Lisonja (Kolakeia)
O que significa lisonja na Bíblia?
A palavra no original
κολακεία
kolakeia · Strong G2850
Elogio falso ou exagerado feito para agradar e obter vantagem.
Tudo isto ao mesmo tempo
- adulação e bajulação
- elogio interesseiro
- discurso que agrada para ganhar
- falsa amizade
- ganância disfarçada
Resposta curta
Lisonja, no português de hoje, é o elogio falso ou exagerado, dito para agradar e tirar proveito de quem o ouve. Na Bíblia, a palavra traduz o grego κολακεία (kolakeia), que Paulo nega ter usado em : nunca usamos de palavras lisonjeiras. Lisonjear parece, à primeira vista, mera gentileza, e por isso o leitor passa batido. O texto, porém, liga a lisonja a um interesse oculto: o elogio é instrumento para obter algo, e não expressão de apreço. O termo ocorre uma única vez no Novo Testamento, e o contexto o aproxima da cobiça disfarçada, que Paulo também rejeita no mesmo versículo.
Onde a palavra aparece
Como isso aponta para Jesus
ContrasteJesus é apresentado nos Evangelhos como alguém que não se deixa levar pela lisonja. Em , discípulos dos fariseus e herodianos o elogiam como mestre verdadeiro que não olha a aparência das pessoas, mas Jesus, percebendo a malícia deles, os chama de hipócritas. A lisonja não o move, porque ele conhece o que há no coração. Esse contraste mostra o oposto da kolakeia: uma palavra dita sem interesse oculto e uma pessoa que ouve sem se deixar manipular.
Respaldo no Novo Testamento:
Em palavras simples
Lisonja é o elogio falso ou exagerado, dito para agradar e conseguir algo em troca. A palavra grega é kolakeia, e aparece uma única vez no Novo Testamento, em , onde Paulo diz que nunca usou palavras lisonjeiras. Lisonjear parece só gentileza, mas o texto liga a lisonja a um interesse escondido. Elogiar de verdade, por apreço, não é lisonja: o problema está no motivo oculto e na falta de sinceridade.
De onde vem a palavra
A palavra aparece uma só vez no Novo Testamento, em , num trecho em que Paulo relembra como ele e seus companheiros se comportaram em Tessalônica. Ele escreve: nunca usamos de palavras lisonjeiras, como sabeis, nem de pretexto para ganância; Deus é testemunha. O versículo se encaixa numa defesa maior, que vai de 2:1 a 2:12, na qual Paulo descreve a sua pregação como honesta, sem erro, impureza ou engano.
Por que defender-se? No mundo greco-romano, oradores itinerantes e filósofos ambulantes eram frequentemente suspeitos de charlatanismo. Muitos faziam discursos agradáveis para atrair patronos e ganhar dinheiro. Paulo precisava mostrar que sua pregação não se parecia com isso. A palavra kolakeia pertence a esse debate: a lisonja era a arma do orador que dizia o que o público queria ouvir para colher benefício. Paulo contrasta: não buscamos glória dos homens, nem de vós, nem de outros (2:6).
O versículo une duas ideias que costumam andar juntas: a lisonja e o pretexto de ganância. Paulo dá a entender que o elogio falso e a cobiça escondida são faces do mesmo vício, um que fala e outro que quer. A expressão 'Deus é testemunha' mostra que o motivo não é visível aos leitores. Eles podem testemunhar sobre as palavras, mas só Deus conhece o motivo do coração.
Outros textos do Novo Testamento tocam o mesmo problema com palavras diferentes. Em , Paulo avisa que certas pessoas enganam os corações dos simples com palavras suaves e lisonjas, pois servem aos seus próprios apetites e não a Cristo. Em , fala de gente que admira pessoas por interesse. Em , os discípulos dos fariseus e os herodianos elogiam Jesus como verdadeiro e imparcial, e o fazem como armadilha.
No Antigo Testamento, os Salmos e Provérbios tratam do mesmo vício. O Salmo 12:2-3 fala de lábios lisonjeiros que falam com coração duplo, e compara o lisonjeador a quem arma uma rede aos pés do próximo.
Aprofundamento
O substantivo κολακεία (kolakeia, Strong G2850) tem na raiz o substantivo κόλαξ (kolax), que designa o adulador, o bajulador, e que o Novo Testamento não usa. A origem de kolax é obscura, e os léxicos não propõem uma etimologia segura. O que se sabe é o uso: na literatura grega, o kolax era figura bem conhecida, o parasita que agrada o rico para ser recebido à mesa e favorecido. A comédia grega, como a de Menandro, tinha uma peça com esse título, e a filosofia moral tratou do tema com cuidado.
Aristóteles, na Ética a Nicômaco, distingue o amigável do adulador: aquele que agrada visando a utilidade própria é o kolax. Plutarco, séculos depois, escreveu uma obra inteira, conhecida em português como Como distinguir o adulador do amigo, em que descreve como a lisonja imita a amizade para tirar vantagem. Esses textos não são fontes do Novo Testamento, mas mostram o tipo de contraste que Paulo tem em mente: a amizade verdadeira diz a verdade, a lisonja diz o que agrada.
O ponto de tradução é útil. Lisonjear, em português, tem um tom leve, quase de cortesia, e o leitor pode pensar que elogiar é sempre suspeito. O grego, porém, não condena o elogio sincero. O próprio Paulo elogia os tessalonicenses nesta carta (1:3,7-8; 2:19-20). O que condena é a kolakeia, o elogio como meio de obter algo. Dois elementos a definem: o conteúdo é falso ou exagerado, e o motivo é interesse oculto. Se o elogio é verdadeiro e dado por apreço, não é lisonja.
A expressão 'palavras lisonjeiras' vem do grego logos kolakeias, literalmente 'palavra de lisonja'. A construção é a de um genitivo que qualifica a palavra, e a leitura aceita pelos comentaristas é a de discurso que busca agradar. A segunda parte do versículo, prophasis pleonexias, pode ser lida como 'pretexto de ganância' ou 'máscara de avareza', e alguns estudiosos veem nela a explicação do que a lisonja encobre. Essa conexão é plausível, mas é interpretação dos comentaristas, não afirmação explícita do texto.
O hebraico oferece uma imagem própria. A raiz halaq, que dá a ideia de liso ou escorregadio, está por trás dos lábios lisonjeiros do Salmo 12:2-3 e do lisonjeador de : a fala lisa desliza sem atrito e prende quem a ouve. Em português, os dicionários costumam derivar lisonja do provençal lauzenja, ligado ao latim laus, louvor, o que sugere um elogio que se desviou da sinceridade.
Em síntese, a kolakeia é a fala que sacrifica a verdade pela vantagem, e o evangelho exige o contrário: dizer a verdade com amor.
O que costumam dizer errado2 afirmações
Dizem que:Todo elogio é lisonja e deve ser evitado.
O texto condena o elogio falso feito por interesse, não o elogio sincero. Paulo mesmo elogia os tessalonicenses ( e 2:19-20) e outras igrejas em suas cartas.
Dizem que:Kolakeia aparece em vários lugares do Novo Testamento.
O substantivo ocorre uma só vez, em . Outros textos, como e , tratam de tema semelhante com outras palavras gregas.
Como diferentes tradições cristãs leem4 leituras
Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.
Reformada / evangélica
Lê a defesa de Paulo como modelo de ministério íntegro, sem motivos ocultos nem busca de lucro, e a aplica à pregação e à liderança que não adapta a mensagem para agradar.
Católica
Entende a lisonja como pecado contra a verdade e a caridade, ligado à adulação, que engana e favorece a vaidade do outro, e a contrasta com a correção fraterna sincera.
Ortodoxa
Considera a adulação uma paixão que alimenta o orgulho de quem a recebe e a cobiça de quem a pratica, a ser combatida pela sobriedade e pela veracidade.
Histórico-filológica (comentaristas acadêmicos)
Situa o termo no debate greco-romano sobre o adulador e o amigo e entende a defesa de Paulo como resposta a suspeitas de charlatanismo dirigidas a oradores itinerantes.
O que fazer com isso
O texto não proíbe o elogio, e sim a sua instrumentalização. Elogiar com verdade, por apreço, é parte da boa convivência; elogiar para ser promovido, aceito ou favorecido é outra coisa. Um teste honesto é perguntar o que se espera receber depois do elogio, e se ele seria dito do mesmo modo caso nada pudesse ser obtido. Também vale desconfiar do prazer que sentimos ao ser lisonjeados.
Passagens relacionadas7
Toque numa referência para ler o texto sem sair da página.
Fontes consultadas5 obras
- Bauer, W.; Danker, F. W.; Arndt, W. F.; Gingrich, F. W.. A Greek-English Lexicon of the New Testament and Other Early Christian Literature (BDAG), 2000.
- Strong, J.. Strong's Exhaustive Concordance of the Bible, 1890.
- Plutarco. Como distinguir o adulador do amigo (Moralia).
- Aristóteles. Ética a Nicômaco.
- Malherbe, A. J.. The Letters to the Thessalonians (Anchor Yale Bible), 2000.
Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.
Perguntas frequentes
Elogiar alguém é lisonja?
Não necessariamente. Lisonja é o elogio falso ou exagerado, dito para obter vantagem. O elogio verdadeiro e sincero, dado por apreço, não é lisonja, e Paulo mesmo o pratica em suas cartas.
Em que passagem Paulo menciona a lisonja?
Em , onde afirma que nunca usou palavras lisonjeiras nem pretexto de ganância, e toma Deus como testemunha. É a única ocorrência do substantivo kolakeia no Novo Testamento.
Lisonja e hipocrisia são a mesma coisa?
São próximas, mas não iguais. A hipocrisia é fingir ser o que não se é; a lisonja é dizer o que agrada para tirar proveito. Em , os dois vícios se combinam: elogio falso por trás de uma armadilha.
Palavras próximas
Temas
- No grego
- #lisonja
- #kolakeia
- #adulacao
- #bajulacao
- #1-tessalonicenses-2
- #integridade