
O que significa a terra ter descanso por setenta anos?
Por que a Bíblia diz que a terra descansou durante os setenta anos do exílio?
Os que restaram da espada foram passados à Babilônia; e foram servos dele e de seus filhos, até que veio o reino dos persas; Para que se cumprisse a palavra do SENHOR pela boca de Jeremias, até que a terra houvesse aproveitado os seus descansos sabáticos; pois durante todo o tempo de sua ruina ela descansou, até que os setenta anos fossem cumpridos.
Resposta curta
Ao encerrar o relato do exílio, o cronista diz que os sobreviventes foram levados à Babilônia “para que se cumprisse a palavra do Senhor por boca de Jeremias, até que a terra se agradasse dos seus sábados”. Enquanto durou a desolação, a terra descansou, até que se completassem setenta anos. O gancho é a conexão entre o exílio e os sábados da terra, que Israel não guardou, e a profecia de Jeremias sobre o prazo. O número pode ser lido com exatidão histórica ou como cifra redonda de um período completo, e a Bíblia admite cálculos diferentes. O ponto central do texto é teológico: o exílio não foi um acidente político, e sim o cumprimento do que Deus advertira, ao fim do qual a terra, por fim, teria recebido o que lhe era devido.
Como isso aponta para Jesus
Trajetória do textoO fim do exílio prepara o caminho para a reconstrução do templo e, depois, para a vinda do Messias. O Novo Testamento começa a genealogia de Jesus marcando a deportação para a Babilônia como um dos três grandes momentos da história de Israel. O descanso que a terra recebe aponta para um descanso maior que o Novo Testamento liga a Cristo.
Respaldo no Novo Testamento:
Em palavras simples
O autor de Crônicas explica o exílio na Babilônia dizendo que o povo não guardou os sábados da terra, os anos em que ela devia descansar. Por isso, a terra ficou desolada por setenta anos, como Jeremias havia anunciado. O número pode ser contado de dois modos históricos ou ser visto como um tempo completo. O ponto principal é que o exílio teve causa, duração e fim, e que o decreto de Ciro mostra que Deus não esqueceu seu povo.
Contexto histórico
O segundo livro de Crônicas encerra a história do reino de Judá com o fim doloroso do reino. O capítulo 36 resume os últimos reis: Jeoacaz, Jeoaquim, Joaquim e Zedequias, cada um com poucas linhas, e todos descritos como infiéis. O texto afirma que o Senhor enviou mensageiros, “por ter compaixão do seu povo”, mas que o povo zombou deles e desprezou suas palavras, “até que subiu o furor do Senhor contra o seu povo, a ponto de não haver remédio” (36:15-16).
Os versículos que antecedem o trecho descrevem a queda: o rei dos caldeus mata os jovens no santuário, leva os utensílios do templo, queima a casa de Deus, derruba os muros de Jerusalém e incendeia os palácios (36:17-19). Os versículos 20 e 21 são o balanço teológico dessa destruição. Os que escaparam da espada foram levados para a Babilônia, onde serviram o rei e depois seus filhos, “até ao tempo do reino da Pérsia”.
Em seguida vem a frase-chave, que combina duas fontes. A primeira é “a palavra do Senhor por boca de Jeremias”. Jeremias havia anunciado que os povos serviriam o rei de Babilônia setenta anos () e que, cumpridos esses anos, o Senhor visitaria o povo e o traria de volta (29:10). A segunda fonte é a lei de , onde Deus adverte que, se Israel quebrasse a aliança, a terra seria devastada e “então a terra folgará e gozará dos seus sábados” ().
O cronista junta as duas: o exílio de setenta anos é o tempo em que a terra repousa. Isso dá ao desastre uma explicação interna à história de Israel, e não apenas política. O versículo 22 já anuncia o fim da desolação, com o decreto de Ciro, rei da Pérsia, que despertou o espírito dele para permitir a reconstrução do templo. O livro termina com essa promessa aberta, em vez de terminar na destruição.
Aprofundamento
O primeiro ponto é o vínculo com o descanso da terra. A lei de Moisés mandava deixar a terra sem cultivo no sétimo ano (), um “sábado ao Senhor”, além do jubileu. advertia que, se o povo desobedecesse, seria disperso e a terra pagaria seus sábados enquanto estivesse desolada. O cronista lê o exílio como a execução dessa cláusula: o povo não deu repouso à terra, e a terra o recebeu à força.
O segundo ponto é o verbo. A expressão “até que a terra se agradasse dos seus sábados” usa o verbo ratsah, que significa “agradar-se”, “aceitar” ou “pagar uma dívida”. Em , a mesma raiz aparece quando a terra “paga” os sábados. A imagem é a de uma dívida cobrada: a terra recebe o que lhe foi negado. Isso sugere que os setenta anos tinham um sentido de compensação, e não de mero castigo.
O terceiro ponto é o cálculo. Há duas contagens históricas conhecidas. A primeira vai da primeira deportação ou da vitória de Nabucodonosor sobre o Egito (605 a.C.) até o decreto de Ciro (538 a.C.), cerca de setenta anos. A segunda vai da destruição de Jerusalém e do templo (586 a.C.) até a dedicação do segundo templo (516 a.C.), também cerca de setenta anos. e 7:5 parecem falar de setenta anos da indignação e dos jejuns, o que favorece a segunda leitura. O texto de Crônicas não resolve a questão.
O quarto ponto é o simbolismo do número. Setenta é múltiplo de sete e de dez, números de completude, e aparece com frequência na Bíblia como período cheio. Muitos estudiosos entendem que Jeremias usou o número tanto de modo aproximado quanto simbólico: o exílio duraria uma geração humana completa ( fala de setenta anos de vida). Outra leitura, defendida por alguns intérpretes, sugere que setenta anos de descanso correspondem a setenta anos sabáticos não guardados em quatrocentos e noventa anos (70 vezes 7). O texto não faz essa conta, e ela é uma hipótese de interpretação, não uma afirmação bíblica.
O quinto ponto é a reinterpretação posterior. Daniel, lendo Jeremias, pede a Deus pelo fim do exílio () e recebe a visão das “setenta semanas”, em que o número é ampliado para períodos de sete anos. A promessa de Jeremias foi vista, portanto, como um número de sentido aberto, que a tradição voltou a meditar.
Por fim, o texto recusa dois erros opostos. Não diz que o exílio foi mero azar político, nem que foi sinal de que Deus abandonou seu povo. Diz que houve responsabilidade, mas também prazo e esperança, e que a própria terra tinha lugar na aliança.
O que costumam dizer errado2 afirmações
Dizem que:A Bíblia ensina que o exílio durou exatamente setenta anos porque Israel deixou de guardar exatamente setenta anos sabáticos.
O texto de liga o exílio aos sábados da terra, mas não faz essa conta. A correspondência entre setenta anos de exílio e setenta anos sabáticos (490 anos) é uma hipótese de intérpretes, e não uma afirmação do cronista.
Dizem que:A terra descansou porque o povo pecou, como um castigo sem relação com a lei.
O cronista liga explicitamente o descanso da terra a , onde Deus havia advertido sobre esse resultado. Não é uma punição arbitrária, e sim a execução de uma cláusula anunciada com antecedência na aliança.
Como diferentes tradições cristãs leem3 leituras
Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.
Leitura histórica literal
Os setenta anos são o tempo real entre 605 e 538 a.C., ou entre 586 e 516 a.C., conforme o ponto de partida. Jeremias fez uma previsão que o curso da história confirmou em aproximado.
Leitura simbólica
Setenta é número de plenitude e de uma geração humana (). Funciona como um prazo completo, mais importante pelo sentido do que pela contagem exata.
Leitura sabática
O cronista une Jeremias a e vê no exílio o pagamento dos sábados da terra não guardados. A terra repousa à força o que o povo se recusou a lhe dar.
No original2 termos
שַׁבָּתshabbatH7676
Sábado, descanso. Em e 26, aplica-se também ao ano sabático, em que a terra devia descansar. Em , são os “sábados” da terra.
רָצָהratsahH7521
Agradar-se, aceitar, pagar uma dívida. Em e , descreve a terra recebendo o que lhe era devido.
O que fazer com isso
O texto mostra que o descanso é parte da ordem criada, e que ignorá-lo costuma cobrar um preço. Isso vale para a terra e também para as pessoas. Ele também ensina a não ler o sofrimento coletivo como mero acaso nem como prova de abandono, e a esperar o prazo que Deus marcou. Quem vive em ritmo de exaustão pode ouvir aqui um convite a rever o que anda sem repouso.
Passagens relacionadas5
Toque numa referência para ler o texto sem sair da página.
Fontes consultadas4 obras
- H. G. M. Williamson. 1 and 2 Chronicles (New Century Bible Commentary), 1982.
- Raymond B. Dillard. 2 Chronicles (Word Biblical Commentary), 1987.
- Sara Japhet. I and II Chronicles (Old Testament Library), 1993.
- Jacob Milgrom. Leviticus 23–27 (Anchor Bible), 2001.
Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.
Perguntas frequentes
Os setenta anos do exílio foram contados de qual data?
Há duas contagens comuns: de 605 a.C. (primeira deportação) a 538 a.C. (decreto de Ciro) ou de 586 a.C. (destruição do templo) a 516 a.C. (dedicação do segundo templo). O texto não fixa uma delas.
O que são os sábados da terra?
São os anos sabáticos, previstos em , em que a terra devia descansar a cada sete anos. O cronista entende que Israel não os guardou, e que a terra recebeu o descanso durante o exílio.
Quem é o rei da Pérsia citado no final do livro?
É Ciro, que em 538 a.C. permitiu a volta dos judeus e a reconstrução do templo, conforme e .
Temas
- Exílio
- #setenta-anos
- #sabado
- #jeremias
- #2-cronicas
- #babilonia
- #terra
- #ano-sabatico