
Guerras, Terremotos e Pragas em Lucas 21:10-11
A Bíblia previu que os terremotos e as pandemias aumentariam antes do fim do mundo?
Então lhe disse: Então se levantará nação contra nação, e reino contra reino. E haverá em vários lugares grandes terremotos e fomes, e pragas; haverá também coisas espantosas, e grandes sinais do céu.
Resposta curta
Os discípulos perguntam a Jesus quando o templo de Jerusalém seria destruído e que sinal indicaria a proximidade desse fim (). Jesus responde descrevendo instabilidade: "se levantará nação contra nação, e reino contra reino", e em vários lugares haverá "grandes terremotos e fomes, e pragas", além de "coisas espantosas, e grandes sinais do céu". Esse discurso mistura duas perguntas: a queda do templo, cumprida pelos romanos em 70 d.C., e o fim dos tempos.
O detalhe decisivo está no versículo anterior: Jesus já avisou que guerras e rebeliões aconteceriam, "mas ainda não é o fim" (v.9). Guerras, terremotos, fomes e pragas são constantes da história humana, não marcadores de uma contagem regressiva. Ler esse texto como calendário para calcular a data do fim contraria o próprio aviso de Jesus e o gênero apocalíptico do discurso.
Como isso aponta para Jesus
Trajetória do textodescreve o conflito entre "reino contra reino" como marca da história humana quebrada. Esse mesmo capítulo caminha, poucos versículos adiante, para a promessa de que o Filho do Homem virá "com poder e grande glória" e que, quando esses sinais começarem, a redenção estará se aproximando (). A trajetória bíblica dos reinos humanos em guerra contrasta com o anúncio, já presente no ensino de Jesus (), de que o reino de Deus está próximo — um reino que o Novo Testamento afirma se consumar definitivamente quando "os reinos do mundo se tornaram [reinos] do nosso Senhor e do seu Cristo" (). Assim, a instabilidade política e natural descrita nesses versículos não é o ponto final da história, mas o pano de fundo contra o qual a esperança cristã aponta para a intervenção definitiva de Cristo, que estabelece um reino que não é abalado ().
Respaldo no Novo Testamento: ;
Em palavras simples
Os discípulos perguntaram a Jesus quando o templo seria destruído e que sinal avisaria disso. Ele respondeu falando de guerras entre nações, terremotos, fome e doenças espalhadas em vários lugares, além de coisas assustadoras no céu. Mas, na frase anterior, Jesus já tinha avisado: essas coisas aconteceriam, e mesmo assim ainda não seria o fim. Guerras, terremotos e doenças sempre existiram ao longo de toda a história; elas não funcionam como um relógio que permite calcular quando o mundo vai acabar.
Contexto histórico
faz parte do chamado discurso do Monte das Oliveiras (paralelo em e ), pronunciado por Jesus durante a última semana antes de sua morte, nos pátios do templo de Jerusalém. O gatilho da conversa é a admiração dos discípulos pela grandiosidade do templo herodiano, construído com blocos de pedra enormes (). Jesus responde anunciando que "não se deixará pedra sobre pedra, que não seja derrubada" (v.6) — previsão que se cumpriu quando as legiões romanas, sob o comando de Tito, destruíram o templo em 70 d.C., ao final da Primeira Guerra Judaico-Romana, episódio bem documentado pelo historiador judeu Flávio Josefo, que viveu e escreveu sobre esse conflito.
Diante do anúncio, os discípulos fazem duas perguntas entrelaçadas: quando isso aconteceria e qual seria o sinal desse acontecimento (v.7). Jesus responde de um jeito que mistura dois horizontes de tempo: eventos próximos, ligados à queda de Jerusalém, e eventos mais distantes, ligados ao que a tradição cristã chama de consumação final da história. Essa mistura de horizontes é comum na literatura profética e apocalíptica judaica, que usa imagens de guerra, fome, peste e fenômenos celestes para descrever julgamento e reviravolta histórica — não necessariamente uma sequência cronológica fechada e datável.
Antes de chegar aos versículos 10-11, Jesus já havia alertado, no versículo 9, que guerras e rebeliões aconteceriam, "mas ainda não é o fim". Esse aviso funciona como uma chave de leitura para tudo o que vem depois: os sinais listados não servem para calcular datas, mas para descrever um padrão que se repete ao longo da história enquanto a promessa final não se cumpre. A fome mencionada em , ocorrida durante o reinado do imperador Cláudio, é citada por comentaristas como um exemplo histórico do tipo de evento que Jesus tinha em mente, e reforça que essas calamidades já eram realidade concreta para a primeira geração de leitores do Evangelho.
Aprofundamento
O texto de pertence ao gênero apocalíptico, um estilo literário judaico que também aparece em livros como Daniel e em partes de Isaías. Esse gênero usa uma linguagem de convulsão cósmica e política — guerras entre nações, terremotos, fome, peste, sinais no céu — para comunicar julgamento divino e reviravolta histórica, não como uma lista técnica de eventos a serem marcados num calendário. Imagens semelhantes aparecem em (nação contra nação) e (abalo dos céus e da terra), mostrando que esse vocabulário já era um recurso profético conhecido bem antes de Jesus utilizá-lo diante dos discípulos.
No grego original, o versículo 11 traz um jogo de palavras que se perde na tradução: "fomes" é limoi e "pragas" (pestilências) é loimoi — termos parecidos no som, quase uma rima, recurso retórico que reforça a ideia de sofrimento generalizado sem necessariamente distinguir categorias exatas de desastre. Comentaristas como I. Howard Marshall observam que esse tipo de lista dupla ou tripla é típico da retórica profética, que empilha imagens de calamidade para comunicar magnitude e urgência, não para fornecer uma classificação exaustiva ou uma ordem cronológica rígida entre os eventos citados.
Um ponto central para a interpretação é que a pergunta dos discípulos (v.7) mistura dois eventos que, do ponto de vista deles, pareciam coincidir: a destruição do templo e o fim da era presente. Estudiosos como N. T. Wright e Darrell Bock notam que discursos proféticos desse tipo costumam operar com uma espécie de perspectiva telescópica, na qual eventos próximos — a guerra judaico-romana de 66 a 70 d.C. — e eventos mais distantes aparecem na mesma fala sem uma separação cronológica explícita, um fenômeno já observado também em profecias do Antigo Testamento sobre o dia do Senhor.
Por isso, aplicar esse texto diretamente a terremotos ou pandemias do século XXI como prova de que "o fim está próximo" ignora dois avisos do próprio Jesus: o versículo 9, que já classifica guerras e rebeliões como algo que "ainda não é o fim", e o caráter recorrente dessas calamidades ao longo de toda a história humana, tanto antes quanto depois de 70 d.C. Ao longo dos séculos, diferentes grupos cristãos já usaram guerras, epidemias ou catástrofes naturais de sua própria época para anunciar datas específicas do fim, e todas essas previsões falharam, o que por si só ilustra o risco de tratar esse discurso como um mapa cronológico. O texto pede vigilância e fidelidade constantes diante da instabilidade do mundo, não o cálculo de datas ou a leitura ansiosa de cada manchete como cumprimento profético.
O que costumam dizer errado2 afirmações
Dizem que:Terremotos e pandemias estão aumentando de forma exponencial hoje, o que prova que estamos nos últimos dias.
Registros históricos e geológicos mostram guerras, fomes, terremotos e epidemias em praticamente todos os séculos, incluindo os que antecederam a destruição de Jerusalém em 70 d.C. Jesus classifica esse tipo de evento como recorrente, não como uma novidade exclusiva do presente.
Dizem que:Jesus estava dando uma lista de checagem cronológica para calcular a data exata do fim do mundo.
O discurso usa linguagem apocalíptica, um estilo que a literatura judaica já empregava para descrever julgamento e reviravolta histórica de forma simbólica, não como um roteiro sequencial de eventos a serem marcados num calendário.
Como diferentes tradições cristãs leem4 leituras
Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.
Reformada (leitura preterista parcial)
Boa parte dos sinais listados em se refere primariamente aos eventos que levaram à destruição de Jerusalém em 70 d.C., funcionando como julgamento histórico sobre aquela geração, com apenas os versículos finais do capítulo apontando para a volta definitiva de Cristo.
Pentecostal / evangelical futurista
Embora parte do discurso tenha se cumprido em 70 d.C., os sinais de guerras, terremotos e pragas também descrevem um padrão que se intensificará antes da segunda vinda de Cristo, servindo como chamado à vigilância espiritual em qualquer época, inclusive a atual.
Católica (leitura amilenista/idealista)
Os sinais representam de forma simbólica as tribulações que marcam toda a história da Igreja entre a primeira e a segunda vinda de Cristo, e não uma sequência de eventos datáveis; o texto convida à perseverança constante, não ao cálculo de prazos.
Adventista (leitura historicista)
Os sinais descrevem marcos que se desdobram ao longo do curso da história humana e da história da Igreja, funcionando como confirmações cumulativas da fidelidade de Deus às suas promessas, mais do que uma fórmula para prever a data exata do retorno de Cristo.
No original6 termos
ἔθνοςethnosG1484
nação, povo; usado aqui no cenário de conflitos entre nações.
βασιλείαbasileiaG932
reino; contraposto ao reino de Deus mencionado adiante no mesmo discurso (v.31).
σεισμόςseismosG4578
terremoto, abalo; usado tanto para tremores literais quanto, em contextos apocalípticos, como imagem de convulsão.
λιμόςlimosG3042
fome, escassez de alimento.
λοιμόςloimosG3061
peste, praga, epidemia; soa de forma parecida com limos (fome) no grego original.
σημεῖονsemeionG4592
sinal; não no sentido de prova cronológica, mas de indicador ou marca de um período.
O que fazer com isso
Quando notícias de guerras, terremotos ou uma pandemia global tomam conta do noticiário, é comum ouvir alguém dizer que "o fim está chegando". Este texto sugere outro caminho: reconhecer que instabilidade faz parte da experiência humana em toda época, sem transformar cada manchete em cronômetro profético. Isso liberta de um ciclo de ansiedade renovada a cada crise e redireciona a atenção para o que o próprio discurso pede — viver com atenção e integridade no presente, em vez de tentar decifrar calendários que o texto nunca prometeu revelar.
Passagens relacionadas7
Toque numa referência para ler o texto sem sair da página.
Fontes consultadas4 obras
- I. Howard Marshall. The Gospel of Luke: A Commentary on the Greek Text (NIGTC), 1978.
- Darrell L. Bock. Luke 9:51-24:53 (Baker Exegetical Commentary on the New Testament), 1996.
- N. T. Wright. Jesus and the Victory of God, 1996.
- Flávio Josefo. A Guerra dos Judeus, 75.
Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.
Perguntas frequentes
As guerras e os terremotos de hoje são o sinal de que o fim do mundo está próximo?
O próprio Jesus avisa, no versículo anterior (), que guerras e rebeliões vão acontecer, mas isso ainda não é o fim. Esses eventos se repetem em toda época da história, então não funcionam como um marcador exclusivo do tempo final.
Por que Jesus fala de fomes e pragas juntas nesse versículo?
No grego, os termos para fome (limoi) e praga (loimoi) soam parecidos, quase como uma rima. É um recurso retórico comum na literatura profética para descrever sofrimento generalizado, não uma lista técnica separada de desastres.
Esse discurso fala da destruição de Jerusalém ou do fim do mundo?
As duas coisas aparecem misturadas na pergunta dos discípulos e na resposta de Jesus. Parte do discurso se cumpriu na destruição do templo pelos romanos em 70 d.C., e parte é lida pela tradição cristã como referência a um horizonte ainda futuro.
É certo tentar calcular a data do fim usando esses sinais?
O texto não fornece esse tipo de fórmula. Jesus classifica esses eventos como recorrentes, não como uma contagem regressiva exata, e outras passagens do Novo Testamento, como , reforçam que a data exata não é revelada a ninguém.
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