Ciro
Quem foi Ciro, rei da Pérsia, na Bíblia?
Ficha do personagem
c. 559-530 a.C., Pérsia e Babilônia
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Resposta curta
Ciro II, fundador do Império Persa, reinou de cerca de 559 a 530 a.C. e conquistou a Babilônia em 539 a.C. Na Bíblia, é o rei que, em seu primeiro ano sobre a cidade, autoriza os judeus exilados a voltar a Jerusalém e reconstruir o templo (; ). O profeta Isaías o chama pelo nome, descreve-o como pastor do Senhor e lhe dá o título de "ungido" (; 45:1), algo raro para um rei não israelita. Fora da Bíblia, o Cilindro de Ciro registra uma política de devolver povos e deuses deslocados a seus lugares de origem, mas não cita Jerusalém nem os judeus. A discussão sobre a data e a autoria de acompanha o verbete.
Onde ele aparece
Como isso aponta para Jesus
ContrasteCiro liberta os exilados por decreto imperial e com o respaldo do poder de um império. Em , Jesus lê e anuncia libertação aos cativos, mas sem recorrer a um trono ou a um exército. O vínculo é de vocabulário ("ungido", "libertação") e de contraste de método. O Novo Testamento nunca chama Ciro de tipo de Cristo, e o texto de aplica o título ao rei persa no sentido de agente enviado, não de Messias.
Respaldo no Novo Testamento:
Em palavras simples
Ciro foi o rei que fundou o Império Persa e conquistou a Babilônia em 539 a.C. Pouco depois, permitiu que os judeus exilados voltassem a Jerusalém e reconstruíssem o templo, e devolveu os objetos sagrados que tinham sido levados. O profeta Isaías o chama de "ungido" de Deus, mesmo dizendo que Ciro não conhecia o Senhor. Um documento persa, o Cilindro de Ciro, mostra que ele costumava devolver povos e deuses a seus lugares, mas não cita Jerusalém.
O mundo dele
Ciro II era originário do sul do atual Irã e rei de Anshan, um pequeno reino vassalo da Média. Por volta de 550 a.C. derrotou o rei medo Astíages e incorporou a Média; por volta de 546 a.C. venceu Creso, rei da Lídia; e em 539 a.C. entrou na Babilônia, que estava sob o rei Nabonido. A Crônica de Nabonido, tábua babilônica, descreve a tomada da cidade sem grande batalha. Com isso, nasceu o maior império visto até então, que se estendia do Egito ao Indo nas gerações seguintes.
Para os judeus, o pano de fundo era o exílio. Em 586 a.C. Jerusalém fora destruída pelos babilônios, e parte da população vivia deportada na Mesopotâmia. Jeremias havia anunciado que o cativeiro duraria setenta anos (), e o cronista de relaciona o fim do exílio com essa palavra e com o decreto de Ciro. Esse trecho é, na ordem do cânon hebraico, a última passagem da Bíblia, pois Crônicas fecha a coleção.
A política persa de governo ajuda a entender o decreto. Os reis aquemênidas costumavam respeitar os cultos locais e apoiar a reconstrução de santuários, com benefícios políticos e fiscais para o império. O Cilindro de Ciro, escrito em acadiano e descoberto na Babilônia em 1879, traz exatamente essa linha: apresenta Ciro como escolhido do deus Marduque, diz que ele devolveu as imagens dos deuses aos santuários de várias cidades e que reuniu seus habitantes para que voltassem às suas moradias. O texto, porém, não nomeia Jerusalém, Judá nem o Deus de Israel, de modo que não é uma prova direta do decreto de Esdras, apenas de um padrão de governo compatível com ele.
Sobre o fim do reinado, as fontes antigas divergem. Heródoto o faz morrer em combate contra os masságetas, em 530 a.C., mas outros autores gregos contam de modo diferente. Seu filho Cambises assumiu o trono.
A história
O decreto aparece em duas versões. traz uma proclamação em hebraico, dirigida a todo o reino: o Senhor, Deus dos céus, deu-lhe os reinos da terra e lhe encarregou de edificar um templo em Jerusalém; quem quiser, dentre o povo, pode subir. acrescenta que Ciro mandou entregar os utensílios do templo, tomados por Nabucodonosor, ao príncipe Sesbazar, num total de 5.400 objetos de ouro e prata. Já em , no reinado de Dario, os arquivos reais de Ecbatana guardam, em aramaico, um memorando do primeiro ano de Ciro, que fixa as dimensões do templo e determina que o custo saia do tesouro real. A diferença de forma sugere que o primeiro texto é um anúncio público, e o segundo, um registro administrativo. Parte dos historiadores discute a autenticidade dos dois, e outra parte os considera plausíveis à luz da política persa.
e 45:1-7 vão além e atribuem a Ciro um papel teológico. Ele é "meu pastor", cumprirá a vontade de Deus ao ordenar a reconstrução de Jerusalém e do templo, e é chamado "ungido" (em hebraico, mashiach). Deus diz tê-lo tomado pela mão direita e ter-lhe dado um nome, "ainda que não me conheças" (45:4-5). O texto não diz que Ciro adorava o Senhor; apresenta-o como instrumento de um Deus que ele não reconhece. O título "ungido" indica uma missão recebida, sem relação com o sentido que a palavra tomaria mais tarde para o Messias.
A discussão sobre gira em torno de quando o texto foi escrito. A leitura tradicional atribui o livro inteiro a Isaías, do século VIII a.C., e vê no nome de Ciro uma profecia feita mais de um século antes. Muitos estudiosos entendem esses capítulos como obra de um profeta anônimo do exílio, por volta de 540 a.C., que falava com Ciro já em ascensão. O próprio texto não declara autoria nem data.
O retorno, por fim, foi gradual. O templo só foi concluído em 516 ou 515 a.C., no reinado de Dario (), depois do apoio dos profetas Ageu e Zacarias, e os muros da cidade esperaram ainda décadas.
Um último ponto é o nome do Deus de Israel na chancelaria persa. A expressão "Deus dos céus" () reaparece em documentos aramaicos dos judeus de Elefantina, no Egito, do século V a.C., o que sugere uma fórmula familiar nos meios persas para designar o Deus dos judeus. Por isso muitos estudiosos entendem que o decreto, mesmo reelaborado pelo cronista, reflete linguagem adequada à administração persa, sem implicar que Ciro tenha adotado essa fé.
O que costumam dizer errado3
Dizem que:Ciro era judeu ou se converteu ao Deus de Israel.
A Bíblia não diz isso. afirma que Ciro não conhecia o Senhor, e o Cilindro de Ciro apresenta o rei como escolhido de Marduque. O decreto de usa linguagem de reconhecimento do "Deus dos céus", fórmula comum na chancelaria persa, que não prova conversão.
Dizem que:O Cilindro de Ciro menciona os judeus e a reconstrução do templo de Jerusalém.
O cilindro fala de cidades da Mesopotâmia e de regiões vizinhas, e não cita Jerusalém, Judá nem o templo. Ele serve como evidência da política geral de Ciro com povos deslocados, e não como confirmação direta do texto de Esdras.
Dizem que:O Cilindro de Ciro é a primeira declaração de direitos humanos da história.
Essa leitura foi popularizada no século XX, em contexto de propaganda política, e é rejeitada por muitos historiadores. O texto é uma inscrição real que justifica a conquista de Ciro e exalta Marduque, em formato tradicional mesopotâmico.
Como diferentes tradições cristãs leem3
Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.
Judaica tradicional
Lê o decreto como cumprimento da promessa de Jeremias sobre o fim do cativeiro, com Ciro agindo como instrumento da providência divina. O retorno é visto como um novo começo, embora incompleto, porque o templo reconstruído não teve toda a glória do primeiro.
Reformada e evangélica conservadora
Interpreta como profecia genuína, feita antes do nascimento de Ciro, e como demonstração da soberania de Deus sobre reis que não o conhecem. João Calvino, em seu comentário a Isaías, enfatiza que o Senhor usa até governantes pagãos para realizar seus propósitos.
Crítica histórica acadêmica
Entende como composição de um profeta do exílio, o chamado Dêutero-Isaías, que escreve quando Ciro já despontava como conquistador. O título "ungido" seria então uma interpretação teológica de um evento político contemporâneo.
O que fazer com isso
A figura de Ciro mostra que a Bíblia reconhece o papel de um governante estrangeiro na história de seu povo sem fazer dele um dos seus. Ele recebe títulos altos, mas continua sendo um rei persa com interesses próprios, e o texto não esconde isso. A leitura honesta dessas passagens evita tanto minimizar o decreto quanto transformar Ciro em personagem de fé, distinção que o próprio preserva.
Passagens relacionadas8
Fontes consultadas5
- Amélie Kuhrt. The Persian Empire: A Corpus of Sources from the Achaemenid Period, 2007.
- Pierre Briant. From Cyrus to Alexander: A History of the Persian Empire, 2002.
- H. G. M. Williamson. Ezra, Nehemiah (Word Biblical Commentary), 1985.
- Joseph Blenkinsopp. Isaiah 40-55 (Anchor Bible), 2002.
- João Calvino. Comentário sobre Isaías, 1559.
Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.
Perguntas frequentes
Por que Isaías chama Ciro de "ungido"?
O termo hebraico mashiach designa alguém separado para uma tarefa, como reis e sacerdotes. Em , Ciro recebe o título porque Deus o designou para libertar os exilados, ainda que ele não conhecesse o Senhor. Não se trata do Messias esperado.
Todos os judeus voltaram com o decreto de Ciro?
Não. diz que subiram os que tiveram o espírito despertado por Deus, e muitos permaneceram na Babilônia. O retorno foi gradual, com levas sucessivas sob Sesbazar, Zorobabel e, mais tarde, Esdras e Neemias.
Ciro e Dario são o mesmo rei?
Não. Ciro reinou até 530 a.C.; depois vieram Cambises e, a partir de 522 a.C., Dario I. O templo, autorizado sob Ciro, foi concluído sob Dario ().
O Cilindro de Ciro prova que o decreto de Esdras é verdadeiro?
Não prova diretamente. Ele mostra que Ciro costumava devolver povos e deuses a seus lugares, o que combina com o decreto, mas não menciona Jerusalém nem os judeus.