
Salmo 70: o grito "Apressa-te, ó Deus, a livrar-me"
Por que o Salmo 70 repete o final do Salmo 40, e o que significa "apressa-te, ó Deus" nessa oração de urgência?
Livra-me Deus; apressa-te para me socorrer, SENHOR. Envergonhem-se, e sejam confundidos os que procuram matar a minha alma; voltem-se para trás, e sejam humilhados os que gostam de me fazer o mal.
Resposta curta
O Salmo 70 abre com um pedido direto e urgente: "Livra-me Deus; apressa-te para me socorrer, SENHOR" (v.1). Em cinco versículos, Davi roga que Deus intervenha depressa contra pessoas que buscam sua morte, e ao mesmo tempo pede alegria para quem confia no Senhor (v.4). É um salmo curto de lamento individual, no qual o verbo hebraico traduzido "apressa-te" funciona como refrão de aflição, repetido no versículo 5.
O detalhe que mais intriga leitores atentos é que este salmo repete, quase palavra por palavra, o final do Salmo 40 (versículos 13 a 17). Essa duplicação não é erro de cópia: comentaristas como Derek Kidner e Marvin Tate reconhecem nela um exemplo de reaproveitamento editorial de material hínico no Saltério, prática também visível nos e 53. O título "para trazer à memória" sugere um uso litúrgico específico.
Como isso aponta para Jesus
Trajetória do textoO Novo Testamento não cita o Salmo 70 diretamente, mas o padrão que ele expressa — um justo que clama com urgência a Deus por livramento em meio a perseguidores reais — encontra seu ponto mais alto na experiência do próprio Jesus. descreve Cristo, nos dias de sua carne, oferecendo "orações e súplicas, com forte clamor e lágrimas, ao que podia livrá-lo da morte". A tradição cristã lê essa trajetória — do lamento urgente de Davi ao clamor de Jesus em Getsêmani — como parte de um mesmo fio: o justo que sofre injustamente e deposita sua urgência inteira em Deus. Essa é uma leitura teológica de continuidade temática, não uma alegação de que o salmo profetiza especificamente a paixão de Cristo; o texto, em seu sentido histórico, é a oração de Davi por livramento imediato.
Respaldo no Novo Testamento:
Em palavras simples
O Salmo 70 é uma oração curta e urgente. Davi pede que Deus o socorra depressa, porque há pessoas tentando matá-lo, e ao mesmo tempo pede alegria para quem confia em Deus. Uma coisa chama atenção: esse salmo é quase igual ao final de outro salmo, o Salmo 40. Isso intriga muita gente, mas não é erro nem cópia mal feita. Os salmos eram cantados no templo e podiam ser reaproveitados em situações diferentes, como uma mesma música usada em ocasiões distintas.
Contexto histórico
O Salmo 70 pertence ao chamado "Segundo Livro" do Saltério (), um conjunto de salmos atribuídos majoritariamente a Davi e marcados por preferirem o nome "Elohim" (Deus) ao nome pessoal "YHWH" (SENHOR) — fenômeno que estudiosos chamam de "Saltério Eloísta". O comentarista Marvin Tate observa esse padrão ao tratar do Salmo 70 em seu volume sobre os na série Word Biblical Commentary.
O título do salmo — "para o músico-mor, para trazer à memória" — é idêntico ao do Salmo 38. A expressão "trazer à memória" (hebraico lehazkir) provavelmente remete a um contexto litúrgico de oferta memorial (compare a "porção memorial", azkarah, de ), sugerindo que este salmo tinha um uso específico no culto do templo, talvez acompanhando um sacrifício.
O traço mais discutido do Salmo 70, porém, é sua quase identidade com . As pequenas diferenças entre as duas versões — como a troca de "SENHOR" por "Deus" em certos versículos — são consistentes com o padrão do Saltério Eloísta. Para Derek Kidner, em seu comentário sobre os , essa repetição revela como hinos individuais podiam circular de forma independente antes de serem reunidos em coleções maiores, sendo reaproveitados conforme a necessidade do momento — algo semelhante ocorre entre os e 53, quase idênticos entre si.
Estruturalmente, o salmo segue a forma clássica do lamento individual hebraico: um clamor inicial por socorro (v.1-2), um pedido de que os perseguidores sejam envergonhados (v.2-3), uma bênção para os que buscam a Deus com alegria (v.4) e a repetição final do pedido de urgência, reconhecendo a própria condição de necessidade (v.5). Não há indicação histórica precisa de qual perseguição Davi enfrentava ao compor ou adaptar este texto; o cabeçalho não fornece esse dado, diferente de outros salmos davídicos que mencionam um episódio específico da vida do rei.
Aprofundamento
A repetição entre o Salmo 70 e o final do Salmo 40 costuma causar estranheza: por que a Bíblia traria o mesmo texto duas vezes, com pequenas variações? A resposta da erudição bíblica é mais simples do que parece incômoda. O Saltério não foi composto de uma só vez, mas reunido ao longo de séculos a partir de coleções menores — hinários de Davi, cânticos dos filhos de Corá, salmos de Asafe — que às vezes compartilhavam material. Um mesmo poema de lamento podia ser usado em mais de uma ocasião de culto, e quando essas coleções foram reunidas no Saltério final, ambas as versões foram preservadas, cada uma em seu contexto literário. Marvin Tate e Derek Kidner discutem esse processo editorial em seus respectivos comentários, e o paralelo mais próximo desse fenômeno é o par e 53, quase idênticos entre si mesmo estando separados por dezenas de salmos.
Vale notar que a repetição não é mecânica: o Salmo 70 tende a preferir "Elohim" (Deus) onde o Salmo 40 usa "YHWH" (SENHOR) — compare o final de , "mas o SENHOR cuida de mim", com , "ó Deus, apressa-te a mim". Esse padrão é comum aos salmos 42 a 83, um bloco que estudiosos chamam de "Saltério Eloísta" por preferir sistematicamente o nome genérico "Elohim" ao nome pessoal do pacto, "YHWH". Isso sugere que uma mão editorial adaptou o vocabulário divino do texto à coleção em que foi inserido, e não que houve um erro de transmissão ou uma cópia descuidada.
Outro ponto que merece atenção é o verbo hebraico por trás de "apressa-te" (chushah), que abre e fecha o salmo como uma moldura de urgência, repetido no versículo 5 depois de aparecer já no versículo 1. Não é uma fórmula ritual esvaziada de sentimento; é o mesmo tipo de clamor cru encontrado em outros lamentos do Saltério, como "Até quando, SENHOR?" (Salmo 13:1) ou o grito do profeta em . A brevidade do salmo — apenas cinco versículos — reforça essa urgência: não há espaço, na percepção de quem ora, para elaborar um poema longo enquanto o perigo é iminente.
O pedido de que os inimigos sejam "envergonhados" e "confundidos" (v.2-3) não pede violência física contra eles, mas reversão pública da situação: que o mal planejado se volte contra quem o planejou, e que a vergonha deles corresponda à vergonha que tentaram infligir a Davi. Essa lógica de justiça retributiva, comum aos salmos de lamento, expressa confiança de que Deus julga com justiça — não um desejo de vingança pessoal desmedida ou arbitrária.
O que costumam dizer errado2 afirmações
Dizem que:A repetição entre o Salmo 70 e o Salmo 40 prova que houve um erro de cópia ou que um dos dois é uma inserção espúria na Bíblia.
Comentaristas como Derek Kidner e Marvin Tate mostram que o Saltério foi reunido a partir de coleções menores de hinos que às vezes compartilhavam o mesmo material; a duplicação é um traço editorial conhecido, presente também no par e 53, e não um sinal de erro de transmissão.
Dizem que:Pedir a Deus para "se apressar" significa acusá-lo de estar atrasado ou de ser lento para agir.
O verbo hebraico usado é uma expressão convencional de lamento urgente, comum em vários salmos (como o Salmo 38:22 e o Salmo 40:13); ele comunica a intensidade da aflição de quem ora, não uma crítica teológica ao tempo de Deus.
Como diferentes tradições cristãs leem4 leituras
Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.
católica (leitura patrística, ex. Agostinho)
Os "inimigos" do salmo são lidos de forma também espiritual, representando vícios e forças que se opõem à alma que busca a Deus, e não apenas perseguidores históricos concretos.
reformada
O clamor de Davi é um apelo legítimo à justiça de Deus como juiz da aliança diante de perseguição real; o crente de hoje pode orar de modo semelhante quando sofre injustiça, confiando no caráter justo de Deus.
luterana
O salmo articula lei e evangelho: reconhece com honestidade a aflição real (lei) e, no mesmo fôlego, se apega à promessa da salvação de Deus (evangelho), mais do que se detém nos inimigos.
pentecostal/carismática
A urgência do "apressa-te" é tomada como modelo de oração ousada e imediata diante da crise, incentivando o crente a orar com a mesma intensidade emocional expressa no texto.
No original4 termos
חוּשָׁהchushahH2363
imperativo do verbo "apressar-se, vir depressa"; abre e fecha o salmo como uma moldura de urgência (v.1 e v.5).
אֱלֹהִיםElohimH430
nome genérico para "Deus", preferido neste salmo e no bloco dos ("Saltério Eloísta").
יְהוָהYHWHH3068
o nome pessoal do pacto, traduzido "SENHOR"; aparece uma vez no v.1, ao lado de Elohim.
נַפְשִׁיnafshiH5315
"minha alma" ou "minha vida"; termo hebraico que designa a pessoa inteira, não apenas uma parte espiritual dela.
O que fazer com isso
Este salmo autoriza uma forma de orar que muita gente evita por parecer deselegante: pedir com pressa, sem rodeios, sem esperar o momento "certo" de fé serena. Quando a vida aperta, não é preciso formular uma oração longa ou bem construída — o padrão bíblico inclui o grito curto, repetido, quase desesperado. Orar "apressa-te" não é falta de confiança em Deus; é reconhecer, com honestidade, o tamanho real da necessidade diante dele.
Passagens relacionadas7
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Fontes consultadas4 obras
- Derek Kidner. Psalms 1-72: An Introduction and Commentary (Tyndale Old Testament Commentaries), 1973.
- Marvin E. Tate. Psalms 51-100 (Word Biblical Commentary, vol. 20), 1990.
- Carl Friedrich Keil e Franz Delitzsch. Commentary on the Old Testament: Psalms, 1866.
- James L. Mays. Psalms (Interpretation: A Bible Commentary for Teaching and Preaching), 1994.
Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.
Perguntas frequentes
Por que o Salmo 70 é quase igual ao final do Salmo 40?
Porque o Saltério foi reunido ao longo do tempo a partir de coleções menores de hinos, e o mesmo poema podia ser usado em mais de uma ocasião de culto. Quando os salmos foram compilados na forma final, as duas versões foram preservadas cada uma em seu lugar. O mesmo acontece com os e 53, quase idênticos entre si.
Pedir pressa a Deus na oração é falta de fé?
Não. O verbo hebraico traduzido como "apressa-te" é uma forma comum de lamento urgente, usada várias vezes no Saltério. Pedir que Deus aja depressa expressa a real aflição de quem ora, não desconfiança na bondade ou no poder de Deus.
Quem escreveu o Salmo 70 e quando?
O título atribui o salmo a Davi, com a mesma expressão "para trazer à memória" que aparece no Salmo 38. O cabeçalho não indica um episódio histórico específico, então não há como precisar a data ou a situação exata de perseguição que motivou o texto.
Pedir que os inimigos sejam envergonhados é uma maldição?
O pedido é que a vergonha planejada contra Davi se volte contra quem a planejou — uma reversão de justiça, não um desejo de violência física. Essa linguagem é comum nos salmos de lamento e expressa confiança em que Deus julga com justiça.