Ester
Quem foi Ester na Bíblia?
Ficha do personagem
Século V a.C.; Susã, Pérsia, durante o reinado de Assuero (geralmente identificado com Xerxes I)
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Resposta curta
Ester foi uma jovem judia, órfã, criada por seu primo Mardoqueu na Pérsia, que se tornou rainha ao ser escolhida pelo rei Assuero para substituir Vasti. Quando o alto funcionário Hamã obteve um decreto para exterminar os judeus do império, Mardoqueu pediu que ela interviesse. Ester jejuou, apresentou-se ao rei sem ser chamada e, em dois banquetes, revelou sua origem e denunciou o plano de Hamã.
O livro que leva seu nome é o mais conhecido da Bíblia em que Deus não é mencionado de forma explícita no texto hebraico. Ele explica a origem da festa de Purim. Sua historicidade e os detalhes persas do relato são debatidos entre os estudiosos.
Onde ele aparece
Como isso aponta para Jesus
Ligação indiretaO Novo Testamento não cita Ester nem Purim, e o livro não é apresentado como profecia de Cristo. A tradição cristã costuma ver em sua intercessão arriscada em favor de um povo ameaçado uma ressonância com o tema da mediação, mas essa leitura é posterior e não vem do texto. Qualquer ligação com Cristo permanece, assim, indireta: o livro narra a preservação do povo judeu, de quem, segundo o Novo Testamento, viria o Messias (), mas não faz essa conexão.
Em palavras simples
Ester era uma jovem judia órfã, criada pelo primo Mardoqueu na Pérsia. O rei Assuero a escolheu como rainha, sem saber que ela era judia. Quando um ministro chamado Hamã convenceu o rei a mandar matar todos os judeus do império, Mardoqueu pediu que ela agisse. Ester jejuou, foi ao rei sem ser chamada e, num banquete, revelou o plano e sua origem. O decreto foi contornado, Hamã foi condenado e nasceu a festa de Purim. O livro quase não fala de Deus, e os estudiosos debatem o quanto o relato é histórico.
O mundo dele
O livro de Ester se passa em Susã, uma das capitais do império persa, durante o reinado de Assuero, nome hebraico geralmente identificado com Xerxes I (486-465 a.C.). Os judeus que ali viviam eram descendentes dos deportados da Judeia pelos babilônios; o texto diz que Mardoqueu, da tribo de Benjamim, fora levado de Jerusalém com o rei Joaquim, o que ocorreu em 597 a.C. (). Como a gramática hebraica permite referir essa frase a Mardoqueu ou a seu antepassado Quis, há quem lembre que, no primeiro caso, ele teria mais de cem anos no tempo de Xerxes.
Ester tem dois nomes. Hadassa, em hebraico, está ligado a "mirto", planta de folhas aromáticas; Ester é geralmente considerado um nome persa ou babilônico, ligado por alguns a "estrela" ou à deusa Ishtar, embora a origem seja discutida (). O livro apresenta uma corte de banquetes, concursos e leis irrevogáveis, em que decretos são enviados a cada província na sua própria escrita (; 3:12). Seu enredo gira em torno do conflito entre Mardoqueu e Hamã, o agagita, e da escolha do dia do massacre por sorteio, o pur, que dá nome à festa de Purim (; 9:24-26).
Há aspectos que complicam a leitura histórica. Heródoto nomeia Améstris como esposa de Xerxes, e não Vasti ou Ester, e as 127 províncias do texto () não coincidem com a divisão persa conhecida em satrapias. Em compensação, o livro reflete bem o ambiente da corte persa, com seu sistema de correios, a arquitetura de Susã e vários nomes persas autênticos. Por isso há estudiosos que veem no livro uma narrativa histórica com liberdade literária, outros uma novela histórica, e outros um relato basicamente factual. No cânon, Ester foi alvo de dúvidas entre alguns judeus e cristãos antigos, e não há cópia dela entre os manuscritos de Qumran.
A história
O enredo de Ester se divide em momentos de risco crescente. Depois que Vasti se recusa a aparecer diante dos convidados do rei, uma seleção reúne as jovens do império; Ester conquista a simpatia de Hegai, o guardião das mulheres, e do rei, que a coroa (). Por orientação de Mardoqueu, ela não revela sua origem judaica (). Os leitores discutem esse silêncio, que alguns veem como prudência e outros como concessão. O texto não elogia nem censura o fato de ela viver como esposa de um rei estrangeiro.
O ponto de virada está em . Mardoqueu informa Ester sobre o decreto e a convence a agir. Quando ela hesita, porque quem entrasse sem ser chamado podia ser morto, ele responde que, se ela se calar, "socorro e livramento" virão de outro lugar, e pergunta se não foi justamente para um momento como aquele que ela chegou à realeza (). Ester pede que os judeus de Susã jejuem por três dias e decide: "se perecer, pereci" (4:16). A frase mostra decisão consciente, e não certeza de sucesso.
Ao se apresentar ao rei, ela obtém o cetro estendido () e convida Assuero e Hamã a um banquete, depois a um segundo, adiando o pedido (5:3-8). Esse atraso permite que ocorram eventos paralelos, como a insônia do rei e a honra devida a Mardoqueu. No segundo banquete, Ester fala: pede a própria vida e a de seu povo e aponta Hamã como o "adversário e inimigo" (). Hamã acaba enforcado na forca que preparara para Mardoqueu. Como o primeiro decreto não podia ser revogado, o rei autoriza um segundo, que permite aos judeus se defenderem (). O texto relata também a violência dos dias seguintes (), um trecho que muitos leitores consideram dos mais difíceis do livro.
A ausência explícita de Deus é a característica mais comentada. O texto hebraico não usa o nome divino nem menciona oração. Alguns leitores veem nisso uma teologia da providência oculta, em que as "coincidências" apontam para a ação divina; alguns leitores, desde a tradição rabínica, chegaram a ver acrósticos do nome divino em certos versículos hebraicos. Outros ressaltam que o livro mostra a responsabilidade humana de agir sem receber um sinal. As versões gregas e latinas contêm acréscimos que incluem orações e menção explícita a Deus.
Por fim, mostra Ester, com Mardoqueu, confirmando por escrito a celebração de Purim, "os dias de Purim" para sempre, com jejum e lamento. A festa continua a ser celebrada no dia 14 ou 15 do mês de Adar, com a leitura pública do livro, chamado Meguilá.
O que costumam dizer errado3
Dizem que:Como o nome de Deus não aparece no livro de Ester, ele não seria um livro religioso.
Ester trata de questões religiosas centrais: jejum, identidade, livramento e uma festa de memória. Cantares também não menciona Deus de forma clara, salvo uma expressão debatida em 8:6. A ausência do nome é um traço literário e não prova que o livro seja secular. As versões gregas acrescentaram orações para tornar explícita a dimensão religiosa.
Dizem que:Ester era a esposa principal de Xerxes e é mencionada pelos historiadores gregos.
As fontes gregas, como Heródoto, nomeiam Améstris como esposa de Xerxes, e não conhecem Ester nem Vasti. Isso não prova que o relato é inventado, pois as fontes persas são fragmentárias, mas impede afirmar que a história de Ester seja confirmada por documentos externos.
Dizem que:Hadassa e Ester são duas mulheres diferentes.
diz que Hadassa "é Ester": são dois nomes da mesma jovem, um hebraico e outro provavelmente persa ou babilônico, usado na corte.
Como diferentes tradições cristãs leem3
Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.
Judaica
O livro é lido a cada Purim, na Meguilá, e o Talmude (Meguilá 14a) conta Ester entre as sete profetisas de Israel. Os rabinos discutiram se o livro foi escrito sob inspiração do Espírito Santo e se pode ser lido em hebraico ou também em outras línguas. A leitura rabínica destaca a providência oculta e a responsabilidade de agir.
Católica e ortodoxa
Aceitam as partes gregas do livro (Ester grega), que incluem orações de Mardoqueu e de Ester e menção explícita a Deus, tratadas como deuterocanônicas. Essas tradições leem a intercessão de Ester em chave litúrgica e a veneram como exemplo de oração em perigo.
Protestante
Aceita o livro apenas no texto hebraico, sem os acréscimos gregos. Os reformadores se dividiram: Lutero criticou o livro, enquanto muitos autores reformados posteriores o leem como exemplo da providência de Deus nos bastidores da história, mesmo sem menção explícita.
O que fazer com isso
Ester mostra que decisões decisivas podem ser tomadas sem sinais claros e com custo pessoal real. Ela só age depois de reconhecer que o silêncio não a protegeria, e sua coragem inclui jejum, preparo e escolha cuidadosa do momento. O livro também deixa perguntas abertas, como a violência do capítulo 9 e o silêncio sobre Deus, e vale lê-lo sem apressar respostas.
Passagens relacionadas7
Fontes consultadas4
- Jon D. Levenson. Esther: A Commentary (Old Testament Library), 1997.
- Michael V. Fox. Character and Ideology in the Book of Esther, 1991.
- Adele Berlin. Esther (JPS Bible Commentary), 2001.
- Karen H. Jobes. Esther (NIV Application Commentary), 1999.
Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.
Perguntas frequentes
O que significa o nome Hadassa?
Hadassa está ligado ao hebraico para "mirto", planta de folhas aromáticas. Ester provavelmente é um nome persa ou babilônico, mas sua origem exata é discutida, e há quem o relacione a "estrela" ou a Ishtar.
O que é a festa de Purim?
É a festa judaica que lembra o livramento narrado em Ester. O nome vem de pur, "sorte", o sorteio que Hamã usou para escolher o dia do massacre (; 9:24-26). É celebrada no mês de Adar, com leitura do livro, troca de presentes e doações aos pobres.
Ester realmente existiu?
Não há prova externa independente de Ester ou de Vasti. Alguns estudiosos defendem um núcleo histórico; outros veem uma novela histórica composta para explicar Purim. O livro tem fortes marcas do ambiente persa, mas a questão continua em debate.
Por que Deus não é mencionado no livro de Ester?
O texto não explica. Entre as hipóteses estão a intenção de mostrar a providência oculta, o contexto de vida na diáspora, em que a presença divina é menos visível, ou o caráter de narrativa festiva. As versões gregas acrescentaram menções a Deus.