Amnos e Arnion (Cordeiro)
O que significa o Cordeiro de Deus (amnos) na Bíblia?
A palavra no original
ἀμνός / ἀρνίον
amnos / arnion · Strong G286
Cordeiro: amnos, em João, Atos e 1 Pedro; arnion, de origem diminutiva, no Apocalipse.
Tudo isto ao mesmo tempo
- cordeiro de sacrifício
- mansidão e inocência
- resgate pelo sangue
- o servo sofredor
- autoridade e vitória no Apocalipse
Resposta curta
Amnos (ἀμνός) e arnion (ἀρνίον) são as duas palavras gregas para "cordeiro" aplicadas a Jesus no Novo Testamento. Amnos aparece em , onde João Batista chama Jesus de "o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo", e também em e . Arnion é a palavra preferida do Apocalipse, que a usa quase trinta vezes para o Cordeiro que foi morto e que reina (por exemplo, 5:6,12).
O título é breve, mas as imagens possíveis por trás dele, como o cordeiro pascal, o servo sofredor de e o sacrifício diário do templo, são debatidas, e o texto de João não diz qual delas tem em mente. Por isso este verbete expõe cada passagem separadamente, sem fundi-las numa só, e aponta o que as fontes dizem e o que apenas se deduz.
Onde a palavra aparece
Como isso aponta para Jesus
TipologiaO Novo Testamento liga Cristo ao imaginário do cordeiro de maneiras distintas. Paulo declara que "Cristo, nossa Páscoa, foi imolado" (), e Pedro afirma que os leitores foram resgatados pelo sangue de Cristo, "como de um cordeiro sem defeito e sem mancha" (). Em , Filipe aplica a Jesus o cordeiro mudo de . Esses textos autorizam a leitura tipológica de que os cordeiros do culto e da Páscoa apontam para Cristo. Já em , o próprio versículo não indica qual dos cordeiros do Antigo Testamento está em vista, e a tipologia ali é uma leitura, não uma afirmação explícita do evangelista.
Respaldo no Novo Testamento: ; ;
Em palavras simples
A Bíblia usa duas palavras gregas para cordeiro aplicadas a Jesus. Amnos aparece em , quando João Batista diz: Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo. Arnion é a palavra do Apocalipse, onde o Cordeiro foi morto, mas reina no trono. Os estudiosos discutem o que estava por trás do título: o cordeiro da Páscoa, o servo sofredor de ou o cordeiro oferecido todos os dias no templo. O texto de João não escolhe uma delas, e por isso convém ler cada passagem pelo que ela mesma diz.
De onde vem a palavra
Em , no dia seguinte ao interrogatório dos sacerdotes e levitas, João Batista vê Jesus se aproximar e exclama: "Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo" (amnos tou theou, ho airon ten hamartian tou kosmou). No versículo 36, ao ver de novo Jesus, repete o título, e dois discípulos o seguem. O evangelho não explica o título; apresenta-o como uma proclamação do Batista, que será retomada no desenrolar da narrativa joanina, sobretudo nos acontecimentos da Páscoa (19:14,31-36).
Em , o eunuco etíope lê na versão grega ("como ovelha foi levado ao matadouro, e como cordeiro [amnos] mudo diante do tosquiador") e pergunta de quem o profeta fala; Filipe, "começando por esta Escritura", anuncia-lhe Jesus. Em , os leitores são lembrados de que foram resgatados "com o precioso sangue, como de um cordeiro (amnos) sem defeito e sem mancha, o sangue de Cristo". São, portanto, três usos de amnos, em três autores, cada um com seu contexto.
No Apocalipse, a palavra muda: o vidente emprega arnion. O Cordeiro aparece no centro do trono (5:6), "como tendo sido morto", com sete chifres e sete olhos, depois de o texto anunciar o "Leão da tribo de Judá" (5:5). Ele é digno de abrir o livro (5:9,12); sobre o seu sangue se lavam as vestes dos que saíram da grande tribulação (7:14); é o vencedor com os seus (17:14); tem uma noiva (19:7,9); compartilha o trono com Deus (22:1,3); e a cidade santa não precisa de templo porque o Senhor Deus e o Cordeiro são o seu templo (21:22).
Fora dos textos que o aplicam a Cristo, as palavras ocorrem no Antigo Testamento grego. A Septuaginta usa amnos para os cordeiros do sacrifício diário (; ), e arnion aparece em ("como um cordeiro manso levado ao matadouro"). Em arnia traduz o "cordeirinhos" que Jesus confia a Pedro. O vocabulário do cordeiro era, portanto, amplo e sem um único referente.
Aprofundamento
Léxicos como o BDAG apresentam amnos como "cordeiro", muitas vezes em contexto de sacrifício ou de comparação com a mansidão, e arnion como um diminutivo de origem (de arên, cordeiro), embora no Apocalipse não se possa afirmar que o sentido de "cordeirinho" permaneça: a palavra é empregada como título cristológico em cerca de trinta ocorrências. O Strong registra G286 (amnos) e G721 (arnion). Em hebraico, as palavras correspondentes são em geral keves e seh, e é seh a palavra que a Septuaginta de traduz por amnos.
Três pontos exigem precisão. Primeiro, o verbo airo em tem dois sentidos possíveis: "levantar, tomar sobre si" ou "retirar, tirar para longe". Em , a Septuaginta usa outros verbos para o servo carregar os pecados (como pherei, em 53:4, e anenegken, em 53:12), de modo que João não repete a linguagem de Isaías palavra por palavra. Segundo, o texto diz "o pecado" no singular, e não "os pecados". Terceiro, o cordeiro de é chamado na Septuaginta de probaton, e não de amnos, e a Torá não apresenta o cordeiro pascal como oferta pelo pecado; a conexão com a Páscoa no quarto evangelho vem de elementos como a hora do julgamento em 19:14 e a citação do osso não quebrado em 19:36, que remete a .
As interpretações de se organizam em torno de quatro imagens. A pascal, defendida por muitos comentaristas, vê o cordeiro da Páscoa, ligada ao cronograma da paixão em João. A do Servo, em , lê amnos à luz de ; Joachim Jeremias chegou a propor que por trás do grego estaria o aramaico talya, que significa "cordeiro" e também "servo", hipótese especulativa. A do sacrifício diário (tamid) lembra o cordeiro oferecido de manhã e à tarde, de . C. H. Dodd, por fim, apontou para o cordeiro vitorioso do judaísmo apocalíptico, com paralelos em textos como 1 Enoque 90 e os Testamentos dos Doze Patriarcas, cuja datação e unidade são discutidas. Raymond Brown observa que João talvez não quisesse escolher entre elas.
No Apocalipse, as tensões são outras. O Cordeiro "como que morto" está de pé (5:6); é objeto da "ira do Cordeiro" (6:16) e guerreia com os seus (17:14). Em 13:8, a expressão "morto desde a fundação do mundo" é gramaticalmente ambígua, pois "desde a fundação do mundo" pode ligar-se a "morto" ou a "escrito no livro da vida", e as traduções divergem. Em 13:11, a segunda besta tem dois chifres "como cordeiro" (arnion), imitação que sugere o contraste entre o verdadeiro Cordeiro e a sua paródia.
O que costumam dizer errado3 afirmações
Dizem que:"Cordeiro de Deus" em João 1:29 se refere apenas ao cordeiro da Páscoa.
O versículo não menciona a Páscoa, e o cordeiro de é chamado de probaton na Septuaginta, não amnos. A Páscoa é uma das leituras possíveis, ao lado do servo de , do sacrifício diário e do cordeiro vitorioso do judaísmo apocalíptico. O quarto evangelho pode combinar mais de uma.
Dizem que:O Cordeiro é sempre uma imagem de fragilidade e mansidão.
No Apocalipse, o Cordeiro tem sete chifres e sete olhos (5:6), é o vencedor que guerreia (17:14) e diante de quem os reis da terra temem a "ira do Cordeiro" (6:16). A imagem combina sacrifício e autoridade.
Dizem que:Amnos e arnion são sinônimos que o Novo Testamento usa sem distinção.
Amnos aparece em João, Atos e 1 Pedro; arnion, quase só no Apocalipse e, em outro sentido, em . Os autores têm vocabulário e contexto próprios, e tratar as duas palavras como idênticas apaga diferenças reais entre os textos.
Como diferentes tradições cristãs leem4 leituras
Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.
Leitura pascal (Raymond Brown e outros)
Vê em o cordeiro da Páscoa, apoiada no cronograma da paixão de João, em que Jesus morre à hora do abate dos cordeiros (19:14) e seus ossos não são quebrados (19:36). É uma leitura de ampla presença na tradição patrística.
Leitura do Servo de Isaías 53 (Joachim Jeremias)
Entende o título à luz do servo levado como cordeiro e portador de pecados. Apoia-se em e em , e foi reforçada pela proposta, especulativa, de um jogo de palavras aramaico entre cordeiro e servo.
Leitura apocalíptica (C. H. Dodd)
Associa o Cordeiro ao líder vitorioso do rebanho do judaísmo apocalíptico, o que se encaixaria no Apocalipse e, em João, no anúncio do Batista de um libertador que vem julgar e remover o pecado.
Católica e ortodoxa (liturgia)
Reúne as imagens na liturgia do Agnus Dei e da fração do pão, em que o Cordeiro de Deus é invocado como aquele que tira o pecado do mundo, sem exigir que se escolha uma só origem bíblica para o título.
O que fazer com isso
Cada passagem em que aparece o Cordeiro merece ser lida no seu contexto antes de ser combinada com as outras. O título pode ser compreendido em João como reconhecimento, em 1 Pedro como resgate e no Apocalipse como autoridade, sem dissolver as diferenças. Perceber o que cada autor escreve, e o que apenas se supõe, torna a leitura mais fiel e mais rica.
Passagens relacionadas7
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Fontes consultadas6 obras
- Bauer, W.; Danker, F. W.; Arndt, W. F.; Gingrich, F. W.. A Greek-English Lexicon of the New Testament and Other Early Christian Literature (BDAG), 2000.
- Brown, R. E.. The Gospel According to John I-XII (Anchor Bible), 1966.
- Dodd, C. H.. The Interpretation of the Fourth Gospel, 1953.
- Carson, D. A.. The Gospel According to John (Pillar New Testament Commentary), 1991.
- Beale, G. K.. The Book of Revelation (NIGTC), 1999.
- Strong, J.. Strong's Exhaustive Concordance of the Bible, 1890.
Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.
Perguntas frequentes
Qual a diferença entre amnos e arnion?
Ambas significam cordeiro. Amnos é a palavra de , e ; arnion é a do Apocalipse, onde designa Cristo quase trinta vezes. Arnion tem origem diminutiva, mas não se sabe se esse sentido ainda era percebido no Apocalipse.
O que significa "tira o pecado do mundo"?
O verbo airo pode significar levantar ou carregar, ou retirar e remover. João não explica qual sentido tem em mente, e a palavra "pecado" está no singular. As tradições interpretam o trecho em conexão com a Páscoa, com ou com o sacrifício diário.
O Cordeiro de Deus de João é o mesmo do Apocalipse?
Os dois textos aplicam o título a Jesus, mas com palavras diferentes (amnos e arnion) e em contextos distintos. Muitos leem uma continuidade; outros apontam que as imagens e as ênfases são diferentes e devem ser lidas separadamente.
O que quer dizer "morto desde a fundação do mundo" em Apocalipse 13:8?
A frase é ambígua no grego: "desde a fundação do mundo" pode ligar-se a "morto" ou a "escritos no livro da vida". Algumas traduções seguem uma opção e outras seguem a outra.
Palavras próximas
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