Gedalias, governador de Judá
Quem foi Gedalias, governador de Judá depois do exílio?
Ficha do personagem
586-582 a.C.; Mispá, Judá, após a queda de Jerusalém
Relações
- nomeado por Nabucodonosor
- protegido do mesmo círculo de Jeremias
- assassinado por Ismael, filho de Netanias
- filho de Aicam
- neto de Safã
Resposta curta
Gedalias, filho de Aicam e neto de Safã, foi o homem que Nabucodonosor pôs à frente do povo que permaneceu em Judá depois da destruição de Jerusalém em 586 a.C. Instalado em Mispá, ao norte da capital arruinada, ele tentou reorganizar a vida de camponeses, vinhateiros e oficiais remanescentes, prometendo que a submissão a Babilônia traria segurança e colheita. Vinha de uma família ligada à reforma de Josias e ao profeta Jeremias, que se juntou a ele em Mispá. Mas Gedalias desconsiderou o aviso de que Ismael, filho de Netanias, de linhagem real, queria matá-lo. Ismael o assassinou durante uma refeição, e o temor de represálias babilônicas levou muitos a fugir para o Egito. O ano exato do ataque é debatido.
Onde ele aparece
Em palavras simples
Gedalias foi escolhido pelo rei da Babilônia para cuidar dos judeus que ficaram na terra depois que Jerusalém foi destruída. Ele se instalou em Mispá, prometeu paz a quem aceitasse a autoridade babilônica e o povo voltou a colher vinho e frutas. Ele foi avisado de que Ismael pretendia matá-lo, mas não acreditou. Ismael o assassinou durante uma refeição, e muitos fugiram para o Egito com medo da vingança. Os estudiosos discutem se isso aconteceu em 586 ou em 582 a.C.
O mundo dele
Em 586 a.C. as tropas de Nabucodonosor tomaram Jerusalém, queimaram o templo, o palácio e as casas principais e deportaram parte da população (). O texto diz que o comandante da guarda, Nebuzaradã, deixou na terra alguns dos mais pobres para cuidar de vinhas e lavouras. Zedequias fora capturado na fuga, julgado em Ribla e levado cego (), e vários líderes religiosos e militares foram executados (). Foi sobre o resto que o rei da Babilônia pôs Gedalias (). o descreve como alguém constituído sobre as cidades de Judá, e "governador" é a síntese tradicional desse papel. Não há sinal de que tenha recebido o título de rei: Judá deixara de ser reino e passava à condição de território administrado por Babilônia.
Gedalias pertencia a uma família influente. Seu pai, Aicam, protegeu Jeremias quando o profeta correu risco de morte (), e seu avô, Safã, foi o escriba que levou ao rei Josias o livro da lei achado no templo (). Parentes seus aparecem em outras cenas de Jeremias, como Gemarias, em cuja sala o rolo do profeta foi lido (), e Elasá, portador de uma carta aos exilados (). Esse círculo ligado a Josias era próximo da linha de Jeremias, que pregava aceitar o jugo babilônico ().
Mispá ficava em território de Benjamim, ao norte de Jerusalém. A localização exata é discutida: Tell en-Nasbeh é a identificação mais comum, mas há quem proponha Nebi Samuil. Segundo estudos de Oded Lipschits, a região de Benjamim sofreu menos que Jerusalém e seus arredores, o que ajudaria a explicar por que a administração se instalou ali.
Ao redor, Moabe, Amom e Edom abrigavam judeus fugitivos, que só depois voltariam (), e Amom, sob o rei Baalis, terá papel central na trama. O livro de Jeremias menciona ainda deportações em anos diferentes (), de modo que o pano de fundo político era instável e a população remanescente, pequena e vulnerável.
A história
Os relatos de e –41 se completam. Segundo , os oficiais babilônicos tiraram o profeta do pátio da guarda e o entregaram a Gedalias, para que o levasse para casa. Já conta que Nebuzaradã o libertou em Ramá e lhe deu a escolha de ir para a Babilônia ou ficar. Os dois textos podem descrever fases diferentes do mesmo episódio, e o texto não resolve a ordem. Em ambos, Jeremias termina com Gedalias, em Mispá.
Ali, os capitães dos exércitos que haviam escapado se apresentaram, entre eles Ismael, filho de Netanias, e Joanã, filho de Careá. Gedalias jurou-lhes que não precisavam temer os caldeus: bastava servir ao rei da Babilônia e habitar a terra (; ). Os dispersos voltaram dos países vizinhos e fizeram grande colheita de vinho e frutas de verão ().
O plano falhou. Joanã avisou que o rei amonita Baalis enviara Ismael para matá-lo; Gedalias não acreditou e recusou até a oferta de Joanã de eliminar Ismael em segredo (). No sétimo mês, Ismael chegou com dez homens, comeu com Gedalias e o matou, junto com os judeus e os soldados caldeus que ali estavam (; ). Dois dias depois, oitenta homens de Siquém, Siló e Samaria chegaram com as barbas raspadas, as roupas rasgadas e ofertas para a casa do Senhor, sinais de luto pelo templo destruído. Ismael saiu a chorar ao encontro deles, convidou-os a ir a Gedalias e matou a maioria; dez se salvaram prometendo provisões escondidas (). Lançou os corpos numa cisterna, que o texto liga à obra do rei Asa, e partiu com cativos em direção aos amonitas. Joanã o alcançou em Gibeão e libertou os prisioneiros, mas Ismael escapou com oito homens ().
Os motivos de Ismael não são plenamente declarados. O texto lembra apenas que ele era "da linhagem real" () e que Baalis esteve por trás. Muitos leitores veem aí ressentimento contra um nomeado de Babilônia, mas isso é dedução, não afirmação do texto.
O resultado foi o êxodo: o povo e os capitães, temendo vingança, foram para o Egito, levando Jeremias contra o conselho dele (–43:7; ). O ano do assassinato não é dado, só o mês. Alguns apontam 586 a.C., no outono logo após a queda; outros, 582 a.C., associando-o à deportação de 745 pessoas no vigésimo terceiro ano de Nabucodonosor (), embora o texto não faça essa ligação.
O que costumam dizer errado3
Dizem que:Gedalias foi o último rei de Judá.
O último rei da dinastia de Davi foi Zedequias, deposto e levado cego para a Babilônia (). Gedalias foi nomeado por Nabucodonosor sobre os que ficaram, em uma função administrativa, e nunca é chamado de rei.
Dizem que:Jeremias convenceu o povo a fugir para o Egito depois do assassinato.
Ao contrário: os capitães pediram a Jeremias que consultasse a Deus e ele respondeu que ficassem em Judá e não temessem (). O grupo desobedeceu, acusou-o de falar com falsidade e o levou consigo ao Egito ().
Dizem que:Os próprios babilônios mataram Gedalias para castigar os judeus.
Quem o matou foi Ismael, filho de Netanias, um judeu de linhagem real, segundo e . Foi o temor de que Babilônia reagisse a esse assassinato que levou o povo a fugir.
Como diferentes tradições cristãs leem3
Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.
Judaica
A tradição rabínica vê na morte de Gedalias uma tragédia de dimensão nacional: com ela se extinguiu o último resquício de autonomia judaica na terra. O Talmude (Rosh Hashaná 18b) associa o jejum do sétimo mês de e 8:19 a esse episódio, e até hoje o Jejum de Gedalias é guardado no dia seguinte ao Ano-Novo judaico.
Protestante
Comentaristas protestantes clássicos costumam ler a cena como cumprimento de Jeremias: o profeta havia anunciado que a submissão a Babilônia seria o caminho de vida, e o assassinato e a fuga para o Egito mostram o preço de desprezar essa palavra. Gedalias aparece como figura de obediência a Deus que sofreu com a violência de outros.
Histórico-crítica
Historiadores como Oded Lipschits tratam o episódio como parte da reorganização política de Judá após 586 a.C., com Mispá como centro. Debatem o motivo do ataque (rivalidade dinástica, influência amonita ou resistência à ocupação) e a data, sem consenso entre 586 e 582 a.C.
O que fazer com isso
A história de Gedalias mostra como a confiança pode ser virtude e ponto cego ao mesmo tempo: ele acreditou na boa-fé dos outros e se recusou a ouvir um aviso concreto. O texto não o apresenta como vilão, mas como líder bem-intencionado cujo erro de avaliação custou muito a quem dependia dele. Convida a pesar com seriedade advertências incômodas, mesmo quando elas parecem injustas com alguém.
Passagens relacionadas8
Fontes consultadas4
- John Bright. Jeremiah (Anchor Bible), 1965.
- William L. Holladay. Jeremiah 2 (Hermeneia), 1989.
- Jack R. Lundbom. Jeremiah 37–52 (Anchor Yale Bible), 2004.
- Oded Lipschits. The Fall and Rise of Jerusalem: Judah under Babylonian Rule, 2005.
Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.
Perguntas frequentes
Quem era Gedalias?
Filho de Aicam e neto de Safã, de família próxima de Josias e de Jeremias. Nabucodonosor o pôs à frente dos judeus que ficaram em Judá depois de 586 a.C., com sede em Mispá.
Por que Ismael matou Gedalias?
O texto liga o ato ao rei amonita Baalis () e diz que Ismael era de linhagem real. Os motivos exatos não são declarados, e explicações como ambição ao trono ou rejeição de Babilônia são deduções.
Quando Gedalias foi assassinado?
A Bíblia dá só o mês, o sétimo. O ano é debatido: alguns estudiosos propõem 586 a.C., outros cerca de 582 a.C. Não há consenso.
O que aconteceu com Jeremias depois da morte de Gedalias?
Foi levado ao Egito pelos sobreviventes, contra o conselho que dera, e ali continuou profetizando (–44). O texto bíblico não narra sua morte.