Ra' (Mal, Maldade)
O que significa ra' (mal) na Bíblia?
A palavra no original
רַע
ra' (ra‘) · Strong H7451
Ruim, mau, nocivo: o que se opõe ao bom, seja uma qualidade, uma ação ou uma calamidade.
Tudo isto ao mesmo tempo
- mal moral e perversidade
- calamidade e desgraça
- o que é ruim em qualidade
- dano e prejuízo
- oposto de tov (bom) e de shalom (paz)
Resposta curta
Ra' (רַע) é o termo hebraico mais amplo para o que é mau, ruim ou nocivo na Bíblia hebraica. Pode descrever o mal moral, como na árvore do conhecimento "do bem e do mal" (), mas também a calamidade que sobrevém a alguém, como a desgraça que diz atingir uma cidade. A mesma palavra cobre, portanto, tanto o que o ser humano faz quanto o que ele sofre, e só o contexto indica qual dos dois sentidos está em jogo. Essa amplitude explica a controvérsia em torno de , em que o Senhor diz criar ra': traduzir por "mal" ou por "desgraça" muda a leitura do versículo. A palavra aparece ainda no Salmo 23:4 ("não temerei mal algum") e em ("afasta-te do mal"), com nuances próprias em cada caso.
Onde a palavra aparece
Como isso aponta para Jesus
Ligação indiretaA Bíblia hebraica não usa ra' como título nem como promessa messiânica. A ligação com Cristo é indireta e se dá pelo tema: o mal, em suas duas faces (o pecado que se pratica e a ruína que se sofre), é aquilo de que a Escritura espera libertação. No Novo Testamento, a petição do Pai-Nosso "livra-nos do mal" () usa o grego poneros, que pode ser lido como "o mal" ou "o Maligno", e a ressurreição é apresentada como vitória sobre a morte, a pior das calamidades. Não se trata de continuidade lexical, e sim de continuidade de esperança.
Respaldo no Novo Testamento:
Em palavras simples
Ra' é a palavra hebraica que a Bíblia usa para "mal", mas com um sentido bem largo. Ela pode falar de uma ação má, como no pecado do ser humano, e também de algo ruim que acontece, como uma desgraça ou um desastre. Por isso a mesma palavra aparece na árvore do conhecimento do bem e do mal, no Salmo 23 ("não temerei mal algum") e em , onde Deus diz criar ra'. O versículo assusta muita gente, mas o contexto fala de calamidade na história, em contraste com a paz, e não de Deus praticando o pecado.
De onde vem a palavra
Quem lê a Bíblia em português encontra a palavra "mal" em passagens muito diferentes e raramente suspeita que, por trás de várias delas, esteja um único termo hebraico. Ra' é um adjetivo e substantivo de uso comum, que descreve qualquer coisa que se opõe ao bom (tov): comida estragada, um animal doente, um rosto triste, um dia ruim, uma ação perversa. O texto bíblico não separa com nitidez o "mal que se faz" do "mal que acontece", e a língua hebraica tampouco oferece duas palavras distintas para isso.
Na narrativa de Gênesis, ra' entra em cena logo no começo, no par "bem e mal" que dá nome à árvore do conhecimento (). Em , o texto diz que a inclinação do coração humano era "só má" continuamente, e aqui o sentido é claramente moral. Em , porém, Moisés põe diante do povo "a vida e o bem, a morte e o mal", e o mal se aproxima de ruína e consequência. Nos livros proféticos, o Senhor "traz" ra' sobre uma cidade ou nação (; ), e o contexto indica castigo, não pecado divino.
Os salmos e a literatura sapiencial usam a palavra no dia a dia da fé. O salmista que atravessa o "vale da sombra da morte" declara que não temerá mal algum (Salmo 23:4), pensando no perigo que ronda, não em culpa moral. O sábio que aconselha "não sejas sábio aos teus próprios olhos; teme ao Senhor e afasta-te do mal" () fala da conduta. As duas frases usam a mesma palavra e apontam em direções diferentes.
Esse pano de fundo é indispensável para entender por que se tornou um dos versículos mais discutidos do Antigo Testamento. Dentro do oráculo dirigido a Ciro, o Senhor se apresenta como quem forma a luz e cria as trevas, faz a paz e cria ra'. A pergunta de fundo é se o texto atribui a Deus a autoria do pecado ou a soberania sobre a história, inclusive sobre as calamidades que ela contém.
Aprofundamento
O termo רַע (ra', Strong H7451) deriva da raiz que dá também o verbo ra'a', "ser mau, ser ruim", e o substantivo feminino ra'ah, "maldade, desgraça". Os léxicos de referência, como o Brown-Driver-Briggs (BDB) e o Koehler-Baumgartner (HALOT), organizam os usos de ra' em grupos: o que é desagradável ou ruim em qualidade, o que é moralmente mau e o que é prejudicial ou calamitoso. Essa organização é uma classificação dos lexicógrafos, e não uma divisão que o texto hebraico faça por conta própria. Em muitos versículos, mais de um grupo cabe ao mesmo tempo.
Convém distinguir ra' de outras palavras hebraicas ligadas ao pecado. Chet (חֵטְא) fala de errar o alvo; 'avon (עָוֺן) fala de torção e culpa; pesha' (פֶּשַׁע) fala de rebelião. Ra' é mais genérico: nomeia a qualidade ruim, e não uma categoria específica de ofensa. Por isso o mesmo vocábulo descreve o "olho mau" do avarento () e as "más notícias" (Salmo 112:7). Existe ainda um verbo homógrafo, ra'ah, "pastorear" (de onde vem o "pastor" do Salmo 23:1), que não tem relação de sentido com ra'.
A passagem decisiva é . O hebraico traz o paralelismo "formo a luz e crio as trevas; faço o shalom e crio ra'". O contraste da frase não é entre bem e mal moral, mas entre shalom (paz, bem-estar) e ra' (desgraça, infortúnio). Muitas traduções modernas em português e inglês optam por "calamidade" ou "desgraça" justamente por esse paralelo, enquanto a Almeida Revista e Atualizada mantém "mal". O verbo "criar" (bara') também merece atenção: ele é usado em para a ação soberana de Deus sobre a história e o cosmos, e a frase afirma o senhorio divino contra qualquer divindade rival, em especial contra o dualismo da religião persa que Ciro e seu povo conheciam. Essa última ligação com o dualismo persa é hipótese defendida por parte dos comentaristas, e não consenso.
caminha na mesma direção: "sucederá algum mal (ra'ah) à cidade sem que o Senhor o tenha feito?". O contexto trata de juízo sobre Israel, e o "mal" é a derrota militar. Outros textos mostram o Senhor "arrependendo-se" da ra'ah que havia anunciado (; ), o que só faz sentido se o termo significa calamidade e não pecado, pois Deus não se arrepende de ter praticado pecado. Quando, ao contrário, o texto fala da ra' do coração humano (; 8:21), o sentido é moral.
A tradição litúrgica judaica percebeu a dificuldade: na bênção matinal que se baseia em , a fórmula tradicional substitui "crio ra'" por "crio tudo", suavizando a expressão. Isso mostra que os leitores antigos já sentiam o peso do versículo, embora não indique qual leitura seria a original.
O que costumam dizer errado2 afirmações
Dizem que:Isaías 45:7 prova que Deus é o autor do pecado.
O paralelismo do versículo opõe shalom (paz, bem-estar) a ra' (desgraça), e não bem moral a mal moral. O contexto é o senhorio de Deus sobre a história, inclusive sobre calamidades enviadas como juízo. Outros textos hebraicos distinguem com clareza a ra' que Deus traz da ra' que o ser humano pratica (; ).
Dizem que:Ra' sempre significa mal moral, pecado ou perversidade.
A palavra é muito mais ampla: descreve também comida ruim, aparência triste, notícia má e desgraça. Em Deus desiste da ra'ah que anunciara contra Nínive, o que só faz sentido se o termo designa calamidade e não pecado divino.
Como diferentes tradições cristãs leem4 leituras
Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.
Católica (Tomás de Aquino)
Distingue o mal de culpa (malum culpae), que é o pecado e do qual Deus não é causa, do mal de pena (malum poenae), que é o castigo ou a calamidade e que Deus pode enviar como justiça. e falam do segundo tipo.
Reformada (João Calvino)
Afirma a providência de Deus sobre todos os eventos, inclusive os infortúnios, mas nega que ele seja autor do pecado, atribuindo a culpa moral à vontade humana. Lê como proclamação de soberania, não como confissão de autoria do mal moral.
Judaica rabínica
Entende o versículo como afirmação do monoteísmo estrito, contra o dualismo de duas potências, e por isso a liturgia matinal reformula a frase para "cria tudo", evitando falar de Deus criando o mal de modo direto.
Arminiana / wesleyana
Também lê ra' como calamidade nesses textos, mas insiste que o mal moral decorre de escolhas livres das criaturas, e que Deus o permite sem querê-lo, preservando a responsabilidade humana.
O que fazer com isso
Perceber que ra' cobre tanto o pecado quanto a calamidade ajuda a ler o sofrimento sem pressa em acusar. Nem toda desgraça bíblica é castigo, e nem todo mal é simples infortúnio: o texto exige que se pergunte o que está sendo dito em cada passagem. Diante de , a leitura cuidadosa evita tanto a ideia de um Deus autor do pecado quanto a de um mundo fora de seu alcance, e deixa espaço para a honestidade sobre o que a Escritura não explica.
Passagens relacionadas7
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Fontes consultadas5 obras
- Brown, F.; Driver, S.; Briggs, C.. A Hebrew and English Lexicon of the Old Testament (BDB), 1907.
- Koehler, L.; Baumgartner, W.. The Hebrew and Aramaic Lexicon of the Old Testament (HALOT), 1994.
- Strong, J.. Strong's Exhaustive Concordance of the Bible, 1890.
- Calvino, J.. Institutas da Religião Cristã, 1559.
- Tomás de Aquino. Suma Teológica (I, q. 48).
Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.
Perguntas frequentes
Deus cria o mal, como diz Isaías 45:7?
O hebraico diz que Deus cria ra', palavra que pode significar desgraça ou calamidade, em contraste com shalom (paz). A maior parte dos comentaristas entende que o versículo afirma a soberania de Deus sobre a história, e não que ele pratique o pecado. Há traduções que vertem por "mal" e outras por "desgraça", e a escolha influencia a leitura.
Ra' é a mesma palavra de pecado?
Não. Para pecado, o hebraico tem termos específicos como chet, 'avon e pesha'. Ra' é mais geral e descreve o que é mau ou ruim, podendo incluir o pecado, mas também o sofrimento e o infortúnio.
Qual o sentido de ra' no Salmo 23:4?
O salmista diz que não temerá mal algum no vale da sombra da morte. O contexto fala de perigo e ameaça, e não de pecado: o que sustenta a confiança é a presença do pastor.
Por que a Bíblia usa a mesma palavra para o mal que se faz e o que se sofre?
Porque o hebraico tinha uma palavra geral para o que é ruim, sem a distinção que o português faz entre culpa e desgraça. Quem traduz precisa escolher, em cada caso, o termo que o contexto pede.
Palavras próximas
Temas
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