Martys (Testemunha, Mártir)
Qual a origem da palavra mártir: o que significa martys no grego?
A palavra no original
μάρτυς
mártys · Strong G3144
Testemunha: aquele que viu ou ouviu algo e o atesta, em especial diante de um tribunal.
Tudo isto ao mesmo tempo
- testemunha ocular
- testemunha jurídica
- atestar publicamente uma verdade
- missão e proclamação
- sofrimento e morte pelo testemunho
Resposta curta
Martys (μάρτυς) é a palavra grega para testemunha: aquele que viu, ouviu ou conhece algo e o atesta, sobretudo diante de um tribunal. É o termo de , "sereis minhas testemunhas", e de , que chama Antipas de "minha testemunha fiel". A palavra portuguesa "mártir", que designa quem morre por sua fé, vem dela por empréstimo do latim, mas esse sentido é posterior: no Novo Testamento martys quer dizer, na imensa maioria dos casos, simplesmente testemunha. A passagem de "quem testemunha" para "quem morre por testemunhar" aconteceu aos poucos, na experiência das perseguições, e alguns textos do próprio Novo Testamento, como e 17:6, são lidos por alguns estudiosos como ponto de transição.
Onde a palavra aparece
Como isso aponta para Jesus
Trajetória do textoO Novo Testamento aplica a Jesus o título de testemunha fiel (; 3:14), e diz que ele deu "o bom testemunho" diante de Pôncio Pilatos. A missão de testemunhar em parte dele: os discípulos testemunham o que ele fez e ensinou e ressuscitou. O arco que vai de , "vós sois as minhas testemunhas", até a igreja de Atos passa por Cristo como o testemunho central, e os cristãos são testemunhas dele, não de si mesmos.
Respaldo no Novo Testamento: ;
Em palavras simples
Martys é a palavra grega para testemunha, a pessoa que viu ou ouviu algo e conta o que sabe, como numa audiência. Em , Jesus diz que os discípulos serão suas testemunhas. A palavra portuguesa mártir vem dela, mas no Novo Testamento ela quase sempre significa só testemunha. Com o tempo, como muitos cristãos foram mortos por causa do que testemunhavam, a palavra passou a designar quem morre pela fé. O verbete mostra como essa mudança de sentido aconteceu e por que ela importa ao ler o texto.
De onde vem a palavra
No mundo grego, martys era um termo de vida jurídica e cotidiana. Designava a pessoa que podia declarar o que sabia sobre um fato: quem tinha presenciado um contrato, um crime, uma promessa. A Bíblia grega herdou esse sentido. A lei de Moisés exige duas ou três testemunhas para que uma acusação seja válida (), e Jesus retoma a regra em . A ideia de testemunho está sempre ligada a um fato visto ou ouvido, e ao risco de falar a verdade diante de outros.
O Novo Testamento usa a palavra em vários contextos. Em , Jesus diz aos discípulos que eles são testemunhas do que aconteceu, isto é, da paixão e da ressurreição. Em , a promessa do Espírito vem acompanhada da missão: "sereis minhas testemunhas em Jerusalém, em toda a Judeia, em Samaria e até os confins da terra". Em , quem substitui Judas deve ser alguém que acompanhou Jesus desde o batismo e se torne "testemunha da ressurreição". A palavra nomeia, assim, a função de testemunhas oculares e dos que levam adiante o que elas contaram.
O ambiente de perseguição aparece com força em , em que Paulo recorda que Estêvão, "tua testemunha", teve o sangue derramado; em , onde Antipas, "minha testemunha, o fiel", foi morto em Pérgamo; e em , que fala de uma mulher embriagada com o sangue dos santos e "das testemunhas de Jesus". Nesses textos, a linha entre testemunhar e sofrer a morte por isso fica estreita. fala de uma "nuvem de testemunhas" que cerca os fiéis: aqui são os heróis da fé do capítulo anterior, que testemunham pela fé que tiveram, e não observadores do alto.
As palavras da mesma família reforçam o quadro. O verbo martyreo (testemunhar, dar testemunho) e o substantivo martyria (testemunho) são muito frequentes no evangelho e nas cartas de João, onde o testemunho acerca de Jesus é um dos grandes temas. O próprio Jesus recebe o título de "testemunha fiel" em e 3:14.
Aprofundamento
O substantivo μάρτυς (Strong G3144) tem, segundo se costuma propor, raiz ligada à ideia de lembrar ou recordar (a etimologia não é certa), e essa hipótese combina com bem seu sentido básico: martys é quem guarda na memória e declara o que sabe. Léxicos como o BDAG e o artigo clássico de Strathmann no Theological Dictionary of the New Testament descrevem três usos no Novo Testamento: o jurídico (alguém que atesta fatos num processo, como em e ), o de testemunha de um fato histórico (as testemunhas da ressurreição em e 2:32) e o de alguém que atesta publicamente uma verdade, ainda que ao custo de sofrimento.
A mudança para o sentido de "mártir" é um desenvolvimento do cristianismo antigo. Estudiosos como Trites, em seu livro sobre o conceito de testemunho no Novo Testamento, e Boyarin, em um estudo sobre o martírio nas origens do cristianismo e do judaísmo, mostram que o uso de martys para quem morre por sua fé se consolida nos séculos II e III, em textos como o Martírio de Policarpo, e que o termo grego foi simplesmente transliterado para o latim martyr. No Novo Testamento, os estudiosos se dividem sobre se alguns textos já apontam para esse sentido. , em que Antipas é chamado de "minha testemunha" e foi morto, e são os casos mais discutidos; também. Quem defende o sentido de "mártir" nesses versículos costuma admitir que ele é emergente, não técnico. Quem o recusa lembra que a morte foi consequência do testemunho, e não parte do significado da palavra.
Uma observação importante para a leitura em português: se lermos como "sereis meus mártires", no sentido moderno, o texto perde seu sentido original e passa a prometer morte onde promete missão. Por outro lado, se lermos apenas como "testemunha" e esquecermos que Antipas foi morto, deixamos de ver como o testemunho e o preço se aproximam no livro do Apocalipse.
É útil comparar com o hebraico, em que "testemunha" é ed (עֵד), da mesma raiz de edut, "testemunho", e que a Septuaginta traduz em geral por martys. diz a Israel: "vós sois as minhas testemunhas", e esse pano de fundo ilumina a missão dada à igreja em : testemunhar não é só repetir uma doutrina, mas declarar diante do mundo o que Deus fez. A fórmula tem fundamento histórico, porque os apóstolos se apresentam como testemunhas oculares, ponto que Richard Bauckham explorou em seu estudo sobre os evangelhos e o testemunho ocular.
O que costumam dizer errado2 afirmações
Dizem que:Mártir já significa quem morre pela fé no Novo Testamento.
No Novo Testamento martys é, na grande maioria dos casos, "testemunha". O sentido técnico de quem morre por sua fé se consolida depois, nos séculos II e III. Alguns textos, como , são discutidos como pontos de transição, mas a maioria dos usos é de testemunho ocular ou jurídico.
Dizem que:Em Atos 1:8 Jesus prometeu que os discípulos seriam mártires.
O texto promete testemunhas, no sentido de quem atesta o que viu e ouviu. Que muitos deles tenham sofrido morte violenta é história posterior; a frase de Jesus trata de missão e de alcance geográfico do testemunho.
Como diferentes tradições cristãs leem3 leituras
Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.
Católica e ortodoxa
Reconhecem na tradição dos mártires um desenvolvimento legítimo do sentido de martys, e honram quem morreu pela fé como testemunha em sentido pleno, ligado a Cristo, a testemunha fiel por excelência.
Protestante evangélica
Tende a enfatizar o sentido original de testemunho verbal e de vida em , e vê o martírio como forma extrema, não necessária, desse testemunho; alguns estudiosos aceitam um sentido emergente de mártir em .
Histórico-crítica
Distingue o uso do Novo Testamento, em geral de testemunha, do sentido técnico de mártir que surge no cristianismo do século II, e vê em textos como uma fase de transição, não um uso já consolidado.
O que fazer com isso
Antes de significar morrer por algo, martys significa dizer o que se viu e ouviu. Isso muda o peso da palavra no cotidiano: testemunhar é contar com honestidade o que se conhece, sem inflar nem esconder. Em momentos raros, esse testemunho custa caro, e o próprio Novo Testamento reconhece essa possibilidade, sem fazer do sofrimento um objetivo em si nem prometer isso a todos.
Passagens relacionadas7
Toque numa referência para ler o texto sem sair da página.
Fontes consultadas5 obras
- Danker, F.W. (ed.). A Greek-English Lexicon of the New Testament and Other Early Christian Literature (BDAG), 3ª ed., 2000.
- Strathmann, H.. Artigo "martys", em Kittel, G.; Friedrich, G. (eds.), Theological Dictionary of the New Testament, vol. 4, 1967.
- Trites, A.A.. The New Testament Concept of Witness, 1977.
- Boyarin, D.. Dying for God: Martyrdom and the Making of Christianity and Judaism, 1999.
- Bauckham, R.. Jesus and the Eyewitnesses: The Gospels as Eyewitness Testimony, 2006.
Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.
Perguntas frequentes
De onde vem a palavra mártir em português?
Vem do grego martys, "testemunha", por meio do latim martyr. O sentido de quem morre pela fé surgiu no cristianismo antigo, quando muitos cristãos foram mortos por sustentar seu testemunho, e o termo passou a designá-los.
Antipas, em Apocalipse 2:13, é chamado de mártir?
O texto o chama de "minha testemunha, o fiel" e diz que foi morto em Pérgamo. Tradições posteriores o veem como mártir, e alguns estudiosos leem o uso como início desse sentido. O texto, porém, não usa a palavra como título técnico.
O que os discípulos testemunhavam em Atos 1:8?
Testemunhavam o que viram e ouviram de Jesus, em especial sua paixão e ressurreição (; ). A missão partia de Jerusalém e se estendia a Judeia, Samaria e até os confins da terra.
Testemunha e testemunho são da mesma família?
Sim. Martys é a testemunha, martyria é o testemunho e martyreo é o verbo testemunhar. As três formas aparecem com frequência no Novo Testamento, em especial nos escritos de João.
Palavras próximas
Temas
- No grego
- #martys
- #testemunha
- #martir
- #atos-1
- #apocalipse-2
- #martirio