
Jeremias jogado na cisterna de lama
Por que jogaram Jeremias numa cisterna de lama?
Então eles tomaram a Jeremias, e o lançaram na cisterna de Malquias filho de rei, que estava no pátio da guarda; e meteram a Jeremias com cordas. Porém na cisterna não havia água, mas sim lama; e Jeremias se atolou na lama.
Resposta curta
Jerusalém estava cercada pelo exército babilônico, e Jeremias anunciava, em nome do Senhor, que resistir seria inútil e que só a rendição salvaria vidas. Para os príncipes de Judá, isso soava como derrotismo perigoso: acusaram o profeta de enfraquecer o ânimo dos soldados e pediram ao rei Zedequias licença para silenciá-lo. O rei, fraco diante da corte, entregou Jeremias nas mãos deles, e os príncipes o desceram com cordas numa cisterna de Malquias, no pátio da guarda.
A cisterna estava seca de água, mas cheia de lama, e Jeremias afundou nela, sem forças para sair, condenado a morrer aos poucos de fome. É o momento mais baixo, fisicamente, de todo o ministério do profeta: um homem fiel tratado como refugo humano por dizer a verdade que incomodava o poder. A narrativa prepara o resgate de Ebede-Meleque, contado logo em seguida.
Em palavras simples
Durante o cerco de Jerusalém, Jeremias avisava que resistir aos babilônios só traria mais mortes, mensagem que os líderes de Judá odiavam ouvir. Eles convenceram o rei Zedequias a deixá-los calar o profeta, e em vez de matá-lo na hora, o jogaram numa cisterna vazia, descendo-o com cordas. Não havia água ali, só lama funda, e Jeremias afundou nela, sem conseguir sair sozinho. Foi o pior momento físico de sua vida, até ser resgatado por um estrangeiro corajoso chamado Ebede-Meleque.
Contexto histórico
O episódio de acontece no fim do reinado de Zedequias, último rei de Judá, durante o cerco final de Jerusalém pelo exército de Nabucodonosor, rei da Babilônia, nos últimos anos antes da queda da cidade. Zedequias havia sido colocado no trono pelos próprios babilônios, e sua posição era frágil: dependia do apoio de uma nobreza dividida entre os que queriam resistir apostando numa aliança com o Egito e os poucos que ouviam Jeremias dizer que a resistência era inútil e que a rendição era, paradoxalmente, o caminho da sobrevivência, porque vinha da vontade de Deus como julgamento sobre a infidelidade de Judá.
Para os príncipes, Sefatias, Gedalias, Jucal e Pasur, o discurso de Jeremias era sabotagem: enquanto soldados morriam nos muros, o profeta dizia ao povo para se render aos caldeus. Pediram ao rei licença para eliminá-lo, e Zedequias, incapaz de resistir à própria corte, cedeu, dizendo que não poderia fazer nada contra eles.
A cisterna de Malquias, filho do rei, era uma das muitas cisternas escavadas na rocha para armazenar água de chuva em Jerusalém, cidade sem rio próprio e dependente de reservatórios subterrâneos. Quando secas, essas estruturas, profundas, de paredes lisas e sem saída fácil, podiam servir como prisão improvisada, como já acontecera com José, jogado num poço pelos próprios irmãos. A expressão filho do rei, no hebraico ben-hammelekh, também aparece em outros textos designando um oficial da corte ligado à administração do palácio, não necessariamente um filho biológico do monarca reinante, provavelmente o caso aqui.
O detalhe de que não havia água, mas sim lama, é o que torna a cena tão vívida: Jeremias não corria risco de afogamento, mas de afundar lentamente e morrer de fome e exposição, sem conseguir se libertar sozinho. É esse fundo de poço, literal e simbólico, que prepara a intervenção de Ebede-Meleque, narrada logo nos versículos seguintes deste mesmo capítulo.
Aprofundamento
O verbo hebraico usado para descrever o que aconteceu a Jeremias na cisterna, tabá, afundar, é o mesmo que aparece nos Salmos para descrever a angústia extrema de quem se sente engolido pelo caos, como em , onde o salmista diz afundar em lamaçal profundo, sem chão firme. O narrador de escolhe esse vocabulário de propósito: não é apenas um relato político de perseguição, é a descrição de um homem no limite físico e emocional, sem nenhum controle sobre o próprio destino, dependente inteiramente da ação de outra pessoa para sobreviver.
Comentaristas como John Bright, em seu comentário de Jeremias para a coleção Anchor Bible, observam que o capítulo 38 repete, com variações, o mesmo conflito do capítulo 37: os príncipes acusam Jeremias de enfraquecer a resistência militar, o rei hesita entre proteger o profeta e ceder à pressão da nobreza, e a solução acaba vindo de fora do círculo de poder oficial. Zedequias não é um vilão simples, ele já havia protegido Jeremias antes e volta a protegê-lo depois, mas é retratado como um rei sem autoridade real sobre os próprios subordinados, dizendo literalmente aos príncipes que não poderia fazer nada contra eles.
Walter Brueggemann destaca que a insistência do livro em detalhar o sofrimento físico do profeta, a lama, as cordas, a fome que se aproxima, não é sensacionalismo, mas parte de um padrão que atravessa todo o livro de Jeremias: o mensageiro fiel de Deus sofre nas mãos do próprio povo que deveria ouvi-lo, tema que ecoa nas chamadas confissões de Jeremias, onde ele reclama abertamente a Deus a dor de cumprir sua vocação profética em meio à hostilidade geral.
Vale notar também quem resgata Jeremias: não um príncipe judeu, não um sacerdote, mas Ebede-Meleque, um eunuco estrangeiro, cuxita, hoje diríamos de origem africana, da região do alto Nilo. R.K. Harrison, em seu comentário sobre Jeremias e Lamentações, observa que a coragem de um estrangeiro socialmente marginalizado, disposto a arriscar a própria posição por um profeta impopular, contrasta deliberadamente com a covardia calculada dos príncipes nativos. Essa inversão, o de fora agindo com integridade, os de dentro agindo com crueldade, é um padrão recorrente nas narrativas bíblicas e prepara o leitor para a promessa de proteção que Deus faz a Ebede-Meleque mais adiante no livro, um dos raros oráculos de salvação pessoal dirigidos a alguém fora da família real em todo o livro de Jeremias.
O que costumam dizer errado3 afirmações
Dizem que:A cisterna era um poço com água, e Jeremias quase se afogou nela.
O texto diz explicitamente o contrário: não havia água na cisterna, apenas lama. O perigo de Jeremias não era afogamento, mas afundar na lama e morrer lentamente de fome e exposição, sem conseguir sair sozinho.
Dizem que:Malquias, dono da cisterna, era literalmente um filho do rei Zedequias.
A expressão hebraica ben-hammelekh, filho do rei, também funcionava como título de um oficial da corte ligado à administração do palácio em outros textos do Antigo Testamento, e não necessariamente como indicação de parentesco biológico direto com o monarca reinante.
Dizem que:Os príncipes queriam matar Jeremias porque ele insultava pessoalmente o rei Zedequias.
O conflito não era pessoal contra o rei, mas político e militar: Jeremias defendia a rendição aos babilônios como vontade de Deus, e os príncipes viam essa mensagem como um enfraquecimento perigoso da resistência de Jerusalém durante o cerco.
Como diferentes tradições cristãs leem4 leituras
Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.
católica
Tende a ler o sofrimento injusto de Jeremias em conexão com a espiritualidade da cruz e com a comunhão dos santos no sofrimento, vendo no profeta uma figura que participa, de modo antecipado, da experiência de rejeição que marcaria também a vida de Cristo e de muitos santos e mártires posteriores.
reformada
Enfatiza a soberania de Deus mesmo no ponto mais baixo do profeta: Jeremias sofre exatamente por obedecer à palavra que Deus lhe confiou, e a providência divina, não a sorte ou o mérito humano, é o que garante seu resgate por meio de Ebede-Meleque.
pentecostal
Costuma destacar o resgate de Ebede-Meleque como uma ilustração viva de libertação divina em meio à aflição extrema, lendo o episódio como incentivo a esperar por intervenção de Deus mesmo quando o socorro vem de uma direção inesperada.
ortodoxa
Vê em Jeremias um ícone do justo que sofre por permanecer fiel à palavra recebida, aproximando sua provação da tradição dos profetas perseguidos que a liturgia oriental associa ao caminho de humilhação e vindicação vivido depois por Cristo.
No original3 termos
בּוֹרbôrH953
poço ou cisterna, escavado na rocha para armazenar água; usado também como prisão improvisada, como no caso de José e de Jeremias.
טִיטṭîṭH2916
lama, barro ou lodo; a mesma palavra aparece em textos poéticos para descrever situações de angústia e desamparo extremo.
טָבַעṭāḇaʿH2883
afundar, atolar-se; usado para descrever alguém que perde o apoio firme e é engolido, literal ou figuradamente, por água ou lama.
O que fazer com isso
A cena não ensina que sofrer é sinal de estar fora da vontade de Deus: Jeremias estava exatamente onde Deus o havia colocado, dizendo o que Deus mandara, e mesmo assim foi jogado na lama. Isso ajuda quem hoje enfrenta consequências injustas por manter uma posição honesta, porque dizer a verdade tem custo, e esse custo não é prova de erro. Vale notar também quem apareceu para ajudar: muitas vezes o socorro vem de onde menos se espera, não de quem tem mais poder ou proximidade.
Passagens relacionadas7
Toque numa referência para ler o texto sem sair da página.
Fontes consultadas3 obras
- John Bright. Jeremiah (Anchor Bible), 1965.
- Walter Brueggemann. A Commentary on Jeremiah: Exile and Homecoming, 1998.
- R. K. Harrison. Jeremiah and Lamentations (Tyndale Old Testament Commentaries), 1973.
Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.
Perguntas frequentes
Por que os príncipes não mataram Jeremias diretamente?
Jogá-lo numa cisterna evitava o derramamento direto de sangue e ainda garantia uma morte lenta por fome e exposição, sem que ninguém em particular pudesse ser apontado como o executor. Um método parecido aparece na narrativa de José, jogado num poço pelos próprios irmãos.
Quem era Ebede-Meleque?
Um eunuco cuxita, ou seja, de origem etíope, a serviço da casa do rei Zedequias. Ele intercede diretamente ao rei e organiza o resgate de Jeremias, mostrando uma coragem que os próprios nobres judeus não tiveram.
A cisterna tinha água?
Não. O texto diz explicitamente que não havia água, apenas lama. Isso tornava a situação ainda mais penosa, porque Jeremias não corria risco de afogamento, mas ficava preso na lama, exposto à fome aos poucos.
Malquias, dono da cisterna, era mesmo filho do rei?
Provavelmente não no sentido literal. Filho do rei também era um título usado para oficiais ligados à administração do palácio real em outros textos do Antigo Testamento, não necessariamente indicando um filho biológico do monarca reinante.
Temas
- Sofrimento
- #jeremias
- #antigo-testamento
- #perseguicao
- #profetas-do-antigo-testamento
- #cerco-de-jerusalem
- #ebede-meleque
- #zedequias