
Jesus deu aos discípulos poder de perdoar pecados?
João 20:23 é a origem da confissão católica?
E havendo dito isto, soprou sobre eles,e disse-lhes: Recebei o Espírito Santo. A quem quer que perdoardes os pecados, lhes são perdoados; e a quem quer que vós retiverdes os pecados,lhes são retidos.
Resposta curta
No domingo da ressurreição, à noite, Jesus aparece aos discípulos numa sala trancada por medo das autoridades. Depois de mostrar as mãos e o lado, ele repete a saudação de paz, sopra sobre o grupo e diz: "Recebei o Espírito Santo." Em seguida acrescenta algo que intriga leitores há séculos: quem eles perdoarem os pecados, esses ficam perdoados; quem eles retiverem, ficam retidos.
Essa frase virou um dos textos mais discutidos do Novo Testamento porque duas leituras cristãs, igualmente antigas, saem dela em direções opostas. Uma vê ali a origem de um poder sacramental transmitido a ministros ordenados. Outra vê uma autoridade coletiva de anunciar que o perdão de Deus já está disponível a quem crê — e ausente a quem persiste na incredulidade. O texto não resolve sozinho essa disputa; ela nasce de como cada tradição entende a igreja.
Como isso aponta para Jesus
TipologiaAo soprar sobre os discípulos e dizer "Recebei o Espírito Santo", o Jesus ressuscitado repete, com a mesma palavra grega usada na Septuaginta, o gesto de Deus soprando fôlego de vida em Adão no início da criação (). O evangelho apresenta assim o Cristo ressuscitado como fonte de uma vida nova, comunicada pelo Espírito — um novo começo que Paulo mais tarde descreve chamando o Cristo ressuscitado de "espírito vivificante", em contraste com o primeiro Adão, que apenas recebeu vida.
Respaldo no Novo Testamento:
Contexto histórico
acontece na noite do primeiro dia da semana, horas depois do túmulo vazio. Os discípulos estão escondidos, e o texto grego de explica o motivo: medo dos líderes judeus que haviam condenado Jesus. Tomé, como o versículo 24 registra, não estava presente — o que explica por que o evangelho narra, poucos versículos depois, uma segunda aparição para incluí-lo.
O gesto de Jesus soprar sobre os discípulos usa, no grego, o verbo enephysēsen, o mesmo termo empregado pela Septuaginta em para descrever Deus soprando fôlego de vida no primeiro ser humano. Comentaristas como D. A. Carson e Raymond Brown observam esse eco lexical: o evangelista dificilmente escolheria a mesma palavra rara por acaso, especialmente num livro que já abriu citando Gênesis ("no princípio", ). O efeito literário é apresentar esse momento como um novo começo, um sopro de vida que capacita a missão que Jesus acabou de confiar ("como o Pai me enviou, assim eu vos envio", v. 21).
O verbo grego para "recebei" (labete) está no imperativo, e "Espírito Santo" aparece sem artigo definido no texto grego, o que para muitos gramáticos indica ênfase na natureza ou no dom do Espírito, não necessariamente uma identificação exaustiva da pessoa que só seria plenamente derramada em Pentecostes (). Por isso boa parte da erudição trata este momento como uma antecipação real, mas parcial, do que viria sete semanas depois.
Já o verbo "perdoados" no versículo 23 (aphientai, forma relacionada a aphiēmi) está numa construção de perfeito, tempo verbal que em grego normalmente descreve uma ação passada com efeito que permanece. Gramáticos como A. T. Robertson notaram esse detalhe: o texto pode ser lido como "já estão perdoados" antes mesmo do anúncio humano, o que sugeriria que os discípulos declaram uma realidade já decidida por Deus, mais do que a produzem. Essa observação gramatical é central para entender por que as tradições discordam sobre o alcance da autoridade concedida aqui.
Aprofundamento
A dificuldade real de não é entender as palavras, mas o alcance da autoridade que elas descrevem. O texto diz que os discípulos podem perdoar e reter pecados — mas isso significa um poder sacerdotal específico, transmissível por ordenação, ou uma autoridade dada a toda a comunidade que segue Jesus?
A leitura mais antiga documentada, presente já em escritores da igreja dos primeiros séculos, associa esse texto à autoridade dos que presidem a igreja para reconciliar penitentes — um cuidado pastoral concreto com pecado e arrependimento, não apenas uma metáfora de pregação. Com o tempo, essa leitura amadureceu em tradições distintas, cada uma com sua própria estrutura de ministério e sacramento.
Um ponto de comparação ajuda a situar o texto: em e 18:18, Jesus usa linguagem parecida de "ligar e desligar" (ou "prender e soltar"), primeiro dirigida a Pedro, depois à comunidade reunida. Essa expressão ecoa um idioma rabínico usado para declarar o que a lei permitia ou proibia. F. F. Bruce e outros comentaristas notam que esse pano de fundo favorece, para muitos leitores protestantes, uma leitura declarativa: a igreja, ao pregar o evangelho, anuncia com autoridade delegada por Cristo que o perdão está disponível a quem crê e ausente a quem rejeita a mensagem — ela declara, não fabrica, o veredito de Deus.
Não há como decidir essa disputa apenas com gramática grega; a construção verbal em si comporta mais de uma leitura, e cada tradição a lê à luz de uma teologia mais ampla sobre igreja, sacramento e autoridade ministerial construída a partir de muitos outros textos, não só deste. O que o texto estabelece com clareza, sem ambiguidade, é que Jesus liga o dom do Espírito Santo à missão que confia aos discípulos alguns versículos antes ("como o Pai me enviou, assim eu vos envio", v. 21): o anúncio do perdão de Deus não é uma tarefa que a igreja inventa por conta própria, mas uma extensão da própria missão de Jesus, sustentada pelo Espírito que ele acabou de dar.
Vale notar também que o texto não fala de um rito específico, de uma fórmula fixa ou de um ofício restrito a um grupo dentro do grupo maior de discípulos presentes naquela sala — algo que as diferentes tradições precisam explicar a partir de outros textos bíblicos e da própria história do desenvolvimento eclesiástico ao longo dos séculos seguintes, não apenas deste versículo isolado.
O que costumam dizer errado2 afirmações
Dizem que:O texto diz que os discípulos receberam poder para apagar pecados por si mesmos, como se fossem eles a fonte do perdão.
O verbo grego para 'perdoados' no versículo 23 está numa construção de perfeito que muitos gramáticos leem como 'já estão perdoados' — ou seja, o texto descreve os discípulos anunciando ou reconhecendo uma decisão que já é de Deus, não fabricando perdão por conta própria. Nenhuma tradição cristã séria ensina que um ser humano perdoa pecados com autoridade independente de Deus.
Dizem que:Esse versículo descreve uma cerimônia específica de confissão auricular, com fórmula fixa, igual à praticada hoje em alguma igreja.
O texto de João não descreve rito, fórmula ou local algum; fala apenas do momento em que Jesus sopra sobre o grupo de discípulos reunido e lhes atribui essa autoridade. Qualquer prática litúrgica posterior é desenvolvimento histórico da igreja, não descrição deste versículo.
Como diferentes tradições cristãs leem4 leituras
Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.
Católica
Este texto é lido como a instituição do sacramento da confissão (reconciliação/penitência). Os apóstolos, e depois seus sucessores no ministério ordenado, recebem autoridade sacramental para absolver pecados em nome de Cristo, exercida hoje através da confissão auricular a um padre.
Ortodoxa
Também reconhece aqui a base para a confissão sacramental, mas a entende sobretudo como um mistério de cura espiritual conduzido por um padre-confessor, com ênfase na restauração da pessoa mais do que num ato jurídico formal de absolvição.
Reformada/Luterana
A autoridade concedida é ministerial e declarativa: a igreja, ao pregar o evangelho, anuncia com base na Palavra que o perdão de Deus está disponível a quem crê e ausente a quem rejeita a mensagem. Só Deus perdoa pecados; a igreja declara esse veredito, não o produz — a confissão a um pastor pode ajudar pastoralmente, mas não é vista como sacramento obrigatório.
Pentecostal/Arminiana
Lê o texto como autoridade concedida à comunidade dos discípulos como um todo, não a uma classe especial de clero — coerente com a ênfase no sacerdócio de todos os crentes. Anunciar o perdão de Deus faz parte da missão que cada cristão recebe junto com o Espírito Santo para o testemunho do evangelho.
No original4 termos
ἐνεφύσησενenephysēsen
soprou sobre; verbo raro, usado uma única vez no Novo Testamento, aqui em . A Septuaginta usa a mesma palavra em para o sopro de vida de Deus em Adão.
Πνεῦμα ἍγιονPneuma HagionG4151
Espírito Santo; aparece sem artigo definido no grego, o que para muitos gramáticos enfatiza o dom ou a natureza do Espírito concedido, não uma identificação exaustiva da pessoa.
ἀφίενταιaphientai (de aphiēmi)G863
são/ficam perdoados, remitidos; na construção do versículo 23 está num tempo verbal que descreve um estado já estabelecido.
κεκράτηνταιkekratēntai (de krateō)G2902
ficam retidos, presos com firmeza; usado aqui como antônimo de perdoar, no sentido de não liberar ou soltar.
O que fazer com isso
Antes de discutir quem tem autoridade para perdoar, vale notar o que Jesus faz primeiro: aparece a discípulos que o abandonaram, oferece paz e confia a eles uma missão. A comunidade que anuncia perdão só tem credibilidade para fazê-lo porque já foi ela mesma perdoada e reintegrada. Isso muda como uma igreja trata quem falhou: não como alguém a ser mantido de fora até provar mérito, mas como alguém a quem se pode, com honestidade, anunciar que o caminho de volta já está aberto.
Passagens relacionadas5
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Fontes consultadas4 obras
- D. A. Carson. The Gospel According to John (Pillar New Testament Commentary), 1991.
- Raymond E. Brown. The Gospel According to John XIII-XXI (Anchor Bible), 1970.
- F. F. Bruce. The Gospel of John, 1983.
- A. T. Robertson. Word Pictures in the New Testament, 1930.
Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.
Perguntas frequentes
Esse texto prova que só o padre pode perdoar pecados?
Depende da tradição cristã que você segue. Católicos e ortodoxos veem aqui a base para o ministério ordenado de absolvição; a maioria das tradições protestantes lê a mesma autoridade como pertencente à igreja como comunidade que anuncia o evangelho, não a uma classe exclusiva. O texto em si não detalha o mecanismo institucional.
Jesus já deu o Espírito Santo aqui, então por que Pentecostes em Atos 2 ainda era necessário?
Muitos comentaristas leem como uma antecipação real, mas parcial, do dom pleno que viria em Pentecostes — algo como um sinal profético antes do cumprimento maior. Outros veem os dois eventos como momentos complementares da mesma obra do Espírito, sem contradição entre eles.
'Reter pecados' significa que os discípulos podiam condenar alguém ao inferno?
Não há indicação no texto de um poder de julgamento final. A ideia de 'reter' funciona como o outro lado de 'perdoar': ao anunciar o evangelho, a igreja também reconhece quando alguém permanece fora do perdão de Deus por não crer, sem que isso seja um ato independente de condenação eterna.
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