
Por que Jesus gritou "Deus meu, por que me desamparaste"?
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Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste? Longe estás de meu livramento e das palavras de meu gemido.
Resposta curta
No momento mais dramático da crucificação, segundo e , Jesus gritou em aramaico as palavras iniciais do Salmo 22: "Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?" A frase não nasceu ali. É a abertura de um salmo de lamento escrito séculos antes, atribuído a Davi, que descreve alguém em angústia extrema, sentindo Deus distante em meio ao sofrimento e ao escárnio dos que o cercam.
O salmo, porém, não termina no desespero. Ele se move da dor mais funda para a confiança, terminando com a certeza de que Deus ouve o aflito. Entender essa trajetória ajuda a ler o grito de Jesus não como colapso de fé, mas como a citação de um texto inteiro, cuja primeira linha aponta para o fim: da ausência de Deus à vitória que a ressurreição confirma.
Como isso aponta para Jesus
Cumprimento diretoJesus cita literalmente a abertura do Salmo 22 no momento da morte (; ), identificando sua própria experiência com a do sofredor do salmo. Mais que isso, elementos do salmo, como o escárnio de quem balança a cabeça, os ossos que se pode contar e as roupas divididas por sorteio (versículos 7-8, 17-18), reaparecem nos relatos da crucificação, e cita diretamente o versículo 18 como cumprido em Jesus. A convergência vai além do sofrimento: o salmo termina anunciando que "todos os extremos da terra" se voltarão ao Senhor (versículo 27), horizonte que os primeiros cristãos leram como cumprido na expansão do evangelho depois da ressurreição.
Respaldo no Novo Testamento: ; ;
Contexto histórico
O Salmo 22 traz no título a indicação "sobre Aijeleth Shahar" (algo como "a corça da alva"), provavelmente o nome de uma melodia conhecida usada para cantá-lo, e é atribuído a Davi. Pertence ao gênero dos salmos de lamento individual, um padrão comum na poesia hebraica em que quem ora expõe sua aflição a Deus, questiona o silêncio divino, mas termina reafirmando confiança. Esse movimento de queixa para confiança organiza o próprio salmo: os versículos 1 a 21 descrevem sofrimento físico e social extremos, como ossos que se soltam, força que se seca, escárnio público e inimigos comparados a touros e leões, enquanto os versículos 22 a 31 se voltam para a ação de graças e para a expectativa de que "todos os extremos da terra" se lembrem do Senhor.
A abertura, "Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?", usa paralelismo hebraico, repetindo "Deus meu" duas vezes, recurso que intensifica ao mesmo tempo a intimidade da relação, pois é "meu" Deus, não um deus qualquer, e o peso da pergunta. O verbo traduzido por "desamparar" carrega a ideia de abandonar, deixar só, retirar o apoio esperado. Não é uma dúvida filosófica sobre a existência de Deus, mas o grito de alguém que sente, na própria experiência, a ausência do socorro que esperava. Comentaristas como Derek Kidner observam que esse tipo de lamento era uma forma legítima e frequente de oração israelita: reclamar a Deus o seu silêncio fazia parte da fé, não a negava.
Historicamente, o salmo fala primeiro da situação de quem o escreveu, ou de um sofredor justo representativo de Israel, perseguido, humilhado e cercado por adversários, sem que o texto identifique um episódio específico da vida de Davi. É essa voz de sofrimento intenso, mas ainda voltada a Deus como "meu Deus", que séculos depois seria retomada, palavra por palavra, por Jesus na cruz.
Aprofundamento
Quando os evangelhos registram que Jesus gritou "Eli, Eli, lamá sabactâni?" em , ou "Eloí, Eloí, lamá sabactâni?" em , eles citam literalmente a abertura do Salmo 22 em aramaico. A pergunta que muitos leitores fazem é se isso significa que o Pai realmente abandonou o Filho naquele instante. A resposta depende, em parte, de como se entende a prática judaica de citar a primeira linha de um salmo.
Era comum, na cultura judaica do primeiro século, invocar um salmo inteiro citando apenas seu versículo de abertura, algo parecido com dizer o título de uma canção para evocá-la toda. Estudiosos do Novo Testamento, como R. T. France em seu comentário sobre Mateus, apontam que Jesus, ao pronunciar a primeira linha do Salmo 22, pode estar trazendo à mente o salmo inteiro, incluindo sua virada final, do abandono para o louvor e a vindicação. Isso ajuda a explicar por que o mesmo salmo descreve, com notável proximidade, cenas que os evangelhos relatam na crucificação: o escárnio de quem balança a cabeça, nos versículos 7 e 8, ecoado em ; ossos que se pode contar, no versículo 17; mãos e pés perfurados, no versículo 16; e roupas divididas por sorteio, no versículo 18, citado diretamente em .
Ainda assim, a pergunta teológica permanece: o que aconteceu, de fato, entre o Pai e o Filho naquele momento? Aqui as tradições cristãs leem de formas diferentes. Algumas enfatizam que Jesus, levando sobre si o peso do pecado humano, experimentou de modo real a sensação de separação de Deus, um sofrimento que vai além da dor física. Outras insistem que a união entre Pai e Filho na divindade nunca foi rompida, e que o grito expressa a voz da humanidade de Cristo, plenamente identificada com a angústia humana, sem que isso signifique fratura na Trindade. Essas ênfases divergem sobre até onde vai a palavra "desamparo", mas nenhuma tradição histórica cristã ensina uma ruptura ontológica dentro de Deus.
O que o texto sustenta com segurança, independentemente dessas nuances, é que o grito de Jesus não foi um colapso de fé, mas uma oração, a mesma de alguém que, em meio ao pior sofrimento, ainda chama a Deus de "meu Deus". E o salmo que começa no abandono termina anunciando que "todos os extremos da terra" se lembrarão e se converterão ao Senhor, no versículo 27, um horizonte que o Novo Testamento liga ao alcance universal do evangelho depois da ressurreição.
O que costumam dizer errado2 afirmações
Dizem que:Jesus perdeu a fé ou desesperou-se de verdade, achando que Deus o tinha abandonado para sempre.
O próprio ato de citar o Salmo 22, que termina em confiança e louvor, e o fato de Jesus continuar chamando Deus de "meu Deus" mostram que o grito é uma oração dentro da fé, não uma negação dela; os evangelhos registram, em seguida, outra palavra de confiança do próprio Jesus na cruz: "Pai, em tuas mãos entrego o meu espírito" ().
Dizem que:O grito significa que a Trindade se rompeu por um instante, com o Pai deixando de ser Deus junto ao Filho.
Nenhuma tradição cristã histórica ensina ruptura ontológica na Trindade; as diferentes leituras cristãs concordam que a união divina entre Pai e Filho permanece, mesmo quando divergem sobre o alcance da experiência humana de abandono vivida por Cristo.
Como diferentes tradições cristãs leem4 leituras
Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.
Católica / Patrística
Ênfase na comunicação de idiomas: Cristo fala como homem, na plenitude da sua natureza humana solidária com a angústia humana; a união entre divindade e humanidade em Cristo nunca se rompe, e o grito é oração que, por citar a abertura do salmo, já aponta para a vitória que o próprio texto anuncia mais à frente.
Reformada / Evangélica
Muitos leem o grito como um clamor real de desamparo: ao levar sobre si o pecado da humanidade, Jesus teria experimentado, em sua consciência humana, a sensação de distanciamento de Deus contra o pecado, cumprindo o papel de substituto em lugar dos pecadores.
Luterana
Na teologia da cruz, Deus se revela justamente onde parece ausente; o grito expressa o peso real da condição que Cristo assume por nós, sem que isso signifique cisão dentro da Trindade — é o Filho, em sua humanidade, suportando o abandono que os pecadores mereciam.
Ortodoxa
A tradição oriental enfatiza a solidariedade do Filho encarnado: ele assume plenamente a experiência humana de desamparo para dela nos resgatar, mantendo intacta a comunhão eterna entre Pai e Filho na natureza divina; o sofrimento é vivido na humanidade assumida, não na essência divina.
No original3 termos
אֵלִיeliH410
"meu Deus", de אֵל (El, Deus/deidade), com sufixo pronominal de primeira pessoa
עֲזַבְתָּנִיazavtaniH5800
"me abandonaste/desamparaste", do verbo עָזַב (azav), abandonar, deixar só, retirar apoio
לָמָהlamah
"por que", partícula interrogativa que introduz a pergunta do salmo
O que fazer com isso
Momentos em que Deus parece distante, numa doença, numa perda, numa crise que não passa, não são por si só sinal de fé fraca ou de abandono real. O Salmo 22 mostra que é possível orar a partir do vazio, chamando Deus de "meu Deus" mesmo sem sentir resposta imediata. Ler o salmo inteiro, e não só o primeiro versículo, ajuda a lembrar que o lamento honesto, quando sustentado, costuma vir acompanhado, mais adiante, de um caminho de volta à confiança.
Passagens relacionadas6
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Fontes consultadas3 obras
- Derek Kidner. Psalms 1-72: An Introduction and Commentary (Tyndale Old Testament Commentaries), 1973.
- Craig L. Blomberg. Matthew (The New American Commentary), 1992.
- R. T. France. The Gospel of Matthew (New International Commentary on the New Testament), 2007.
Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.
Perguntas frequentes
Deus realmente abandonou Jesus na cruz?
As tradições cristãs concordam que a comunhão eterna entre Pai e Filho nunca se rompeu, mas divergem sobre até que ponto Jesus experimentou, em sua humanidade, a sensação de distanciamento de Deus ao levar o peso do pecado. O consenso é que o grito é oração, não perda de fé.
Por que Jesus citou só o primeiro versículo do salmo, e não o salmo inteiro?
Era comum, na cultura judaica da época, invocar um salmo inteiro citando apenas sua primeira linha. Por isso muitos estudiosos entendem que Jesus trazia à mente todo o Salmo 22, incluindo sua virada final para a confiança e o louvor.
O Salmo 22 foi escrito pensando em Jesus?
O salmo fala primeiro da experiência de aflição de quem o escreveu, atribuído a Davi, sem mencionar Jesus diretamente. É o Novo Testamento que estabelece a ligação, mostrando como elementos do salmo se cumprem na crucificação.
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