Pular para o conteúdo
Significado Bíblico
Dicionário bíblicogregoavançada

Hilasterion

O que significa hilasterion na Bíblia?

A palavra no original

ἱλαστήριον

hilastērion · Strong G2435

Lugar ou meio de propiciação; aquilo que apazigua, cobre ou expia o pecado.

Tudo isto ao mesmo tempo

  • propiciação/aplacamento da ira divina
  • expiação/remoção do pecado
  • cobertura ou tampa da arca da aliança
  • lugar de encontro entre Deus e o povo

Resposta curta

Hilastérion (ἱλαστήριον) é substantivo grego ligado ao verbo hilaskomai, "aplacar", "ser propício". Na Septuaginta, tradução grega do Antigo Testamento, a palavra traduz o hebraico kapporet: a tampa de ouro sobre a arca da aliança, onde o sumo sacerdote aspergia sangue uma vez por ano, no Dia da Expiação (; ). No Novo Testamento aparece só duas vezes: em , para essa tampa, e em , onde Paulo chama Jesus Cristo de hilastérion apresentado por Deus.

Em Romanos, o termo sugere que Cristo ocupa, pelo seu sangue, o lugar da tampa da arca: o encontro entre a justiça de Deus e o perdão do pecador. Comentaristas discutem se a melhor tradução é "propiciatório", "propiciação" ou "expiação" — leituras com apoio lexical, todas apontando para o mesmo fato: em Cristo, Deus mesmo provê o meio da reconciliação.

Onde a palavra aparece

Como isso aponta para Jesus

Tipologia

A ligação entre hilastérion e Cristo tem respaldo explícito do próprio Novo Testamento, não apenas de uma leitura posterior: Paulo usa a mesma palavra grega que a Septuaginta emprega para a tampa da arca — o objeto do Dia da Expiação, onde sangue cobria o pecado de Israel uma vez por ano — e a aplica diretamente a Jesus em ("a quem Deus propôs como hilastérion, pelo seu sangue, mediante a fé"). O paralelo verbal não é uma inferência alegórica: confirma que hilastérion, no vocabulário do Novo Testamento, continua designando aquele objeto do tabernáculo, o que reforça que Paulo está deliberadamente lendo Cristo através dessa figura. Onde o ritual antigo exigia repetição anual e um sumo sacerdote humano entrando com sangue alheio, Paulo apresenta Cristo como quem, de uma só vez, ocupa esse lugar de encontro entre a justiça de Deus e o perdão do pecador, pelo próprio sangue.

Respaldo no Novo Testamento: ;

Em palavras simples

Hilastérion é uma palavra grega usada duas vezes no Novo Testamento. No Antigo Testamento, na tradução grega, ela nomeava a tampa de ouro da arca da aliança, onde o sacerdote aspergia sangue uma vez por ano para cobrir o pecado do povo. Paulo usa essa mesma palavra em para dizer que Jesus ocupa esse lugar: é nele, pelo seu sangue, que Deus e o ser humano se encontram e o pecado é tratado. A palavra carrega ao mesmo tempo a ideia de cobertura, de encontro e de perdão.

De onde vem a palavra

No Antigo Testamento, o objeto físico por trás de hilastérion é o kapporet (כַּפֹּרֶת), a placa de ouro puro que cobria a arca da aliança, ladeada por dois querubins (; 37:6-9). Uma vez por ano, no Dia da Expiação (Yom Kippur), o sumo sacerdote entrava no Lugar Santíssimo e aspergia ali o sangue do sacrifício, sobre e diante do kapporet, para cobrir os pecados de Israel (). O nome hebraico deriva da raiz kaphar, "cobrir" ou "apagar", a mesma raiz por trás da palavra "expiação" em português nas traduções do Antigo Testamento.

Quando os tradutores judeus produziram a Septuaginta, entre os séculos III e II a.C., escolheram hilastérion para verter kapporet — termo que já circulava em grego helenístico com sentido de "coisa que propicia" ou "meio de aplacar". Essa escolha aparece de forma consistente em Êxodo, Levítico e Números sempre que o texto hebraico fala da tampa da arca, e é essa mesma tradição textual que retoma ao descrever o mobiliário do tabernáculo, usando hilastérion no sentido claro de "propiciatório", o objeto do santuário.

É esse pano de fundo cultual que Paulo tem diante de si em , escrita por volta de 57 d.C. Depois de descrever, nos capítulos anteriores, que judeus e gentios estão igualmente sob o pecado, Paulo declara que Deus apresentou Cristo Jesus como hilastérion, "pelo seu sangue, mediante a fé". A frase recicla deliberadamente o vocabulário do santuário: sangue aspergido, cobertura do pecado, encontro entre Deus e o povo — só que agora centrado numa pessoa, não num objeto de ouro guardado atrás de um véu. O uso raro da palavra (duas ocorrências no Novo Testamento) e sua ligação direta com o ritual do Dia da Expiação tornam hilastérion um dos elos lexicais mais estudados entre o culto do Antigo Testamento e a obra de Cristo no Novo.

Aprofundamento

Hilastérion pertence a uma família de palavras gregas construída sobre o verbo hilaskomai ("aplacar", "ser propício", "obter misericórdia"), que inclui também o substantivo hilasmós ("propiciação", usado em e 4:10) e o adjetivo hileos ("propício", "misericordioso"). O sufixo -térion, comum em grego para designar lugar ou instrumento, sugere originalmente "aquilo por meio do qual se propicia" — o que explica por que o termo servia tanto para um objeto (a tampa da arca) quanto, por extensão, para uma ação ou meio de expiação.

Léxicos padrão como o BDAG (Bauer-Danker-Arndt-Gingrich) registram dois sentidos para hilastérion no grego bíblico: (1) "lugar de propiciação", isto é, a tampa da arca, sentido claramente presente em e em toda a Septuaginta; e (2) "meio de propiciação/expiação", sentido atestado fora da Bíblia — por exemplo, em 4 Macabeus 17:22, onde a morte de mártires judeus é descrita como hilastérion pelo pecado da nação. É justamente essa dupla possibilidade que alimenta o debate exegético sobre .

No início do século XX, C. H. Dodd argumentou que o grego helenístico e a própria Septuaginta tendiam a esvaziar a ideia de "aplacar a ira divina", preferindo o sentido de "expiar", isto é, neutralizar ou remover o pecado sem pressupor uma divindade irada precisando ser apaziguada como nos cultos pagãos. Leon Morris, em resposta, reuniu ocorrências do grupo hilaskomai no grego secular e bíblico para mostrar que a ideia de aplacar a justa ira de Deus contra o pecado permanece presente, sem reduzir o termo a uma simples "expiação" impessoal — um debate ainda hoje citado em comentários sobre Romanos. O TDNT (Theological Dictionary of the New Testament, no verbete de Friedrich Büchsel) situa a discussão nesse mesmo eixo, notando que o pano de fundo veterotestamentário do Dia da Expiação pesa a favor de se ouvir, em , o eco direto do propiciatório do templo, e não apenas um termo abstrato tomado de empréstimo do grego pagão.

Do ponto de vista gramatical, alguns comentaristas notam que Paulo não usa o artigo definido antes de hilastérion, o que abriria espaço para lê-lo mais como "um sacrifício propiciatório" do que como "o propiciatório" (objeto único e conhecido); outros respondem que a ausência do artigo é comum em construções predicativas gregas e não decide a questão sozinha. Essa é uma das razões pelas quais versões bíblicas em português variam: algumas trazem "propiciatório", outras "sacrifício de expiação" ou "meio de propiciação" no mesmo versículo.

O que costumam dizer errado2 afirmações
  • Dizem que:Hilastérion aparece muitas vezes no Novo Testamento, sendo um dos termos mais repetidos sobre a obra de Cristo.

    A palavra grega hilastérion ocorre apenas duas vezes no Novo Testamento: e . O vocabulário do Novo Testamento sobre a morte de Cristo é bem mais amplo (resgate, sacrifício, reconciliação, sangue), mas hilastérion especificamente é rara — sua força está na precisão da alusão ao Dia da Expiação, não na frequência de uso.

  • Dizem que:Traduzir hilastérion por "propiciação" significa que Deus era como os deuses pagãos, uma divindade caprichosa que precisava ser acalmada com sacrifícios.

    Léxicos e comentaristas (como Leon Morris, em resposta a C. H. Dodd) observam que, no uso bíblico, quem toma a iniciativa de prover o hilastérion é o próprio Deus, não o ser humano tentando apaziguá-lo por conta própria — diz que foi Deus quem "propôs" Cristo para esse papel, o que distingue o quadro bíblico do modelo pagão de barganha com a divindade.

Como diferentes tradições cristãs leem4 leituras

Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.

  • Tradição reformada/evangélica

    Lê hilastérion sobretudo como "propiciação": Cristo aplaca a justa ira de Deus contra o pecado, satisfazendo a exigência da justiça divina para que o perdão seja concedido sem comprometer o caráter santo de Deus (linha associada a Leon Morris e à teoria da satisfação penal).

  • Tradição católica romana

    Enfatiza hilastérion como expiação e satisfação: Cristo, como novo e definitivo sumo sacerdote, oferece a si mesmo para reparar a ofensa do pecado e restaurar a comunhão entre Deus e a humanidade, em continuidade com a teologia sacrificial do Antigo Testamento.

  • Tradição ortodoxa

    Tende a ler hilastérion à luz da ideia de encontro e cura: Cristo é o lugar onde a natureza humana ferida pelo pecado é restaurada em união com Deus, com menos ênfase na imagem jurídica de aplacar a ira e mais na cura e recapitulação da humanidade em Cristo.

  • Tradição liberal/moderada (linha associada a C. H. Dodd)

    Prefere traduzir hilastérion como "expiação", no sentido de remoção ou neutralização objetiva do pecado, evitando a ideia de que Deus precisasse ser pessoalmente apaziguado, e destacando antes a iniciativa graciosa de Deus em lidar com o problema do pecado.

O que fazer com isso

Reconhecer hilastérion como a mesma palavra usada para a tampa da arca da aliança ajuda a ler com mais precisão: Paulo não descreve uma ideia abstrata, mas retoma uma imagem concreta do culto israelita, o lugar onde sangue era aspergido para tratar o pecado do povo. Isso convida a ler Antigo e Novo Testamento como um só relato, em vez de textos desconectados, e a examinar com cuidado o vocabulário sacrificial antes de tirar conclusões sobre o que Paulo quis dizer.

Passagens relacionadas8

Toque numa referência para ler o texto sem sair da página.

Fontes consultadas5 obras
  • Walter Bauer, Frederick W. Danker, William F. Arndt, F. Wilbur Gingrich. A Greek-English Lexicon of the New Testament and Other Early Christian Literature (BDAG), 2000.
  • Friedrich Büchsel. Theological Dictionary of the New Testament (TDNT), verbete hilaskomai/hilastérion, 1964.
  • Leon Morris. The Apostolic Preaching of the Cross, 1955.
  • C. H. Dodd. The Bible and the Greeks, 1935.
  • W. E. Vine. Vine's Expository Dictionary of New Testament Words, 1940.

Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.

Perguntas frequentes

Hilasterion e propiciatório são a mesma coisa?

Sim, hilastérion é a palavra grega, e "propiciatório" é a tradução tradicional em português para o objeto que ela nomeia: a tampa de ouro da arca da aliança. A mesma palavra grega é usada por Paulo em , aplicada a Cristo.

Hilasterion e hilasmos são a mesma palavra?

Não. São palavras da mesma família, ligadas ao verbo hilaskomai, mas são substantivos diferentes. Hilastérion aparece em e ; hilasmós aparece em e 4:10, geralmente traduzido por "propiciação".

Por que Romanos 3:25 é traduzido de formas diferentes em português?

Porque hilastérion permite mais de uma leitura legítima: como um lugar ("propiciatório"), como uma ação ("propiciação", aplacar a ira) ou como um processo ("expiação", remover a culpa). Comentaristas sérios divergem sobre a ênfase de Paulo, e por isso versões bíblicas escolhem palavras distintas para o mesmo termo grego.

Hilasterion aparece no Antigo Testamento?

A palavra grega hilastérion aparece na Septuaginta, a tradução grega do Antigo Testamento, não no hebraico original. Ela traduz o termo hebraico kapporet, usado em textos como e para a tampa da arca da aliança.

Palavras próximas

Temas

  • A cruz
  • #hilasterion
  • #propiciatorio
  • #expiacao
  • #grego-biblico
  • #romanos-3-25
  • #dicionario-biblico

Publicado em 02/09/2026

Construído sobre fontes em domínio público, listadas acima. Como produzimos. Encontrou um erro? Escreva para a redação.

O que foi conferido

  • ἱλαστήριον (hilastērion) em grego, Strong G2435
  • 5 obras citadas, com autor e ano
  • 2 afirmações populares checadas e refutadas
  • 4 tradições cristãs apresentadas lado a lado
  • Editor responsável: Julio Andolfo
  • Revisão teológica por pessoa nomeada — ainda não feita. Enquanto não for, dizemos isso aqui em vez de assinar um nome.

Uma explicação nova por semana

Sem devocional, sem corrente e sem promoção. Só o verbete da semana, com o contexto que normalmente fica de fora. Todo e-mail leva um link para sair, e sair é imediato.

Esta palavra nas passagens explicadas

Maneja bem a palavra da verdade

Em 2 Timóteo 2:15, Paulo pede que Timóteo se apresente diante de Deus como alguém aprovado, um trabalhador que não tem do que se envergonhar. A expressão "usa bem" a palavra da verdade vem do grego orthotomeo, que significa literalmente cortar reto — a imagem de quem abre um caminho reto ou corta um material com precisão, um trabalho feito com cuidado, sem atalhos.

Ler explicação →
Costumes da épocaLevítico 16:8

Quem é Azazel, o do bode expiatório?

A expressão "bode expiatório" veio daqui, e o rito é mais estranho do que a expressão sugere: dois bodes, sorteados, com destinos opostos. Um é sacrificado; o outro sai vivo para o deserto carregando as culpas do povo.

Ler explicação →

"Carne diferente": o que Judas realmente acusa Sodoma de fazer

Judas 1:7 diz que Sodoma e Gomorra, com as cidades vizinhas, "tendo cometido pecados sexuais, e seguido uma carne ilícita, foram postas como exemplo, recebendo a punição do fogo eterno". Por trás de "carne ilícita" está o grego sarkos heteras, literalmente "carne de outra espécie" — e o debate entre os estudiosos gira em torno de uma pergunta: diferente do quê?

Ler explicação →
Teologia densaJoão 1:29

'Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo': que imagem é essa?

Ao ver Jesus se aproximando, João Batista aponta para ele: "Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo." A frase é curta, mas reúne imagens do Antigo Testamento: o cordeiro pascal sacrificado no Egito, cujo sangue livrou o povo do juízo, e o servo sofredor de Isaías 53, comparado a um cordeiro levado ao matadouro que carrega a culpa alheia. O evangelho não diz qual delas João tinha em mente, e essa ambiguidade é parte do que a torna tão densa.

Ler explicação →