
O que Elifaz quer dizer com 'o homem nasce para o sofrimento, como as faíscas voam para cima' em Jó 5:7?
Jó 5:7 é palavra de Deus? O homem nasce mesmo para sofrer?
Mas o ser humano nasce para a opressão, assim como as faíscas das brasas se levantam a voar.
Resposta curta
Em , Elifaz, um dos três amigos que vêm consolar Jó, diz que 'o homem nasce para o sofrimento, como as faíscas voam para cima'. A frase soa como uma verdade geral sobre a condição humana, e em parte ecoa outros textos bíblicos. Mas é dita por um personagem que usa essa ideia para sugerir que Jó deve ter pecado e precisa aceitar a disciplina de Deus. No fim do livro, Deus declara que Elifaz e os amigos não falaram dele o que era reto (). Por isso a pergunta não é se a frase pode ser citada, mas como: ela contém algo verdadeiro, porém deve ser lida como fala de personagem, dentro de uma argumentação que o próprio livro corrige.
Como isso aponta para Jesus
Ligação indiretaO livro de Jó mostra um sofredor inocente, e isso o torna uma sombra distante do sofrimento de Jesus, o justo que sofre sem culpa. Jesus rejeita a ideia de que todo sofrimento é castigo por pecado pessoal, como ao tratar do cego de nascença. A conexão é indireta e não se apoia em em particular.
Respaldo no Novo Testamento:
Em palavras simples
é uma frase dita por Elifaz, amigo de Jó, que diz que o ser humano nasce para sofrer. Ela tem um fundo de verdade, porque a vida inclui dor. Mas Elifaz a usa para dizer que Jó sofre por ter errado, e no final do livro Deus diz que os amigos de Jó não falaram corretamente sobre ele. Por isso, a frase deve ser lida como fala de um personagem, e não como regra de Deus para explicar o sofrimento de ninguém.
Contexto histórico
O livro de Jó começa com um homem 'íntegro e reto', que teme a Deus e se desvia do mal (). Em pouco tempo ele perde os bens, os filhos e a saúde. Três amigos, Elifaz de Temã, Bildade de Suá e Zofar de Naamate, vêm de longe para consolá-lo e passam sete dias em silêncio com ele (). Depois do lamento de Jó no capítulo 3, o primeiro a responder é Elifaz, nos capítulos 4 e 5.
Elifaz começa de modo educado, mas logo expõe sua tese. Em , pergunta: 'Lembra-te: quem, sendo inocente, jamais pereceu? E onde foram os retos destruídos? Segundo eu tenho visto, os que lavram a iniquidade e semeiam o mal, isso mesmo ceifam'. Ele também relata uma visão noturna, em que um espírito lhe pergunta se o homem pode ser mais justo do que Deus (4:12-21). Seu raciocínio é que sofrimento e culpa caminham juntos.
No capítulo 5, Elifaz continua com exemplos. Diz que o insensato é morto pela sua ira (5:2) e que seus filhos ficam sem socorro (5:3-4). Então vem o versículo 6, 'a aflição não sai do pó, nem o sofrimento brota da terra', e o 7: 'mas o homem nasce para o sofrimento, como as faíscas voam para cima'. Em seguida, ele aconselha Jó a procurar a Deus e a entregar sua causa a ele (5:8), enumera as maravilhas que Deus faz (5:9-16) e diz: 'Bem-aventurado o homem a quem Deus repreende; não desprezes, pois, a disciplina do Todo-Poderoso' (5:17).
A frase do versículo 7, portanto, está em um discurso que tem uma finalidade clara. Elifaz quer convencer Jó de que seu sofrimento é natural e merecido, e que o caminho é aceitar a correção. O leitor, porém, sabe desde o prólogo, nos capítulos 1 e 2, o que Jó e os amigos ignoram: o sofrimento de Jó não é castigo por pecado. A ironia dramática faz parte do livro, e isso muda a forma de ler tudo o que os amigos dizem.
Aprofundamento
A primeira dificuldade é de texto. A segunda parte do versículo diz literalmente 'os filhos da chama voam alto' (bene reshef). A expressão é discutida: pode significar faíscas, como traduzem muitas versões, ou aves, como entenderam algumas traduções antigas, ou ainda aludir a Reshef, nome de uma divindade do Oriente Próximo ligada à peste e ao fogo, cujo nome aparece em outros textos como 'chama' ou 'flecha ardente'. Há também discussão sobre a primeira parte: alguns leem que o homem 'gera' o próprio sofrimento, outros que nasce para ele. A tradução mais comum, 'o homem nasce para o sofrimento', faz sentido no contexto, mas a imagem exata das faíscas não é consenso.
O conteúdo, em si, não é estranho à Bíblia. Depois da queda, o trabalho se torna penoso e a vida humana tem dor (). O próprio Jó diz, em 14:1, que o homem nascido de mulher é 'de poucos dias e cheio de inquietação', e fala de dores e agitação nos dias de uma pessoa. Jesus afirma que no mundo os discípulos terão aflições (). Assim, a ideia de que o sofrimento faz parte da condição humana encontra respaldo em outras passagens.
O problema é o uso que Elifaz faz dela. Para ele, o sofrimento tem causa moral previsível: quem semeia o mal colhe o mal, e quem sofre deve ter errado. Jó rejeita isso, e o livro acaba por dar razão a ele. Em , Deus diz a Elifaz: 'A minha ira se acendeu contra ti e contra os teus dois amigos, porque não dissestes de mim o que era reto, como o meu servo Jó'. Isso significa que o discurso dos amigos, tomado como um todo, está errado em seu propósito e não pode ser citado como se fosse um ensino direto de Deus.
Há nuance, porém. Nem tudo o que os amigos dizem é falso. O apóstolo Paulo cita , 'ele apanha os sábios na sua própria astúcia', em , e muitos trechos dos discursos trazem verdades gerais. O que o livro faz é mostrar que verdades gerais, aplicadas ao caso de uma pessoa específica sem conhecer a situação, podem ferir e enganar. Por isso a regra é conferir o contexto: uma frase de Elifaz pode ser citada quando é corroborada por outras passagens e quando o citador reconhece de quem ela vem.
Quanto a , o uso mais seguro é como reflexão sobre a fragilidade humana, acompanhada de outros textos bíblicos, e nunca como explicação para o sofrimento de uma pessoa em particular. Dizer a quem sofre que 'nasceu para isso' repete, de outra forma, o erro dos amigos.
O que costumam dizer errado2 afirmações
Dizem que:Jó 5:7 é palavra de Deus ensinando que o ser humano nasce para sofrer.
A frase é fala de Elifaz, um personagem que Deus repreende em . A Bíblia registra fielmente o que ele disse, sem aprovar o uso que fez. É preciso distinguir o que a Escritura relata do que ela ensina.
Dizem que:Tudo o que os amigos de Jó dizem é falso e não pode ser citado.
Alguns trechos dos discursos contêm verdades gerais, e Paulo cita em . O erro dos amigos está em aplicar uma regra geral, a retribuição, ao caso de Jó sem conhecer a causa real.
Como diferentes tradições cristãs leem3 leituras
Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.
Leitura da teologia equivocada dos amigos (comentaristas como Hartley e Clines)
A fala de Elifaz faz parte de uma tese de retribuição que o livro critica. A frase é verdadeira em parte, mas usada para sustentar uma conclusão errada sobre Jó.
Leitura que reconhece sabedoria real com aplicação errada
Elifaz expressa sabedoria tradicional, com apoio em outras passagens bíblicas, mas falha em perceber que Jó é uma exceção à regra. O problema é a aplicação, e não cada frase isolada.
Debate textual sobre a imagem
Há discussão sobre 'filhos da chama' (faíscas, aves ou referência a Reshef) e sobre se o homem nasce para o sofrimento ou o gera. O sentido geral de fragilidade humana se mantém nas duas leituras.
No original3 termos
עָמָל'amalH5999
Labor, esforço penoso, sofrimento. A palavra reúne a ideia de trabalho árduo e de angústia, e é central em Eclesiastes.
רֶשֶׁףreshefH7565
Chama, brasa, flecha ardente; também nome de uma divindade do Oriente Próximo ligada à peste. Em , 'filhos de reshef' é traduzido de várias maneiras.
מוּסָרmusarH4148
Disciplina, correção. Aparece em , onde Elifaz fala da disciplina do Todo-Poderoso como bênção.
O que fazer com isso
A frase de Elifaz não deve ser usada para explicar o sofrimento de alguém, nem para sugerir que a pessoa o mereceu ou que 'faz parte da vida' e deve aceitar calada. Se for citada, que seja com o aviso de que vem da boca de um amigo que Deus repreende no fim do livro. O melhor da lição de Jó está no silêncio inicial dos amigos, nos sete dias sentados ao lado do sofredor, antes de começarem a explicar. Presença e escuta consolam mais do que teorias.
Passagens relacionadas5
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Fontes consultadas3 obras
- David J. A. Clines. Job 1-20 (Word Biblical Commentary), 1989.
- John E. Hartley. The Book of Job (New International Commentary on the Old Testament), 1988.
- Francis I. Andersen. Job (Tyndale Old Testament Commentaries), 1976.
Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.
Perguntas frequentes
Posso citar Jó 5:7 como verdade bíblica?
Pode ser citado como fala de Elifaz e como reflexão sobre a fragilidade humana, desde que se indique de quem é a fala e que outros textos o sustentam. Como explicação do sofrimento de alguém, não é um uso adequado.
Por que Deus repreendeu Elifaz no fim do livro?
Porque ele e os outros amigos não falaram de Deus o que era reto, ao afirmar que Jó sofria por causa de pecado. Deus manda que ofereçam sacrifício e que Jó ore por eles ().
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