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Significado Bíblico
Teologia densaintermediária
Ilustração da categoria Teologia densa

Deus é homem ou mulher?

Deus é homem ou mulher, segundo a Bíblia?

E criou Deus o ser humano à sua imagem, à imagem de Deus o criou; macho e fêmea os criou.

· Bíblia Livre (Textus Receptus)

Resposta curta

diz que Deus criou o ser humano à sua imagem e completa: "macho e fêmea os criou." O texto não reserva a imagem de Deus só para o homem — os dois a recebem no mesmo instante da criação. Isso já indica que "imagem de Deus" não é um retrato físico ou sexual, pois um único Deus não seria simultaneamente macho e fêmea nesse sentido biológico.

A Bíblia chama Deus de Pai, mas também o compara a uma mãe que consola () e a uma águia que cuida dos filhotes (). Essas imagens lado a lado mostram que a linguagem de gênero fala de como Deus se relaciona conosco, não do que ele é feito. A imagem que homens e mulheres carregam está no plano de amar, criar e governar em nome dele, não da anatomia.

Como isso aponta para Jesus

Trajetória do texto

A ideia de "imagem de Deus", introduzida em , percorre toda a Escritura e chega ao seu ponto mais alto em Cristo. Enquanto Adão e Eva carregam a imagem de Deus de forma refletida e, segundo o relato bíblico, danificada pela desobediência, o Novo Testamento chama Jesus de "imagem do Deus invisível" () e "resplendor da glória de Deus e expressão exata do seu ser" () — não uma cópia, mas a imagem em sua forma plena e sem distorção. Paulo ainda ensina que o propósito da salvação é conformar os crentes "à imagem de seu Filho" (), fechando o círculo: a humanidade foi criada à imagem de Deus, perdeu o brilho dessa imagem, e é restaurada nela por meio de Cristo, o único ser humano que a exibiu por completo.

Respaldo no Novo Testamento: ; ;

Em palavras simples

Gênesis diz que Deus criou o ser humano à sua imagem, homem e mulher juntos, no mesmo momento. Isso já mostra que essa imagem não é um corpo ou um sexo, porque um só Deus não seria homem e mulher ao mesmo tempo. A Bíblia chama Deus de Pai, mas também o compara a uma mãe. Isso significa que as palavras de gênero usadas para Deus falam de como ele cuida e se relaciona com as pessoas, não do que ele é fisicamente. Homem e mulher, cada um do seu jeito, refletem igualmente quem Deus é.

Contexto histórico

narra a criação em sete dias, e o sexto dia culmina na criação do ser humano, o único ser descrito como feito "à imagem de Deus" (v. 26-27). O verso 26 registra Deus dizendo "Façamos ao ser humano à nossa imagem", um plural que gerou debate entre os intérpretes desde a Antiguidade — judeus liam como plural majestático ou conselho celestial (anjos), enquanto leitores cristãos posteriores viram ali um eco da pluralidade que a revelação plena do Novo Testamento chamaria de Trindade. O verso 27, foco deste verbete, fecha a cena com três linhas poéticas paralelas: Deus criou o ser humano à sua imagem; à imagem de Deus o criou; macho e fêmea os criou. A repetição é deliberada — típica da poesia hebraica — e amarra a ideia de "imagem" diretamente à existência de dois sexos, sem hierarquia entre eles nesse ponto do texto.

No mundo antigo em que Gênesis foi escrito, era comum que reis e imagens de divindades (ídolos, estátuas) fossem chamados de "imagem" do deus que representavam — um sinal de autoridade delegada. Estudiosos como Gerhard von Rad e John Walton observam que Gênesis usa essa linguagem de forma democratizada: não é só o rei que carrega a imagem divina, mas toda a humanidade, homem e mulher. Isso explica por que o texto associa imagem de Deus com o mandato de "dominar" a terra (v. 28) — a imagem tem função representativa, não retrato físico. O hebraico não tem um termo neutro de gênero para Deus, e o uso de pronomes masculinos segue a convenção gramatical da língua, não uma afirmação sobre a natureza de Deus, que a própria tradição judaico-cristã sempre afirmou ser espírito, sem corpo. É nesse ponto que o verso 26 se conecta ao debate sobre a Trindade: o plural "façamos" e "nossa imagem", lido à luz da revelação plena do Novo Testamento, é entendido por parte da tradição cristã como um indício antecipado da pluralidade pessoal dentro da unidade de Deus, ainda que o texto hebraico, isolado, não desenvolva essa doutrina.

Aprofundamento

A pergunta "Deus é homem ou mulher?" nasce de uma confusão comum entre duas coisas distintas: linguagem gramatical e essência divina. O hebraico, como o português, exige gênero gramatical em pronomes e verbos — não existe forma neutra disponível. Quando o texto usa "ele" para Deus, está seguindo a estrutura da língua, não descrevendo anatomia. A tradição cristã majoritária, apoiada em textos como ("Deus é espírito") e , sempre ensinou que Deus não tem corpo sexuado; é imaterial, e por isso não pode ser literalmente macho nem fêmea no sentido biológico da palavra.

Isso não torna a linguagem bíblica de gênero irrelevante. A Escritura chama Deus de Pai com intenção — evoca proximidade, autoridade e aliança, especialmente no ensino de Jesus. Mas ao lado dessa linguagem paterna, o texto bíblico também recorre a imagens maternas sem constrangimento: Deus como mãe que não esquece seu filho de peito (), como aquela que consola (), como parteira (Salmo 22:9-10), como águia que cuida da ninhada () e como galinha que reúne os pintinhos sob as asas (, nas palavras do próprio Jesus). Nenhuma dessas imagens é tratada como doutrina sobre o corpo de Deus — são metáforas que revelam faces do caráter e do cuidado divino, e sua diversidade é o próprio indício de que gênero, aplicado a Deus, opera em outro registro que não o biológico.

é o texto mais direto para resolver essa questão porque ele amarra a imagem de Deus a ambos os sexos no mesmo ato criador, sem escalonamento. Isso significa que nem o homem sozinho, nem a mulher sozinha, esgota o que a imagem de Deus comunica sobre ele; juntos, e cada um em sua diferença, refletem algo do Criador que nenhum dos dois isoladamente refletiria por completo. É por isso que comentaristas como Gerhard von Rad tratam a inclusão de "macho e fêmea" na definição de imagem como parte do argumento do texto, não um detalhe biológico à parte. A discussão sobre a linguagem de gênero para Deus, portanto, não é uma tentativa moderna de reescrever a Bíblia, mas uma leitura atenta do que o próprio texto já sinaliza há milênios: Deus transcende as categorias que usamos para falar dele, e a linguagem humana — paterna, materna, masculina, feminina — é sempre aproximação, nunca definição completa. Vale notar ainda que essa mesma constatação não anula a diferença entre homem e mulher nem a dissolve numa indistinção; pelo contrário, o texto celebra os dois sexos como portadores plenos e distintos da imagem divina, o que barra tanto a ideia de que só um deles reflete Deus de forma completa quanto a ideia de que a diferença entre eles seria irrelevante para entender quem Deus é.

O que costumam dizer errado2 afirmações
  • Dizem que:Como a Bíblia usa "Ele" para Deus e diz que fomos feitos à sua imagem, Deus deve ter corpo de homem.

    O hebraico e o grego bíblicos não têm pronome neutro disponível para seres pessoais; o uso de "ele" segue a gramática da língua, não uma afirmação sobre anatomia. A própria Bíblia declara que Deus é espírito () e usa imagens femininas para si mesmo em vários textos proféticos, o que seria incoerente se a linguagem masculina fosse literal.

  • Dizem que:Falar de Deus com imagens maternas é uma invenção teológica recente para adaptar a Bíblia aos tempos atuais.

    Textos como :13 e , todos do Antigo Testamento, já usam metáforas maternas para Deus séculos antes da era cristã; a prática não é moderna, está no próprio cânon hebraico.

Como diferentes tradições cristãs leem3 leituras

Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.

  • católica

    O Catecismo da Igreja Católica ensina que Deus transcende a diferença entre os sexos e não é nem homem nem mulher; ele é "pai", mas também não é estranho à ternura materna, sendo essa ternura uma imagem análoga de seu amor por sua criatura (cf. ; Salmo 131:2-3).

  • ortodoxa

    A tradição ortodoxa enfatiza a teologia apofática: Deus está além de toda categoria humana, incluindo gênero. A linguagem paterna revela relação e autoridade dentro da economia da salvação, mas nunca é lida como descrição da essência divina, que permanece um mistério incompreensível.

  • reformada

    Autores reformados, seguindo a leitura de Karl Barth sobre a imagem de Deus como relacional, notam que "macho e fêmea os criou" no mesmo versículo da imagem sugere que a capacidade humana de comunhão — refletida na diferença e complementaridade entre os sexos — aponta para algo da vida relacional do próprio Deus, sem que isso implique atribuir sexo a ele.

No original4 termos
  • בָּרָאbaraH1254

    criar — verbo usado exclusivamente com Deus como sujeito no Antigo Testamento, denotando um ato criador único

  • צֶלֶםtselemH6754

    imagem, semelhança representativa — usado também para estátuas e ídolos que representavam uma divindade ou um rei

  • זָכָרzakarH2145

    macho

  • נְקֵבָהneqebahH5347

    fêmea

O que fazer com isso

Entender isso muda como lemos a própria identidade. Se homem e mulher, juntos, refletem a imagem de Deus, nenhum dos dois é mais "parecido" com Deus do que o outro, e nenhum precisa negar sua diferença para ter valor diante dele. Isso também liberta a oração e a linguagem devocional: chamar Deus de Pai não é errado, mas reconhecer que a Escritura também usa imagens maternas ajuda a não reduzir Deus a um estereótipo humano de força ou distância.

Passagens relacionadas11

Toque numa referência para ler o texto sem sair da página.

Fontes consultadas3 obras
  • Gerhard von Rad. Genesis: A Commentary, 1972.
  • John H. Walton. Genesis (NIV Application Commentary), 2001.
  • Keil, C. F. e Delitzsch, F.. Commentary on the Old Testament, 1866.

Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.

Perguntas frequentes

Deus tem gênero, segundo a Bíblia?

Não no sentido biológico. A Bíblia afirma que Deus é espírito, sem corpo sexuado. A linguagem masculina (Pai, Ele) segue a gramática do hebraico e do grego e descreve como Deus se relaciona conosco, não do que ele é feito.

Por que a Bíblia chama Deus de Pai e não de Mãe?

Pai é o título predominante, usado por Jesus e ao longo da Escritura, mas não é exclusivo: textos como e usam imagens maternas para Deus. A predominância paterna reflete a cultura e a revelação bíblica, não uma limitação da natureza divina.

O que significa "imagem de Deus" em Gênesis 1:27?

Significa que o ser humano representa Deus na criação, com capacidade de relacionar-se, criar e governar em nome dele — não que tenha a mesma forma física. Homem e mulher recebem essa imagem juntos e igualmente.

Temas

Publicado em 27/08/2026

Construído sobre fontes em domínio público, listadas acima. Como produzimos. Encontrou um erro? Escreva para a redação.

O que foi conferido

  • Citação conferida contra o texto de Bíblia Livre (Textus Receptus)
  • 3 obras citadas, com autor e ano
  • 2 afirmações populares checadas e refutadas
  • 3 tradições cristãs apresentadas lado a lado
  • Editor responsável: Julio Andolfo
  • Revisão teológica por pessoa nomeada — ainda não feita. Enquanto não for, dizemos isso aqui em vez de assinar um nome.

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