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Significado Bíblico
Dicionário bíblicohebraicoavançada

Refains

O que significa rephaim (refains) na Bíblia?

A palavra no original

רְפָאִים

rephaim

Sombras/espíritos dos mortos no Sheol; também nome de um antigo povo de estatura gigantesca em Canaã e Basã.

Tudo isto ao mesmo tempo

  • povo antigo de estatura gigantesca (Canaã e Basã)
  • sombras/espíritos dos mortos no Sheol
  • os falecidos, os que jazem na morte
  • nome do Vale de Refains, perto de Jerusalém

Resposta curta

A palavra hebraica רְפָאִים (rephaim) aparece no Antigo Testamento em dois sentidos que intrigam comentaristas há séculos. No primeiro, ela nomeia um povo antigo de estatura excepcional que habitava Canaã e Basã antes da chegada dos israelitas — entre eles Ogue, rei de Basã, cuja cama de ferro tinha cerca de quatro metros (). No segundo sentido, a mesma grafia designa as sombras dos mortos que habitam o Sheol (; ).

Léxicos como BDB e HALOT discutem se as duas acepções vêm de uma raiz comum ou são homônimos que coincidem na escrita. Paralelos ugaríticos alimentam a hipótese de que os guerreiros lendários de outrora tornaram-se, na morte, os habitantes enfraquecidos do Sheol. A palavra também deu nome ao Vale de Refains, perto de Jerusalém.

Onde a palavra aparece

Como isso aponta para Jesus

Contraste

Os refains do Sheol, em e nos textos sapienciais, representam a condição humana sob o poder da morte: sombras sem força, incapazes de se levantar por si mesmas. Essa imagem de impotência diante da sepultura é exatamente o que o Novo Testamento anuncia como derrotado na ressurreição de Cristo. Onde os refains apenas se agitam, sem esperança de retorno, Paulo declara que a morte foi tragada pela vitória e que o próprio aguilhão da morte foi removido (); Apocalipse acrescenta que é Cristo quem agora detém as chaves da morte e do Hades (). A trajetória vai da fraqueza dos refains à força da ressurreição — não porque o termo hebraico profetize Cristo diretamente, mas porque o quadro que ele descreve, a impotência humana diante da morte, é justamente o problema que o evangelho apresenta Cristo como solução.

Respaldo no Novo Testamento: ;

Em palavras simples

Refains é uma palavra hebraica com dois usos na Bíblia. Às vezes ela indica um povo muito alto que vivia em Canaã antes dos israelitas chegarem, como o rei Ogue, de Basã. Em outros textos, a mesma palavra descreve os mortos, as sombras que ficam no Sheol, o lugar dos que já morreram. Ninguém sabe com certeza se as duas ideias vêm da mesma raiz hebraica ou se é apenas uma coincidência de escrita. De qualquer forma, a palavra sugere que até os mais fortes um dia enfraquecem diante da morte.

De onde vem a palavra

O termo רְפָאִים (rephaim) percorre boa parte do Antigo Testamento com duas trajetórias distintas. Como nome de povo, aparece já em , quando Quedorlaomer derrota os refains em Asterote-Carnaim, e em , na lista de nações cuja terra seria dada à descendência de Abraão. Deuteronômio explica que os refains eram conhecidos por outros nomes conforme o povo que os observava: os moabitas os chamavam emins, e os amonitas, zanzumins (:20-21) — todos descritos como "grandes, numerosos e altos como os anaquins". O último remanescente dessa população teria sido Ogue, rei de Basã, cuja cama ou sarcófago de ferro é citado como prova de seu tamanho (). Depois da conquista, a memória desse povo ficou registrada no nome do Vale de Refains, um planalto fértil a sudoeste de Jerusalém (; 18:16; ; 23:13; ). Em e , guerreiros filisteus de Gate — parentes de Golias — são chamados "filhos de Rafa", o que muitos comentaristas ligam à mesma linhagem ou tradição dos refains.

Na segunda trajetória, a palavra aparece em textos poéticos e sapienciais para designar os mortos, sem relação alguma com estatura física. fala dos "refains" que tremem sob as águas; pergunta se os refains se levantarão para louvar a Deus; :18 e 21:16 advertem que certos caminhos levam à companhia dos refains, isto é, à morte. O uso mais dramático está em , onde os refains do Sheol se agitam para receber o rei da Babilônia caído, e em e 26:19, que contrastam os refains sem vida futura com a esperança de ressurreição prometida a Israel. Essa distribuição — um bloco histórico-narrativo e outro poético — é o que sustenta a discussão sobre a origem da palavra.

Aprofundamento

A grande questão filológica em torno de רְפָאִים (rephaim) é se as duas acepções — "gigantes" e "sombras dos mortos" — compartilham uma única raiz ou são homônimos que apenas coincidem na grafia consonantal. O léxico BDB (Brown, Driver, Briggs) trata os dois usos em entradas separadas, refletindo essa incerteza, e o HALOT (Koehler-Baumgartner) também considera a hipótese de duas raízes distintas convergindo na mesma forma. Uma proposta relaciona o sentido de "sombras dos mortos" a uma raiz que expressaria a ideia de "afrouxar-se, ficar sem forças, afundar" — os mortos como aqueles que perderam o vigor —, distinta da raiz רפא (rapha), "curar". Já o nome do povo pode derivar de um radical relacionado à ideia de grandeza ou vigor físico, ou simplesmente ser um nome étnico antigo sem etimologia transparente dentro do próprio hebraico.

Um dado que alimenta a discussão é o paralelo com textos de Ugarite (Ras Shamra), do segundo milênio a.C., que mencionam os rpum — figuras associadas a reis mortos, ancestrais divinizados ou heróis do passado, ligados a rituais fúnebres. Estudiosos do Antigo Oriente Próximo observam que essa tradição ugarítica pode explicar por que uma mesma palavra hebraica serviu tanto para "guerreiros gigantescos de outrora" quanto para "os que habitam o mundo dos mortos": os poderosos de antigamente, lembrados como figura quase lendária, seriam os mesmos que agora jazem impotentes no Sheol. Essa leitura é sustentada, entre outros, por comentaristas que discutem o pano de fundo cananeu de , mas continua sendo hipótese comparativa, não um consenso fechado.

Curiosamente, a Septuaginta (tradução grega do Antigo Testamento, de cerca do século III a.C.) traduz רְפָאִים por gigantes (γίγαντες) tanto nas passagens históricas quanto, por vezes, nas poéticas sobre os mortos — um indício de que tradutores judeus antigos já liam as duas ocorrências como a mesma palavra, e não como coincidência acidental. Comentaristas mais tradicionais, como Keil & Delitzsch, discutem a identificação dos refains com outros povos de grande estatura (anaquins, emins, zanzumins) sem necessariamente resolver a questão etimológica da acepção "sombras". Vine's Expository Dictionary registra ambos os usos como sentidos historicamente atestados da mesma forma hebraica, sem apresentar prova definitiva de parentesco entre eles. Para o leitor de hoje, o essencial é reconhecer que o contexto — narrativa de conquista ou poesia sobre a morte — decide qual sentido está em jogo, e que ambos são usos genuinamente bíblicos, não invenção de tradutores modernos.

O que costumam dizer errado2 afirmações
  • Dizem que:Refains e nefilim são a mesma coisa na Bíblia.

    São palavras hebraicas diferentes — נְפִלִים (nephilim), em e , e רְפָאִים (rephaim), usada em Deuteronômio, Josué e nos textos poéticos. A Bíblia nunca as trata como sinônimas; a associação entre elas é uma inferência popular, não uma equivalência textual.

  • Dizem que:A palavra rephaim sempre se refere a espíritos malignos ou demônios.

    Nos textos poéticos e sapienciais, ela designa de forma neutra os mortos que habitam o Sheol, sem qualificação moral; e no contexto histórico designa simplesmente um povo humano de estatura elevada, sem qualquer conotação demoníaca.

Como diferentes tradições cristãs leem4 leituras

Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.

  • Evangélica conservadora / leitura histórico-literal

    Os refains foram um povo humano real, de estatura incomum, que habitou Canaã e Basã antes da conquista israelita; o uso poético do mesmo termo para os mortos é tratado como um sentido derivado ou análogo, sem implicações sobrenaturais além da mortalidade comum a todos.

  • Corrente evangélica ligada à teologia do 'mundo sobrenatural'

    Vê nos refains descendentes ou remanescentes ligados à narrativa dos nefilim de , associando o povo gigante de Canaã e os 'espíritos' do Sheol a uma mesma linhagem de seres híbridos combatidos por Deus ao longo da história de Israel.

  • Católica e ortodoxa tradicional

    Lê as referências aos refains do Sheol dentro da doutrina mais ampla sobre o estado dos mortos antes de Cristo (o Hades, ou o 'seio de Abraão'), sem necessariamente vincular esse uso poético ao povo histórico de gigantes mencionado nos livros de conquista.

  • Reformada / crítico-textual confessional

    Segue lexicógrafos como Keil & Delitzsch ao tratar as duas acepções com cautela filológica, reconhecendo a possibilidade de homônimos distintos que apenas coincidem na grafia, sem forçar uma harmonização teológica entre 'gigantes' e 'mortos'.

O que fazer com isso

Reconhecer os dois usos de refains ajuda a ler o Antigo Testamento com mais precisão: em textos de conquista, a palavra fala de um povo humano real, não de seres sobrenaturais; em textos poéticos sobre a morte, fala da fragilidade de todo ser humano diante do Sheol, sem qualificação demoníaca. Essa distinção evita confundir refains com outras figuras bíblicas, como os nefilim, e ajuda a perceber como a Escritura usa a mesma imagem — força que se esvai — para falar tanto de gigantes quanto de mortos comuns.

Passagens relacionadas18

Toque numa referência para ler o texto sem sair da página.

Fontes consultadas4 obras
  • Francis Brown, S. R. Driver e Charles A. Briggs. A Hebrew and English Lexicon of the Old Testament (BDB), 1906.
  • Ludwig Koehler e Walter Baumgartner. The Hebrew and Aramaic Lexicon of the Old Testament (HALOT), 1994.
  • Carl Friedrich Keil e Franz Delitzsch. Commentary on the Old Testament: Deuteronomy, 1869.
  • W. E. Vine, Merrill F. Unger e William White Jr.. Vine's Complete Expository Dictionary of Old and New Testament Words, 1985.

Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.

Perguntas frequentes

Refains e nefilim são a mesma coisa?

Não. São palavras hebraicas diferentes, usadas em textos distintos. Rephaim aparece em Deuteronômio, Josué e nos livros poéticos; nephilim aparece só em e . A Bíblia não afirma que sejam a mesma coisa.

Por que a Bíblia chama os mortos de refains?

Em textos poéticos como e , refains descreve as sombras dos que já morreram, habitantes do Sheol. O sentido exato da palavra nesses casos ainda é discutido pelos lexicógrafos, mas o uso é claramente sobre os falecidos, sem relação necessária com o povo gigante de Canaã.

Ogue, rei de Basã, era um refain?

Sim. o descreve como o último sobrevivente dos refains, um povo de grande estatura, citando sua cama de ferro de quase quatro metros como prova de seu tamanho incomum.

Onde fica o Vale de Refains?

É um planalto a sudoeste de Jerusalém, mencionado em e . Recebeu esse nome provavelmente por ter sido território habitado pelo antigo povo dos refains antes da conquista israelita.

Palavras próximas

Temas

  • No hebraico
  • #refains
  • #rephaim
  • #gigantes-da-biblia
  • #sheol
  • #antigo-testamento
  • #vale-de-refains

Publicado em 05/09/2026

Construído sobre fontes em domínio público, listadas acima. Como produzimos. Encontrou um erro? Escreva para a redação.

O que foi conferido

  • רְפָאִים (rephaim) em hebraico
  • 4 obras citadas, com autor e ano
  • 2 afirmações populares checadas e refutadas
  • 4 tradições cristãs apresentadas lado a lado
  • Editor responsável: Julio Andolfo
  • Revisão teológica por pessoa nomeada — ainda não feita. Enquanto não for, dizemos isso aqui em vez de assinar um nome.

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