Bildade
Quem foi Bildade, o suíta, amigo de Jó?
Ficha do personagem
Época patriarcal incerta (o livro de Jó não se data), terra de Uz
Aparece em
Relações
- amigo de Jó
- companheiro de Elifaz, o temanita
- companheiro de Zofar, o naamatita
Resposta curta
Bildade, o suíta, é o segundo dos três amigos que vão visitar Jó para consolá-lo e acabam discutindo com ele. Sua origem é incerta: "suíta" pode remeter a Suá, filho de Abraão e Quetura, mas o texto não esclarece. Ele fala três vezes, nos capítulos 8, 18 e 25, e o último discurso é o mais curto de todo o diálogo. Seu argumento central é que Deus não perverte a justiça: se Jó sofre, deve haver uma causa, e o caminho é buscar a Deus e abandonar a injustiça. Bildade recorre à sabedoria dos antepassados e a imagens da natureza, como o papiro que seca sem água. No final do livro, Deus declara que ele e os outros dois amigos não falaram dEle o que era reto, como Jó havia falado.
Onde ele aparece
Como isso aponta para Jesus
ContrasteO raciocínio de Bildade, segundo o qual o sofrimento revela pecado, reaparece nos Evangelhos. Diante de um cego de nascença, os discípulos perguntam quem pecou, ele ou seus pais, e Jesus responde que nem um nem outro, e que a situação seria ocasião para as obras de Deus se manifestarem. Em outra passagem, ao comentar vítimas de uma tragédia, ele nega que fossem mais culpadas que os demais. O contraste está em como a doutrina da retribuição simples, defendida por Bildade, é corrigida no ensino de Jesus, sem que a existência do pecado ou do juízo seja negada.
Respaldo no Novo Testamento:
Em palavras simples
Bildade foi um dos três amigos que foram visitar Jó quando ele perdeu tudo. Ele é chamado de suíta, mas não se sabe ao certo de onde veio. Bildade acreditava que Deus é sempre justo e que, por isso, o sofrimento de Jó devia ter uma causa, talvez algum pecado. Falou três vezes, e o último discurso é muito curto. No fim do livro, Deus disse que os amigos não haviam falado dEle de forma correta, e Jó orou por eles. A história mostra os limites de explicações simples para o sofrimento.
O mundo dele
O livro de Jó não se data, e não há acordo entre os estudiosos sobre quando a história se passa ou quando o livro foi escrito. A cena é situada na terra de Uz, e os costumes descritos, como a riqueza medida em rebanhos e o patriarca que oferece sacrifícios pela família, lembram a época patriarcal, mas isso é uma impressão e não uma prova. O Talmud (Bava Batra 15a) registra opiniões divergentes sobre o assunto, inclusive a de que Jó seria uma figura exemplar e não histórica, e as comunidades cristãs também divergem entre leitura histórica e leitura de narrativa sapiencial.
Bildade é apresentado em como "o suíta", ao lado de Elifaz, o temanita, e Zofar, o naamatita. A origem do gentílico é debatida. Uma hipótese o liga a Suá, filho de Abraão com Quetura, que diz ter se estabelecido a leste; outra o liga a um povo ou região do deserto, citada em textos assírios, mas a identificação não é segura. O nome Bildade, por sua vez, não tem etimologia consensual, e a tradição de interpretação não deve ser tratada como certeza.
A função dos três amigos no livro vem de uma convenção da sabedoria antiga: os sábios do Oriente Próximo discutiam por que os justos sofrem, e a resposta mais comum era a doutrina da retribuição, segundo a qual o sofrimento é consequência do pecado e a prosperidade é prêmio da retidão. Livros como Provérbios muitas vezes falam nessa linguagem de causa e efeito. Os amigos chegam com sete dias de silêncio solidário (), o que é um gesto de consolo, e só depois que Jó amaldiçoa o dia do seu nascimento () começam os discursos. A conversa em três ciclos coloca Bildade, ao lado de Elifaz e Zofar, como porta-voz de uma teologia respeitável, que o livro põe à prova diante de um caso que ela não consegue explicar. O desfecho em mostra que o autor não rejeita o valor dessa tradição, mas rejeita a aplicação rígida dela ao caso de Jó.
A história
O primeiro discurso de Bildade () começa com uma pergunta dura: "Até quando falarás assim? Acaso Deus perverte o direito?" (8:2-3). Ele chega a sugerir que os filhos de Jó, mortos no capítulo 1, morreram por seus próprios pecados (8:4), o que ouvidos modernos recebem como insensível, embora no raciocínio dele seja consequência lógica da doutrina da retribuição. Em seguida convida Jó a buscar a Deus e pedir misericórdia, prometendo restauração (8:5-7), e apela à sabedoria dos antepassados: "Pergunta às gerações passadas" (8:8). As imagens de 8:11-19, o papiro que seca sem água e a teia de aranha, ilustram a ruína de quem esquece a Deus. O último versículo, 8:20, afirma que Deus não rejeita o íntegro nem toma pela mão os malfeitores.
No segundo discurso (), o tom endurece. Bildade se ofende por ser tratado como "animal" (18:3) e descreve em linguagem poética o destino do ímpio: a luz de sua tenda se apaga (18:5-6), armadilhas o prendem (18:8-10), e seu nome some da terra (18:17). Jó não é mencionado, mas o paralelo com a situação dele é evidente, e Jó responde no capítulo 19 com o célebre "eu sei que o meu Redentor vive". O terceiro discurso () tem apenas seis versículos: Deus tem domínio e majestade, e como pode alguém ser justo diante dele? O ser humano é "bicho" e "verme" (25:6). Comentaristas, entre eles David Clines, discutem se o capítulo está truncado e se a distribuição dos discursos no terceiro ciclo foi alterada na transmissão do texto, sem que haja consenso.
O juízo final sobre Bildade vem de Deus em , dirigido a Elifaz: "A minha ira se acendeu contra ti e contra os teus dois amigos, porque não dissestes de mim o que era reto, como o meu servo Jó." O texto não chama os amigos de ímpios e não os condena à morte. Manda-os oferecer sacrifício e pedir a Jó que interceda por eles (42:8-9). O que é censurado é o que disseram a respeito de Deus, a saber, que o sofrimento de Jó só podia ter vindo de seu pecado. Comentaristas como John Hartley notam que muitas das afirmações de Bildade, tomadas isoladamente, concordam com outros textos bíblicos; o erro está em aplicá-las ao caso de Jó como regra sem exceção.
A tradição judaica registrada em Bava Batra 15b conta Bildade entre os sete profetas das nações, ao lado de Jó, Elifaz, Zofar e outros. A leitura é antiga, mas não aparece no texto do livro.
O que costumam dizer errado3
Dizem que:Deus condenou Bildade como ímpio no final do livro de Jó.
diz que os amigos não falaram de Deus o que era reto, mas não os chama de ímpios. Deus ordena que ofereçam sacrifício e que Jó ore por eles, e o texto afirma que Deus aceitaria a oração de Jó (42:8-9). A censura se refere ao que disseram sobre Deus e sobre o sofrimento, não a uma condenação moral completa.
Dizem que:Tudo o que Bildade diz é falso.
Muitas de suas frases concordam com outras partes da Bíblia: Deus é justo (8:3), há consequências para o mal (cf. ) e vale ouvir a tradição dos mais velhos. O problema apontado pelo livro é a aplicação rígida dessas verdades a Jó, a quem o prólogo apresenta como íntegro (; 1:8).
Dizem que:Bildade era um dos amigos de Jó que moravam na mesma cidade.
diz que os três amigos "vieram cada um do seu lugar" e combinaram a visita. Bildade é identificado apenas como suíta, e a localização exata de Suá é incerta.
Como diferentes tradições cristãs leem4
Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.
Católica
Gregório Magno, nos Moralia in Job, lê os amigos como figuras de quem fala com aparência de zelo, mas sem compreender o mistério do sofrimento. Para essa tradição, o livro mostra que a Providência é maior que a lógica da retribuição imediata.
Reformada
João Calvino, em seus sermões sobre Jó, afirma que os amigos dizem coisas verdadeiras em geral, mas as aplicam mal. Isso enfatiza que Deus governa o mundo por razões que o ser humano não alcança e que a justiça de Deus não depende de o ser humano compreendê-la.
Judaica
O Talmud (Bava Batra 15a-b) debate se Jó existiu e quando viveu, e conta os três amigos entre os profetas das nações, o que os trata com respeito apesar da repreensão final.
Crítica histórica
Estudos modernos, como os de David Clines, veem nos amigos representantes da sabedoria tradicional de Israel, e no diálogo um debate poético entre essa tradição e a experiência de Jó, sem tomar o texto como transcrição de uma conversa real.
O que fazer com isso
Bildade é um alerta sobre o uso de explicações prontas diante da dor de alguém. Suas frases, tomadas uma a uma, soam sensatas e até religiosas, mas aplicadas a Jó se tornam acusação. O livro não pede que se abandone a reflexão sobre justiça, e sim que se tenha humildade quando a resposta não é clara. Na prática, vale mais permanecer ao lado de quem sofre, como os amigos fizeram nos sete primeiros dias, do que explicar o que não se conhece.
Passagens relacionadas8
Fontes consultadas4
- John E. Hartley. The Book of Job (New International Commentary on the Old Testament), 1988.
- David J. A. Clines. Job 1-20 (Word Biblical Commentary), 1989.
- Gregório Magno. Moralia in Job.
- Gustavo Gutiérrez. Falar de Deus a partir do sofrimento do inocente: uma reflexão sobre o livro de Jó, 1986.
Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.
Perguntas frequentes
De onde era Bildade, o suíta?
Não se sabe com certeza. Pode haver relação com Suá, filho de Abraão e Quetura (), ou com uma região do deserto a leste. O texto de Jó só o chama de suíta, sem dar mais informação.
Quantas vezes Bildade fala no livro de Jó?
Três vezes: em , 18 e 25. O terceiro discurso é o mais curto do livro, com apenas seis versículos, e as respostas de Jó aparecem nos capítulos 9–10, 19 e 26.
Bildade estava certo ou errado?
O livro mostra que ele estava parcialmente certo em princípios gerais e errado ao aplicá-los a Jó. Em , Deus diz que os três amigos não falaram dele o que era reto.
O que Bildade disse sobre os filhos de Jó?
Em , ele afirma que, se os filhos de Jó pecaram contra Deus, ele os entregou ao poder da sua transgressão. A fala aplica a doutrina da retribuição e é uma das mais duras dos amigos.