Pesher (Interpretação nos Manuscritos do Mar Morto)
O que é um pesher nos Manuscritos do Mar Morto?
A palavra no original
פֶּשֶׁר
pesher (pēšer; aramaico pᵉšar)
Interpretação ou solução de um enigma, sonho, visão ou texto profético.
Tudo isto ao mesmo tempo
- interpretação de sonhos e visões
- solução de um enigma
- mistério (raz) revelado por Deus
- comentário bíblico de Qumran
- leitura atualizante dos profetas
Resposta curta
Pesher (פֶּשֶׁר) é uma palavra hebraica, com forma aramaica peshar, que significa "interpretação, solução". Aparece em ("quem conhece a interpretação das coisas?") e, em aramaico, muitas vezes em Daniel, como em 5:26, onde Daniel interpreta a escrita na parede. A palavra ganhou fama no século XX por causa dos Manuscritos do Mar Morto, nos quais designa um tipo de comentário bíblico: os pesharim, que citam um trecho de um profeta ou salmo e explicam, frase a frase, como ele se refere à comunidade de Qumran e a seus inimigos.
Os pesharim não fazem parte da Bíblia. Eles ajudam a ler o Novo Testamento porque mostram uma forma judaica do primeiro século de dizer que as profecias se cumprem "agora". Mas a semelhança com fórmulas como "isto é o que foi dito" () tem limites importantes.
Onde a palavra aparece
Como isso aponta para Jesus
ContrasteO pesher une Qumran e o Novo Testamento numa mesma pergunta: a que se refere o profeta? Os dois leem as Escrituras como promessa que alcança o presente, mas respondem de modo diferente. Em Qumran, a chave é o Mestre da Justiça, intérprete que revela o sentido, mas não aparece como realizador da promessa. No Novo Testamento, a chave é Jesus: em ele declara cumprida a Escritura lida na sinagoga de Nazaré, e em Pedro aplica Joel ao Pentecostes. O contraste esclarece o que o Novo Testamento afirma de próprio, que o cumprimento está em uma pessoa e em sua obra, e não apenas na compreensão de um mestre.
Respaldo no Novo Testamento: ;
Em palavras simples
Pesher é uma palavra hebraica que quer dizer "interpretação". Na Bíblia ela aparece em Eclesiastes e, em aramaico, no livro de Daniel. Nos Manuscritos do Mar Morto, achados em cavernas perto de Qumran, ela dá nome a comentários que explicam os profetas como se falassem dos acontecimentos vividos pela comunidade que escreveu esses textos. Esses comentários não são Bíblia, mas mostram como alguns judeus da época de Jesus liam os profetas e ajudam a comparar com o jeito como o Novo Testamento os lê.
De onde vem a palavra
A raiz peshar, "interpretar", é rara. No hebraico bíblico, o substantivo pesher ocorre só em , na pergunta "quem sabe a interpretação (pesher) de uma coisa?". No aramaico, a forma peshar aparece com frequência em Daniel, sempre ligada à solução de um enigma: o sonho de Nabucodonosor em , a visão da árvore em , as visões de e, em , a escrita na parede: "Esta é a interpretação (peshar) da coisa". Em Daniel, interpretar é decifrar um segredo (raz) que só Deus revela, e o intérprete é alguém a quem Deus concedeu entendimento.
Essa ideia é central para Qumran. Entre os manuscritos achados a partir de 1947 nas cavernas perto do Mar Morto estão os pesharim, comentários que citam um trecho bíblico (o lema) e o introduzem com uma fórmula como "sua interpretação (pishro) é que...". Os mais conhecidos são os comentários a Habacuque (1QpHab, o mais completo), a Naum, a Isaías, a Oseias e aos Salmos. Chamam-se pesharim contínuos quando percorrem um livro versículo a versículo, em contraste com os temáticos, que reúnem textos em torno de um assunto, como o de Melquisedeque (11Q13).
A premissa dos pesharim está expressa em 1QpHab 7: Deus mandou Habacuque escrever o que viria sobre a última geração, mas não lhe revelou quando o tempo se completaria, e a Deus aprouve dar ao Mestre da Justiça o conhecimento de todos os mistérios das palavras de seus servos, os profetas. Em outras palavras, os profetas escreveram sem entender o alcance do que diziam, e a chave do sentido pertence à interpretação inspirada do Mestre.
Os textos falam de figuras designadas por títulos, e não por nomes: o Mestre da Justiça, o Sacerdote Ímpio, o Homem da Mentira e os Kittim, geralmente identificados com os romanos. Quem são, historicamente, essas pessoas continua debatido entre os estudiosos.
Aprofundamento
O método dos pesharim tem traços reconhecíveis. O comentarista toma o texto profético como enigma que fala do tempo do fim, e esse tempo é o presente da comunidade. Ele aplica as palavras a eventos recentes, que para nós seriam dos séculos II e I a.C.: disputas sobre o sacerdócio de Jerusalém, perseguições, a ameaça dos Kittim. Em 1QpHab 2, os "traidores" de são lidos como os que não creram nas palavras do Mestre da Justiça. Em 1QpHab 8, , "o justo viverá pela sua fidelidade", é aplicado aos que cumprem a Torá na casa de Judá, a quem Deus livrará do julgamento por causa de seu trabalho e de sua fé no Mestre. O mesmo versículo é citado por Paulo em e , com outro centro: a fé em Cristo.
A comparação com o Novo Testamento é antiga. O estudioso Krister Stendahl, em 1954, falou de um "tipo pesher" ao descrever a maneira como Mateus cita o Antigo Testamento, e Joseph Fitzmyer e F. F. Bruce estudaram fórmulas parecidas. Há pontos reais de contato: a convicção de que os profetas falavam do "fim dos dias", de que esse fim já tocou o presente e de que o intérprete lê o texto à luz de um evento decisivo. Em , Pedro diz "isto é o que foi dito pelo profeta Joel", e em Jesus diz "hoje se cumpriu esta Escritura". Os dois textos aplicam a profecia ao agora.
Mas as diferenças pesam. Primeiro, o centro. Nos pesharim, a chave é o Mestre da Justiça, intérprete inspirado, mas que não aparece como Messias, salvador ou objeto de culto. No Novo Testamento, a chave é Jesus, cujo ato decisivo, morte e ressurreição, realiza as promessas e não apenas as explica (). Segundo, a forma. O pesher é, em geral, um comentário contínuo que segue o livro; as citações do Novo Testamento são pontuais e inseridas em narrativas, cartas e sermões. Terceiro, os pesharim leem a história de um grupo sectário, que se via como resto fiel e separado, enquanto o Novo Testamento aplica o cumprimento a uma comunidade que se abre também aos gentios.
Por isso, a conclusão prudente é que "pesher" descreve bem o que se faz em Qumran e serve como termo de comparação para alguns usos do Novo Testamento, mas chamar Mateus ou Atos de "pesher" sem ressalva confunde duas práticas que compartilham um clima de época, e não um método único.
O que costumam dizer errado3 afirmações
Dizem que:Os pesharim dos Manuscritos do Mar Morto são livros da Bíblia ou textos bíblicos alternativos.
São comentários sectários que citam trechos bíblicos e os explicam. Estão entre os manuscritos achados em Qumran, mas nunca foram incluídos em nenhum cânon, nem pela comunidade que os escreveu nem pelas tradições judaica e cristã.
Dizem que:O Mestre da Justiça de Qumran é Jesus, ou os pesharim falam de Jesus.
Os pesharim são anteriores ao cristianismo, em geral do século I a.C., e falam de um líder da comunidade essênica, sem morte redentora nem ressurreição. A comparação com Jesus é possível, mas identificá-los não tem respaldo nos textos.
Dizem que:Mateus e os outros autores do Novo Testamento usavam pesher exatamente como em Qumran.
Há semelhança de clima, a crença de que os profetas falam do fim e do presente. Mas o Novo Testamento não escreve comentários contínuos, e o centro da interpretação é Jesus, não um Mestre da Justiça. Chamar tudo de pesher apaga essa diferença.
Como diferentes tradições cristãs leem3 leituras
Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.
Estudos acadêmicos dos Manuscritos do Mar Morto
Veem os pesharim como exegese atualizante de uma comunidade sectária, provavelmente essênica, que lê os profetas como mapas da história da própria seita e dos poderes do seu tempo.
Judaísmo rabínico
Desenvolveu, depois, o midrash, que também interpreta o texto para o presente, mas em contexto de debate aberto entre mestres e sem a ideia de que um líder único detém a chave dos mistérios proféticos.
Exegese cristã do Novo Testamento
Compara o pesher com as citações do Antigo Testamento no Novo e reconhece pontos de contato, mas afirma que o cumprimento em Cristo tem caráter próprio e não é mera analogia com a seita de Qumran.
O que fazer com isso
O pesher mostra como é fácil ler um texto antigo como se falasse diretamente de nós e de nossos adversários. Qumran fez isso com convicção, e o resultado foi um mapa de aliados e inimigos que não podemos confirmar hoje. Ao ler profecias, vale distinguir o que o texto afirma em seu contexto do que um intérprete decidiu aplicar, e perguntar se a aplicação tem respaldo no próprio texto ou apenas na urgência de quem lê.
Passagens relacionadas8
Toque numa referência para ler o texto sem sair da página.
Fontes consultadas6 obras
- Horgan, M. P.. Pesharim: Qumran Interpretations of Biblical Books, 1979.
- Bruce, F. F.. Biblical Exegesis in the Qumran Texts, 1959.
- Stendahl, K.. The School of St. Matthew and Its Use of the Old Testament, 1954.
- Fitzmyer, J. A.. Essays on the Semitic Background of the New Testament, 1971.
- Brooke, G. J.. Exegesis at Qumran: 4QFlorilegium in Its Jewish Context, 1985.
- Vermes, G.. The Complete Dead Sea Scrolls in English, 1997.
Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.
Perguntas frequentes
Pesher aparece na Bíblia?
Sim, mas pouco. Em hebraico, a palavra pesher ocorre em . Em aramaico, a forma peshar aparece várias vezes em Daniel, como em 2:4 e 5:26, sempre no sentido de interpretação de um sonho, visão ou escrita misteriosa.
O que são os pesharim?
São comentários encontrados entre os Manuscritos do Mar Morto, que citam trechos de profetas e salmos e explicam como se aplicam à comunidade de Qumran e a seus adversários. Os mais completos são o comentário a Habacuque e os de Naum e dos Salmos.
Pesher é o mesmo que midrash?
Não. Os dois interpretam textos antigos para o presente, mas o pesher de Qumran liga o texto profético a uma história concreta, da seita e de seus inimigos, enquanto o midrash rabínico é um gênero mais amplo, ligado ao debate dos mestres e a coleções posteriores.
O Novo Testamento usa o método do pesher?
Há semelhanças, como a ideia de que os profetas falam do tempo presente em que vivem os intérpretes. Mas o centro do Novo Testamento é Jesus, e as citações são pontuais, não comentários contínuos. É mais exato falar de paralelos do que de um método igual.
Palavras próximas
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