Evil-Merodaque
Quem foi Evil-Merodaque, o rei da Babilônia que libertou Joaquim?
Ficha do personagem
Cerca de 562-560 a.C.; Babilônia
Relações
- libertou Joaquim
- sucessor de Nabucodonosor
- derrubado por Neriglissar (fontes extrabíblicas)
Resposta curta
Evil-Merodaque foi rei da Babilônia por volta de 562-560 a.C., sucessor de Nabucodonosor. A Bíblia o menciona só no fim de 2 Reis e de Jeremias, no relato de que, no ano em que começou a reinar, tirou da prisão o rei Joaquim, de Judá, preso em Babilônia havia trinta e sete anos. Falou-lhe com benevolência, deu-lhe lugar acima dos outros reis cativos, trocou-lhe as roupas de prisioneiro e lhe garantiu o sustento diário à sua mesa. O nome bíblico corresponde ao acádico Amel-Marduk. Reis termina com essa cena, e os estudiosos discutem se ela é sinal de esperança para a casa de Davi ou apenas um registro sóbrio do fim da história do reino.
Onde ele aparece
Como isso aponta para Jesus
Ligação indiretaO Novo Testamento não menciona Evil-Merodaque, mas inclui Jeconias, o mesmo Joaquim, na genealogia de Jesus em . A sobrevivência e a honra de Joaquim no exílio mostram que a linhagem de Davi continuou depois da queda de Jerusalém. O elo com Cristo é, portanto, indireto e passa pela dinastia, e não por Evil-Merodaque, que não tem papel nessa genealogia além de ter libertado o rei.
Respaldo no Novo Testamento:
Em palavras simples
Evil-Merodaque foi rei da Babilônia depois de Nabucodonosor. No começo de seu reinado, tirou da prisão o rei Joaquim, de Judá, que estava preso havia trinta e sete anos. Deu-lhe roupas novas, um lugar de honra à mesa do rei e sustento diário. A Bíblia conta isso no final de 2 Reis e de Jeremias. Os estudiosos discutem se o episódio é um sinal de esperança para a família de Davi ou só um registro do que aconteceu.
O mundo dele
Evil-Merodaque, em acádico Amel-Marduk, reinou na Babilônia por pouco mais de dois anos, aproximadamente entre 562 e 560 a.C., depois de Nabucodonosor II, de cujo reinado se conservam as maiores obras e campanhas. A Bíblia não diz que ele era filho de Nabucodonosor; essa informação vem de fontes babilônicas e da tradição histórica posterior, como o relato de Beroso, transmitido por Flávio Josefo em Contra Apião. Segundo esse relato, ele governou de modo arbitrário, e foi morto numa conspiração liderada por Neriglissar, seu cunhado, que passou a reinar. A Bíblia, por sua vez, não comenta esses detalhes.
A cena bíblica acontece na Babilônia, onde Joaquim, rei de Judá, fora levado como cativo em 597 a.C., quando era ainda jovem, depois de reinar poucos meses (). Ele ficou preso por trinta e sete anos, o que situa o fato em cerca de 561 a.C. Enquanto isso, seu tio Zedequias, que fora colocado no trono, se rebelou, e Jerusalém foi destruída em 586 a.C. (). Joaquim, também chamado Jeconias ou Conias, era descendente direto de Davi e, para parte dos exilados, continuava a ser o rei legítimo de Judá, como sugerem as datações de textos exílicos pelo ano de seu cativeiro ().
Um dado extrabíblico importante é o de tabletes de ração de Babilônia, publicados por Ernst Weidner em 1939. Eles registram distribuições de óleo e cereais a pessoas associadas a Joaquim e seus filhos, o que confirma que o rei de Judá e sua família recebiam sustento do palácio babilônico. Esses textos datam, em geral, do tempo de Nabucodonosor, antes do reinado de Evil-Merodaque, de modo que a benevolência descrita na Bíblia faz sentido como mudança de status dentro de uma situação em que o rei já era mantido pelo palácio. Eles não mencionam o gesto de Evil-Merodaque, e a Bíblia é a fonte principal para ele.
A história
O relato aparece duas vezes, em e em , com pequenas variações. Ambos dizem que, no trigésimo sétimo ano do exílio de Joaquim, no ano em que Evil-Merodaque começou a reinar, o rei babilônico "levantou a cabeça" de Joaquim e o tirou da prisão. A expressão idiomática sugere favor e restituição de dignidade. A data do mês duodécimo difere entre os dois textos: dia 27 em Reis, dia 25 em Jeremias. Os comentaristas tratam isso como variação de cópia ou de cômputo, sem importância para o sentido.
O texto lista o que o rei fez: falou-lhe benignamente, pôs seu trono acima dos tronos de outros reis que estavam com ele em Babilônia, trocou-lhe as vestes de prisão, e Joaquim passou a comer à mesa do rei por toda a vida. Também recebeu mantimento diário contínuo. O texto não diz que ele foi libertado para voltar a Jerusalém, nem que recuperou o trono: sua posição é a de rei cativo honrado, em um palácio estrangeiro.
O ponto mais debatido é o sentido desse final. Martin Noth, em sua obra de 1943 sobre a história deuteronomista, entendeu que o autor encerra com um registro sóbrio, sem expressar expectativa de restauração: o relato fecharia a história do reino com o exílio, sem horizonte de volta. Gerhard von Rad, por sua vez, propôs uma leitura mais esperançosa, que vê na sobrevivência e na honra de Joaquim um sinal de que a promessa a Davi () não foi anulada. Uma leitura intermediária nota que o texto não afirma nenhuma das duas posições: relata um fato e deixa o leitor interpretá-lo. Nesse caso, o mais seguro é descrever o que o relato contém e o que ele omite, sem atribuir ao autor uma intenção que ele não declara. Isso vale também para o contraste com os capítulos anteriores, que narram a destruição do templo e a deportação; o último parágrafo de Reis não anula essa derrota, apenas acrescenta uma nota de sobrevivência.
Há ainda a questão do lugar do relato no conjunto. Em Reis, ele fecha o livro. Em Jeremias, fecha o capítulo 52, que repete em grande parte e termina também com Joaquim. A coincidência sugere que ambas as tradições julgaram importante terminar com essa cena, mas os estudiosos divergem quanto à razão: teria sido um apêndice posterior, escrito depois de 561 a.C., por quem queria registrar o último fato conhecido. O texto não diz quem o escreveu nem quando, e a data de composição final de Reis, em torno ou depois de 561 a.C., é o ponto de partida de boa parte desse debate.
O que costumam dizer errado3
Dizem que:Joaquim voltou a ser rei quando Evil-Merodaque o libertou.
O texto não diz isso. Joaquim foi honrado e sustentado na Babilônia, com lugar acima de outros reis cativos, mas continuou exilado (). Não há registro de volta a Jerusalém nem de restauração ao trono.
Dizem que:A Bíblia diz que Evil-Merodaque era filho de Nabucodonosor.
2 Reis e Jeremias não dão essa informação. O parentesco vem de fontes babilônicas e de tradições históricas posteriores, como Beroso, citado por Flávio Josefo. A Bíblia só nomeia o rei e narra o gesto.
Dizem que:A libertação de Joaquim prova que o final de Reis é uma promessa de restauração.
Os estudiosos divergem. Para Noth, o texto é apenas um registro sóbrio; para von Rad, um sinal de esperança. O próprio texto não afirma nenhuma das duas leituras, e a conclusão exige cautela.
Como diferentes tradições cristãs leem3
Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.
Judaica
A leitura judaica costuma ver no final de Reis um sinal de que a casa de Davi não foi extinta, o que sustenta a esperança de restauração ligada a . Nessa linha, a honra concedida a Joaquim é lida como indício da fidelidade de Deus à promessa feita a Davi.
Católica
Comentários católicos modernos reconhecem a ambiguidade do final e o leem junto com a genealogia de Mateus, que menciona Jeconias. Veem no relato a continuidade da linhagem davídica durante o exílio, sem afirmar que o texto prometa por si só uma restauração política.
Protestante
Entre estudiosos de tradição protestante a divisão é conhecida: Noth, luterano, entendeu o final como registro sem esperança; von Rad, também luterano, propôs leitura esperançosa. Comentaristas evangélicos mais recentes costumam inclinar-se para a leitura de esperança, sem consenso.
O que fazer com isso
O final de Reis não traz uma grande reviravolta: um rei estrangeiro, em atitude de cortesia política, melhora a condição de um cativo. O texto não explica se isso era esperança ou apenas informação. A ambiguidade convida o leitor a não ler mais do que o relato diz, e a reconhecer que algumas histórias bíblicas terminam em aberto, sem resposta pronta.
Passagens relacionadas7
Fontes consultadas4
- Martin Noth. Überlieferungsgeschichtliche Studien, 1943.
- Gerhard von Rad. Studies in Deuteronomy, 1953.
- Mordechai Cogan e Hayim Tadmor. II Kings: A New Translation with Introduction and Commentary (Anchor Bible 11), 1988.
- Flávio Josefo. Contra Apião, 93.
Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.
Perguntas frequentes
Quem foi Evil-Merodaque?
Foi rei da Babilônia por pouco mais de dois anos, por volta de 562-560 a.C. O nome bíblico corresponde ao acádico Amel-Marduk. A Bíblia o cita apenas por ter libertado o rei Joaquim.
O que Evil-Merodaque fez por Joaquim?
Tirou-o da prisão, falou-lhe com benevolência, pôs seu trono acima dos de outros reis cativos, trocou-lhe as roupas e lhe deu lugar à mesa real e sustento diário ().
Joaquim voltou a Jerusalém depois de libertado?
A Bíblia não diz isso. O texto fala de honra e sustento em Babilônia e termina com a menção de que isso durou toda a sua vida. Não se registra volta ao trono nem a Jerusalém.
Como terminou o reinado de Evil-Merodaque?
A Bíblia não conta. Fontes babilônicas e a tradição histórica posterior, como Beroso citado por Josefo, indicam que foi derrubado e morto numa conspiração de Neriglissar.