
"Quem despreza o dia das coisas pequenas?": o que Zacarias 4:10 realmente diz?
O que Zacarias 4:10 quer dizer com não desprezar o dia das coisas pequenas?
Pois quem despreza o dia das pequenas coisas? Pois esses sete se alegrarão ao verem o prumo na mão de Zorobabel (esses são os olhos do SENHOR, que percorrem toda a terra).
Resposta curta
"Quem despreza o dia das coisas pequenas?" é a pergunta de e costuma ser citada como incentivo a começos humildes. No contexto, o profeta fala da reconstrução do segundo templo, por volta de 520 a.C., depois de anos de obra parada. O novo edifício parecia pobre perto do de Salomão, e muitos duvidavam de que valesse a pena. Deus responde que a obra começada por Zorobabel será concluída por suas mãos, e que os sete olhos do Senhor, que percorrem a terra, se alegrarão ao ver o prumo em sua mão. A frase, portanto, não é um elogio genérico à pequenez, mas uma promessa de que o começo modesto de uma obra que Deus determinou não será abandonado. A tradução de "prumo" também é discutida no hebraico.
Como isso aponta para Jesus
TipologiaZorobabel, descendente de Davi, que aparece na genealogia de Jesus, conclui a reconstrução do templo. A tradição cristã vê nele uma sombra de Cristo, o Filho de Davi que edifica o verdadeiro templo, ideia que alimenta ao falar do Renovo que edificará o templo do Senhor. A tipologia é de proporção, e não de identidade: Zorobabel é governador, não rei, e o próprio versículo 10 não fala de Cristo.
Respaldo no Novo Testamento:
Em palavras simples
O povo que voltou do exílio tentava reconstruir o templo, mas a obra era modesta perto da de Salomão, e muita gente a desprezava. Deus diz, por Zacarias, que não se deve desprezar esse começo pequeno, porque Zorobabel, que lançou o alicerce, também vai concluir a obra. Os olhos de Deus, que veem toda a terra, se alegram ao ver o prumo na mão dele. O versículo fala de uma obra específica que Deus mandou fazer, e não de qualquer começo pequeno.
Contexto histórico
O livro de Zacarias nasce no período pós-exílico. Em 538 a.C., o decreto de Ciro permitiu que os judeus voltassem a Jerusalém e reconstruíssem o templo (). Os repatriados lançaram o alicerce por volta de 536 a.C. (), mas a oposição dos povos vizinhos e o desânimo interromperam a obra por cerca de quinze anos (). Em 520 a.C., no segundo ano de Dario, os profetas Ageu e Zacarias entraram em cena e estimularam o povo, o governador Zorobabel e o sumo sacerdote Josué a retomar a construção (; ).
O contraste com o primeiro templo pesava no ânimo do povo. Quando o alicerce foi lançado, os mais velhos, que tinham visto o templo de Salomão, choraram em alta voz, enquanto outros gritavam de alegria (). reflete o mesmo sentimento ao perguntar quem ainda se lembrava da casa na sua primeira glória e como ela parecia agora aos olhos de todos. O "dia das coisas pequenas" é, portanto, esse tempo de recomeço, em que a obra parecia insignificante diante da lembrança de Salomão.
é a quinta das oito visões noturnas do profeta (1:7 a 6:8). Ele vê um candelabro de ouro com sete lâmpadas e duas oliveiras ao lado, que alimentam o óleo (4:2-3). O anjo explica: a palavra do Senhor a Zorobabel é "Não por força nem por poder, mas pelo meu Espírito" (4:6). O monte que parece impossível será transformado em planície diante de Zorobabel, e ele porá a pedra de remate com aclamações (4:7). No versículo 9, Deus afirma que as mãos de Zorobabel lançaram o alicerce e as mesmas mãos o acabarão, e que, quando isso acontecer, o povo saberá que o Senhor dos Exércitos enviou o profeta.
O versículo 10 aparece entre essa promessa e a explicação das sete lâmpadas e dos dois ungidos (4:11-14). É uma pergunta retórica que quer dizer: ninguém deve desprezar o que Deus está fazendo, ainda que o início seja modesto, porque a obra se concluirá.
Aprofundamento
A pergunta de 4:10 começa com ki, "pois", que liga o versículo ao anterior: porque as mãos de Zorobabel acabarão o templo, quem despreza o dia das coisas pequenas? O verbo traduzido por desprezar é buz, que expressa desdém, tratar como pouca coisa. A expressão "dia das coisas pequenas" (yom qetannot) é uma imagem hebraica: o dia é o período em que algo acontece, e as coisas pequenas são os começos modestos. Algumas versões modernas a traduzem por "dia dos humildes começos". O desprezo vinha dos que comparavam o templo novo ao de Salomão.
A segunda parte traz uma dificuldade de sujeito. Nas versões tradicionais, lê-se que "estes sete se alegrarão, e verão o prumo na mão de Zorobabel", e o fim do versículo identifica os sete como "os olhos do Senhor, que percorrem toda a terra". Nessa leitura, quem se alegra com o recomeço não é o público que o desprezou, mas o próprio Deus, que acompanha cada passo da obra. Outras versões reorganizam a frase e dizem apenas "eles se alegrarão", o que faz parecer que são os desprezadores que mudam de ideia. O hebraico, com o demonstrativo "estes sete", sustenta a primeira leitura como a mais natural.
O hebraico tem 'eben ha-bedil, literalmente "a pedra do estanho" ou "a pedra de chumbo". A maioria das traduções entende como prumo, o instrumento de pedreiro formado por um peso preso a uma linha, que mede a verticalidade de uma parede. Outros estudiosos defendem que se trata de um peso de estanho usado para nivelar, ou da pedra de remate. Em qualquer caso, a imagem é a de Zorobabel com uma ferramenta de construção na mão, em plena obra. Convém não confundir com o prumo de , que mede para juízo: aqui ele mede para construir.
Os sete olhos aparecem também em , onde há uma pedra com sete olhos. A ideia é que o Senhor vê tudo e acompanha a construção, e que nenhum desprezo humano é a última palavra sobre a obra.
O versículo é frequentemente usado como encorajamento para quem está começando algo pequeno. Essa aplicação tem base parcial. O texto não diz que todo começo pequeno é bom em si mesmo, mas que a obra que Deus ordenou e que é realizada pelo Espírito não deve ser desprezada por parecer pequena. O foco está no que Deus determinou, e não em qualquer projeto. O versículo 6, "não por força nem por poder", mostra de onde vem a força.
Há ainda um elemento de ironia. Zorobabel tinha poder político limitado, pois era governador persa, não rei, e o Judá de então era uma província pequena. Mesmo assim, o texto o apresenta como figura de destaque na história da redenção. O plano de Deus não depende do tamanho do instrumento.
O que costumam dizer errado2 afirmações
Dizem que:Zacarias 4:10 promete que todo começo pequeno terminará em grande êxito.
O versículo trata de uma obra específica, a reconstrução do templo, ordenada por Deus e realizada pelo Espírito (4:6). Não é uma regra geral sobre todos os projetos pequenos, e sim uma promessa sobre esta obra.
Dizem que:O "prumo" na mão de Zorobabel indica juízo, como em Amós 7.
Em , o prumo mede a parede torta para condená-la. Em , a imagem é de construção em andamento: o prumo na mão de Zorobabel mostra que a obra está sendo feita a prumo, e não que será demolida.
Como diferentes tradições cristãs leem3 leituras
Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.
Leitura histórica (reconstrução do templo)
O versículo encoraja os judeus a retomar a obra apesar da modéstia do novo templo, e promete a Zorobabel que ele concluirá o que começou. É a leitura mais aceita entre os comentaristas.
Leitura sobre o sujeito do verbo
Quem se alegra são os sete olhos do Senhor, como na maioria das versões tradicionais, e não os que antes desprezavam a obra, como algumas traduções sugerem.
Leitura tipológica messiânica
Zorobabel, da linhagem de Davi, antecipa o Filho de Davi que edifica o verdadeiro templo. Essa leitura se apoia em e em textos do Novo Testamento sobre o templo.
No original3 termos
בּוּזbuzH936
Desprezar, tratar com desdém; o verbo de 4:10 descreve a atitude de quem considera a obra sem valor.
קְטַנּוֹתqetannotH6996
Coisas pequenas, começos modestos (relacionado ao adjetivo qatan); no versículo, o tempo de recomeço em que a obra parecia insignificante.
אֶבֶן הַבְּדִיל'eben ha-bedil
Literalmente "a pedra do estanho/chumbo"; geralmente entendida como prumo ou peso de pedreiro. 'Eben, pedra, é H68.
O que fazer com isso
consola quem está começando uma obra boa com poucos recursos e vê os outros torcerem o nariz. Mas o consolo vem de saber que a obra é de Deus, realizada "não por força nem por poder", e não do simples fato de ser pequena. Antes de citar o versículo como lema, vale perguntar se o que se faz é mesmo o que Deus pediu. Tamanho não é critério, a fonte da obra é.
Passagens relacionadas5
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Fontes consultadas4 obras
- Carol L. Meyers e Eric M. Meyers. Haggai, Zechariah 1–8 (Anchor Bible), 1987.
- David L. Petersen. Haggai and Zechariah 1–8 (Old Testament Library), 1984.
- Joyce G. Baldwin. Haggai, Zechariah, Malachi (Tyndale Old Testament Commentaries), 1972.
- Mark J. Boda. Haggai, Zechariah (NIV Application Commentary), 2004.
Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.
Perguntas frequentes
Zacarias 4:10 vale para qualquer projeto pequeno?
Não diretamente. O versículo trata da reconstrução do templo, ordenada por Deus. Como princípio, ensina a não desprezar o que Deus está fazendo por parecer pequeno, mas a promessa de êxito vale para a obra que ele determinou.
O que é o prumo na mão de Zorobabel?
É o instrumento de pedreiro que mede a verticalidade de uma parede. O hebraico fala em "pedra de estanho", e há quem veja um peso de nivelamento. A imagem mostra Zorobabel em plena obra, e a construção avançando.
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