes de qualquer decisão formal os ratificar. Vale lê-lo como testemunha de uma etapa desse processo, não como veredito final nem como prova de que tudo já estava fechado no século II. As diferenças entre essa lista e o cânon final lembram que essa história tem camadas, e merece ser conhecida com atenção aos detalhes.

Fontes consultadas4 obras
  • Bruce M. Metzger. The Canon of the New Testament: Its Origin, Development, and Significance, 1987.
  • Geoffrey Mark Hahneman. The Muratorian Fragment and the Development of the Canon, 1992.
  • Joseph Verheyden. The Canon Muratori: A Matter of Dispute (em The Biblical Canons, org. J.-M. Auwers e H. J. de Jonge), 2003.
  • Ludovico Antonio Muratori. Antiquitates Italicae Medii Aevi (publicação original do fragmento), 1740.

Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.

Perguntas frequentes

O Cânon de Muratori é a Bíblia mais antiga que existe?

Não. É um catálogo comentado de livros considerados autoritativos, não um manuscrito bíblico completo. Ele lista títulos e faz observações sobre alguns deles, mas não reproduz o texto integral de nenhum livro.

Onde está o manuscrito hoje?

A cópia que sobreviveu, dos séculos VII-VIII, está guardada na Biblioteca Ambrosiana, em Milão, na Itália, dentro de um códice conhecido como Codex Ambrosianus.

Por que ele tem esse nome?

Em homenagem a Ludovico Antonio Muratori, o erudito italiano que o descobriu na biblioteca de Milão e o publicou pela primeira vez em 1740.

Todos os estudiosos concordam sobre quando ele foi escrito?

Não totalmente. A maioria situa a composição no fim do século II, em Roma, mas uma corrente minoritária argumenta por uma origem no século IV, possivelmente na Síria, o que mudaria bastante sua importância histórica.

Por que faltam livros como Hebreus e Tiago na lista?

Provavelmente porque o início e o fim do manuscrito se perderam, e não porque tenham sido deliberadamente excluídos; o texto que sobrevive começa e termina no meio de frases.

Documentos próximos

Temas

  • #canone-de-muratori
  • #novo-testamento
  • #canone-biblico
  • #historia-da-igreja
  • #manuscrito-antigo
  • #seculo-2

Publicado em 01/09/2026

Construído sobre fontes em domínio público, listadas acima. Como produzimos. Encontrou um erro? Escreva para a redação.

O que foi conferido

  • Citação conferida contra o texto de Bíblia Livre (Textus Receptus)
  • 4 obras citadas, com autor e ano
  • 3 afirmações populares checadas e refutadas
  • 4 tradições cristãs apresentadas lado a lado
  • Editor responsável: Julio Andolfo
  • Revisão teológica por pessoa nomeada — ainda não feita. Enquanto não for, dizemos isso aqui em vez de assinar um nome.

Uma explicação nova por semana

Sem devocional, sem corrente e sem promoção. Só o verbete da semana, com o contexto que normalmente fica de fora. Todo e-mail leva um link para sair, e sair é imediato.