Elifaz, o temanita
Quem foi Elifaz, amigo de Jó?
Ficha do personagem
Época patriarcal ou posterior (datação incerta); Temã, em Edom
Aparece em
Resposta curta
Elifaz, o temanita, é o primeiro dos três amigos que, segundo , vão consolar Jó depois de suas perdas. Ele fala primeiro em cada um dos três ciclos de discursos (, 15 e 22), e seu argumento central é que o sofrimento é consequência do pecado e que Jó deve se arrepender. Em , relata uma visão noturna em que um espírito pergunta se o homem pode ser mais justo que Deus. Ao final, em , Deus declara que se irou contra Elifaz e os outros dois amigos por não terem falado dele “o que era reto”, e Jó intercede por eles. O livro não dá data certa nem local preciso para a história.
Onde ele aparece
Como isso aponta para Jesus
ContrasteA tese de Elifaz é que o sofrimento revela o pecado de quem sofre. O Evangelho de João registra a pergunta dos discípulos diante de um cego de nascença — “quem pecou, ele ou seus pais?” — e a resposta de Jesus, que rejeita a relação automática: nem ele nem seus pais pecaram. O contraste não faz de Elifaz uma figura de Cristo, mas mostra o ensino de Jesus em oposição à lógica da retribuição mecânica defendida pelos amigos de Jó.
Respaldo no Novo Testamento:
Em palavras simples
Elifaz foi um dos três amigos que visitaram Jó depois de suas perdas. Ele era de Temã, uma região de Edom, e foi o primeiro a falar. Primeiro tentou consolar, depois passou a acusar: dizia que o sofrimento vem do pecado e que Jó precisava se arrepender. No fim do livro, Deus diz que Elifaz e os outros dois amigos não falaram corretamente a respeito dele, e manda que ofereçam sacrifícios enquanto Jó ora por eles.
O mundo dele
Elifaz aparece em como “o temanita”, ao lado de Bildade, o suíta, e Zofar, o naamatita. Temã é um nome ligado a Edom, região ao sul e a leste do mar Morto: em , Temã é filho de Elifaz, filho de Esaú, e em Temã é lembrada por sua sabedoria. Isso sugere que o autor apresenta Elifaz como representante de uma tradição sapiencial edomita, mas o texto não afirma isso de forma direta. O nome Elifaz é o mesmo do filho de Esaú, e o livro não esclarece se há relação; o dado é só de coincidência de nome.
O livro de Jó é de datação incerta. O ambiente descrito (riqueza em rebanhos, sacrifícios feitos pelo pai de família, ausência de menção à lei de Moisés) lembra a época dos patriarcas, mas isso pode ser um recurso literário. As propostas de redação do livro vão de épocas muito antigas ao período após o exílio, sem consenso. O Talmude (Bava Batra 15a-b) registra opiniões divergentes sobre quando Jó viveu e quem escreveu o livro. Por isso o verbete evita fixar uma data.
A estrutura do livro ajuda a situar Elifaz. Depois do prólogo em prosa (capítulos 1-2), onde Jó é apresentado como íntegro, e dos sete dias de silêncio dos amigos, vem uma longa sequência de discursos em poesia. Há três ciclos de diálogo entre Jó e os três amigos, e Elifaz abre cada ciclo. O texto não diz que ele seja o mais velho; a ordem de fala sugere um papel de liderança, e em só se informa que Eliú esperou porque os outros eram mais velhos que ele.
A visita é descrita em de forma comovente: os amigos vêm “para se condoerem dele e o consolarem”, choram, rasgam as vestes e se sentam no chão com Jó sete dias e sete noites, sem dizer palavra. A imagem inicial de solidariedade contrasta com os discursos posteriores, em que o consolo se transforma em acusação.
A história
O primeiro discurso de Elifaz () é o mais brando. Começa com delicadeza, lembrando que Jó havia fortalecido outros (4:3-4), e depois formula o princípio que guia todo o seu raciocínio: “Lembra-te: qual é o inocente que já pereceu? E onde foram destruídos os retos?” (4:7). Para Elifaz, os que lavram a iniquidade colhem o mal (4:8). Ele aplica essa regra a Jó sem dizê-lo com todas as palavras, mas o sentido é claro: se Jó sofre, algo errou.
Em 4:12-21, Elifaz descreve uma visão noturna: um espírito passa diante dele, os cabelos se arrepiam, e uma voz silenciosa pergunta se o homem será mais justo que Deus ou mais puro que seu Criador. A passagem tem um forte caráter literário e revela a autoridade que Elifaz reivindica: sua palavra não vem só da experiência, mas de uma revelação. O livro não diz que a visão foi falsa; mostra, ao final, que a conclusão que Elifaz tira dela não se aplicava a Jó.
No segundo ciclo (), o tom endurece. Elifaz acusa Jó de falar com vento, de destruir o temor de Deus e de ter a boca que o condena (15:2-6). No terceiro (), a acusação se torna concreta: Elifaz afirma que Jó negou água ao sedento e pão ao faminto, e oprimiu viúvas e órfãos (22:5-9). Não há, no prólogo, nenhuma base para essas imputações. Ao mesmo tempo, o discurso termina com um convite ao arrependimento e à restauração (22:21-30), que mostra que Elifaz, mesmo errando, não é apresentado como alguém movido por mera maldade.
A reprovação final está em . Deus diz a Elifaz que sua ira se acendeu contra ele e contra seus dois amigos “porque não dissestes de mim o que era reto, como o meu servo Jó”. Manda que ofereçam sete novilhos e sete carneiros como holocausto, e que Jó interceda por eles. Elifaz e os outros obedecem. O texto não detalha o que foi “reto” no falar de Jó, e os intérpretes discutem se o contraste está no conteúdo ou na sinceridade de Jó diante de Deus.
Há ainda um dado do Novo Testamento: cita “Ele apanha os sábios na sua própria astúcia”, que corresponde a , fala de Elifaz. É a única citação direta de Jó no Novo Testamento, e mostra que uma frase dos amigos pode ser verdadeira mesmo quando seu uso por eles foi equivocado.
O que costumam dizer errado3
Dizem que:Tudo o que Elifaz disse é falso.
Deus reprova os amigos por não falarem “o que era reto” sobre ele (), mas o Novo Testamento cita uma frase de Elifaz () em . O problema é a aplicação de princípios gerais ao caso de Jó, e não cada frase isolada.
Dizem que:O livro diz que Elifaz era o mais velho dos três amigos.
O texto não afirma isso. Elifaz fala primeiro em cada ciclo, o que sugere liderança, e diz apenas que Eliú esperou porque os amigos eram mais velhos do que ele.
Dizem que:O Elifaz de Jó é o filho de Esaú citado em Gênesis.
O texto de Jó não faz essa ligação. O nome é o mesmo e Temã é um nome edomita (), mas nada indica que seja o mesmo homem, e o livro de Jó não tem genealogia dos amigos.
Como diferentes tradições cristãs leem4
Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.
Judaica
O Talmude (Bava Batra 15a-b) debate quando Jó viveu e se foi israelita, e a tradição rabínica discute o papel dos amigos. Em geral, entende-se que o livro critica a teologia da retribuição simples e que a reprovação divina aos amigos é parte central da mensagem.
Católica
Gregório Magno, nos Moralia in Iob, comenta o livro de forma longa e alegórica, e lê os discursos dos amigos como argumentos que pretendem defender a justiça de Deus, mas falham por não perceberem o sentido da provação de Jó. O livro é lido também em ofícios pelos mortos.
Reformada
Calvino, em seus sermões sobre Jó, trata os amigos como homens que dizem verdades gerais sobre a justiça de Deus e as aplicam mal. Enfatiza a soberania de Deus no sofrimento e vê a restauração de Jó como confirmação de que a provação não era punição.
Histórico-crítica
Lê os discursos de Elifaz como a posição da sabedoria tradicional do Oriente Próximo, segundo a qual a ordem moral do mundo garante prosperidade aos justos. O livro seria um debate literário com essa visão, e Elifaz, seu primeiro e mais cuidadoso representante.
O que fazer com isso
Elifaz é um aviso sobre a fala de quem tenta explicar o sofrimento alheio com uma regra pronta. Suas frases, tomadas uma a uma, muitas vezes soam piedosas, e algumas são verdadeiras; o erro está em aplicá-las a Jó. O texto sugere que, diante de quem sofre, a presença silenciosa dos sete primeiros dias vale mais do que a explicação que vem depois.
Passagens relacionadas8
Fontes consultadas4
- David J. A. Clines. Job 1–20 (Word Biblical Commentary), 1989.
- John E. Hartley. The Book of Job (New International Commentary on the Old Testament), 1988.
- Norman C. Habel. The Book of Job: A Commentary (Old Testament Library), 1985.
- Gregório Magno. Moralia in Iob.
Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.
Perguntas frequentes
De onde era Elifaz?
Era de Temã, em Edom, segundo (“o temanita”). liga Temã à sabedoria.
O que Elifaz dizia a Jó?
Que o sofrimento vem do pecado e que Jó deveria se arrepender e se voltar a Deus para ser restaurado. Em , usa uma visão noturna para reforçar o argumento.
Por que Deus repreendeu Elifaz?
Em , Deus diz que Elifaz e os outros dois amigos não falaram dele o que era reto, como Jó. O texto não detalha o ponto exato, mas indica que a explicação deles para o sofrimento de Jó estava errada.
O que Elifaz e os amigos tiveram de fazer no final?
Oferecer sete novilhos e sete carneiros em holocausto, enquanto Jó orava por eles (). O texto diz que fizeram como Deus ordenou.