Psychē (Alma, Vida)
O que significa psychē (alma) no Novo Testamento?
A palavra no original
ψυχή
psychē · Strong G5590
Sopro de vida; o ser vivo, a vida de alguém ou a própria pessoa.
Tudo isto ao mesmo tempo
- vida física
- pessoa inteira
- sede da emoção e da vontade
- o eu diante de Deus
- alma dos mortos (uso restrito)
Resposta curta
Psychē (ψυχή) é a palavra grega que as Bíblias em português vertem ora por "alma", ora por "vida", ora por "pessoa". No Novo Testamento ela raramente indica uma parte imortal do ser humano separada do corpo; na maioria dos casos aponta para a vida de alguém, o seu eu inteiro, aquilo que pode ser salvo ou perdido. É o equivalente grego do hebraico nefesh e herda dele grande parte do seu sentido. Textos como , e mostram a variedade de usos, e por isso a palavra exige leitura caso a caso, sem impor de fora a ideia grega de alma imortal.
Onde a palavra aparece
Como isso aponta para Jesus
Ligação indiretaO uso de psychē como "vida" ilumina a obra de Jesus: o Filho do Homem veio "para dar a sua vida (psychē) em resgate por muitos" (), e o bom pastor "dá a sua vida (psychē) pelas ovelhas" (). O que se entrega na cruz não é uma parte de Jesus, e sim ele mesmo, em sua vida inteira. Não se trata de tipologia nem de cumprimento de um termo do Antigo Testamento, mas de um uso do vocabulário que torna mais concreta a entrega pessoal narrada nos Evangelhos.
Respaldo no Novo Testamento: ;
Em palavras simples
Psychē é a palavra grega que a Bíblia traduz como "alma", mas também como "vida" ou "pessoa". Em muitos textos ela não fala de uma parte invisível separada do corpo, e sim da pessoa toda, ou da sua vida. Por isso, "toda alma" pode querer dizer "todo mundo", e "perder a alma" pode querer dizer perder a vida. A palavra vem do hebraico nefesh e precisa ser lida em cada versículo, sem supor que sempre tem o sentido de alma imortal.
De onde vem a palavra
No grego clássico, psychē vem do verbo psychō, "soprar", e designava o sopro de vida que abandona o corpo na morte. Com Platão, sobretudo no Fédon, a palavra passou a nomear a parte racional e imortal do ser humano, aprisionada no corpo e libertada pela morte. Esse é o sentido que muitos leitores modernos trazem ao ler "alma" na Bíblia, e é precisamente o que exige cautela.
O pano de fundo do Novo Testamento é a Septuaginta, a tradução grega do Antigo Testamento, que verte o hebraico nefesh quase sempre por psychē. Com isso, a palavra grega ganhou o campo semântico hebraico: o ser vivo, a vida, o apetite, o próprio indivíduo. O Gênesis diz que o homem se tornou "alma vivente" (), e não que recebeu uma alma. O verbete sobre nefesh trata desse conceito hebraico; aqui interessa o uso no grego do Novo Testamento.
No Novo Testamento, psychē aparece cerca de cem vezes, em usos bem distintos. Pode significar vida física, como em ("não andeis ansiosos pela vossa vida") e em ("o bom pastor dá a sua vida pelas ovelhas"). Pode designar a pessoa inteira, como em ("quase três mil almas") e ("toda alma"), onde "alma" equivale a "pessoa". Pode indicar o centro da emoção e da vontade, como em ("a minha alma está profundamente triste"), ou o ser que ama a Deus "de toda a alma" (). E em alguns textos, como , refere-se aos mortos que aguardam a justiça de Deus. Essa diversidade explica por que as traduções variam: o mesmo vocábulo grego pode virar "alma", "vida" ou "pessoa" conforme o contexto, e nenhuma tradução isolada cobre todo o campo de sentido. Em , o rico conversa com a própria psychē e ouve que ela lhe será exigida naquela noite, uso que equivale quase a "eu".
Aprofundamento
A passagem mais discutida é : "Não temais os que matam o corpo e não podem matar a alma; temei antes aquele que pode fazer perecer na geena a alma e o corpo". À primeira vista, o texto separa corpo e alma e sugere que a alma sobrevive à morte física. Muitos intérpretes leem assim. Outros observam que o verso trata do que os homens podem e não podem fazer: podem tirar a vida presente, mas não o destino diante de Deus, e que o texto fala da destruição de "alma e corpo" juntos na geena, o que não combina com uma alma naturalmente indestrutível. A palavra, portanto, não resolve sozinha a questão, e os dois lados apelam ao contexto.
mostra a flexibilidade do termo. No mesmo trecho, psychē é "vida" ("quem quiser salvar a sua vida a perderá") e "alma" ("que adiantará ao homem ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma?") na maioria das versões, ainda que o grego use a mesma palavra quatro vezes. Quem a traduz por "vida" em todos os casos faz o jogo de palavras ficar claro: aferrar-se à vida para si a faz perder-se; entregá-la por causa de Cristo é ganhá-la. fala da palavra de Deus que penetra até a divisão de alma e espírito; comentaristas costumam ver aí linguagem figurada sobre a profundidade do alcance da palavra, e não um bisturi que separe duas substâncias. Já pede que "o vosso espírito, e alma, e corpo" sejam guardados irrepreensíveis. A frase é a base da tricotomia (ser humano em três partes), mas boa parte dos estudiosos a lê como um modo de dizer "vós por inteiro", em ênfase retórica, assim como enumera coração, alma, mente e força sem pretender listar componentes distintos.
Há três posições principais na história da interpretação. A dicotomia vê o ser humano como corpo e alma (ou espírito), com a alma sobrevivendo à morte à espera da ressurreição. A tricotomia acrescenta o espírito como terceira parte. O monismo holístico, defendido por autores como Joel Green e, em outra chave, Oscar Cullmann, sustenta que a Bíblia pensa a pessoa como unidade, e que a esperança cristã é a ressurreição do corpo, e não a imortalidade natural da alma. O próprio Novo Testamento afirma que há vida consciente depois da morte (; ), de modo que a discussão gira em torno de como descrevê-la, e não de negar a esperança.
O que costumam dizer errado2 afirmações
Dizem que:No Novo Testamento, psychē sempre significa a alma imortal que sobrevive ao corpo.
A palavra é usada para a vida física (), para a pessoa (; ) e para emoções (). O sentido de alma separada, quando ocorre, depende do contexto, como em , e não da palavra em si.
Dizem que:A ideia grega de alma imortal está no Novo Testamento porque ele foi escrito em grego.
O grego do Novo Testamento é moldado pela Septuaginta, que usa psychē para o hebraico nefesh. O sentido de psychē em Platão e o sentido bíblico partem de contextos diferentes e não coincidem automaticamente.
Como diferentes tradições cristãs leem4 leituras
Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.
Católica e ortodoxa
Veem a alma como princípio espiritual criado por Deus, que sobrevive à morte e é reunida ao corpo na ressurreição. é lido como indício dessa distinção, sem negar a unidade da pessoa.
Protestante dicotomista e tricotomista
Muitos protestantes tradicionais entendem que corpo e alma (ou espírito) são partes do ser humano, com a alma sobrevivendo à morte. Os tricotomistas veem como evidência de três partes distintas.
Condicionalista e adventista
Entende psychē como a pessoa vivente (), sem consciência separada do corpo durante a morte. A esperança está na ressurreição, e não em uma alma naturalmente imortal.
Monismo holístico (estudos bíblicos contemporâneos)
Sustenta que a antropologia bíblica é unitária e que as palavras psychē, soma e pneuma descrevem aspectos de uma mesma pessoa. A morte é lida como um estado real, e a esperança, como ressurreição.
O que fazer com isso
Perceber que psychē designa a pessoa inteira muda o modo de ler textos sobre cuidado de si e do outro. Na Bíblia, a vida não se divide em uma parte "espiritual" que importa e uma parte "material" que não importa: corpo, afetos, relações e fé pertencem ao mesmo ser diante de Deus. Isso convida a olhar para as pessoas, e não apenas para suas almas, em sentido restrito, como destinatárias do amor.
Passagens relacionadas7
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Fontes consultadas5 obras
- Bauer, W.; Danker, F. W.; Arndt, W. F.; Gingrich, F. W.. A Greek-English Lexicon of the New Testament and Other Early Christian Literature (BDAG), 2000.
- Cullmann, O.. Immortality of the Soul or Resurrection of the Dead?, 1958.
- Green, J. B.. Body, Soul, and Human Life: The Nature of Humanity in the Bible, 2008.
- Wolff, H. W.. Anthropology of the Old Testament, 1974.
- Louw, J. P.; Nida, E. A.. Greek-English Lexicon of the New Testament Based on Semantic Domains, 1988.
Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.
Perguntas frequentes
Psychē e pneuma (espírito) são a mesma coisa?
Não são sinônimos exatos. Psychē aponta mais para a vida e a pessoa; pneuma, para o espírito, o sopro e a dimensão em que Deus age. Mas há textos em que os dois se aproximam, e a Bíblia não define uma fronteira técnica entre eles.
Por que a Bíblia traduz psychē ora por alma, ora por vida?
Porque a palavra grega cobre mais do que "alma" em português. Em , por exemplo, o mesmo termo aparece quatro vezes, e o tradutor escolhe entre "vida" e "alma". Ler várias versões ajuda a perceber o jogo de sentidos.
Mateus 10:28 prova que a alma é imortal?
Não de forma indiscutível. O versículo distingue o que os homens podem fazer do que Deus pode fazer, e diz que Deus pode destruir alma e corpo na geena. Intérpretes divergem sobre se isso afirma uma alma indestrutível ou aponta para o juízo de Deus sobre a pessoa.
Qual a relação entre psychē e o hebraico nefesh?
A Septuaginta traduz nefesh por psychē na grande maioria das ocorrências, e por isso o Novo Testamento herda boa parte do sentido hebraico: ser vivente, vida, pessoa. Há um verbete próprio para o termo hebraico neste acervo.
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