Enoque, o que andou com Deus
Quem foi Enoque na Bíblia?
Ficha do personagem
Era antediluviana (cronologia genealógica de Gênesis); sem lugar definido
Aparece em
Resposta curta
Enoque é o sétimo nome na linhagem de Adão por Sete, em , e o único da lista de quem o texto não diz “e morreu”. Em vez disso, a narrativa afirma que ele “andou com Deus” e que depois “já não era, porque Deus o tomou”. Viveu 365 anos, foi pai de Matusalém, avô de Lameque e bisavô de Noé. O Novo Testamento retoma a cena em , que o apresenta como exemplo de fé, e em , que cita uma profecia a ele atribuída e que corresponde a um trecho do livro apócrifo 1 Enoque. O texto de Gênesis é muito sóbrio: não diz para onde ele foi levado. Não se deve confundi-lo com o Enoque filho de Caim, de .
Onde ele aparece
Como isso aponta para Jesus
Ligação indiretaO Novo Testamento não faz de Enoque uma tipologia de Cristo. o apresenta como exemplo de fé. Ainda assim, o relato de um homem que agradou a Deus e foi tomado sem ver a morte antecipa, de modo indireto, a pergunta que Cristo responde de outra maneira: Jesus passa pela morte e a vence (; ), abrindo a todos o que em Gênesis aparece apenas como exceção solitária.
Respaldo no Novo Testamento:
Em palavras simples
Enoque viveu antes do dilúvio e é o sétimo homem na lista de Adão até Noé. Todos os outros dessa lista terminam com a frase “e morreu”, mas dele a Bíblia diz que “andou com Deus” e que Deus o tomou. Isso quer dizer que ele não teve o fim comum aos outros, mas o texto não explica como nem para onde. Hebreus fala dele como exemplo de fé, e Judas cita uma profecia atribuída a ele que vem de um livro antigo fora da Bíblia, chamado 1 Enoque.
O mundo dele
O relato de Enoque está em , a genealogia que liga Adão a Noé em dez gerações. O capítulo segue uma fórmula fixa: a pessoa viveu tantos anos, gerou um filho, viveu depois tantos anos, gerou outros filhos e filhas, “e morreu”. Enoque rompe o padrão. Nos versículos 21-24, a fórmula é interrompida por uma expressão que não aparece nos seus antepassados: ele “andou com Deus”. O verbo hebraico está numa forma reflexiva e a expressão se repete para Noé em , o que sugere uma linguagem de comunhão e fidelidade constantes, e não de um episódio isolado. No texto massorético, isso durou trezentos anos depois do nascimento de Matusalém; a Septuaginta traz números diferentes.
O texto não oferece datas absolutas. As cronologias que somam os anos de dependem da versão usada, porque o texto massorético, o Pentateuco Samaritano e a Septuaginta trazem números diferentes para várias gerações. Por isso este verbete fala apenas de uma época antediluviana, anterior ao dilúvio, e não de uma data de calendário. O lugar onde Enoque viveu também não é indicado.
Enoque aparece ainda em , na lista de nomes, e em , na genealogia de Jesus, entre Jarede e Matusalém. O mesmo nome pertence a um filho de Caim, que dá nome a uma cidade em . São pessoas distintas, em linhagens distintas. O sentido do nome hebraico (Hanok) é debatido: costuma-se relacioná-lo a uma raiz que indica dedicar ou iniciar, mas a etimologia não é segura.
Fora da Bíblia hebraica, Enoque tornou-se figura central de uma literatura que não entrou no cânon judaico nem no da maioria das Igrejas cristãs, reunida sob o título 1 Enoque. Suas partes foram compostas em épocas diferentes, entre cerca do século III a.C. e o século I a.C., e fragmentos em aramaico foram encontrados em Qumran.
A história
O texto de Gênesis é econômico. Em há apenas três afirmações: Enoque andou com Deus, não está mais entre os vivos e foi tomado por Deus. O verbo “tomar” (laqach) é comum em hebraico e, por si só, não diz se o destino foi o céu, outro lugar ou a morte. Por isso a leitura de que Enoque foi levado vivo para junto de Deus nasce menos de Gênesis isolado e mais da forma como o resto da tradição interpretou a passagem. O texto sequer informa se houve testemunhas, e a pergunta sobre o local não tem resposta nele.
faz essa leitura explícita: “Pela fé, Enoque foi trasladado para não ver a morte; e não foi achado, porque Deus o trasladou”. O autor cita a versão grega de Gênesis, que traduz “andou com Deus” por “agradou a Deus”, e usa a ideia para afirmar que sem fé é impossível agradar a Deus (). Note-se que a carta não diz que Enoque foi o único a escapar da morte nem lhe atribui um papel futuro; ele aparece como exemplo de uma vida orientada pela confiança em Deus.
apresenta outro tipo de problema. O texto afirma que “profetizou também Enoque, o sétimo depois de Adão” e transcreve um oráculo sobre a vinda do Senhor com milhares de santos para julgar os ímpios. Esse trecho tem paralelo em 1 Enoque 1:9, parte do chamado Livro dos Vigilantes, preservado integralmente apenas em etiópico, com fragmentos aramaicos em Qumran. Judas não afirma que o livro inteiro seja Escritura nem diz de onde extraiu a profecia, e a tradição atribuída a Enoque, que circulava em círculos judaicos do século I, pode ter chegado até ele de modo oral ou escrito. As Igrejas divergem sobre o peso dessa citação, como se vê adiante.
Há também a questão da linhagem. mostra uma genealogia de Caim, em que há outro Enoque, e apresenta a de Sete, em que está o Enoque deste verbete. A repetição de nomes como Enoque e Lameque nas duas listas é notada pelos estudiosos, que discutem se há dependência literária ou apenas coincidência de nomes em tradições paralelas. O texto bíblico não resolve a questão, e o leitor deve evitar misturar os dois personagens, como às vezes ocorre em obras populares.
Por fim, Enoque costuma ser comparado a Elias, que também é arrebatado sem passar pela morte (). A comparação é legítima, mas as narrativas são diferentes: a de Elias é detalhada, com carro de fogo e testemunhas, e a de Enoque ocupa uma única linha.
O que costumam dizer errado3
Dizem que:Enoque e Elias são as duas testemunhas de Apocalipse 11.
fala de “duas testemunhas” sem dar seus nomes. A identificação com Enoque e Elias é uma sugestão de alguns autores cristãos antigos, como Tertuliano e Hipólito, e não uma afirmação do texto bíblico.
Dizem que:Gênesis diz que Enoque foi levado ao céu.
diz apenas que Deus o tomou, sem indicar destino. A ideia de uma ida ao céu vem de leituras posteriores, como e o Sirácida 44:16, que falam em trasladação.
Dizem que:O livro de Enoque é Escritura em todas as tradições cristãs.
1 Enoque é canônico apenas para a Igreja Ortodoxa Tewahedo da Etiópia e da Eritreia. Para as Igrejas católica, ortodoxas gregas e eslavas, e protestantes, é um escrito antigo respeitado como fonte histórica, mas fora do cânon.
Como diferentes tradições cristãs leem4
Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.
Judaica rabínica
Gênesis Rabá 25:1 registra uma discussão sobre o que significa “Deus o tomou”, e uma das posições entende o verbo como referência à morte, não a uma ida viva para junto de Deus. Outros textos judaicos antigos, como os targuns, o associam a uma elevação. A tradição rabínica, em geral, não adota 1 Enoque como livro canônico.
Católica
Lê Enoque a partir de e do Sirácida 44:16, ambos tratados como Escritura, como alguém que agradou a Deus e foi transportado. Considera 1 Enoque um escrito apócrifo, e Agostinho, em A Cidade de Deus, já discutia por que os escritos atribuídos a Enoque não estavam no cânon.
Protestante
Segue como interpretação normativa de : Enoque foi trasladado por fé, sem morrer. Reconhece que Judas cita uma tradição enoquita, mas, em geral, entende que isso não torna 1 Enoque canônico, do mesmo modo que Paulo citar poetas gregos em não torna esses poetas Escritura.
Ortodoxa etíope (Tewahedo)
Inclui 1 Enoque no cânon e o lê como livro inspirado, de modo que a profecia de é entendida como citação de Escritura. Para essa Igreja, Enoque é também uma figura de intercessor e visionário dos segredos celestes.
O que fazer com isso
A figura de Enoque mostra que a Bíblia pode dizer muito com pouco: uma vida resumida em “andou com Deus” durante trezentos anos, em meio a gerações que apenas nasciam e morriam. O texto não promete a ninguém o mesmo desfecho, mas apresenta a constância, e não os feitos, como o centro daquela vida. Para quem lê hoje, o convite é perceber que fidelidade silenciosa e prolongada tem valor próprio.
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Fontes consultadas4
- James C. VanderKam. Enoch: A Man for All Generations, 1995.
- George W. E. Nickelsburg. 1 Enoch 1: A Commentary on the Book of 1 Enoch, Chapters 1–36; 81–108 (Hermeneia), 2001.
- Gordon J. Wenham. Genesis 1–15 (Word Biblical Commentary), 1987.
- Agostinho de Hipona. A Cidade de Deus.
Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.
Perguntas frequentes
Enoque morreu?
diz que ele “já não era, porque Deus o tomou”, e entende que foi trasladado para não ver a morte. Há, porém, tradições, como a rabínica de Gênesis Rabá, que leem “tomou” como morte. O texto de Gênesis não dá detalhes.
O Enoque de Gênesis 4 é o mesmo de Gênesis 5?
Não. O primeiro é filho de Caim e dá nome a uma cidade (); o segundo é descendente de Sete, pai de Matusalém, e é o que “andou com Deus”.
Por que Judas cita um livro que não está na Bíblia?
reproduz uma passagem que tem paralelo em 1 Enoque 1:9. O texto não diz que o livro é Escritura. Citar uma obra não equivale a canonizá-la, e as tradições cristãs divergem sobre o peso dessa citação.
Quantos anos Enoque viveu?
diz que viveu 365 anos. Os números de variam entre o texto massorético, o Pentateuco Samaritano e a Septuaginta, mas o de Enoque é o mesmo nas três tradições principais.