Eliú
Quem foi Eliú, o jovem que falou a Jó?
Ficha do personagem
Época patriarcal incerta, terra de Uz
Aparece em
Relações
- interlocutor de Jó
- após o discurso de Elifaz, o temanita
- filho de Baraquel, o buzita
Resposta curta
Eliú, filho de Baraquel, o buzita, da família de Rão, é o personagem que surge de repente no livro de Jó, depois que os três amigos se calam. Mais jovem que todos, ele esperou em silêncio e fala então movido pela indignação: contra Jó, que se justificava diante de Deus, e contra os amigos, que condenaram Jó sem poder refutá-lo. Seus discursos, nos capítulos 32 a 37, propõem que o sofrimento pode ser instrumento de instrução e advertência divina, e não apenas castigo. Ele fala de um mensageiro que intercede pelo sofredor e termina exaltando a grandeza de Deus na tempestade. Eliú não é mencionado no prólogo nem no epílogo, e Deus não o repreende em , o que alimenta o debate sobre seu lugar no livro.
Onde ele aparece
Como isso aponta para Jesus
Ligação indiretaO Novo Testamento não cita Eliú. Leitores cristãos, desde cedo, têm associado a figura do "mensageiro, intérprete, um entre mil" de , que intercede e para quem Deus diz "achei resgate", à ideia de mediação, e alguns a relacionam ao mediador entre Deus e os homens de que o Novo Testamento fala. Essa associação é uma leitura teológica posterior, que não está no texto de Jó, e o próprio sentido do "mensageiro" é debatido entre os estudiosos. Por isso o vínculo com Cristo aqui é apenas indireto e não pode ser tratado como tipologia estabelecida.
Em palavras simples
Eliú foi um jovem que, no livro de Jó, ouviu em silêncio a discussão entre Jó e seus três amigos e depois resolveu falar. Ele ficou irado com Jó, que parecia justificar a si mesmo diante de Deus, e com os amigos, que não souberam responder. Para Eliú, o sofrimento pode ser uma forma de Deus ensinar e proteger a pessoa. Ele termina falando da grandeza de Deus nas tempestades. Ele não aparece no começo nem no fim do livro, por isso há debate sobre o seu papel.
O mundo dele
O livro de Jó não se data, e a cena é situada em Uz, em ambiente que lembra a época patriarcal, sem que isso permita uma datação segura. Eliú pertence a esse cenário, mas aparece apenas em –37. Ele não é mencionado quando os três amigos chegam (), nem quando o epílogo trata do destino de todos (). Essa ausência é um dos dados que mais pesam nas discussões sobre seu papel.
Sua apresentação em é detalhada: "Eliú, filho de Baraquel, o buzita, da família de Rão". Buz é o nome de um filho de Naor, irmão de Abraão (), e de um território ou povo da região, mencionado em , de modo que o gentílico "buzita" sugere ligação com essa linhagem ou lugar. Quanto a Rão, a identificação da família é incerta. O nome Eliú significa, em hebraico, "ele é meu Deus", algo que muitos dicionários registram, embora o significado de um nome não determine o papel da personagem. Outros homens de nome Eliú aparecem em outros livros (; ), sem relação com este.
O fundo social do discurso é a valorização da idade na sabedoria do Oriente Próximo antigo. Eliú explica que esperou porque eram mais velhos do que ele, "dias falarão e a multidão dos anos ensinará sabedoria" (), mas conclui que a sabedoria não vem só dos anos: "o espírito no homem, o sopro do Todo-poderoso, é que o faz entendido" (32:8). Ele é, portanto, uma voz que contesta a autoridade dos mais velhos e prepara, em certo sentido, o terreno para a resposta do próprio Deus nos capítulos seguintes. Essa posição entre o diálogo humano e o discurso divino é o que dá ao personagem sua importância estrutural, ainda que a data de composição dos discursos e sua relação com o resto do livro sejam discutidas entre os estudiosos.
A história
Eliú tem quatro discursos, em –33, 34, 35 e 36–37, precedidos por uma introdução em prosa (32:1-5). O narrador diz que ele se irou contra Jó porque este "se justificava a si mesmo mais do que a Deus" e contra os três amigos porque "não acharam resposta e condenaram a Jó" (32:2-3). Eliú ainda declara não querer bajular ninguém e promete falar com franqueza (32:21-22).
Sua tese mais característica está em . Deus fala ao ser humano por sonhos e visões, mas também pela dor, que serve para afastá-lo do orgulho e preservar a sua vida (33:14-22). Há então uma figura notável: um "mensageiro, um intérprete, um entre mil" que anuncia ao sofredor o que lhe convém, e Deus diz: "livra-o de descer à cova, achei resgate" (33:23-24). A passagem é diferente da doutrina dos três amigos, para quem o sofrimento é apenas castigo por pecado já cometido. Para Eliú, o sofrimento pode ser pedagógico e preventivo. Ao mesmo tempo, ele repete que Deus é justo (34:10-12; 36:5) e acusa Jó de acrescentar rebeldia ao pecado (34:37). Nos capítulos 34 e 35, Eliú cita palavras de Jó e as contesta: Jó teria dito que de nada adianta agradar a Deus (34:9; 35:3), e Eliú responde que Deus não precisa dos méritos humanos, mas também não age com injustiça. Muitos veem aqui um ponto em que ele se aproxima dos amigos, ao supor que Jó tem algo a corrigir.
O último bloco, 36:1-37:24, desloca-se para a grandeza de Deus. Eliú descreve a chuva, o trovão e a tempestade como obras que ninguém consegue compreender plenamente e termina com a frase: "Quanto ao Todo-poderoso, não o podemos alcançar; ele é grande em poder" (37:23). Muitos leitores veem aí uma preparação para a voz de Deus no redemoinho, no capítulo 38, que começa com a mesma imagem de tempestade.
O ponto mais debatido é se os discursos fazem parte do livro original. Os argumentos a favor de uma inserção posterior incluem a ausência de Eliú no prólogo e epílogo, o fato de Jó não lhe responder e a presença de traços de linguagem diferentes, como aramaísmos. Já Francis Andersen e outros defendem a unidade do livro, e John Hartley argumenta que os discursos cumprem função literária própria, preparando a resposta divina. Há quem lembre também que o silêncio de Deus em não equivale a aprovação nem a reprovação, e o texto não resolve a questão. Por isso, qualquer leitura é uma proposta, e este verbete trata os dois lados como posições legítimas.
O que costumam dizer errado3
Dizem que:Eliú era o quarto amigo de Jó, que chegou junto com os outros três.
menciona apenas três amigos, Elifaz, Bildade e Zofar. Eliú aparece só em , apresentado como alguém que estava presente e se calou por ser mais jovem. O texto não o chama de amigo de Jó nem diz que veio consolá-lo.
Dizem que:Deus repreendeu Eliú no final do livro, como fez com os três amigos.
Em Deus se dirige a Elifaz e aos seus dois amigos; Eliú não é citado, nem para aprovação nem para repreensão. O silêncio do texto não permite concluir nem que ele foi aprovado nem que foi reprovado.
Dizem que:A crítica acadêmica já provou que os discursos de Eliú foram acrescentados depois.
A hipótese de inserção posterior é comum, mas não unânime. Estudiosos como Francis Andersen e John Hartley defendem que os discursos pertencem ao desenho original do livro. A questão continua aberta.
Como diferentes tradições cristãs leem4
Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.
Judaica rabínica
O Talmud (Bava Batra 15b) conta Eliú entre os sete profetas das nações, o que lhe dá um estatuto elevado. Há leitores judeus que o veem como alguém que, ao contrário dos amigos, aponta para Deus e não só para a culpa de Jó.
Católica
Gregório Magno, nos Moralia in Job, interpreta Eliú de forma crítica, vendo nele traços de arrogância ao falar com tanta segurança. Outros autores católicos veem seus discursos como preparação para a resposta de Deus.
Reformada
João Calvino, nos sermões sobre Jó, reconhece verdade nas palavras de Eliú sobre a justiça de Deus e sobre o valor educativo da aflição, mas nota que ele também erra ao julgar Jó com dureza.
Crítica histórica
Parte dos estudiosos considera os capítulos 32–37 uma adição posterior ao livro, por razões de estilo e estrutura; outros defendem sua unidade com o conjunto, vendo-os como transição para a fala divina.
O que fazer com isso
Eliú lembra que uma explicação pode conter algo verdadeiro e, ainda assim, chegar cedo demais ou com excesso de certeza. Falar a quem sofre, mesmo com boa intenção, exige cuidado para não transformar a dor do outro em lição pronta. O texto também mostra o valor de esperar a vez, ouvir e só então falar, e de apontar para algo maior que o debate: a grandeza de Deus, que não cabe nas nossas explicações.
Passagens relacionadas8
Fontes consultadas4
- John E. Hartley. The Book of Job (New International Commentary on the Old Testament), 1988.
- Francis I. Andersen. Job: An Introduction and Commentary (Tyndale Old Testament Commentaries), 1976.
- Gregório Magno. Moralia in Job.
- Gustavo Gutiérrez. Falar de Deus a partir do sofrimento do inocente: uma reflexão sobre o livro de Jó, 1986.
Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.
Perguntas frequentes
Por que Eliú só fala depois dos três amigos?
Ele mesmo explica em que esperou por ser mais jovem que todos os presentes. Só depois de os três se calarem e de perceber que não havia resposta a Jó é que decidiu falar.
Eliú diz algo diferente dos amigos de Jó?
Em parte. Ele também defende a justiça de Deus, mas sugere que o sofrimento pode ter função educativa e preventiva (), e não apenas ser castigo por pecados passados, como defendiam Elifaz, Bildade e Zofar.
Os discursos de Eliú fazem parte do livro original de Jó?
É debatido. Alguns estudiosos os veem como inserção posterior; outros defendem que são parte do desenho original. O texto não resolve a questão e a leitura tradicional os mantém no livro.
Quem era o pai de Eliú?
Baraquel, o buzita, segundo . Nada mais se sabe sobre ele. O gentílico buzita sugere uma ligação com Buz, nome associado a um filho de Naor em .