
Quem são os heróis anônimos de Hebreus 11:35-38?
Quem são as pessoas sem nome que foram torturadas, apedrejadas e serradas em Hebreus 11?
As mulheres receberam de volta os seus mortos pela ressurreição; e outros foram torturados, não aceitando a soltura, para alcançarem uma melhor ressurreição; e outros experimentaram provação de insultos e açoites, e até correntes e prisões; foram apedrejados, serrados, tentados, morreram pela espada; andaram vestidos de peles de ovelhas e de cabras; necessitados, afligidos, maltratados; (o mundo não era digno deles) andando sem rumo em desertos, montanhas, covas, e nas cavernas da terra.
Resposta curta
Depois de nomear Gideão, Baraque, Sansão, Davi e outros, o autor de Hebreus muda de tom. Nos versículos 35 a 38, ele descreve pessoas sem nome: mulheres que recobraram seus mortos, homens torturados que recusaram o livramento, apedrejados, serrados, mortos à espada, vagando em peles de ovelha e em cavernas. O texto não identifica ninguém, e as tentativas de dar nomes se apoiam em narrativas do Antigo Testamento, em livros judaicos do período entre os Testamentos e em tradição posterior. O ponto do autor é outro: a fé não garante livramento nesta vida, e há uma “melhor ressurreição” pela qual vale resistir. Dessa gente, diz ele, “o mundo não era digno”. O silêncio sobre os nomes é parte da mensagem.
Como isso aponta para Jesus
Trajetória do textoO capítulo prepara a ideia de que todos os heróis da fé aguardavam algo melhor, que só se completa com Cristo. Em seguida, o autor aponta Jesus como o líder e consumador da fé, que suportou a cruz. Os sofredores anônimos formam, assim, a nuvem de testemunhas que desemboca nele.
Respaldo no Novo Testamento:
Em palavras simples
Depois de citar nomes famosos, o autor de Hebreus fala de pessoas sem nome que foram torturadas, apedrejadas, serradas e mortas à espada por causa da fé, e de outras que viveram fugindo em desertos e cavernas. Ele não diz quem são, embora alguns casos lembrem histórias do Antigo Testamento e do período dos macabeus. O recado é que a fé nem sempre traz livramento nesta vida, mas aponta para uma ressurreição melhor, e que o mundo não era digno dessas pessoas.
Contexto histórico
é o grande capítulo da fé. Começa com a definição de fé como “a certeza de coisas que se esperam” (11:1) e passa pela criação, por Abel, Enoque, Noé, Abraão, Sara, Isaque, Jacó, José, Moisés, Raabe e outros. O versículo 32 diz que falta tempo para falar de Gideão, Baraque, Sansão, Jefté, Davi, Samuel e dos profetas, e os versículos 33 e 34 resumem os que, pela fé, venceram reinos, taparam a boca de leões, apagaram a violência do fogo e escaparam do fio da espada.
No meio do versículo 35, o texto muda de direção. Até ali, a fé trazia vitória visível. A partir de “outros”, ela traz sofrimento. A primeira frase, “mulheres receberam seus mortos mediante ressurreição”, ainda é de livramento e lembra duas mães do Antigo Testamento: a viúva de Sarepta, cujo filho foi ressuscitado por Elias (), e a sunamita, cujo filho foi ressuscitado por Eliseu (). Mas a frase seguinte começa com “uns”, no sentido de outros, e a lista passa a ser de dor.
O texto fala de torturados que não aceitaram libertação, de escárnio, açoites, algemas e prisões, de apedrejamento, de serragem, de morte à espada. Depois, descreve a vida dos fugitivos: andaram vestidos de peles de ovelhas e de cabras, “destituídos, aflitos, maltratados”, vagando por desertos, montes, cavernas e covas da terra. No parêntese central, o autor diz que o mundo “não era digno deles” (v. 38).
A carta foi escrita a cristãos que haviam sofrido perseguição e enfrentavam a tentação de desistir (). A lista funciona como espelho: há uma longa linhagem de gente que perseverou sem receber, em vida, tudo que esperava, e os versículos 39 e 40 dizem que nenhum deles recebeu a promessa por completo, porque Deus guardava algo melhor para todos juntos.
Aprofundamento
O primeiro ponto é a ausência de nomes. A frase “uns foram torturados” e as seguintes não apontam pessoa alguma. Os leitores antigos do Antigo Testamento e dos livros judaicos do período interbíblico podiam reconhecer alguns casos, mas o autor deixa o catálogo aberto. Esse anonimato tem efeito retórico: os sofredores não ficam presos a um personagem, e o leitor pode se reconhecer ali.
O segundo ponto são as pistas históricas. O verbo traduzido por “torturados” (tympanizo) sugere ser golpeado ou esticado sobre um instrumento. Muitos comentaristas, como William Lane e Craig Koester, relacionam esse trecho às histórias do período dos macabeus, em 2 Macabeus 6 e 7, onde Eleazar e uma mãe com sete filhos preferem a morte a renegar a Lei, e recusam a oferta de libertação. É uma associação plausível, mas o autor de Hebreus não cita a fonte. “Apedrejados” pode lembrar Zacarias, filho de Joiada, morto no pátio do templo (), e a tradição judaica posterior ligou Jeremias a esse mesmo destino. “Mortos ao fio da espada” lembra o profeta Urias () e os profetas de que Elias fala ().
O terceiro ponto é “serrados”. A Bíblia não narra a morte de nenhum profeta serrado ao meio. A tradição judaica extrabíblica, em textos como a Ascensão de Isaías, diz que Isaías teria sido serrado no reinado de Manassés, e muitos estudiosos acham provável que Hebreus tenha isso em vista. Mas é uma tradição, e não texto canônico, e o autor não diz quem foi serrado. As peles de ovelha e de cabra lembram o manto de Elias (; ) e a vida errante dos profetas, em especial nos dias de Acabe e Jezabel.
O quarto ponto é a expressão “melhor ressurreição” (v. 35). Os que ressuscitaram na primeira frase voltaram à vida e depois morreram de novo. Os torturados que recusaram o livramento esperavam uma ressurreição diferente, definitiva, com um corpo que não morre mais. O adjetivo “melhor” compara essas duas realidades: uma é devolução temporária, outra é vida plena. Por isso eles puderam recusar a libertação oferecida pelos perseguidores.
O quinto ponto é o peso teológico do trecho. A fé, em Hebreus, não é fórmula para evitar o sofrimento. A lista mostra que ela pode resultar em conquista e pode resultar em martírio, e que os dois grupos são igualmente aprovados: “todos estes, tendo obtido bom testemunho por meio da fé” (v. 39). O texto não lê a dor como falta de fé nem a vitória como sinal de maior fé.
Por fim, a frase “dos quais o mundo não era digno” inverte o julgamento do mundo. Quem foi tratado como indigno é o digno aos olhos de Deus.
O que costumam dizer errado2 afirmações
Dizem que:Hebreus 11:35-38 fala de pessoas específicas, como Isaías e Jeremias, e o texto diz seus nomes.
O texto não nomeia ninguém neste trecho. As ligações com Isaías, Jeremias, Zacarias ou os mártires macabeus são tentativas de comentaristas, apoiadas em narrativas bíblicas e em tradições posteriores, e nenhuma é afirmada pelo autor.
Dizem que:A passagem mostra que quem sofre assim teve pouca fé, e quem é livrado teve mais.
O versículo 39 coloca todos juntos como aprovados pela fé. O autor não hierarquiza entre quem venceu e quem morreu. Ele mostra que a fé se expressa tanto em conquista quanto em resistência até a morte.
Como diferentes tradições cristãs leem3 leituras
Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.
Referência aos mártires macabeus (Lane, Koester)
A recusa do livramento e a tortura lembram os relatos de 2 Macabeus 6 e 7. Segundo essa leitura, o autor tem em mente a memória dos judeus fiéis do século II a.C., sem citá-los.
Referência a profetas do Antigo Testamento
Apedrejados, mortos à espada e vestidos de peles lembram profetas como Zacarias, Urias e Elias. O catálogo seria uma condensação de uma longa história de perseguição aos mensageiros de Deus.
Catálogo aberto e anônimo
O silêncio sobre os nomes é intencional: o autor convida cada leitor perseguido a se reconhecer na lista e a ver sua própria dor dentro da longa linha da fé.
No original2 termos
ἐτυμπανίσθησανetympanisthesanG5178
Foram torturados, golpeados. O verbo vem de tympanon (tambor), e sugere ser esticado ou batido sobre um instrumento de tortura. Relaciona-se, em muitas leituras, com os relatos de 2 Macabeus.
κρείττονος ἀναστάσεωςkreittonos anastaseos
Melhor ressurreição. O adjetivo kreittōn (melhor) é um dos favoritos de Hebreus. Aqui contrasta a volta temporária à vida, vivida pelos filhos das mulheres, com a ressurreição definitiva.
O que fazer com isso
O texto corrige a ideia de que fé e conforto andam sempre juntos. Há quem seja livrado e há quem sofra, e os dois estão no mesmo capítulo e sob o mesmo elogio. Isso consola quem vive perseguição ou dor sem resposta visível, e pede humildade de quem vê sofrimento alheio: o que o mundo desdenha pode ser, diante de Deus, o que ele mais honra.
Passagens relacionadas5
Toque numa referência para ler o texto sem sair da página.
Fontes consultadas4 obras
- William L. Lane. Hebrews 9–13 (Word Biblical Commentary), 1991.
- Craig R. Koester. Hebrews (Anchor Bible), 2001.
- F. F. Bruce. The Epistle to the Hebrews (NICNT), 1964.
- Paul Ellingworth. The Epistle to the Hebrews (NIGTC), 1993.
Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.
Perguntas frequentes
Quem foi serrado ao meio segundo a Bíblia?
A Bíblia não narra isso. A tradição judaica extrabíblica, como a Ascensão de Isaías, diz que Isaías foi serrado, e muitos estudiosos acham que Hebreus tem isso em mente, mas o texto não confirma.
O que é a “melhor ressurreição”?
É a ressurreição definitiva, em contraste com a volta temporária à vida dos filhos ressuscitados por Elias e Eliseu, que depois morreram. Os torturados esperavam uma vida que não termina.
Por que o autor não diz os nomes?
Não se sabe com certeza. O efeito é que o leitor pode se reconhecer na lista, e a mensagem passa a ser sobre perseverar sem receber tudo, e não sobre identificar personagens.
Temas
- Fé
- Ressurreição
- #hebreus-11
- #martires
- #perseguicao
- #herois-anonimos
- #apedrejados
- #serrados