Bará (Criar)
O que significa a palavra "bará" (criar) na Bíblia?
A palavra no original
בָּרָא
bārāʾ · Strong H1254
Criar, trazer algo à existência (uso, na forma mais comum, exclusivo de Deus)
Tudo isto ao mesmo tempo
- Trazer à existência algo cósmico ou material novo (Gênesis 1:1, 1:21)
- Trazer à existência o ser humano (Gênesis 1:27)
- Renovação moral ou espiritual (Salmo 51:10)
- Instaurar uma situação sem precedente, inclusive de juízo (Números 16:30; Isaías 45:7)
- Homônimo raro na forma piel: cortar, talhar, desbastar (Josué 17:15,18)
Resposta curta
O verbo hebraico בָּרָא (bará) abre a Bíblia: "No princípio, Deus criou (bará) os céus e a terra" (). Ele ocorre cerca de cinquenta vezes no Antigo Testamento e, na sua forma mais comum, o qal, tem um traço raro entre os verbos hebraicos: o sujeito é sempre Deus. Nenhum ser humano "bará" algo — pessoas podem "asah" (fazer) ou "yatsar" (formar) objetos, mas só Deus "bará".
Essa restrição levou léxicos como o BDB e comentaristas como Keil e Delitzsch a lerem bará como termo reservado a uma ação exclusivamente divina, distinta de moldar material já existente. É essa observação gramatical, não uma definição isolada da palavra, que sustenta a leitura de como criação a partir do nada. O próprio verbo também descreve renovação, como o "coração puro" que Davi pede em .
Onde a palavra aparece
Como isso aponta para Jesus
Trajetória do textoBará descreve, em , a origem do cosmos por uma palavra de Deus sem processo intermediário — e o Novo Testamento identifica essa mesma palavra criadora com Cristo: "todas as coisas foram feitas por meio dele, e sem ele nada do que foi feito se fez" (), e "nele foram criadas todas as coisas" (). O verbo hebraico volta a aparecer em , no anúncio de que Deus vai "criar novos céus e nova terra", uma promessa que o Novo Testamento retoma para descrever quem está unido a Cristo: "se alguém está em Cristo, é nova criação" () e a visão final de , "eis que faço novas todas as coisas". A trajetória vai da criação original, marcada por bará, até uma nova criação atribuída à obra de Cristo — não porque o termo hebraico em si profetize Cristo, mas porque o tema que ele inaugura em Gênesis atravessa toda a Escritura e converge nele.
Respaldo no Novo Testamento: ; ; ;
Em palavras simples
Bará é a palavra hebraica para "criar", usada logo no primeiro versículo da Bíblia. Um detalhe chama atenção dos estudiosos: em todo o Antigo Testamento, só Deus "bará" algo — nunca uma pessoa. Isso é diferente de "fazer" ou "formar", verbos que qualquer ser humano também pode usar. Por isso muitos leem essa palavra como sinal de que Deus trouxe o universo à existência sem partir de material que já existisse antes, criando algo radicalmente novo.
De onde vem a palavra
Bará aparece pela primeira vez em , na frase de abertura do texto bíblico, e volta a ocorrer três vezes só em , no relato da criação do ser humano ("Deus criou o ser humano à sua imagem"). No conjunto de , o narrador alterna bará com outros verbos — "disse", "fez" (asah), "separou" — mas reserva bará para os três momentos que a tradição judaica lê como as grandes novidades ontológicas do capítulo: o cosmos em si (1:1), os seres vivos capazes de se mover livremente (1:21) e o ser humano (1:27).
No contexto do Antigo Oriente Próximo, esse uso é significativo por contraste. Em mitos de criação vizinhos, como o Enuma Elish babilônico, os deuses formam o mundo a partir da matéria de um deus derrotado, ou modelam a humanidade com sangue e argila — sempre a partir de algo preexistente e por meio de conflito. O texto de Gênesis usa um verbo que, segundo léxicos como o BDB e o HALOT, nunca tem outro sujeito além de Deus e nunca vem acompanhado de um complemento indicando "a partir de que material" — diferente de yatsar, o verbo de "formar" usado em para o ser humano feito "do pó da terra".
Fora do relato da criação, bará reaparece com destaque em –55, onde Deus é chamado de criador dos céus (), da luz e das trevas () e do próprio povo de Israel (). Também surge em contextos de julgamento, como em , onde Moisés anuncia que o Senhor vai "criar algo novo" — a terra se abrindo — e em contextos devocionais, como o pedido de um "coração puro" em . Esse espectro mostra que bará não é um termo técnico restrito à cosmologia: descreve qualquer situação em que o texto quer marcar uma ação exclusivamente divina, que produz uma realidade sem precedente.
Aprofundamento
A origem da raiz consonantal ב-ר-א é discutida por hebraístas sem consenso definitivo. Léxicos como o BDB e o HALOT registram uma possível ligação com raízes semíticas que carregam a ideia de "cortar" ou "separar" — o que explicaria por que, em hebraico bíblico, existe também uma forma piel da mesma raiz usada com o sentido de "cortar, talhar, desbastar" ( e 17:18, sobre desbravar uma floresta). A maioria dos dicionários trata esse uso como um verbo homônimo, distinto do bará "criar", mas a coincidência de forma é registrada como um dado a considerar, não como certeza etimológica.
O ponto mais discutido entre os intérpretes, porém, não é a etimologia, mas a sintaxe: na forma qal (a mais frequente), bará ocorre cerca de quarenta vezes no Antigo Testamento e, em todas elas, o sujeito gramatical é Deus. Não há um único caso de um artesão, rei ou profeta que "bará" alguma coisa. Esse padrão é o que autores como Keil e Delitzsch, em seu comentário sobre o Pentateuco, e o TDOT (Theological Dictionary of the Old Testament) apontam como base para a leitura de bará como uma categoria de ação reservada à divindade — em contraste com asah ("fazer"), usado tanto para o trabalho humano quanto para o divino, e com yatsar ("formar"), a imagem do oleiro que molda um material já em mãos.
Esse padrão gramatical é o argumento linguístico central por trás da doutrina da criação a partir do nada (creatio ex nihilo): já que bará nunca aparece com um complemento de material de origem e nunca descreve uma ação humana, os intérpretes que defendem essa leitura argumentam que o verbo marca uma origem absoluta, sem processo de transformação de algo preexistente. É importante notar, no entanto, que esse é um argumento construído a partir do uso do verbo no conjunto do Antigo Testamento, e não uma definição lexical isolada de bará — a palavra, sozinha, significa apenas "criar, trazer à existência", sem especificar o "de quê". O apoio mais direto e explícito à ideia de criação sem material preexistente vem de fora do campo lexical hebraico, em textos do Novo Testamento como , que afirma que "o universo foi criado pela palavra de Deus, de modo que o visível não veio do que se pode ver".
Vale notar ainda que a distribuição de bará no Antigo Testamento não é uniforme: mais da metade das ocorrências está concentrada em –2 e em –55, dois blocos de texto que tratam, respectivamente, da origem do mundo e da promessa de um novo êxodo e uma nova criação para Israel exilado. Essa concentração sugere que o verbo funciona, no cânon hebraico, como um marcador literário de momentos de ruptura radical com o que existia antes — seja a origem do universo, seja a reconstituição de um povo que a narrativa trata como praticamente extinto.
O que costumam dizer errado2 afirmações
Dizem que:Bará só aparece em Gênesis e só se refere à criação do universo.
O verbo ocorre cerca de cinquenta vezes no Antigo Testamento, com forte concentração em , onde descreve a criação de Israel como povo, e também em Salmos, onde descreve a renovação de um coração (Salmo 51:10).
Dizem que:A raiz hebraica bará sempre carrega o sentido de 'criar'.
Existe uma forma piel da mesma raiz consonantal usada com o sentido de 'cortar, talhar, desbastar' ( e 17:18), que léxicos como o BDB e o HALOT tratam como um verbo distinto (homônimo), não como uma nuance do verbo 'criar'.
Como diferentes tradições cristãs leem3 leituras
Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.
Cristianismo histórico (patrística, catolicismo, ortodoxia oriental, protestantismo clássico)
O padrão gramatical de bará, exclusivo de Deus, é lido como apoio lexical à doutrina da criação a partir do nada (creatio ex nihilo), reforçada por textos do Novo Testamento como e .
Leitura evangélica contemporânea de ênfase funcional
Associada a autores como John H. Walton, entende que bará descreve primariamente a atribuição de função e ordem a algo, não necessariamente a produção de matéria a partir do nada; trataria da organização de um cosmos-templo, deixando em aberto a origem da matéria física.
Correntes cristãs progressistas e de teologia do processo
Leem como Deus dando forma e ordem a uma condição pré-existente de vazio e trevas (tehom), e não como produção absoluta a partir do nada, sem que isso, para essas correntes, diminua a soberania divina descrita pelo verbo bará.
O que fazer com isso
Reconhecer o padrão gramatical de bará muda a leitura de : o texto não descreve um deus organizando matéria bruta ao lado de rivais divinos, mas uma palavra reservada só para a ação de Deus. O mesmo verbo reaparece em Salmos e Isaías para descrever um coração renovado ou um povo restaurado, sugerindo que o texto bíblico aplica à transformação moral e histórica a mesma categoria de ação usada para a origem do cosmos.
Passagens relacionadas5
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Fontes consultadas4 obras
- Brown, F.; Driver, S. R.; Briggs, C. A.. The Brown-Driver-Briggs Hebrew and English Lexicon (BDB), 1906.
- Koehler, L.; Baumgartner, W.. The Hebrew and Aramaic Lexicon of the Old Testament (HALOT), 1994.
- Keil, C. F.; Delitzsch, F.. Commentary on the Old Testament: The Pentateuch, 1866.
- Botterweck, G. J.; Ringgren, H. (eds.). Theological Dictionary of the Old Testament (TDOT), vol. 2, 1975.
Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.
Perguntas frequentes
Bará quer dizer 'criar do nada'?
A palavra em si não contém a fórmula 'do nada' de forma explícita; ela significa 'criar, trazer à existência'. O argumento para a criação a partir do nada vem do padrão de uso do verbo — sempre com Deus como sujeito, nunca com um complemento de material de origem — somado a textos do Novo Testamento como .
Qual a diferença entre bará, asah e yatsar?
Asah ('fazer') é o verbo hebraico mais genérico, usado tanto para Deus quanto para seres humanos. Yatsar ('formar') evoca o trabalho de um oleiro moldando barro, como em . Bará, na forma qal, é reservado exclusivamente a ações de Deus.
Onde bará aparece fora de Gênesis?
Aparece com frequência em , onde Deus 'cria' os céus, a luz, as trevas e o próprio povo de Israel, além de surgir em ('cria em mim um coração puro') e em .
Bará tem um número de Strong próprio?
Sim, corresponde a H1254. Outros verbos hebraicos traduzidos por vezes como 'fazer' ou 'formar', como asah (H6213) e yatsar (H3335), têm números e campos semânticos diferentes.
Palavras próximas
Temas
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