Goy / Goyim
O que significa "goy" na Bíblia?
A palavra no original
גּוֹי / גּוֹיִם
goy / goyim · Strong H1471
nação, povo organizado politicamente
Tudo isto ao mesmo tempo
- nação (entidade política e territorial)
- povo, agrupamento humano
- as nações estrangeiras, não israelitas
- gentio (sentido pós-bíblico, rabínico e iídiche)
Resposta curta
A palavra hebraica גּוֹי (goy), no plural גּוֹיִם (goyim), significa "nação" ou "povo organizado politicamente" — um dos termos mais comuns do Antigo Testamento para um agrupamento humano com território, governo e identidade próprios. Não é, na origem, uma palavra reservada aos "outros povos": em , Deus promete a Abraão "far-te-ei um grande goy", e em o próprio Israel é chamado de goy qadosh, "nação santa".
No uso mais frequente, sobretudo no plural, goyim passou a designar as nações fora de Israel — os gentios, na tradução tradicional. Os tradutores da Septuaginta verteram goy/goyim para o grego ethnos, o termo que o Novo Testamento usa para "nações" e "gentios". Do hebraico bíblico a palavra seguiu para o hebraico rabínico e o iídiche, onde goy passou a significar, de forma corrente e às vezes depreciativa, simplesmente "não judeu".
Onde a palavra aparece
Como isso aponta para Jesus
Trajetória do textoA promessa a Abraão de que ele seria feito um grande goy carrega, desde , uma cláusula que ultrapassa Israel: "em ti serão benditas todas as famílias da terra". O Antigo Testamento mantém essa tensão entre Israel como goy eleito e os goyim como destinatários futuros da bênção (; ). O apóstolo Paulo lê essa mesma promessa como o anúncio antecipado do evangelho: "a Escritura, prevendo que Deus justificaria pela fé os goyim/ethne, anunciou primeiro a boa-nova a Abraão" (). A trajetória da palavra — de Israel como goy único a todas as goyim reunidas — encontra em Cristo o ponto em que judeus e gentios são chamados a formar, juntos, o povo de Deus (), e a ordem final de Jesus é explicitamente dirigida a "todas as nações" (panta ta ethne, ).
Respaldo no Novo Testamento: ; ;
Em palavras simples
Goy, no plural goyim, é a palavra hebraica para "nação" ou "povo". Aparece centenas de vezes no Antigo Testamento e não significa, originalmente, "gentio" ou "não judeu" — a própria Bíblia chama Israel de goy em . Com o tempo, sobretudo no plural, passou a designar as nações de fora de Israel. Foi essa evolução que levou o hebraico e o iídiche mais tardios a usarem goy como termo comum, às vezes ofensivo, para quem não é judeu.
De onde vem a palavra
Goy (גּוֹי) e seu plural goyim (גּוֹיִם) pertencem ao vocabulário político e social mais básico do hebraico bíblico: designam um grupo humano reconhecível como unidade, geralmente ligado a um território, um governo e uma origem comum. O termo ocorre cerca de 560 vezes no Antigo Testamento, sendo um dos substantivos mais frequentes para "nação" ou "povo", ao lado de am (עַם).
A "tabela das nações" de organiza a humanidade pós-dilúvio em goyim, cada uma "segundo a sua língua, segundo as suas famílias, em suas nações" (), estabelecendo o pano de fundo para todo o uso posterior da palavra. É contra esse mapa das nações que a vocação de Abraão se destaca: Deus promete fazer dele um goy gadol, uma grande nação (), e mais tarde que ele será pai de uma multidão de goyim () — Israel nasce, portanto, definido pelo mesmo vocabulário usado para todos os demais povos.
Com o tempo, e principalmente no plural, goyim concentra-se no uso para as nações que não são Israel — os povos vizinhos, os impérios, os adversários políticos e religiosos que aparecem nos livros históricos, nos salmos (, "por que se amotinam as nações?") e nos profetas, que anunciam tanto o juízo sobre os goyim quanto, em textos como e 49:6, a esperança de que eles um dia se voltem para o Deus de Israel. Em , contudo, Israel é chamado de goy qadosh, "nação santa" — prova de que a palavra em si é neutra, definida pelo contexto e não por um sentido étnico fixo.
Essa mesma tensão passa para o grego da Septuaginta, que traduz goy/goyim quase sempre por ethnos, e daí para o Novo Testamento, onde ta ethne ("as nações") carrega o duplo sentido herdado do hebraico: povos em geral e, com frequência, os não judeus especificamente.
Aprofundamento
A etimologia de goy (גּוֹי) permanece incerta entre os lexicógrafos. BDB e HALOT registram a raiz como de origem obscura, sem cognatos semíticos claros e consistentes; a proposta mais discutida na literatura acadêmica, do assiriólogo E. A. Speiser ("'People' and 'Nation' of Israel", Journal of Biblical Literature, 1960), sugere uma possível ligação com geviyyah ("corpo"), como se goy denotasse originalmente um "corpo" de pessoas — uma entidade coletiva análoga ao latim corpus. É uma hipótese influente, mas não um consenso, e por isso deve ser tratada como proposta, não como fato estabelecido.
Morfologicamente, goy é um substantivo masculino singular; goyim é seu plural regular (sufixo -im). A forma aparece já no hebraico bíblico mais antigo e se mantém estável ao longo de todo o Antigo Testamento, sem variação dialetal relevante registrada nos léxicos padrão.
Uma discussão recorrente em obras como o Theological Dictionary of the Old Testament (Botterweck e Ringgren) e no Vine's Expository Dictionary é a comparação entre goy e am (עַם). A tendência apontada por esses léxicos é que am tende a enfatizar o vínculo de parentesco, sangue ou aliança — "meu povo" —, enquanto goy tende a enfatizar a organização política e territorial de um grupo, o que explica por que goyim se tornou o termo preferido para descrever impérios e nações estrangeiras enquanto entidades políticas. Mas os próprios léxicos alertam que essa distinção é uma tendência estatística, não uma regra fixa: Israel é chamado tanto de am quanto de goy, e nações estrangeiras recebem ambos os termos também.
A mudança semântica mais significativa aconteceu fora da Bíblia hebraica: na literatura rabínica pós-bíblica e, mais tarde, no iídiche, goy se especializou como substantivo para "gentio", "não judeu" — um uso que hoje é comum tanto no hebraico moderno quanto em empréstimos ao português coloquial ("goy", "goyim"), muitas vezes com tom pejorativo ou de distanciamento social, algo ausente do sentido neutro original da palavra no texto bíblico. Strong's Concordance cataloga o termo sob o número H1471.
Vale notar ainda a rota que a palavra percorre até o Novo Testamento: quando os tradutores judeus de Alexandria produziram a Septuaginta, escolheram sistematicamente ethnos para verter goy e goyim, criando uma ponte lexical que o grego do Novo Testamento herdou quase sem alteração. Por isso, quando Paulo ou os evangelhos falam em ta ethne (as nações, os gentios), o pano de fundo conceitual é diretamente o goyim do Antigo Testamento — as duas palavras compartilham a mesma amplitude de sentido, entre povos em geral e os povos que não são o povo de Deus. Comentaristas como Keil e Delitzsch observam que essa ambiguidade é proposital em vários textos proféticos, que alternam entre goyim como alvo de juízo e goyim como destinatário futuro de bênção, sem que a palavra em si decida qual sentido prevalece — isso cabe sempre ao contexto imediato de cada passagem.
O que costumam dizer errado2 afirmações
Dizem que:Goy sempre significou "gentio" ou "não judeu", inclusive na Bíblia hebraica, muitas vezes com conotação depreciativa.
No hebraico bíblico, goy é um termo neutro para "nação" e é usado inclusive para o próprio Israel — promete a Abraão que ele será feito um goy, e chama Israel de goy qadosh, "nação santa". O sentido restrito e por vezes pejorativo de "não judeu" é um desenvolvimento pós-bíblico, consolidado na literatura rabínica e no iídiche.
Dizem que:A Bíblia usa goy exclusivamente para nações estrangeiras e am (povo) exclusivamente para Israel, como uma regra fixa de vocabulário.
Léxicos como o Theological Dictionary of the Old Testament (Botterweck e Ringgren) apontam uma tendência de goy enfatizar a organização política de um grupo e am o vínculo de parentesco, mas essa distinção é estatística, não absoluta: Israel é chamado tanto de goy quanto de am, e as nações estrangeiras recebem ambos os termos também.
Como diferentes tradições cristãs leem4 leituras
Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.
Teologia reformada / covenantal
A Igreja, formada por judeus e gentios (goyim) unidos em Cristo, dá continuidade ao papel do Israel bíblico como povo de Deus; a promessa feita ao goy de Abraão encontra seu cumprimento presente na comunidade de fé reunida a partir de todas as nações (), sem que isso apague a eleição histórica de Israel.
Dispensacionalismo
Israel, o goy prometido a Abraão, e a Igreja formada das goyim permanecem entidades distintas no plano de Deus; as promessas nacionais e territoriais feitas a Israel serão cumpridas literalmente no futuro, enquanto a atual reunião das nações em Cristo é vista como um período à parte na história da salvação.
Catolicismo
A Igreja é entendida como o "novo Israel", o goy qadosh (nação santa) de reconstituído a partir de todas as goyim em Cristo, numa continuidade que cumpre e amplia — sem substituir por completo — a vocação histórica de Israel.
Ortodoxia oriental
A incorporação das goyim ao povo de Deus é lida como a extensão orgânica da aliança, em que a Igreja, unida a Cristo pelos sacramentos, torna-se o espaço em que a bênção prometida às nações em Abraão se realiza plenamente, mantendo forte ênfase na continuidade litúrgica e histórica com Israel.
O que fazer com isso
Saber que goy é, na origem, uma palavra neutra para "nação" — usada tanto para Israel quanto para os demais povos — ajuda o leitor a não projetar no Antigo Testamento um sentido que só surgiu séculos depois. Isso evita duas leituras apressadas: tratar toda menção a "nações" como automaticamente hostil a Israel, ou tratar "goy" como se já fosse, no texto bíblico, sinônimo do uso popular moderno da palavra.
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Fontes consultadas7 obras
- Brown, Driver, Briggs. A Hebrew and English Lexicon of the Old Testament (BDB), 1906.
- Koehler, Ludwig; Baumgartner, Walter. The Hebrew and Aramaic Lexicon of the Old Testament (HALOT), 1994.
- Strong, James. Strong's Exhaustive Concordance of the Bible, 1890.
- Vine, W. E.. Vine's Expository Dictionary of Old and New Testament Words, 1940.
- Botterweck, G. Johannes; Ringgren, Helmer (eds.). Theological Dictionary of the Old Testament (TDOT), 1974.
- Speiser, E. A.. "'People' and 'Nation' of Israel", Journal of Biblical Literature 79, 1960.
- Keil, C. F.; Delitzsch, F.. Commentary on the Old Testament, 1866.
Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.
Perguntas frequentes
Qual é a diferença entre goy e am no hebraico?
Os léxicos apontam uma tendência, não uma regra fixa: am (עַם) costuma enfatizar o vínculo de parentesco ou aliança, enquanto goy costuma enfatizar a organização política e territorial de um grupo. Israel e as nações estrangeiras são chamados por ambos os termos ao longo do Antigo Testamento.
Goy é uma palavra ofensiva na Bíblia?
Não. No hebraico bíblico, goy é um termo neutro para "nação", usado inclusive para Israel. O tom por vezes depreciativo que a palavra carrega hoje surgiu depois, no hebraico rabínico e no iídiche, quando passou a significar especificamente "não judeu".
Goyim é o mesmo que "gentios" no Novo Testamento?
Conceitualmente sim. A Septuaginta traduz goy/goyim quase sempre pelo grego ethnos, e o Novo Testamento usa esse mesmo termo (ta ethne) tanto para "nações" em geral quanto para "gentios" no sentido de não judeus.
Onde a Bíblia chama o próprio Israel de goy?
Em , quando Deus promete a Abraão fazê-lo um grande goy, e em , quando Israel é chamado de goy qadosh, "nação santa". Isso mostra que a palavra, na origem, não distingue Israel das demais nações pelo vocabulário em si.
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