Inferno
O que significa inferno na Bíblia em hebraico e grego
A palavra no original
γέεννα / ᾅδης / ταρταρόω
geena / hádēs / tartaroō · Strong G1067 (geena) / G86 (hades) / G5020 (tartaroō)
geena: vale de Hinom, símbolo de fogo e juízo, usado por Jesus para o castigo final; hades: morada geral dos mortos; tartaroō (verbo): lançar no abismo onde os anjos rebeldes são presos até o juízo.
Tudo isto ao mesmo tempo
- juízo final e punição definitiva (geena)
- reino ou morada dos mortos em geral (hades)
- custódia prévia dos anjos rebeldes antes do juízo (tártaro)
- separação definitiva de Deus
Resposta curta
No português, a palavra "inferno" traduz ao menos três termos gregos distintos do Novo Testamento — geena, hades e o verbo tartaroō —, que carregam origens e sentidos diferentes na língua original. Essa mistura em uma única palavra portuguesa esconde distinções que os autores bíblicos faziam com cuidado, cada termo respondendo a uma pergunta escatológica própria.
Geena (do hebraico Gê-Hinnōm, "vale de Hinom") é o termo mais usado por Jesus para o castigo final, evocando um vale ao sul de Jerusalém ligado a sacrifícios pagãos e depois a fogo e lixo. Hades, palavra grega comum para o mundo dos mortos, traduz o hebraico Sheol na Septuaginta e designa a morada geral dos falecidos, nem sempre um lugar de tormento. Tártaro aparece uma única vez, em 2Pedro 2:4, emprestado da mitologia grega para descrever a prisão dos anjos rebeldes.
Onde a palavra aparece
Como isso aponta para Jesus
ContrasteGeena e hades descrevem, em registros diferentes, a mesma realidade que o evangelho apresenta como o problema a ser resolvido: a morte e o juízo como consequência do pecado. É justamente sobre esse pano de fundo que o Apocalipse afirma que Cristo ressuscitado detém as chaves da morte e do hades () e que, no fim, o próprio hades é lançado no lago de fogo, encerrado como poder derrotado (). Paulo ecoa essa mesma lógica ao aplicar a Cristo a pergunta profética 'morte, onde está a tua vitória?' (). As advertências de Jesus sobre geena, por sua vez, não aparecem isoladas de seu próprio chamado à salvação () — o mesmo Jesus que fala do castigo final é quem se oferece como o caminho de livramento dele.
Respaldo no Novo Testamento: ; ; ;
Em palavras simples
Na Bíblia em português, uma só palavra — inferno — traduz três palavras gregas diferentes. Geena era um vale perto de Jerusalém que virou símbolo de julgamento e fogo; é o termo que Jesus mais usa para o castigo final. Hades é a palavra grega comum para o mundo dos mortos, o lugar para onde todos vão ao morrer, não necessariamente um lugar de sofrimento. Tártaro aparece uma única vez na Bíblia, tomado de empréstimo da mitologia grega, para descrever a prisão dos anjos que se rebelaram contra Deus.
De onde vem a palavra
No Antigo Testamento hebraico, o termo genérico para a morada dos mortos é Sheol, um lugar sombrio para onde desciam justos e injustos, sem detalhamento sobre castigo ou recompensa. Quando os judeus de língua grega traduziram as Escrituras na Septuaginta, séculos antes de Cristo, escolheram a palavra grega hades para verter Sheol — termo já corrente na cultura helenística para designar o reino dos mortos, governado, na mitologia, por um deus de mesmo nome. Essa escolha explica por que o Novo Testamento usa hades tanto em citações do Antigo Testamento (, citando o Salmo 16) quanto em contextos narrativos próprios (), sempre ligado à ideia geral de morte e sepultura, não a um veredito específico de condenação eterna.
Geena tem origem bem diferente: vem do hebraico Gê-Hinnōm, o vale de Hinom, um desfiladeiro ao sul de Jerusalém. No Antigo Testamento, esse vale foi palco de sacrifícios de crianças a Moloque durante os reinados de Acaz e Manassés (; 23:10; ), o que levou profetas como Jeremias a declará-lo maldito e associado ao juízo de Deus. Na literatura judaica do Segundo Templo, como no livro de Enoque, o vale já aparecia como símbolo do lugar de castigo final dos ímpios, sentido que Jesus retoma diretamente em seus ensinos, sempre em contexto de advertência moral.
Tártaro pertence a um universo linguístico distinto: é um nome da mitologia grega, o abismo mais profundo do mundo subterrâneo, abaixo do próprio hades, onde Zeus teria aprisionado os Titãs. O autor de 2Pedro usa o verbo derivado, tartaroō, "lançar no Tártaro", uma única vez no Novo Testamento, tomando emprestada uma imagem conhecida dos leitores gregos para descrever a prisão dos anjos que se rebelaram, sem endossar a cosmologia mitológica por trás da palavra.
Assim, o rótulo único "inferno" em português reúne uma palavra de origem hebraica ligada à geografia de Jerusalém, uma palavra grega herdada da tradução do Antigo Testamento e um termo emprestado diretamente da mitologia pagã, cada um preservando, no texto original, um matiz que a tradução tende a apagar.
Aprofundamento
Do ponto de vista filológico, geena (γέεννα, Strong G1067) é uma transliteração grega do hebraico/aramaico Gê-Hinnōm. O léxico BDAG registra o termo como designação escatológica do lugar de castigo final, distinta do uso mais neutro de hades. O artigo de Joachim Jeremias no TDNT traça a transição histórica do vale literal de Hinom, associado a idolatria e depois a incineração de lixo e cadáveres, para um símbolo teológico já consolidado na literatura intertestamentária. No Novo Testamento, geena ocorre doze vezes, majoritariamente em ditos atribuídos a Jesus nos evangelhos sinóticos e uma vez em , nunca nas cartas de Paulo, dado relevante para entender como diferentes autores do NT distribuíam esse vocabulário.
Hades (ᾅδης, Strong G86) é formado, segundo análise tradicional registrada em dicionários como o de Vine, por alfa privativo mais a raiz idein, "ver", sugerindo etimologicamente "o invisível" ou "lugar não visto". Na Septuaginta, hades traduz sistematicamente o hebraico Sheol, e o Novo Testamento mantém esse uso amplo: em e 2:31, Pedro cita o Salmo 16:10 aplicando hades à experiência da morte de Cristo antes da ressurreição, sem qualquer conotação de tormento. Já em , a parábola do rico e Lázaro descreve hades com elementos de sofrimento consciente, mostrando que o termo comportava, no uso popular do primeiro século, tanto o sentido neutro de mundo dos mortos quanto associações de retribuição, conforme o contexto literário.
Tártaro é o caso mais isolado: o verbo tartaroō (ταρταρόω, Strong G5020) ocorre uma única vez em todo o Novo Testamento, em 2Pedro 2:4. Léxicos clássicos como o de Thayer observam que Pedro emprega deliberadamente um termo da cosmologia grega pagã, onde Tártaro era a prisão subterrânea dos Titãs, mais profunda que o hades, para comunicar a custódia prévia dos anjos caídos até o juízo final, uso análogo ao de , que descreve os mesmos anjos em "prisões eternas" sem empregar a palavra tártaro.
Vale notar ainda que o Apocalipse usa uma quarta expressão, "lago de fogo" (em grego, límnē tou pyrós), para descrever o destino final de Satanás, da besta e dos ímpios () — uma imagem distinta tanto de geena quanto de hades, embora teologicamente relacionada ao mesmo desfecho de juízo. Em , o próprio hades é lançado no lago de fogo, o que no grego marca claramente a diferença entre os dois: hades, ali, representa o estado provisório de morte que será encerrado, e o lago de fogo, o juízo definitivo que o sucede. Esse detalhe sintático reforça, no próprio texto, que os termos não são intercambiáveis.
A distinção entre os três termos importa porque cada um responde a uma pergunta diferente: geena fala do destino final dos condenados; hades, do estado intermediário entre a morte e a ressurreição; tártaro, da custódia específica de anjos rebeldes. Tratar os três como sinônimos, como faz a tradução única "inferno", obscurece uma arquitetura escatológica que os autores do Novo Testamento pareciam manejar com precisão.
O que costumam dizer errado3 afirmações
Dizem que:Geena, hades e inferno são a mesma palavra e o mesmo lugar na Bíblia.
Geena designa o castigo final; hades traduz o hebraico Sheol e nomeia a morada geral dos mortos, usada até para descrever o estado de Cristo entre a morte e a ressurreição (). São conceitos distintos que a tradução por uma única palavra portuguesa acaba misturando.
Dizem que:Tártaro é um termo bíblico original, criado pelos apóstolos para descrever o inferno.
Tártaro já era um nome consagrado na mitologia grega, o abismo abaixo do hades onde os Titãs teriam sido presos. Pedro usa o verbo derivado dessa palavra, já corrente na língua comum, para descrever a custódia dos anjos caídos, sem cunhar um termo novo.
Dizem que:A palavra grega para o castigo final aparece dezenas de vezes no Novo Testamento.
Geena, o termo mais próximo desse sentido, ocorre apenas doze vezes em todo o Novo Testamento, quase sempre em ditos atribuídos a Jesus. Isso é bem menos frequente do que o uso do rótulo genérico 'inferno' nas traduções sugere.
Como diferentes tradições cristãs leem4 leituras
Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.
Tradição evangélica/reformada
Geena descreve tormento consciente e eterno, consequência do juízo de Deus sobre o pecado não perdoado, distinto do estado intermediário representado por hades.
Igreja Católica
Distingue o inferno definitivo do purgatório, e associa hades/Sheol a um estado intermediário anterior ao juízo final e à ressurreição dos corpos.
Ortodoxia Oriental
Enfatiza que a mesma presença de Deus é experimentada como fogo purificador ou como tormento, conforme a disposição de cada pessoa, sem detalhar um mecanismo físico de punição.
Tradição condicionalista
Entende geena como destruição final e definitiva da existência dos ímpios, e não como tormento consciente sem fim.
O que fazer com isso
Reconhecer que "inferno" traduz três palavras gregas diferentes ajuda o leitor a acompanhar com mais precisão o que cada texto realmente afirma, sem misturar imagens que os próprios autores bíblicos mantinham separadas. Isso evita tanto minimizar as advertências de Jesus sobre geena quanto importar para hades ou tártaro detalhes que pertencem a outro contexto. Também mostra que perguntas sobre o destino final merecem ser feitas a cada palavra, no seu próprio lugar dentro do texto onde aparece.
Passagens relacionadas5
Toque numa referência para ler o texto sem sair da página.
Fontes consultadas4 obras
- Joachim Jeremias. Theological Dictionary of the New Testament (TDNT), verbete geenna, 1964.
- Walter Bauer (rev. Danker, Arndt, Gingrich). A Greek-English Lexicon of the New Testament and Other Early Christian Literature (BDAG), 2000.
- W. E. Vine. Vine's Expository Dictionary of Old and New Testament Words, 1940.
- James Strong. The Exhaustive Concordance of the Bible, 1890.
Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.
Perguntas frequentes
Geena, hades e tártaro significam a mesma coisa?
Não. Geena é o termo que Jesus mais usa para o castigo final dos ímpios. Hades é a palavra grega comum para o mundo dos mortos em geral, sem indicar necessariamente tormento. Tártaro aparece uma única vez, em 2Pedro 2:4, especificamente para a prisão dos anjos rebeldes.
Por que a Bíblia usa uma palavra da mitologia grega, tártaro?
O autor de 2Pedro escreve para leitores familiarizados com a cultura grega e usa um termo que eles já conheciam, o abismo onde, na mitologia, os Titãs foram presos, para comunicar a ideia de custódia dos anjos caídos até o juízo. O uso da palavra não implica endosso da mitologia por trás dela.
Hades é igual ao Sheol do Antigo Testamento?
Na Septuaginta, a tradução grega do Antigo Testamento, hades é a palavra escolhida para traduzir Sheol, e o Novo Testamento mantém esse uso amplo. Os dois termos cobrem a mesma ideia geral de morada dos mortos, não um veredito específico de condenação.
O lago de fogo do Apocalipse é o mesmo que geena?
São expressões gregas diferentes. Geena é o termo dos evangelhos; lago de fogo (límnē tou pyrós) é a expressão própria do Apocalipse. Ambas apontam para o juízo final, mas não são a mesma palavra no grego original.
Palavras próximas
Temas
- Últimos dias
- #inferno
- #geena
- #hades
- #tartaro
- #juizo-final
- #grego-biblico
- #sheol