Mystērion (Mistério)
O que significa mystērion (mistério) na Bíblia?
A palavra no original
μυστήριον
mystērion · Strong G3466
Segredo ou plano antes oculto, que agora é dado a conhecer por revelação.
Tudo isto ao mesmo tempo
- plano oculto de Deus
- revelação e manifestação
- conhecimento dado, e não conquistado
- evangelho e inclusão dos gentios
- contraste com os ritos secretos de iniciação
Resposta curta
Mystērion (μυστήριον) é a palavra grega traduzida por "mistério" no Novo Testamento, e seu sentido bíblico é quase o oposto do uso comum em português. Hoje "mistério" sugere algo inexplicável; no grego bíblico, designa um plano de Deus que esteve oculto e que agora foi revelado e deve ser anunciado. Jesus diz aos discípulos que a eles foi dado conhecer "os mistérios do reino dos céus" (). Paulo aplica o termo ao evangelho, à inclusão dos gentios e a "Cristo em vós, a esperança da glória" (). O contraste com os cultos de mistério pagãos, de iniciação secreta, ajuda a ver por que o Novo Testamento fala de um mistério feito para ser proclamado.
Onde a palavra aparece
Como isso aponta para Jesus
Cumprimento diretoNos textos de Paulo, o mistério antes oculto tem um centro: Cristo. identifica o mistério com "Cristo em vós, a esperança da glória", e o descreve como a inclusão dos gentios em Cristo Jesus por meio do evangelho. O que Daniel apresentava como um plano que somente Deus podia revelar aparece, no Novo Testamento, como já manifestado na pessoa e na obra de Jesus.
Respaldo no Novo Testamento: ;
Em palavras simples
Na Bíblia, "mistério" não quer dizer algo impossível de entender. A palavra grega mystērion fala de um plano de Deus que ficou escondido por muito tempo e depois foi mostrado ao povo. O Novo Testamento diz que esse plano agora é conhecido: Cristo, o evangelho e a união de judeus e não judeus numa só família. Os cultos pagãos de mistério guardavam segredos para poucos iniciados; o mistério bíblico, ao contrário, foi feito para ser anunciado a todos.
De onde vem a palavra
No mundo grego, mystērion (plural mystēria) designava sobretudo os ritos dos cultos de mistério, como os de Elêusis, em honra a Deméter e Perséfone, ou os de Ísis e de Mitra em época romana. Os iniciados (mystai) participavam de cerimônias reservadas e se comprometiam a calar o que viam e ouviam. A palavra costuma ser relacionada ao verbo myō, "fechar" (os lábios ou os olhos), embora a etimologia seja discutida. Para um leitor grego, portanto, o termo evocava conhecimento restrito a poucos eleitos.
Os autores do Novo Testamento, porém, não tomaram o sentido principalmente dali. A ponte mais direta é a Septuaginta de Daniel (2:18-19, 27-30, 47), em que mystērion traduz o aramaico raz, o plano oculto do rei que nenhum sábio babilônico conseguia desvendar e que somente o Deus do céu revela. O mesmo termo raz aparece com frequência nos textos de Qumran, ligado aos desígnios de Deus para a história. O pano de fundo, então, é judaico e profético: Deus guarda um propósito e, no tempo certo, o desvela.
No Novo Testamento a palavra ocorre quase trinta vezes, a maioria nas cartas de Paulo. Nos Evangelhos aparece em , e , quando Jesus explica a quem foi dado conhecer os mistérios do reino. Nas cartas, o conteúdo é cada vez mais definido: o evangelho pregado (), a sabedoria de Deus "oculta" que os poderosos deste século não conheceram (), a transformação dos corpos na ressurreição (), a união de judeus e gentios num só corpo () e Cristo habitando entre os gentios (). Há também usos negativos, como o "mistério da iniquidade" em e a Babilônia "mistério" de . O padrão que se repete é o de algo antes calado, agora manifesto e confiado a mensageiros.
Aprofundamento
O ponto filológico central é que mystērion, no Novo Testamento, quase nunca descreve o que permanece incompreensível, e sim aquilo que foi desvendado. reúne os três tempos da ideia em uma só frase: o mistério "guardado em silêncio durante tempos eternos", "agora manifesto" e "dado a conhecer a todas as nações". e repetem o esquema com os verbos "revelar" e "manifestar", e acrescenta que Deus o revelou "por meio do Espírito". Quem ouve a palavra pensando em enigma insolúvel lê o texto ao contrário do que ele diz.
A maior diferença para os cultos de mistério está justamente aí. Naqueles ritos, o segredo era condição de pertencimento: a iniciação separava quem sabia de quem não sabia, e o iniciado jurava silêncio. No Novo Testamento, o mistério existe para ser publicado: Paulo pede oração para dar a conhecer "o mistério do evangelho" com ousadia (), e fala de anunciá-lo com clareza. Isso não significa que o vocabulário seja imune ao ambiente grego, e alguns estudiosos veem ecos da linguagem dos cultos em Paulo; mas a estrutura de ocultamento seguido de revelação e a base em Daniel apontam para o pano de fundo judaico, tese defendida por Raymond Brown em seu estudo sobre as raízes semíticas do termo.
Outro ponto é o conteúdo do mistério. Em o texto o define: os gentios são coerdeiros e membros do mesmo corpo. Em , o centro é "Cristo em vós". Em , Paulo chama de "grande mistério" a união de Cristo e da igreja, a que o casamento alude. Essa última passagem pesou na história da palavra: a Vulgata traduziu mystērion por sacramentum nessa passagem e em outras de Efésios e de 1 Timóteo, e daí vem parte da ligação, na tradição latina, entre "mistério" e "sacramento". Já a tradição oriental manteve o termo grego e chama os sacramentos de "santos mistérios". Há ainda a imagem de , em que os apóstolos são chamados "despenseiros dos mistérios de Deus": quem administra algo recebido, e não o inventor do que administra. Em , por outro lado, quem fala em línguas sem interpretação "em espírito fala mistérios", e o contexto exige que o que se diz seja compreensível para edificar. Em todos os casos, o texto bíblico não usa a palavra para falar do que a mente humana jamais alcançará, ideia que existe no cristianismo (), mas expressa por outras palavras, e não por mystērion.
O que costumam dizer errado2 afirmações
Dizem que:Mistério, na Bíblia, quer dizer algo que ninguém consegue entender.
Nas passagens centrais (; ; ), mystērion é o que esteve oculto e foi revelado. O texto insiste em verbos como "manifestar" e "dar a conhecer", e o mistério é objeto de pregação.
Dizem que:O Novo Testamento copiou a ideia de mistério dos cultos pagãos de iniciação.
A palavra existia no mundo grego, mas o uso bíblico se explica melhor pelo raz de Daniel e dos textos judaicos, em que Deus revela seus planos. Além disso, o mistério cristão é anunciado a todos, sem juramento de silêncio nem graus de iniciação.
Como diferentes tradições cristãs leem4 leituras
Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.
Protestante e evangélica
Entende mystērion como verdade antes oculta e agora revelada no evangelho, sobretudo a salvação de judeus e gentios em Cristo. O foco recai sobre a clareza da revelação e sobre o dever de proclamá-la.
Católica
Mantém essa leitura e acrescenta a ligação com os sacramentos, a partir de e da tradução latina sacramentum. O mistério de Cristo continua a ser comunicado de modo real na vida litúrgica da Igreja.
Ortodoxa oriental
Chama os sacramentos de "santos mistérios" e acentua que o mistério de Deus é participado, e não esgotado pela razão. A liturgia é o lugar em que o fiel é introduzido no que foi revelado em Cristo.
Dispensacionalista
Lê como indicação de que a igreja, corpo formado de judeus e gentios em pé de igualdade, era um "mistério" não revelado em outras épocas. Outras tradições respondem que o Antigo Testamento já previa a bênção das nações e que o novo é a forma de sua realização.
O que fazer com isso
Entender mystērion corrige uma desculpa comum: chamar de "mistério" tudo o que não se quer estudar. Na Bíblia, a palavra aponta para o que Deus decidiu tornar conhecido, e por isso convida à leitura atenta, em vez de dispensá-la. Ao mesmo tempo, reconhece que o que sabemos veio como dádiva, e não por esforço próprio, o que pede gratidão e humildade, sem soberba de iniciado.
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Fontes consultadas5 obras
- Brown, R. E.. The Semitic Background of the New Testament Mysterion, 1968.
- Bauer, W.; Danker, F. W.; Arndt, W. F.; Gingrich, F. W.. A Greek-English Lexicon of the New Testament and Other Early Christian Literature (BDAG), 2000.
- Kittel, G.; Friedrich, G. (orgs.). Theological Dictionary of the New Testament (verbete mysterion), 1964.
- Louw, J. P.; Nida, E. A.. Greek-English Lexicon of the New Testament Based on Semantic Domains, 1988.
- Strong, J.. Strong's Exhaustive Concordance of the Bible, 1890.
Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.
Perguntas frequentes
Mystērion significa "segredo"?
Em parte. O termo indica algo que esteve oculto, mas no Novo Testamento o foco está na revelação: o que era segredo foi desvendado por Deus e deve ser anunciado. Por isso, "segredo revelado" traduz melhor o uso bíblico do que "enigma".
Quais são os "mistérios do reino" de Mateus 13:11?
Jesus se refere às verdades sobre o reino de Deus que as parábolas de ensinam, como o seu crescimento discreto e o seu desfecho. Ele diz que isso foi dado aos discípulos conhecer, enquanto para outros permanece em parábolas.
Qual é o "mistério" de Efésios 3?
O próprio texto o define em : os gentios são coerdeiros, membros do mesmo corpo e coparticipantes da promessa em Cristo Jesus, por meio do evangelho.
O mistério bíblico tem relação com os cultos de mistério gregos?
A palavra é a mesma e há pontos de contato vocabulares, mas o conteúdo e a função são diferentes. O mistério bíblico tem raiz judaica (Daniel) e é feito para ser proclamado, sem sigilo de iniciados.
Palavras próximas
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