Jeremias
quem foi jeremias na biblia
Ficha do personagem
Reino de Judá, fim do séc. VII e início do VI a.C., até a queda de Jerusalém
Aparece em
Relações
- filho de Hilquias, sacerdote de Anatote
- escriba e assistente de Baruque
- resgatado da cisterna por Ebede-Meleque
- profetizou sob o reinado de Josias
- profetizou sob o reinado de Zedequias
Resposta curta
Jeremias foi um profeta de Judá, de família sacerdotal de Anatote, que ministrou sob os últimos reis do reino — de Josias a Zedequias — até a queda de Jerusalém para os babilônios, em 586 a.C. Chamado ainda jovem, protestou não saber falar (), mas passou décadas anunciando um julgamento que praticamente ninguém no reino queria ouvir.
A mensagem lhe custou caro: foi preso, agredido e jogado numa cisterna de lama por oficiais que o acusavam de enfraquecer a resistência da cidade sitiada (), sendo resgatado por um oficial estrangeiro. Mais de uma vez tentou calar a própria voz, mas descreveu um fogo que não conseguia conter dentro dos ossos (). Depois da queda de Jerusalém, foi levado à força para o Egito, onde o relato bíblico perde seu rastro.
Onde ele aparece
O nome
Jeremias — Do hebraico Yirmeyahu, tradicionalmente traduzido como "o Senhor exalta" (raiz rum) ou "o Senhor lança/estabelece" (raiz ramah) — a etimologia exata segue discutida entre os hebraístas.
Significado, origem e variantes →Como isso aponta para Jesus
Cumprimento diretoA profecia mais citada do livro de Jeremias no Novo Testamento é o anúncio de uma "nova aliança" (), diferente da feita no Sinai, escrita não em tábuas de pedra mas no próprio coração do povo, com perdão pleno dos pecados. A Carta aos Hebreus cita essa passagem quase integralmente para argumentar que ela se cumpre na obra de Cristo, que torna a antiga aliança "obsoleta" (). O próprio Jesus, na última ceia, associa o cálice à "nova aliança no meu sangue" (; 1Coríntios 11:25), retomando diretamente a linguagem de Jeremias. A vida pessoal do profeta — rejeitado por anunciar uma palavra que exigia mudança de coração, não apenas de comportamento — prepara o terreno para essa promessa: o problema que ele diagnostica, um povo que ouve a lei e não muda, é o mesmo que a nova aliança promete resolver por dentro.
Respaldo no Novo Testamento:
Em palavras simples
Jeremias foi um profeta que viveu em Judá nos últimos anos antes de o reino ser destruído pelos babilônios. Filho de um sacerdote, foi chamado ainda jovem e passou a vida avisando que Jerusalém seria destruída — uma mensagem que quase ninguém queria ouvir. Por isso foi perseguido, preso e até jogado numa cisterna cheia de lama. Mais de uma vez tentou desistir da própria missão, mas dizia sentir por dentro algo como um fogo que não conseguia apagar.
O mundo dele
Jeremias ministrou em Judá num dos períodos mais tensos da história do reino: do 13º ano de Josias (por volta de 627 a.C.) até depois da queda de Jerusalém, em 586 a.C. — quase quatro décadas. Era filho de Hilquias, um sacerdote da pequena cidade de Anatote, perto de Jerusalém, o que o coloca dentro da linhagem levítica, ainda que sua vocação tenha sido profética, não sacerdotal.
Ele viu o reinado de Josias, marcado por uma reforma religiosa profunda após o achado do livro da Lei no templo (2Reis 22-23), e depois assistiu ao rápido desmonte dessa reforma sob os reis seguintes — Jeoacaz, Jeoaquim, Joaquim e Zedequias — nenhum dos quais sustentou a fidelidade que Josias tentara restaurar. Nesse mesmo período, o equilíbrio de poder no Oriente Próximo mudava rapidamente: o Império Assírio, que dominara a região por séculos, entrou em colapso, e a Babilônia, sob Nabucodonosor II, tornou-se a potência dominante depois da batalha de Carquemis (605 a.C.).
Judá ficou preso entre pressionar por alianças com o Egito e se submeter à Babilônia — e Jeremias, contra a opinião de reis, sacerdotes e outros profetas, insistiu que a submissão babilônica era o caminho da sobrevivência, enquanto resistir seria caminho de destruição. Essa posição, hoje reconhecida como coerente com o restante da mensagem profética do livro, era vista à época como derrotismo ou traição.
O resultado histórico confirmou o alerta: Jerusalém foi cercada e caiu em 597 a.C., com deportação de parte da elite, e novamente, de forma definitiva, em 586 a.C., quando o templo de Salomão foi destruído e boa parte da população foi levada ao exílio babilônico. É nesse pano de fundo — reis fracos, potências em colisão, um povo dividido entre confiar em alianças humanas ou ouvir um aviso incômodo — que se desenrola toda a atuação de Jeremias, registrada no livro que leva seu nome e, por tradição antiga, também associada ao livro de Lamentações.
A história
O chamado de Jeremias já anuncia o tom do livro: Deus diz que o conheceu e o separou para profeta antes mesmo de ele nascer (), e Jeremias reage com uma objeção prática — "não sei falar, pois sou muito moço" (1:6). A resposta que recebe não remove a dificuldade da missão, apenas promete presença nela: "não temas... porque eu sou contigo" (1:8).
O restante do livro mostra que essa tensão nunca desaparece. Num conjunto de textos conhecidos como as "confissões de Jeremias" (entre eles 11:18-20, 15:10-18, 20:7-18), ele fala com uma franqueza incomum para um profeta bíblico: reclama de ter sido "persuadido" por Deus, lamenta o dia em que nasceu, descreve-se como motivo de riso e escárnio na cidade. É nesse conjunto que aparece a passagem central do seu retrato como pessoa: "em meu coração havia como um fogo ardente, encerrado nos meus ossos, e me cansava de o conter, e não podia" (20:9) — ele tenta desistir da própria vocação e não consegue.
A hostilidade que enfrentou não era apenas verbal. Jeremias foi colocado no tronco por um sacerdote (20:2), teve o rolo com suas profecias lido diante do rei Jeoaquim, que o cortou em pedaços e o queimou tira por tira numa braseira (36:23) — Jeremias precisou ditar tudo de novo a seu escriba, Baruque. No cerco final de Jerusalém, líderes de Judá o acusaram de desanimar os soldados por anunciar que a cidade cairia, e o jogaram numa cisterna de lama para que morresse ali (38:6); foi puxado para fora com cordas por Ebede-Meleque, um oficial cuchita da corte, antes de afundar de vez.
Depois da queda de Jerusalém, os babilônios trataram Jeremias com relativa deferência, permitindo que ficasse na terra sob o governador Gedalias, que eles próprios haviam nomeado. Mas, após o assassinato de Gedalias por um membro da antiga família real, um grupo de sobreviventes judeus, temendo represália babilônica, decidiu fugir para o Egito — e levou Jeremias à força, contra seu conselho explícito de que permanecer na terra era mais seguro do que descer ao Egito (). É lá, no Egito, que o relato bíblico o deixa, ainda profetizando contra os próprios compatriotas que o arrastaram consigo, sem que o texto narre sua morte. Tradições judaicas e cristãs posteriores, fora do cânon bíblico, contam que ele teria sido apedrejado pelos próprios exilados irritados com suas advertências, mas essa é uma tradição extrabíblica, não um relato das Escrituras. Ao longo de toda a trajetória — do chamado relutante à cisterna, do rolo queimado ao exílio forçado — o livro de Jeremias preserva algo raro entre os profetas: o registro cru do próprio cansaço de quem carrega uma missão que não pediu e não consegue abandonar.
O que costumam dizer errado3
Dizem que:Jeremias escreveu com certeza o livro de Lamentações.
O texto de Lamentações não se identifica como obra de nenhum autor; a atribuição a Jeremias vem da tradição judaica e cristã antiga (refletida na Septuaginta), não de uma afirmação do próprio livro.
Dizem que:Jeremias era um homem maduro e experiente quando começou a profetizar.
No relato do próprio chamado, ele se descreve com o termo hebraico para 'jovem' ou 'moço' e objeta que não sabe falar por causa da pouca idade ().
Dizem que:A Bíblia conta que Jeremias morreu apedrejado pelo próprio povo no Egito.
Essa é uma tradição extrabíblica posterior (como a obra judaica 'Vidas dos Profetas'); o texto canônico de Jeremias termina no Egito sem narrar sua morte.
Como diferentes tradições cristãs leem4
Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.
Catolicismo e Ortodoxia
Reconhecem o Livro de Baruque, atribuído ao secretário de Jeremias, como parte do cânon bíblico, entendido como continuação do testemunho profético do livro de Jeremias durante o exílio.
Protestantismo
Segue o cânon hebraico e não inclui Baruque entre os livros bíblicos; mantém a associação tradicional, mas não normativa, de Jeremias com Lamentações.
Teologia da Aliança (tradição reformada)
Lê o cumprimento da Nova Aliança anunciada por Jeremias (31:31-34) primariamente na igreja de Cristo, como continuidade espiritual do povo de Deus.
Dispensacionalismo
Lê essa mesma promessa como tendo também um cumprimento futuro específico e literal para a nação de Israel, distinto do atual chamado da igreja.
O que fazer com isso
A trajetória de Jeremias registra, sem suavizar, o peso de manter uma convicção que os outros rejeitam: ele tenta desistir da própria missão e não consegue, é punido justamente por dizer o que via, e termina a vida sem o alívio de ver seu aviso ser bem recebido. O livro não resolve esse desconforto — apenas o registra como parte legítima da experiência de quem fala verdades incômodas em nome de algo maior que a própria conveniência.
Passagens relacionadas8
Fontes consultadas3
- Keil, C. F. e Delitzsch, F.. Commentary on the Old Testament: Jeremiah, Lamentations, 1875.
- Henry, Matthew. Commentário Bíblico Matthew Henry (comentário sobre Jeremias), 1710.
- Thompson, J. A.. The Book of Jeremiah (New International Commentary on the Old Testament), 1980.
Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.
Perguntas frequentes
Jeremias escreveu o livro de Lamentações?
É uma tradição judaica e cristã antiga, refletida na Septuaginta e ligada ao lamento que ele compôs pela morte de Josias (2Crônicas 35:25). O próprio texto de Lamentações, porém, é anônimo, então a autoria de Jeremias é atribuição tradicional, não uma afirmação do livro.
Por que Jeremias é chamado de 'profeta chorão'?
Pelo tom constante de lamento em seus oráculos, pelo luto genuíno diante do julgamento que anunciava sobre Judá e por sua associação tradicional com o livro de Lamentações.
Jeremias tentou desistir de ser profeta?
Sim. Em ele expressa o desejo de calar a mensagem por causa do sofrimento que ela lhe trazia, mas descreve um fogo que não conseguia conter dentro dos ossos.
O que aconteceu com Jeremias na cisterna?
Oficiais de Judá o jogaram numa cisterna de lama durante o cerco babilônico, acusando-o de desanimar os soldados com suas profecias de derrota. Foi resgatado por Ebede-Meleque, um oficial cuchita da corte, que o puxou com cordas ().
Como Jeremias morreu?
A Bíblia não relata sua morte. O texto o deixa no Egito, para onde foi levado à força por compatriotas fugitivos. Tradições extrabíblicas posteriores dizem que teria sido apedrejado pelos próprios exilados, mas isso não está nas Escrituras.