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Jesus e a Epístola de Barnabé: dois modos de ler a Lei

A Epístola de Barnabé nega que a Bíblia fala de comida de verdade?

Resposta curta

Em , Jesus afirma que não veio para revogar a Lei ou os Profetas, mas para cumpri-los, e chega a dizer que nem um jota nem um til do texto mosaico passará até que tudo se cumpra. É uma declaração de continuidade: a letra da Lei continua tendo peso, mesmo enquanto Jesus a leva a um novo estágio.

A Epístola de Barnabé, escrito cristão do início do século II, também lê a Lei à luz de Cristo, mas de um jeito muito mais radical: para o autor, mandamentos como as leis alimentares de Levítico nunca foram, literalmente, sobre comida — seriam alegorias morais desde o início, e os judeus que os praticaram ao pé da letra teriam simplesmente entendido tudo errado. O cotejo mostra que "cumprir a Lei em Cristo" não teve um único método entre os primeiros cristãos.

O que diz Epístola de Barnabé

Epístola de Barnabé 9-10, leitura alegórica da circuncisão e das leis alimentares de Levítico 11

está no Sermão do Monte, logo depois das bem-aventuranças, quando Jesus começa a explicar como sua pregação se relaciona com a Lei de Moisés e os Profetas — as duas grandes partes das Escrituras judaicas do período. A afirmação é dupla: primeiro, nega que veio para "revogar" (o verbo grego kataluo, "destruir" ou "anular"); segundo, afirma que veio para "cumprir" (pleroo, "trazer à plenitude"). A imagem do jota (a menor letra do alfabeto hebraico, o yod) e do til (um traço decorativo mínimo de certas letras) reforça que nem o detalhe mais ínfimo do texto perde valor.

A Epístola de Barnabé é um texto cristão anônimo, provavelmente escrito entre o fim do século I e cerca de 130-135 d.C., num contexto de comunidades cristãs — em boa parte de origem judaica ou helenizada — que discutiam se e como a Lei mosaica ainda se aplicava depois de Cristo. Apesar do nome, a autoria pelo Barnabé companheiro de Paulo é hoje considerada improvável pela maioria dos estudiosos: o texto é anônimo no manuscrito mais antigo e só ganhou esse título por tradição posterior. Ele nunca entrou no cânone do Novo Testamento, mas circulou com grande prestígio nos primeiros séculos — aparece completo ao final do Códice Sinaítico (século IV), ao lado dos livros bíblicos, e autores como Clemente de Alexandria o citavam como Escritura.

Nos capítulos 9 e 10, o autor de Barnabé trata das leis de circuncisão e alimentação de e . Sua tese central é que essas leis nunca tiveram, desde Moisés, um sentido literal — sempre foram um código moral disfarçado de regra alimentar, e os israelitas que as praticaram literalmente teriam sido enganados. A obra também é conhecida por outras leituras alegóricas e numerológicas do Antigo Testamento, no mesmo estilo, aplicadas a episódios como a circuncisão da casa de Abraão. É esse ponto de partida hermenêutico, tão diferente da continuidade explícita que Mateus descreve no Sermão do Monte, que este cotejo examina de perto.

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O que diz a Bíblia

Não penseis que vim para revogar a Lei ou os Profetas; não vim para revogar, mas sim para cumprir. Porque em verdade vos digo que, até que o céu e a terra passem, nem um jota nem um til passará da Lei até que tudo se cumpra.

Onde coincidem e onde divergem

Onde coincidem

  • Ambos os textos leem a Lei de Moisés à luz de Cristo, e não como um sistema isolado, encerrado em si mesmo.
  • Ambos tratam mandamentos rituais específicos (como as leis alimentares) como portadores de um sentido que vai além da observância física.
  • Ambos se dirigem a comunidades que precisavam decidir, na prática, o que fazer com a Lei mosaica depois de seguir a Jesus.

Onde divergem

  • Mateus 5:18 afirma que nem um jota nem um til da Lei passará até que tudo se cumpra, preservando a validade histórica da letra do texto; Barnabé 10 nega que mandamentos como os alimentares tenham tido, em algum momento, sentido literal.
  • Mateus fala de "cumprir" a Lei (pleroo), sugerindo continuidade que se completa; Barnabé fala de entender essas leis "no espírito" desde o início, sugerindo que a leitura literal nunca esteve correta.
  • Barnabé atribui a leitura literal das leis judaicas a um engano provocado por "um anjo mau" (Barnabé 9:4), uma explicação ausente e sem paralelo em Mateus ou em qualquer outro livro do Novo Testamento.

O que só existe fora do cânon

Nada do que segue está em nenhum livro da Bíblia.

  • A leitura numerológica dos 318 servos circuncidados de Abraão (Gênesis 14:14) como cifra grega que prefigura a cruz e o nome de Jesus (Barnabé 9:7-8).
  • A atribuição da prática literal das leis alimentares e da circuncisão a um engano causado por "um anjo mau" que teria enganado os israelitas (Barnabé 9:4).
  • A alegoria animal por animal das proibições de Levítico 11 — por exemplo, a lebre associada à corrupção sexual e a hiena ao adultério (Barnabé 10:6-7) — como chave exclusiva de leitura dessas leis.
Em palavras simples

Jesus disse que não veio acabar com a Lei de Moisés, mas completá-la — e que até a menor letrinha dela continuava valendo. Um livro cristão antigo, a Epístola de Barnabé, pensa muito diferente sobre isso: para o autor, regras como "não coma porco" nunca foram mesmo sobre comida, eram só símbolos de comportamentos bons ou ruins. Comparar os dois textos mostra que os primeiros cristãos não liam o Antigo Testamento todos da mesma forma.

Aprofundamento

A comparação entre e a Epístola de Barnabé 9-10 revela dois modos distintos de relacionar o Antigo Testamento com Cristo, ambos correntes entre os primeiros seguidores de Jesus.

Em Mateus, Jesus não trata a Lei como uma casca descartável em torno de um sentido oculto. Ele afirma respeito pela letra do texto ("nem um jota, nem um til") e, nos versículos seguintes (5:19-20), chega a advertir contra quem ensinar os outros a relaxar "um dos menores destes mandamentos". O verbo "cumprir" (pleroo) sugere que a Lei aponta para algo que só se completa em Cristo — não que seu sentido literal tenha sido, desde sempre, uma ilusão. A leitura tradicional cristã (majoritária desde os primeiros séculos) é que Jesus intensifica e internaliza os mandamentos morais, ao mesmo tempo em que sua obra reconfigura o papel dos mandamentos rituais e cerimoniais, sem negar que eles um dia tiveram função histórica real.

Barnabé caminha em outra direção. No capítulo 9, o autor lê a circuncisão de 318 homens da casa de Abraão (, segundo o número grego) como uma cifra numérica que já apontava para a cruz e para o nome de Jesus — uma leitura de gematria que não aparece em nenhum texto do Novo Testamento. No capítulo 10, ele afirma que Moisés "falou no espírito" ao proibir carnes como a de porco, hiena ou lebre: cada animal representaria um vício humano (o porco, quem só se lembra de Deus quando está em necessidade; a hiena, o adúltero; a lebre, quem corrompe os outros), e não um alimento real e proibido. Para Barnabé, quem entendeu essas leis literalmente — isto é, o povo judeu histórico — simplesmente errou o alvo, enganado, segundo o capítulo 9, por "um anjo mau".

Essa diferença de método importa porque mostra os limites de generalizar "os primeiros cristãos liam o Antigo Testamento cristologicamente" como se fosse uma técnica única. Mateus mantém uma tensão entre continuidade e cumprimento: a Lei vale, e Cristo a leva adiante. Barnabé resolve essa tensão de forma mais drástica, esvaziando o sentido literal quase por completo e, no processo, adotando um tom mais duro em relação à observância judaica histórica do que o encontrado nos evangelhos. Estudiosos como James Carleton Paget observam que esse traço coloca Barnabé entre os textos cristãos antigos mais marcados pela chamada retórica da substituição, o que ajuda a explicar por que a obra, apesar do prestígio inicial, acabou ficando de fora do cânone que se consolidou nos séculos seguintes.

O que costumam dizer errado2 afirmações
  • Dizem que:A Epístola de Barnabé foi escrita pelo apóstolo Barnabé, companheiro de viagens de Paulo.

    O texto é anônimo no manuscrito mais antigo que o preserva (Códice Sinaítico, século IV); o nome "Barnabé" só foi associado a ele por tradição posterior, e a maioria dos estudiosos modernos considera essa atribuição improvável, situando a composição décadas depois da morte do Barnabé bíblico.

  • Dizem que:Por ser um texto cristão antigo sobre a Lei, a Epístola de Barnabé representa a mesma leitura que os evangelhos fazem da relação entre Jesus e a Lei mosaica.

    afirma continuidade e validade da letra da Lei até seu cumprimento; Barnabé 9-10 nega que mandamentos como as leis alimentares tenham tido, em algum momento, sentido literal — são hermenêuticas distintas, não a mesma posição em palavras diferentes.

Como diferentes tradições leem4 leituras

Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.

  • Ortodoxa e católica (posição histórica majoritária)

    Reconhecem que a Epístola de Barnabé foi lida como edificante e até como Escritura por alguns pais antigos, mas concluem que ela não integra o cânone: sua alegoria da Lei é vista como um exagero hermenêutico de sua época, útil para entender o debate cristão primitivo, mas sem autoridade doutrinária.

  • Tradição alexandrina (Clemente de Alexandria, Orígenes)

    Valorizavam Barnabé como texto quase canônico e viam sua leitura alegórica das leis alimentares como legítima aplicação de um método interpretativo mais amplo, que também usavam para ler outras partes do Antigo Testamento.

  • Protestante (herdeira da Reforma)

    Tende a acolher Barnabé como fonte histórica valiosa sobre o cristianismo do início do século II, mas rejeita sua tendência a esvaziar o sentido histórico-literal da Lei, priorizando a leitura de Mateus, que preserva a letra do texto mosaico como historicamente válida até seu cumprimento.

  • Etíope ortodoxa

    Embora não trate a Epístola de Barnabé como canônica, essa tradição mantém uma relação distinta com outros escritos extrabíblicos judaico-cristãos do mesmo período, o que lembra que o processo de fixação do cânone teve contornos regionais diferentes na história da Igreja.

O que fazer com isso

Ler um texto cristão antigo como a Epístola de Barnabé não exige nem descartá-lo como irrelevante, nem tratá-lo como equivalente à Escritura. Vale perguntar sempre: este autor está descrevendo como Jesus lia a Lei, ou propondo sua própria leitura, num debate específico do seu tempo? Comparar métodos de interpretação — em vez de só comparar conclusões — ajuda a entender por que certos textos permaneceram centrais e outros, mesmo respeitados, não entraram no cânone.

Fontes consultadas4 obras
  • James Carleton Paget. The Epistle of Barnabas: Outlook and Background, 1994.
  • Bart D. Ehrman (ed. e trad.). The Apostolic Fathers, vol. II (Loeb Classical Library), 2003.
  • Robert A. Kraft. Barnabas and the Didache (The Apostolic Fathers, vol. 3), 1965.
  • W. D. Davies e Dale C. Allison Jr.. A Critical and Exegetical Commentary on the Gospel According to Saint Matthew, vol. I (ICC), 1988.

Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.

Perguntas frequentes

A Epístola de Barnabé está na Bíblia?

Não. Ela nunca entrou no cânone do Novo Testamento reconhecido pelas grandes tradições cristãs, embora tenha circulado com prestígio nos primeiros séculos e apareça completa no Códice Sinaítico, um dos manuscritos bíblicos mais antigos que existem.

Por que Barnabé interpreta as leis alimentares de um jeito tão diferente de Mateus?

Porque parte de uma premissa hermenêutica distinta: para o autor, os mandamentos rituais de Moisés nunca tiveram sentido literal, sendo alegorias morais desde o início. Mateus, ao contrário, afirma que a letra da Lei manteve validade real até ser cumprida em Cristo.

Quem escreveu a Epístola de Barnabé?

O autor é desconhecido. O texto é anônimo no manuscrito mais antigo, e a atribuição ao Barnabé companheiro de Paulo é uma tradição posterior que a maioria dos estudiosos considera improvável.

Esse contraste significa que os primeiros cristãos discordavam sobre a Lei de Moisés?

Sim, em parte. Havia diferentes ênfases sobre como a vinda de Cristo afetava a validade e o sentido da Lei — de leituras que mantinham forte continuidade histórica, como a de Mateus, a leituras mais alegóricas e radicais, como a de Barnabé.

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Publicado em 09/09/2026

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O que foi conferido

  • Citação conferida contra o texto de Bíblia Livre (Textus Receptus)
  • 4 obras citadas, com autor e ano
  • 2 afirmações populares checadas e refutadas
  • 4 tradições cristãs apresentadas lado a lado
  • Editor responsável: Julio Andolfo
  • Revisão teológica por pessoa nomeada — ainda não feita. Enquanto não for, dizemos isso aqui em vez de assinar um nome.

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