Philia (Amizade, Afeição)
O que significa philia, o amor de amigo, na Bíblia?
A palavra no original
φιλία
philia · Strong G5373
Amizade, afeição entre amigos, do mesmo radical de philos (amigo) e phileō (amar).
Tudo isto ao mesmo tempo
- amizade e afeição
- confiança e confidência
- amor fraternal
- lealdade e aliança
- oposição entre amizade de Deus e do mundo
Resposta curta
Philia (φιλία) é a palavra grega para amizade, afeição entre amigos. No Novo Testamento ela aparece uma única vez, em , na frase "a amizade do mundo é inimizade contra Deus". Mesmo assim, a família de palavras é rica: philos (amigo), phileō (amar com afeição) e philadelphia (amor fraternal). Jesus chama os discípulos de "amigos" em , e Abraão é chamado "amigo de Deus" em . O diálogo de , com agapaō e phileō, gerou um longo debate sobre se há diferença real entre os verbos. A "tabela dos quatro amores" de C. S. Lewis é um esquema posterior, que não aparece assim na Bíblia.
Onde a palavra aparece
Como isso aponta para Jesus
Ligação indiretaEm , Jesus define a amizade pelo dar a vida e pela confidência, e age assim: chama os discípulos de amigos, revela-lhes o que ouviu do Pai e oferece sua vida. Não há aqui tipologia nem cumprimento de um termo do Antigo Testamento, e sim uma indicação de que a amizade que Jesus oferece se mede pela entrega da cruz, tema retomado em .
Respaldo no Novo Testamento: ;
Em palavras simples
Philia é a palavra grega para amizade. No Novo Testamento ela aparece só uma vez, em , mas palavras da mesma família, como philos (amigo) e phileō (amar), são comuns. Jesus chama os discípulos de amigos em . Em , Jesus e Pedro usam dois verbos diferentes para amar, e muita gente acha que há uma diferença forte entre eles, mas muitos estudiosos acreditam que são quase sinônimos. A "tabela dos quatro amores" é de C. S. Lewis, não da Bíblia.
De onde vem a palavra
No mundo grego, philia era um tema central da filosofia moral. Aristóteles dedica dois livros da Ética a Nicômaco (VIII e IX) à amizade e distingue três tipos: a baseada na utilidade, a baseada no prazer e a baseada na virtude, que seria a amizade perfeita. A palavra podia abarcar não só a amizade entre indivíduos, mas também o vínculo entre familiares, concidadãos e aliados. A palavra parte da raiz de philos, "querido, amigo", e do verbo phileō, "amar, ter afeição, beijar".
O Novo Testamento usa o substantivo philia apenas em , mas o vocabulário relacionado é abundante. Philos (amigo) aparece em passagens como , em que Jesus é chamado "amigo de publicanos e pecadores", em ("Lázaro, nosso amigo, dorme") e em , o amigo do noivo. Phileō ocorre em (o Pai ama o Filho), em (o Pai ama os discípulos) e em (amar pai ou mãe mais que a Jesus). Philadelphia, "amor fraternal", é uma palavra característica do vocabulário cristão primitivo: pede que os crentes se amem com philadelphia (amor fraternal) e philostorgoi (afeição familiar), e diz: "Permaneça o amor fraternal". O verbete dedicado a philadelphia trata do termo composto.
A amizade tem posição singular no Evangelho de João. Em , Jesus diz que ninguém tem maior amor que o de dar a vida pelos seus amigos e acrescenta que já não chama os discípulos de servos (douloi), mas de amigos, porque lhes deu a conhecer tudo o que ouviu do Pai. A amizade ali é definida por confiança e revelação, e não por igualdade: o amigo é quem recebe a confidência e vive a obediência. No Antigo Testamento, o título "amigo de Deus" é aplicado a Abraão (; ), e o retoma. Em , Deus fala com Moisés "face a face, como um homem fala com o seu amigo". faz o movimento oposto: quem escolhe a amizade com o mundo, isto é, com o sistema que se opõe a Deus, rompe a amizade com ele.
Aprofundamento
A passagem mais disputada é . Jesus pergunta a Pedro por três vezes se o ama. Nas duas primeiras, usa agapaō ("amas-me?") e Pedro responde com phileō ("sabes que te tenho afeição"); na terceira, Jesus passa a perguntar com phileō. Muitos pregadores e comentaristas, entre eles autores do século XIX como R. C. Trench, leram aí uma distinção: agapē seria o amor mais elevado, e phileō, o amor humano de amizade, menor, de modo que Jesus rebaixaria seu pedido na terceira pergunta. É uma explicação popular, mas hoje boa parte dos estudiosos a considera frágil.
Os argumentos contra a distinção são de ordem textual. João usa os dois verbos de forma intercambiável em outros lugares: o Pai "ama" o Filho com agapaō em e com phileō em ; Lázaro é amado por Jesus com agapaō (11:5) e com phileō (11:3, 36); o discípulo amado é chamado ora de um jeito, ora de outro (13:23; 20:2). Além disso, o próprio Evangelho alterna outros pares de sinônimos na mesma cena, como "cordeiros" e "ovelhas", "apascentar" e "pastorear", e também dois verbos para "saber" (oida e ginōskō) na mesma resposta. D. A. Carson, Raymond Brown e Leon Morris, entre outros, consideram que João variou o vocabulário por estilo. Também se observa que Jesus provavelmente falou com Pedro em aramaico, língua em que a distinção entre os dois verbos gregos não existiria da mesma forma. A questão permanece debatida, e há quem veja nuances de intensidade, mas o texto não exige uma hierarquia entre os verbos.
No único uso do substantivo, , philia é palavra de lealdade: o contexto fala de "adúlteros", imagem profética da aliança quebrada, e kosmos ali não é a criação, e sim o sistema de valores que disputa a fidelidade a Deus. A amizade com o mundo e a inimizade (echthra) com Deus são postas como lealdades que se excluem.
Outro ponto é o esquema dos "quatro amores", associado ao livro de C. S. Lewis, Os Quatro Amores (1960): storgē (afeição), philia (amizade), erōs (amor romântico) e agapē (caridade). Lewis se apoia em termos gregos, mas o esquema é uma síntese dele, e não uma tabela do Novo Testamento. Erōs não ocorre no Novo Testamento, storgē aparece apenas em compostos negativos e positivos (astorgos, ; philostorgos, ), e agapē e phileō se sobrepõem em vários textos. Como ferramenta de reflexão, o esquema é útil; como léxico bíblico, deve ser tomado com cautela.
O que costumam dizer errado2 afirmações
Dizem que:Em João 21:15-17, agapē é amor divino e phileō é amor humano inferior, e Jesus desce de nível na terceira pergunta.
João usa os dois verbos de modo intercambiável em outros contextos (3:35 e 5:20; 11:3 e 11:5), e alterna sinônimos na própria cena. A distinção é uma explicação possível, mas não é exigida pelo texto e é questionada por muitos estudiosos.
Dizem que:A Bíblia ensina quatro tipos de amor: storgē, philia, erōs e agapē.
O esquema vem de C. S. Lewis (1960) e de categorias gregas clássicas. Erōs não aparece no Novo Testamento, e storgē só em compostos. A Bíblia fala de amor com vocabulário mais variado e sem essa tabela.
Como diferentes tradições cristãs leem4 leituras
Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.
Leitura distintiva (tradição de comentaristas como Trench)
Vê em uma gradação entre agapaō e phileō, com Pedro, humilhado pela negação, usando o verbo mais modesto. A passagem seria uma restauração por etapas.
Leitura sinonímica (Carson, Brown, Morris)
Entende que João varia os verbos por estilo, como faz com outros pares de palavras, e que o foco de é a restauração de Pedro e o chamado a pastorear, não uma escala de amores.
Monástica medieval (Aelred de Rievaulx)
Na Amizade Espiritual, Aelred desenvolve a ideia de que a amizade humana pode refletir a amizade com Deus, a partir de e . É uma reflexão teológica sobre a amizade, não uma exegese filológica de philia.
Literária anglicana (C. S. Lewis)
Apresenta a philia como um dos amores naturais, valorizado e transformável pela caridade (agapē). O esquema é pastoral e filosófico, e não uma classificação extraída do vocabulário do Novo Testamento.
O que fazer com isso
Os textos sobre philia mostram que a amizade tem lugar na vida de fé: Jesus a pratica, define-a pela confiança e pela entrega, e a Bíblia a aplica até à relação entre Deus e pessoas como Abraão e Moisés. Ao mesmo tempo, lembra que as lealdades importam. Vale perguntar de quem somos amigos, e por quê, sem transformar a amizade em instrumento nem em disputa de palavras gregas.
Passagens relacionadas7
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Fontes consultadas6 obras
- Aristóteles. Ética a Nicômaco (livros VIII e IX).
- Lewis, C. S.. The Four Loves, 1960.
- Trench, R. C.. Synonyms of the New Testament, 1854.
- Carson, D. A.. The Gospel According to John, 1991.
- Brown, R. E.. The Gospel According to John (XIII-XXI), 1970.
- Konstan, D.. Friendship in the Classical World, 1997.
Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.
Perguntas frequentes
Philia aparece na Bíblia?
O substantivo philia aparece uma única vez no Novo Testamento, em , na expressão "amizade do mundo". Mas a mesma família de palavras, como philos (amigo) e phileō (amar), é frequente nos Evangelhos e nas cartas.
Em João 21, agapaō e phileō têm sentidos diferentes?
É debatido. Alguns veem gradação entre amor mais elevado e amor de amizade; muitos estudiosos entendem que João usa os verbos como sinônimos, porque em outros textos ele os alterna para a mesma relação.
Jesus chamou os discípulos de amigos?
Sim. Em , ele diz que já não os chama de servos, mas de amigos, porque lhes deu a conhecer tudo o que ouviu do Pai. A amizade é definida pela confiança e pela entrega da vida.
Os quatro amores de C. S. Lewis estão na Bíblia?
Não como esquema. Lewis usa palavras gregas (storgē, philia, erōs, agapē), mas organiza-as numa síntese própria. O Novo Testamento não traz erōs e usa storgē só em compostos.
Palavras próximas
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