O centurião de Cafarnaum
Quem foi o centurião cuja fé admirou Jesus?
Ficha do personagem
Cerca de 28 d.C.; Cafarnaum, Galileia
Relações
- possível servidor de Herodes Antipas
- comparável a Cornélio, centurião
- atendido por Jesus
Resposta curta
O centurião de Cafarnaum é um oficial sem nome, não judeu, que pediu a Jesus a cura de um servo gravemente doente. Em , ele mesmo se aproxima de Jesus; em , envia primeiro anciãos judeus e depois amigos. Nos dois relatos, ao saber que Jesus iria à sua casa, ele diz não ser digno de recebê-lo debaixo do seu teto e pede apenas que Jesus diga uma palavra, pois ele próprio, como homem sujeito à autoridade, vê as ordens serem cumpridas. Jesus admira-se e declara que nem em Israel achou tamanha fé. O servo é curado à distância. Os dois evangelhos divergem sobre o uso de emissários, e o verbete compara as versões sem forçar uma harmonização.
Onde ele aparece
Como isso aponta para Jesus
Ligação indiretaA palavra de Jesus tem autoridade para curar à distância, e a fé do oficial reconhece isso. Em Mateus, a cena é seguida pela declaração de que muitos virão do oriente e do ocidente para o banquete com Abraão, Isaque e Jacó (). O texto não apresenta o centurião como figura de Cristo, mas como exemplo de fé de um estrangeiro, em um ponto que o evangelho de Mateus liga à abertura do reino aos gentios.
Respaldo no Novo Testamento:
Em palavras simples
O centurião de Cafarnaum era um oficial não judeu que tinha um servo muito doente. Ele pediu a Jesus que o curasse, mas disse que não era digno de recebê-lo em casa e que bastava uma palavra, porque entendia o que é dar ordens e ser obedecido. Jesus ficou admirado e disse que nem em Israel achara tamanha fé. O servo foi curado à distância. Mateus diz que o oficial foi pessoalmente a Jesus, e Lucas diz que ele mandou emissários, e o verbete explica essa diferença.
O mundo dele
Cafarnaum era uma vila de pescadores na margem noroeste do mar da Galileia, base do ministério de Jesus na região (). Na época, a Galileia era governada por Herodes Antipas, tetrarca nomeado por Roma, e não por um governador romano, como a Judeia. Por isso o centurião pode ter sido um oficial a serviço de Antipas, que mantinha tropas de recrutamento local, ou um soldado das forças romanas; o texto não diz qual das duas coisas. Os dois evangelhos o chamam de centurião, ou seja, comandante de cerca de cem soldados, e nenhum dá o seu nome, sua origem ou sua religião.
O ambiente é o de um território com maioria judaica e presença de gentios, em que a relação entre soldados estrangeiros e população local era cheia de tensões. Em Lucas, os anciãos dos judeus pedem a Jesus que atenda o oficial porque ele “ama o nosso povo e nos edificou a sinagoga” (). O dado sugere um homem que se aproximou do judaísmo, como outros gentios simpatizantes dos quais o Novo Testamento fala. A arqueologia revelou, sob a sinagoga de calcário branco do período tardio em Cafarnaum, construções de basalto mais antigas, mas não há como afirmar que sejam a sinagoga mencionada por Lucas.
O servo é chamado de pais em Mateus (palavra grega que pode significar menino, filho ou servo) e de doulos em Lucas, com a nota de que lhe era “muito estimado” (). Mateus descreve o homem como paralítico e em grande sofrimento (8:6), e Lucas diz que estava à beira da morte. O episódio ocorre depois do Sermão do Monte, em Mateus, e depois do Sermão da Planície, em Lucas, por volta de 28 d.C. Em ambos, a cura acontece logo depois de ensinamentos de Jesus à multidão, e Cafarnaum aparece como o lugar onde as palavras dele se confirmam em ações.
A história
Os dois relatos coincidem em quase todo o diálogo central e divergem na forma da aproximação. Em , o centurião vem pessoalmente a Jesus e pede a cura do servo. Em , ele envia anciãos dos judeus, que intercedem por ele, e depois envia amigos para dizer que não é digno de que Jesus entre em sua casa. A frase “Senhor, não sou digno de que entres debaixo do meu telhado, mas dize somente uma palavra” é atribuída a ele em e, em , aos amigos que falam em nome dele.
Como compreender a diferença? Agostinho, no escrito sobre a harmonia dos evangelhos, já a considerava um problema resolvido pelo princípio de que quem age por meio de outro age por si próprio: Mateus resumiria o que o oficial fez por intermediários. Muitos comentaristas modernos aceitam essa leitura, que permite manter os dois relatos como fiéis ao mesmo evento. Outros veem em Mateus uma abreviação deliberada, que concentra o encontro entre dois personagens e dá mais peso ao diálogo, e em Lucas um desenvolvimento que reflete seu interesse em mostrar o oficial como benfeitor respeitado por judeus e, ao mesmo tempo, consciente da distância entre gentios e judeus. A origem comum de boa parte do material, sugerida pela hipótese de uma fonte compartilhada, não é consenso e não é necessária para ler os dois textos.
O núcleo do diálogo é o argumento sobre autoridade. O centurião diz ser homem sujeito a uma autoridade, com soldados sob o seu comando: diz a um “vai”, e ele vai. Aplica o mesmo raciocínio a Jesus: se basta uma palavra dele, não há necessidade de estar presente. Jesus fica admirado e afirma que não achou tamanha fé em Israel (; ). Somente Mateus acrescenta a declaração de que muitos virão do oriente e do ocidente para se assentar à mesa com Abraão, Isaque e Jacó, enquanto os “filhos do reino” serão lançados fora (8:11-12), em um paralelo com a ideia de reunião das nações em torno de Deus presente no Antigo Testamento (por exemplo, Salmo 107:3).
A cura é feita à distância: Jesus diz que seja feito conforme a fé do oficial, e o servo sara naquela hora (). Em Lucas, os enviados encontram o servo sadio (7:10). O texto não diz que Jesus entrou na casa do centurião.
Um relato próximo aparece em , com um oficial real em Caná cujo filho está doente e é curado à distância. Há semelhanças, mas os detalhes são distintos, e muitos estudiosos tratam os episódios como casos diferentes.
O que costumam dizer errado3
Dizem que:O centurião era um soldado romano das legiões estacionadas na Galileia.
Os evangelhos dizem apenas que era centurião. Na Galileia daquele tempo, o poder político era de Herodes Antipas, e o oficial pode ter servido a ele. O texto não diz a que exército pertencia nem qual era sua origem.
Dizem que:Jesus foi até a casa do centurião e a curou lá dentro.
Nos dois relatos, a cura foi feita à distância. e mostram o servo curado sem que Jesus tenha entrado na casa, exatamente porque o oficial pediu só uma palavra.
Dizem que:Mateus e Lucas contradizem um ao outro sobre quem pediu a cura.
Divergem na forma, não necessariamente na substância: em Mateus o oficial fala diretamente, e em Lucas por meio de anciãos e amigos. Pela convenção antiga de atribuir a palavra do mensageiro a quem o envia, os relatos podem ser lidos como complementares, embora nem todos os comentaristas concordem.
Como diferentes tradições cristãs leem3
Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.
Católica
As palavras do oficial, “Senhor, eu não sou digno”, foram incorporadas à liturgia da missa antes da comunhão. A tradição vê no episódio um modelo de humildade diante de Cristo e, com Agostinho, harmoniza os dois relatos pela ideia de que o oficial fala por seus enviados.
Protestante
Tende a ressaltar que a fé de um gentio é elogiada acima da de Israel e que a salvação pela fé não depende de pertencimento étnico. Muitos também destacam o reconhecimento da autoridade da palavra de Jesus como núcleo da fé do oficial.
Judaica (estudos judaicos do Novo Testamento)
Pesquisadores desse campo observam que Lucas apresenta o oficial como um gentio benfeitor da comunidade judaica, fenômeno conhecido nas sinagogas da diáspora e da Galileia. Para eles, o relato não opõe o oficial a Israel, mas mostra a abertura de uma comunidade judaica a um aliado estrangeiro.
O que fazer com isso
O centurião mostra uma fé que se expressa em reconhecer os próprios limites. Ele não se considera digno, mas confia na palavra de Jesus sem exigir sinal visível. A cena também sugere que o interesse por um servo, alguém de pouco peso social, pode ser sinal de caráter. Por fim, a admiração de Jesus pela fé de um estrangeiro lembra que a confiança em Deus nem sempre aparece onde se espera.
Passagens relacionadas8
Fontes consultadas4
- Agostinho de Hipona. A Harmonia dos Evangelhos (De consensu evangelistarum).
- Joel B. Green. The Gospel of Luke (New International Commentary on the New Testament), 1997.
- Donald A. Hagner. Matthew 1–13 (Word Biblical Commentary 33A), 1993.
- Harold W. Hoehner. Herod Antipas, 1972.
Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.
Perguntas frequentes
Qual era o nome do centurião de Cafarnaum?
Os evangelhos não dão o nome dele. Também não dizem de qual povo ele era; sabe-se apenas que não era judeu e que apoiava a comunidade judaica local, segundo Lucas.
O centurião de Cafarnaum era romano?
O texto não afirma. Como a Galileia era governada por Herodes Antipas, o oficial pode ter servido a ele. Também pode ter sido soldado romano ou de origem estrangeira.
Por que Mateus e Lucas contam de formas diferentes?
Mateus mostra o oficial pedindo diretamente, e Lucas mostra anciãos e amigos como emissários. Os comentaristas explicam isso por abreviação de Mateus, por desenvolvimento de Lucas ou pela convenção de atribuir ao remetente a fala do mensageiro.
O servo do centurião era mesmo um servo?
Sim, segundo Lucas, que usa a palavra doulos (escravo, servo). Mateus usa pais, que pode significar também menino ou filho, mas no contexto do relato é tomado como servo.