
O refrão repetido 26 vezes do Salmo 136
o que significa o salmo 136 e por que ele repete tanto a mesma frase
Agradecei ao SENHOR, porque ele é bom, porque sua bondade dura para sempre. Agradecei ao Deus dos deuses, porque sua bondade dura para sempre. Agradecei ao SENHOR dos senhores; porque sua bondade dura para sempre. Ao que faz grandes maravilhas sozinho por si mesmo; porque sua bondade dura para sempre.
Resposta curta
O Salmo 136 abre um hino de louvor que percorre a criação e a história de Israel, do êxodo até a terra prometida. Sua marca mais visível é estrutural: cada um dos 26 versículos termina com o mesmo refrão, "porque sua bondade dura para sempre" — no hebraico, "chesed", a lealdade firme de Deus dentro de uma aliança. Essa repetição não é enchimento poético; tudo indica um salmo cantado em responsório, em responsório entre solista e congregação.
O formato também aparece em e , sugerindo uso litúrgico já estabelecido no culto israelita, não invenção isolada. A repetição funcionava como recurso de memorização e afirmação coletiva: o povo inteiro, não só quem liderava o canto, declarava que a lealdade de Deus permanecia constante diante de cada evento lembrado.
Como isso aponta para Jesus
Trajetória do textoO Salmo 136 celebra o chesed de Deus — sua lealdade de aliança — manifestado na criação e na história de Israel. O Novo Testamento não cita este salmo diretamente, mas a tradição cristã lê essa mesma categoria, o amor leal e constante de Deus, como um fio que atravessa toda a Escritura e chega ao seu ponto mais alto na entrega de Cristo. Paulo descreve o amor de Deus em termos de constância inabalável precisamente onde seria mais surpreendente — "mas Deus prova o seu amor para conosco, em que, quando ainda éramos pecadores, Cristo morreu por nós" () —, ecoando a lógica do salmo: o chesed de Deus não depende do mérito de quem o recebe, mas do próprio compromisso de Deus. Ler o Salmo 136 à luz do Novo Testamento não significa que o texto profetize Cristo, mas que a mesma verdade que o salmo repete 26 vezes sobre Israel encontra em Cristo sua expressão mais plena e definitiva.
Respaldo no Novo Testamento:
Em palavras simples
O Salmo 136 é um louvor cantado, provavelmente em revezamento entre um solista e o povo. Cada um dos 26 versículos lembra algo que Deus fez — criar o mundo, tirar Israel do Egito, dar a eles uma terra — e termina sempre com a mesma frase: "porque sua bondade dura para sempre". Não é repetição sem propósito. É um jeito de gravar a mensagem na memória e fazer com que todos, e não só quem canta na frente, afirmem junto que o cuidado de Deus não muda, não importa o que aconteça.
Contexto histórico
O Salmo 136 não traz superscrição com nome de autor, o que é raro entre os salmos de louvor histórico e deixa a data de composição incerta — provavelmente do período do templo, quando havia estrutura de canto organizada por levitas. Ele pertence a um pequeno grupo de salmos chamados "de recital histórico", ao lado dos , 106 e 135, que repassam a história de Israel como motivo de louvor, não apenas como narrativa.
A estrutura do salmo se divide em três blocos: louvor a Deus como criador (versículos 1 a 9), louvor a Deus como libertador no êxodo e na travessia do deserto (versículos 10 a 22) e louvor a Deus como provedor presente do povo (versículos 23 a 26). Em cada bloco, cada verso traz um fato distinto — a separação das águas, a derrota de reis, a divisão da terra — e recebe exatamente o mesmo comentário final. Essa uniformidade é o ponto: não importa o tipo de ação divina lembrada, a conclusão é sempre a mesma.
A tradição judaica chama esse salmo de "Hallel Gadol" (o "Grande Hallel"), associado à liturgia da Páscoa, cantado depois da refeição comemorativa — uso que a literatura rabínica posterior discute como prática já consolidada. Esse pano de fundo litúrgico ajuda a entender por que o salmo tem esse formato: ele não foi escrito para leitura silenciosa e individual, mas para ser executado em voz alta por um grupo, com um responsório fixo repetido por toda a congregação.
A palavra central do refrão, "chesed", é um dos termos mais importantes do vocabulário teológico do Antigo Testamento. Ela não descreve um sentimento passageiro de compaixão, mas a lealdade estável de alguém comprometido por aliança — por isso traduções variam entre "bondade", "misericórdia", "amor leal" e "graça constante", sem que nenhuma sozinha esgote o sentido. O salmo usa esse termo 26 vezes seguidas exatamente para impedir que o leitor o trate como detalhe secundário.
Aprofundamento
A repetição do Salmo 136 costuma ser lida por leitores modernos como uma curiosidade estilística ou até como monotonia poética. Comentaristas como Franz Delitzsch e, mais recentemente, Derek Kidner argumentam o contrário: a estrutura de responsório era um recurso didático deliberado, adequado a uma cultura de transmissão majoritariamente oral, na qual a memorização coletiva de verdades centrais dependia de repetição rítmica guiada por um líder de canto.
O mecanismo é simples e eficaz. Cada verso apresenta um fato histórico ou uma qualidade de Deus — a criação do sol e da lua, a divisão do mar Vermelho, a derrota de Seom e Ogue — e imediatamente recebe o mesmo comentário: "porque sua bondade dura para sempre". O efeito cumulativo não é redundância, mas insistência interpretativa: o salmo está ensinando a congregação a associar automaticamente qualquer lembrança da história de Israel a essa única conclusão sobre o caráter de Deus. Depois de ouvir o refrão pela vigésima sexta vez, o adorador dificilmente conseguiria narrar um evento da história sagrada sem completar a frase mentalmente.
Esse tipo de responsório aparece documentado em outros textos de culto israelita. Em e 41, Davi organiza o canto no tabernáculo com a mesma fórmula fixa atribuída aos levitas; em , o povo usa a mesma frase ao lançar os alicerces do segundo templo, alternando cânticos entre grupos. Isso indica que o refrão do Salmo 136 não era uma invenção poética isolada, mas parte de um repertório litúrgico compartilhado, algo próximo do que hoje se chamaria de canto responsorial ou "call and response".
Vale notar uma distinção importante: o termo hebraico por trás de "bondade" ou "misericórdia" — chesed — carrega a ideia de lealdade dentro de um compromisso assumido, mais próxima de "fidelidade constante" do que de um sentimento emocional isolado. Isso muda o peso do refrão: o salmo não está apenas dizendo que Deus é gentil, mas que ele permanece fiel aos compromissos que assumiu com Israel, evento após evento, século após século. A forma repetitiva do salmo, portanto, não é um defeito a ser tolerado, mas o próprio argumento teológico: a constância de Deus se demonstra pela constância da própria frase que o descreve.
Essa observação também ajuda a explicar por que traduções diferentes escolhem palavras diferentes para o mesmo termo — "bondade" na tradução usada aqui, "misericórdia" em outras, "amor leal" ou "graça constante" em versões mais recentes. Nenhuma palavra isolada em português cobre todo o campo semântico de chesed, que combina afeto, compromisso e fidelidade prática. Por isso o valor do salmo não está em decidir qual tradução é "a certa", mas em perceber que o texto insiste, 26 vezes seguidas, no mesmo atributo divino, como se quisesse impedir qualquer leitor de esquecê-lo mesmo depois de terminada a leitura.
O que costumam dizer errado2 afirmações
Dizem que:A repetição do refrão é só enchimento poético hebraico, sem função real.
A estrutura corresponde a um formato de canto responsorial documentado em outros textos de culto israelita, como e , em que grupos alternavam partes fixas do canto. A repetição era técnica de memorização e afirmação coletiva, não recurso decorativo.
Dizem que:'Bondade' ou 'misericórdia' aqui significa um sentimento passageiro de pena.
O termo hebraico chesed descreve lealdade estável dentro de um compromisso de aliança, não uma emoção momentânea. A ênfase do salmo está na constância desse compromisso ao longo de toda a história de Israel, não numa reação emocional pontual.
Como diferentes tradições cristãs leem3 leituras
Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.
Católica e ortodoxa
Destacam o caráter litúrgico do salmo, lido como modelo para o canto responsorial ainda presente na liturgia cristã, em que a congregação responde a versos proclamados por um cantor ou celebrante, unindo a assembleia numa mesma confissão de fé.
Reformada
Enfatizam o chesed como termo de aliança: a constância de Deus com Israel prefigura a fidelidade de Deus à aliança da graça, cumprida em Cristo, de modo que o salmo funciona como catecismo cantado sobre o caráter imutável de Deus.
Pentecostal e evangélica
Valorizam a repetição como prática de declaração de fé e gratidão renovada, um padrão de louvor em que a igreja é chamada a verbalizar repetidamente, e em voz alta, a confiança na fidelidade constante de Deus em cada área da vida.
No original5 termos
חֶסֶדchesedH2617
Lealdade firme e constante dentro de um compromisso ou aliança; traduzido como 'bondade', 'misericórdia', 'amor leal' ou 'graça'.
יְהוָהYHWHH3068
O nome próprio do Deus de Israel, revelado a Moisés, geralmente vertido como 'SENHOR' em letras maiúsculas nas traduções.
עוֹלָםolamH5769
Duração longa ou indefinida, 'para sempre', 'eternamente' ou 'perpetuamente'.
אֱלֹהִיםelohimH430
Termo genérico para 'Deus' ou 'deuses', usado aqui na expressão 'Deus dos deuses' para afirmar a supremacia do Senhor.
אָדוֹןadonH113
'Senhor' ou 'dono', usado na expressão 'Senhor dos senhores' para indicar autoridade suprema sobre toda autoridade humana.
O que fazer com isso
O Salmo 136 sugere uma prática simples: nomear em voz alta os eventos concretos de um período — uma contratação, uma recuperação, um problema resolvido — e encerrar cada um com a mesma frase de reconhecimento, em vez de deixar a gratidão vaga e genérica. A repetição do salmo funciona como método, não como enfeite: ela treina a memória a associar fatos específicos a uma conclusão estável sobre o caráter de Deus, algo que uma menção única e isolada de gratidão dificilmente consegue fixar.
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Fontes consultadas4 obras
- Derek Kidner. Psalms 73-150: An Introduction and Commentary, 1975.
- Franz Delitzsch (Keil & Delitzsch). Commentary on the Old Testament: Psalms, 1871.
- Tremper Longman III. Psalms: An Introduction and Commentary, 2014.
- James Luther Mays. Psalms (Interpretation: A Bible Commentary), 1994.
Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.
Perguntas frequentes
Por que o Salmo 136 repete a mesma frase 26 vezes?
Porque provavelmente era cantado em responsório: um solista ou os levitas cantavam a primeira parte de cada verso e toda a congregação respondia com o refrão fixo. A repetição servia para memorização coletiva e para afirmação pública, não como enchimento poético.
O que significa a palavra traduzida como 'bondade' ou 'misericórdia' nesse salmo?
É o termo hebraico chesed, que descreve lealdade firme dentro de um compromisso assumido, mais próxima de 'fidelidade constante' do que de um sentimento passageiro de pena. Por isso as traduções variam entre 'bondade', 'misericórdia', 'amor leal' e 'graça'.
Esse formato de refrão aparece em outro lugar da Bíblia?
Sim. A mesma fórmula aparece em e 41, associada ao canto levítico organizado por Davi, e em , quando o povo canta ao lançar os alicerces do segundo templo. Isso sugere um uso litúrgico já estabelecido no culto israelita.
O Salmo 136 tem ligação com a Páscoa judaica?
Na tradição judaica ele é chamado de 'Hallel Gadol' (Grande Hallel) e está associado à liturgia da Páscoa, cantado após a refeição comemorativa. Esse uso litúrgico posterior ajuda a explicar por que o salmo foi composto nesse formato responsorial.
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